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Virtude e Felicidade

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✍️ Desconhecido 📅 13/07/2025 👁️ 0 Leituras

felicidade

A busca da felicidade e o domínio das virtudes são caminhos entrelaçados, porém distintos na jornada do aperfeiçoamento humano.

A busca da felicidade é um impulso natural do ser humano. Desde tempos antigos, filósofos como Aristóteles entendiam a felicidade (eudaimonia) como o fim último da vida. Para muitos, ser feliz é alcançar bem-estar, contentamento, realização pessoal e paz interior. No entanto, essa busca muitas vezes é marcada por desejos, expectativas externas e, por vezes, por uma concepção hedonista de prazer e conforto. Quando guiada apenas por emoções e vontades, essa busca pode tornar-se ilusória e instável.

Já o domínio das virtudes é um processo disciplinado e deliberado. As Virtudes Cardeais (Temperança, Justiça, Fortaleza e Prudência) exigem esforço, autocontrole e reflexão. Não nascem prontas, mas são cultivadas com perseverança. Diferente da felicidade, que muitos esperam encontrar, as virtudes são forjadas no trabalho interior constante.

Contudo, há um ponto de convergência: a verdadeira felicidade só é possível através do domínio das virtudes. Aquele que domina a si mesmo, que age com rectidão, que é justo e sábio, encontra uma felicidade mais serena e duradoura – não como meta final, mas como consequência natural de uma vida virtuosa.

Assim, enquanto a felicidade pode ser um anseio, as virtudes são o caminho. A primeira é buscada; as segundas, construídas. Mas é no domínio das virtudes que a felicidade, silenciosa e profunda, se revela.

Na obra A Cidade de Deus, Santo Agostinho fala, no Livro IV, capítulo 21 “Pois certamente a virtude compreende todas as coisas que precisamos fazer, a felicidade todas as coisas que precisamos desejar”, traduzindo uma clareza filosófica e teológica notável.

Virtude: o que devemos fazer – Para Agostinho, a virtude é o exercício da vontade orientada para o bem. É uma acção conforme a ordem divina e moral. A virtude não é apenas uma disposição interior, mas uma prática contínua: é aquilo que as pessoas devem fazer, pois ordena as suas acções segundo a razão iluminada pela fé.

Agostinho, influenciado por Platão e pelos estóicos, vê as virtudes como um reflexo da alma que busca conformar-se com Deus. Assim, ser virtuoso é alinhar-se com a vontade divina, mesmo diante do sofrimento e das tentações do mundo.

Felicidade: o que devemos desejar – Por outro lado, a felicidade é aquilo que todo ser humano deseja, conscientemente ou não. Mas o que é digno de ser desejado? Para Agostinho, só há uma verdadeira felicidade: a união com Deus. Desejar correctamente significa desejar o Sumo Bem – e não bens passageiros.

Ou seja, a felicidade não está em obter tudo o que se quer, mas sim em querer aquilo que é digno de ser obtido, o que se realiza plenamente apenas em Deus. Desta forma, Agostinho estabelece um equilíbrio entre o agir com virtude (ética prática e cristã) e o desejar o bem verdadeiro (a beatitude em Deus).

Para ele, a felicidade não é um fim separado da virtude – é a recompensa natural e espiritual da vida virtuosa, pois só quem vive bem pode desejar correctamente e, por isso, alcançar a verdadeira alegria, que não é deste mundo, mas é antecipada nele pelo justo.

Logo em seguida, ainda no mesmo capítulo, ele acrescenta: “A virtude, de fato, é definida pelos antigos como a própria arte de viver bem e correctamente. Portanto, porque a virtude é chamada em grego ἁρετη (aretê), pensou-se que os latinos derivaram dela o termo arte”.

No grego antigo, aretê (ἀρετή) designa excelência, especialmente excelência moral. Para os filósofos gregos – sobretudo Sócrates, Platão e Aristóteles – aretê era aquilo que tornava alguém verdadeiramente humano, na sua plena realização. Ou seja, virtude era sinónimo de viver segundo a razão, a justiça e o bem.

Agostinho toma esta ideia clássica e a cristianiza. Ele aceita que a virtude é uma “arte” (ars vivendi), mas não qualquer arte: trata-se da arte de viver bem e correctamente, ou seja, viver segundo a vontade de Deus, guiado pela fé, esperança e caridade (daí, surgem as Virtudes Teologais).

Esta “arte” exige disciplina, sabedoria, autoconhecimento, e, acima de tudo, graça divina. Não é um dom inato, mas uma construção – uma obra de vida, como a lapidação da Pedra Bruta que se deseja tornar polida.

Ao mencionar que os latinos teriam derivado ars de aretê, Agostinho propõe uma reflexão mais simbólica que filológica. Ele vê no conceito de arte não só uma habilidade técnica, mas uma expressão da alma que busca o bem, a beleza e a verdade – e, nesse sentido, toda arte verdadeira é um acto virtuoso.

Na Maçonaria

Na linguagem maçónica, esta ideia tem eco profundo: a Maçonaria é uma Arte Real, onde se trabalha com ferramentas simbólicas para esculpir a alma. A busca do Maçom pela virtude é justamente o exercício da arte de viver bem, de maneira recta, justa e fraterna.

Assim como na definição agostiniana, a virtude é uma arte, e o Templo Interior, construído com esforço, sabedoria e amor, é a sua maior obra.

E finalmente, no Capítulo 23, Agostinho completa o conceito

“Pois ninguém duvida que seja fácil encontrar um homem que tenha medo de ser feito rei; mas não se encontra ninguém que não queira ser feliz”

Esta citação revela com clareza a distinção entre poder externo e real desejo interno, na medida em que o poder pode causar temor; a felicidade, jamais. Por outro lado, a felicidade é desejada por todos, sem excepção. Mesmo aquele que foge do poder ou do prestígio deseja ser feliz. A felicidade é um anseio inscrito na alma humana – é natural, inescapável, universal.

Contudo, Agostinho alerta implicitamente que, embora todos queiram ser felizes, nem todos sabem onde ou como encontrar a verdadeira felicidade. Muitos a procuram nos bens transitórios, no prazer, no orgulho ou no poder – e acabam frustrados.

Só a alma que ama e serve a Deus encontra a felicidade duradoura. Assim, a busca da felicidade precisa ser iluminada pela verdade e conduzida pela virtude.

No contexto simbólico – especialmente sob a óptica iniciática e maçónica – esta frase pode ser interpretada como um lembrete de que o autodomínio é preferível ao domínio sobre os outros. Muitos temem governar porque sabem que não dominam nem a si próprios. Mas todos, sem distinção, anseiam por uma vida plena, harmoniosa e feliz.

Contudo, o verdadeiro rei é o que reina sobre as suas paixões, os seus vícios e a sua ignorância. E este reinado interior só se conquista pela virtude – a mesma “arte de viver bem” que Agostinho definiu.

O domínio das virtudes não apenas guia as acções do indivíduo, mas purifica os seus desejos, fazendo com que aquilo que ele busca coincida com o que realmente o aperfeiçoa. Virtude e felicidade não são caminhos paralelos, mas partes inseparáveis da mesma estrada: a que conduz ao bem supremo e à plenitude do ser.

Giovanni Angius, M. I., 33º REAA – ARLS Orvalho do Hermon nº 21 – Grande Loja Maçónica do Estado do Espírito Santo – Brasil

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