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A tolerância como virtude forte

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✍️ Desconhecido 📅 06/10/2025 👁️ 0 Leituras

tolerância

A tolerância é o fundamento da ética civil democrática

A tolerância é, em princípio, um valor social ou mesmo pessoal antes de ser um valor político e pode referir-se, de forma geral, à capacidade de aceitação e até de apreciação do que nos é estranho, do que é diferente e, mesmo no campo ideológico, do que nos é adverso. A projecção política da tolerância ideológica é a liberdade; se reconheço a todos a liberdade de consciência, a liberdade de religião, a liberdade de pensamento, é porque pessoalmente estou disposto a conviver em tolerância com pessoas que vivem e interpretam a sua vida de acordo com referências religiosas, ideológicas e morais diferentes das minhas, sem que por isso tenha de renunciar à minha própria maneira de pensar. Estas reflexões, que à primeira vista podem parecer óbvias para muitos, ao reflectir um pouco mais, verão que não o são tanto, e que a realidade nos mostra constantemente que a tolerância é, por definição, um valor frágil e problemático, sempre “à beira do abismo”. Este final de século e de milénio viu o colapso de algumas grandes ideocracias políticas que baseavam o seu poder numa infalibilidade que não podia ser discutida, mas deu lugar a terríveis violências desencadeadas por paixões étnicas que se colocam sempre no dilema categórico: “Quem não está connosco está contra nós” E, juntamente com esse retorno ao ancestral, parece plausível hoje em dia o surgimento de novos dogmatismos fundamentalistas de carácter religioso que talvez ingenuamente pensávamos já superados, nos quais o religioso não se limita à esfera do foro interno, mas pretende conformar coercitivamente o foro externo: os costumes, as opções pessoais no âmbito da intimidade sexual, a cultura, a vida civil e política. Quando se trata de defender a liberdade, nunca podemos baixar a guarda. Temos de estar sempre alertas, tanto intelectual como politicamente.

Para defender o valor desta virtude, primeiro é preciso compreendê-la bem.

Não se pode confundi-la simplesmente com indulgência ou, pior ainda, com falta de convicções. A tolerância baseia-se na aceitação entusiástica do pluralismo humano e da autodeterminação do indivíduo, a tolerância não está em conflito com o amor apaixonado pelas ideias, com o debate e a confrontação ideológica; o respeito pelas pessoas não significa o respeito pelas ideias e crenças, se assim fosse, não haveria discussão, nem pensamento crítico entre nós.

As pessoas são chamadas a viver e conviver, as ideias, por outro lado, existem para serem criticadas, depuradas, renovadas e completadas constantemente, pelo que fazemos um mau favor à tolerância se a confundirmos com a simples bonomia de quem não gosta de discutir, com o panfilismo de querer agradar a todos e não irritar ninguém. Em alguns casos, precisamente o que a tolerância exige de nós é irritar certas pessoas, discutir apaixonadamente contra certas atitudes, valorizar o que é valioso e negar valor ao que não o tem, contrariando quem for preciso contrariar. A tolerância não significa, evidentemente, que todas as ideias valem o mesmo, que é indiferente o que uns ou outros possam pensar sobre qualquer coisa, o que significa é que as ideias devem ser contrastadas, debatidas, discutidas e, se se quiser, combatidas. Mas esse “combate” metafórico entre as ideias não significa um combate físico entre as pessoas, e que qualquer ideia, por mais irritante ou estúpida que me pareça, não é mais do que isso, uma ideia. E, salvo o Código Penal, no qual, evidentemente, o “pensamento não é crime”, todas as ideias devem ser ouvidas, mesmo que seja apenas para as contradizer. Isto, como é óbvio, requer uma certa cultura de debate que ainda não podemos dar como certa entre nós.

A tolerância não se opõe, portanto, ao amor pela verdade, mas pressupõe uma ideia mais complexa e provisória da verdade, mais modesta e crítica, mais parecida com a busca permanente do que com o conformismo complacente dos lugares-comuns. A premissa da tolerância é a base da vitalidade democrática e é um requisito das liberdades: responder à palavra com a palavra, permitir o dissenso razoado, evitar argumentos dogmáticos e o terrorismo intelectual, antecipação do outro.

A tolerância pressupõe, evidentemente, uma relativização de certos valores que alguns preferem que sejam absolutos. A desmitificação tira as grandes ideias do seu pedestal intocável.

As coisas que provocam intolerância são geralmente aquelas nas quais investimos muito emocionalmente e vitalmente, ou aquelas com as quais construímos a nossa própria identidade, daí que a reacção primária e espontânea seja a desconfiança ou a irritação perante os diferentes que, com a sua mera existência, parecem pôr-nos em causa; a dúvida dos outros faz-nos sentir em perigo o valor do nosso investimento e pode magoar-nos. A situação agrava-se quando o que é posto em dúvida não pode ser argumentado de forma conclusiva, mas trata-se de uma ideia que é pregada como necessária e, ao mesmo tempo, a sua aceitação é arbitrária ou subjectiva. É por isso que a tolerância deve ser necessariamente adquirida através da educação, da viagem, da abertura de espírito e da curiosidade pelo que é diferente de nós.

A tolerância não exclui, é claro, a própria convicção, mas a pressupõe. Quem não pensa por si mesmo não tem nada a tolerar. A tolerância se assemelha um pouco ao espírito esportivo que nos permite competir e, ao mesmo tempo, admirar o que é admirável em nossos adversários. daí me parecer monstruosa a identificação da tolerância com a banalidade da indiferença ou a fraqueza das convicções, como se a tolerância não fosse uma virtude forte e dos fortes, que também não exclui a resistência e o heroísmo diante dos inimigos da tolerância.

Javier Otaola

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

Fonte

  • Revista La Acacia

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