Simbolismo dos Números na Maçonaria – O número Onze
Diz o Ritual do Mestre que o número ONZE sempre foi considerado um número misterioso.
Realmente, o estudo deste número leva-nos a considerações várias de ordem filosófica com o auxílio das quais podemos penetrar nos misteriosos meandros que o número oferece. Estas considerações só poderão ser levadas a efeito com o auxílio do conhecimento da chamada “Árvore dos Números” (Sephirot), que exterioriza as DEZ expressões da Divindade Interna e serve de intérprete do mundo das formas ou da aparência visível com os Princípios Absolutos e essenciais do Ser.
É aí que iremos, procurar o, simbolismo deste número misterioso. Este simbolismo está nas várias combinações possíveis na constituição do número ONZE.
Inicialmente vamos verificar que ele é resultante da soma dos números Cinco e Seis.
Segundo o que já foi estudado, o número Cinco representa, simbolicamente, o homem. É a união dos Quatro elementos materiais animados pela Quinta essência, o sopro Divino que lhes dá a vida. Como se viu, é a Matéria inerte que se transforma, movimenta e trabalha sob o impulso da Energia. Estes Cinco elementos formadores do homem são, nos Templos Maçónicos, representados pela Estrela Flamígera, símbolo do Companheiro Maçom.
Na árvore do Sephirot, aprendemos que o número Cinco – GEBURAH – é o princípio da força e do rigor necessitados pela Sabedoria; é o princípio que sofre a Sabedoria, sempre bondosa e benfeitora, porque é forte. Ele representa o rigor, a severidade, a punição, o temor e o julgamento. Estes elementos levam o homem a governar com sabedoria e com autodomínio moderador e repressor dos instintos, usando da necessária discrição, todos os fenómenos da vida.
Por outro lado, o número Seis é o representante simbólico de Deus, reflectindo no homem, simbolizado no Triângulo do vértice voltado para baixo de que se compõe a Estrela de David, símbolo do Mestre Maçom.
No Sephirot, o Seis é TIPHERETH, o princípio que representa a Beleza que reside e emana do coração. Concepção luminosa do equilíbrio das formas, a Beleza é o intermediário entre o Criador e a criação. É o ideal que inspira o Amor como força atractiva que une os seres. O número Seis representa, ainda, o sentimento, o desejo, a aspiração e a vontade. Todas as coisas se constituem segundo este ideal.
O ideal está representado no entrelaçamento dos Triângulos do Hexagrama, traduzindo-se pelos anseios do homem em se igualar a Deus, de quem é ele o reflexo.
Soma destes dois números, o ONZE pode ser analisado como sendo o símbolo do Ideal humano sempre voltado para Deus na ânsia de pureza e perfeição! É a este Ideal que o Ritual se refere quando diz que o verdadeiro iniciado deve concentrar sobre si as energias espalhadas e difusas no ambiente. Estas energias são as que emanam do Absoluto e descem até aos homens e, ainda, as destes, quando imbuídos de bons propósitos, de bons sentimentos e de pureza. As duas Energias – Divina e humana – fundem-se imbuídos de bons propósitos, de bons sentimentos e de pureza. As duas Energias – Divina e humana – fundem-se e entrelaçam-se, como os dois Triângulos da Estrela de David e se espalham e difundem no ambiente, principalmente no Templo, onde o Iniciado deverá procurar haurir estes influxos regeneradores para o seu melhor, aperfeiçoamento, para purificar os sentimentos do seu coração e para elevar a sua mente até poder, com ela, alcançar as paragens infinitas onde habita o “inexprimível”.
O número ONZE deve ser, ainda, examinado segundo outras combinações formadas pelos vários Sephirot.
A reunião do Quatro e do Sete constitui uma destas combinações. O Quatro é o CHESED, na árvore dos números e representa a misericórdia e a graça do Espírito Santo; é a segunda concepção da Sabedoria, sempre bondosa e benfeitora, porque é forte. É o poder que dá e espelha a vida, recebendo a graça, a mercê, a grandeza e a magnificência. Ele representa os Quatro elementos materiais que possibilitam a formação do mundo material, que é a realização da manifestação da vontade Divina.
O número Sete é, como sabemos, o número perfeito que representa a acção da Trindade Superior sobre o Quaternário, simbolizando o homem com todas as suas possibilidades de evolução. O Septenário é que permite ao homem discernir entre o Bem e o Mal, entre o Justo e o Injusto.
No Sephirot, o sete é NETSTH, que representa o triunfo da Inteligência e da Justiça que asseguram a evolução da manifestação. É a vitória, o triunfo, a firmeza que permitem o discernimento e espantam as trevas, iluminando o Caos, coordenando as forças construtoras do mundo e assegurando o progresso da criação.
O número ONZE, analisado sob o aspecto da reunião do Quatro e do Sete, simboliza o dirigente perfeito actuando com poder inquebrantável sobre os elementos materiais para assegurar a construção perfeita e estruturar, no Plano Físico, a materialização da vontade Divina! A principal característica deste poder de comando é o estabelecimento da ordem, evitando a desarmonia, o que só se consegue com um perfeito discernimento, com um agudo tino e uma predisposição de mando com equilíbrio e com Justiça.
O número ONZE pode ser decomposto nos números Três e Oito. O primeiro – o Três – é, conforme a Instrução do nosso Ritual, o número da Luz. É o símbolo do terceiro elemento que dá a forma. Ele é considerado número perfeito porque resulta da soma da Unidade e da Dualidade, conduzindo ao equilíbrio os “contrários”. A Perfeição, no seu mais alto grau está simbolizada no Triângulo, com os seus três lados e os seus três ângulos. Nele, vê o Maçom, os pilares básicos para a perfeita compreensão da Maçonaria: Vontade, Sabedoria e Inteligência.
É BINAH, no Sephirot, a Inteligência activa e equilibrada pela Sabedoria; é a consciência individual. É o filho nascido do Pai e da Mãe. Este é a Ideia, concebida e gerada de modo a constituir a imagem original de todas as coisas.
O Oito é o número que simboliza o procedimento moral do homem que se encontra no limiar da cognição dos mistérios do Plano Espiritual. Ele favorece o raciocínio; coordena as ideias, modera as paixões.
No Sephirot, é HOD, a eternidade da vitória do Espírito sobre a Matéria, do activo sobre o passivo, da vida sobre a morte, do positivo sobre o negativo. Simboliza o encadeamento neste sentido, necessário entre as causas e os efeitos, dentro de um aspecto lógico e coordenado sob a égide da Lei e da Justiça.
O número ONZE, visto sob o aspecto da reunião do Três e do Oito, simboliza uma administração correcta não só das coisas materiais, mas também do estudo das coisas espirituais, ambas orientadas e dirigidas por uma clara e perfeita inteligência.
Podemos verificar, ainda, a combinação dos números Dois e Nove na estruturação do número ONZE.
O Dois, número dos “contrários”, terrível e fatídico conforme os ensinamentos do Ritual, mas que como vimos, pode ser analisado sob aspectos mais brandos onde vemos o seu simbolismo significando a trajectória do raio imanente da Divindade pelos caminhos da Involução e da Evolução, até encontrar de novo a mesma Divindade.
É o CHOCOMAH, do Sephirot e, como o segundo princípio manifesta a Sabedoria equilibrada pela iniciativa da Inteligência; é a Mãe e a Lei, o conhecimento do Ser. É, ainda, o pensamento criador directamente emanado do Pai, a palavra, o verbo, a Razão Suprema.
O Nove simboliza o acto realizado e a sua repercussão permanente. A experiência do passado e a semente do futuro. É a manifestação do esplendor da Divindade na conclusão da sua obra, construída pelo desejo, pelo pensamento, pela acção e realização sempre iluminados pela sua Divina luz.
No Sephirot, corresponde ao YESOD, o fundamento e a base de toda manifestação, crença e verdade. É a representação do Plano Material onde tem lugar a construção de todas as coisas. Nele, a Energia está no estado potencial e os projectos já existem para as futuras realizações. Simboliza a Prancheta da Loja.
O número ONZE, como resultado da soma de Dois e Nove, simboliza, então, a irradiação da Sabedoria que se acha em projecto sobre a prancheta. É o símbolo da previsão e actuação do Iniciado sobre as coisas que acontecerão no futuro e que sobre as quais ele pode influir.
Finalmente, temos a última combinação, ou seja, a soma do Um e do Dez.
A Unidade é o princípio da projecção da vontade Divina que se exterioriza sob a forma do raio que se projecta das alturas para o início da criação. É a acção do Todo Poderoso no trabalho da constante obra da criação.
O número UM corresponde, no Sephirot, a KETHER, à coroa. É o emblema da Unidade ou o Primeiro princípio originário da manifestação; é o Pai, o Pensador, manancial da vida, essência imanente e transcendente de tudo o que existe. Unidade e centro onde assenta o Princípio de todas as coisas que se encontram no estado potencial.
O número Dez é o número que indica o término da construção da obra. Nele, Deus assiste a realizarão de todo o deu trabalho e manifesta a Sua glória.
MALAKUT, no Sephirot, é o Reino da Trindade no Septenário perfeito. É a clausura do ciclo no cumprimento da Obra. É a pedra da perpétua transformação da matéria, fonte de todas as ilusões e de todas as imposturas.
O ONZE é, então, quando formado pelo Um e pelo Dez, a súmula de todos os fenómenos que se originam na década. O Um, Unidade sintetizada no todo, e este presta-se à execução de todas as maravilhas que podem ser perfeitas, pelo Absoluto!
No relato que faz a Bíblia sobre os sonhos de José, há um, descrito no Génesis, Capítulo XXXVII, versículo 9, que diz:
Gen. XXXVII, 9 – “Teve ainda outro sonho, e referiu-o aos seus irmãos, dizendo: Sonhei, também, que o Sol, a Lua e ONZE estrelas se inclinavam perante mim”.
O Sol e a Lua representavam o pai e a mãe de José e as ONZE estrelas eram os seus irmãos. No texto podemos ver como as coisas se estavam a preparar, segundo os mistérios da Cabala, para o coroamento final da série numérica, ou seja, a glorificação do número Doze. O Sol e a Lua símbolos da Energia, masculina e feminina da qual a matéria foi “gerada” em doze aspectos diferentes. Eram os filhos, mas destes, um destacar-se-ia dentre os demais e seria o seu chefe. As ONZE estrelas simbolizavam, desta forma, os irmãos de José, ou seja os vários e desordenados aspectos da matéria em organização que só se equilibrariam quando sobre eles uma força maior exercesse a sua acção!
O simbolismo deste estado de desarmonia dos elementos materiais, que só se harmonizariam sob o comando de um poder, é visto na constituição das Tribos organizadas entre os israelitas por Moisés, que as contou em número de doze, mas que delas separou uma – a dos Levitas – para cuidar do culto de Deus. Estes “levitas” eram os organizadores e orientadores dos componentes de todas as outras ONZE tribos!
O Senhor Jesus, na sua peregrinação sobre a Terra, escolheu doze auxiliares – os Apóstolos – para o seu ministério.
Os Evangelhos relatam-nos que nem sempre estes doze apóstolos se encontravam de acordo e, em várias passagens vemos dissensões que se instalavam entre eles.
Esta desarmonia explicava-se porque o número doze implica, sempre, na presença de um comandante sobre ONZE comandados. Ora, como o Senhor Jesus era o comandante geral, o equilíbrio não se estabelecia e, em razão disto havia sempre rusgas e desentendimentos entre os apóstolos.
No episódio da “Ceia do Senhor” Judas foi desmascarado nas suas intenções homicidas e, por isto, retirou-se, abandonando os doze apóstolos e reduzindo o seu número para ONZE, agora comandados pelo Senhor Jesus e restabelecendo a condição necessária ao número doze para se tornar pacífico e harmónico.
A Maçonaria, estudiosa que é da Numerologia, não poderia deixar de ter algum cerimonial, rito ou outra coisa qualquer que lembrasse e cultuasse, nos seus mistérios, o número ONZE.
A sua homenagem faz-se na organização administrativa dos chamados Graus Inefáveis, na Maçonaria Capitular, quando recomenda, como condição “sine qua non”, a necessidade da presença de, no mínimo, ONZE Irmãos para a constituição de um Soberano Supremo Conselho do Grau 33.
Terminam aqui as nossas considerações sobre o número ONZE que, apesar de ser um número misterioso, como nos diz o Ritual, pode ser entendido e compreendido nos seus mistérios, desde que se faça sobre ele um estudo consciencioso e inteligente, porque o mistério, na Maçonaria, não se destina aos Maçons, mas é, tão somente, um véu que cobre certos aspectos que deverão ser guardados para, através da tradição, serem preservados através dos séculos!
Boanerges B. Castro
