Depois da Curiosidade: O que nos Faz Permanecer na Maçonaria?
Nos primeiros anos há quase sempre combustível: ritual, simbolismo, graus, história, cargos, visitas, novas Ordens, novas amizades. Há muito por descobrir. Mas chega um momento em que a novidade desaparece e surge uma pergunta muito mais exigente: “E agora, o que é que isto acrescenta à minha vida e à pessoa que quero ser?”
E é precisamente aí que a retenção deixa de ser um problema administrativo e passa a ser um problema de sentido, coerência e autenticidade.
Quando o ideal encontra a realidade
Talvez a maior desilusão não venha de descobrirmos que existem conflitos, vaidades ou ambições. Afinal, a Maçonaria é constituída por homens, com todas as fragilidades humanas.
A verdadeira desilusão surge quando percebemos uma distância demasiado grande entre aquilo que proclamamos no Templo e aquilo que praticamos fora dele.
- Falamos de fraternidade, mas encontramos grupos fechados.
- Falamos de igualdade, mas percebemos hierarquias informais.
- Falamos de mérito, mas vemos repetidamente os mesmos nomes e os amigos dos amigos.
- Falamos de tolerância, mas por vezes castigamos quem pensa diferente.
- Falamos de construção interior, mas podemos transformar graus e cargos numa espécie de currículo maçónico.
- E falamos de amor fraternal enquanto alguns Irmãos se afastam silenciosamente sem que ninguém lhes telefone simplesmente para perguntar:
“Meu Irmão, estás bem?”
Esse é talvez um dos maiores sinais de alerta para qualquer organização maçónica.
Porque um homem raramente abandona a Maçonaria apenas porque deixou de gostar do ritual. Muitas vezes abandona porque deixou de se sentir pertencente àquilo que o ritual promete representar.
A retenção não se resolve recrutando mais
Existe uma tentação institucional muito perigosa: quando diminuem os membros, procurar imediatamente novos candidatos.
É necessário trazer novos homens, naturalmente.
Mas há uma pergunta anterior:
Porque estão a sair os que já cá estavam?
Podemos iniciar dez novos membros. Mas se cinco Irmãos experientes desaparecerem silenciosamente porque se sentiram ignorados, instrumentalizados, desiludidos ou simplesmente cansados das pequenas políticas internas, não resolvemos problema nenhum.
A verdadeira métrica de saúde de uma Loja talvez não seja quantos homens inicia.
Talvez seja quantos homens, dez, vinte ou trinta anos depois, ainda entram naquele Templo com vontade de estar ali.
Existe ainda outra fase, mais difícil
- Depois da curiosidade vem o conhecimento.
- Depois do conhecimento pode vir o serviço.
Mas depois do serviço deveria existir alguma coisa ainda mais profunda:
- Significado.
Um Maçon experiente já não precisa necessariamente de mais um grau, mais um avental, mais um título ou mais um cargo.
- Precisa de sentir que a sua presença importa.
- Precisa de continuar intelectualmente desafiado.
- Precisa de poder transmitir conhecimento.
- Precisa de encontrar conversas profundas.
- Precisa de amizade verdadeira.
- Precisa, sobretudo, de sentir que pertence a uma comunidade onde pode confiar nos homens que chama de Irmãos.
É aqui que muitas estruturas maçónicas talvez tenham de repensar a retenção.
Porque não basta oferecer progressão ritual. É necessário oferecer progressão humana.
E quando a Maçonaria começa a provocar desencanto?
Esta é provavelmente a questão mais delicada nesta reflexão.
Quando uma instituição à qual dedicámos anos, tempo, dinheiro, trabalho e emoções começa a provocar mais angústia do que felicidade, é natural interrogarmo-nos:
“Sou eu que mudei ou foi isto que deixou de fazer sentido?”
Talvez existam ainda outras perguntas:
- Estou aqui porque ainda acredito nisto ou apenas porque sempre estive?
- As pessoas que encontro ajudam-me a tornar-me melhor?
- Continuo a aprender alguma coisa?
- Tenho liberdade para pensar e discordar?
- Existe verdadeira fraternidade quando desaparecem os aventais?
E talvez a pergunta mais importante:
“Se hoje conhecesse a Maçonaria exatamente como a conheço depois de todos estes anos, voltaria a entrar?”
A resposta pode ser desconfortável.
Mas é uma pergunta poderosa.
Talvez a solução esteja novamente na Loja
Não acredito que a resposta esteja necessariamente em abandonar a Maçonaria.
Talvez esteja em regressar à sua unidade mais simples: a Loja.
- Menos estrutura.
- Menos política.
- Menos obsessão por cargos.
- Menos títulos.
- Menos corrida aos graus.
- Mais trabalho maçónico.
- Mais cultura.
- Mais pensamento.
- Mais debate.
- Mais refeições demoradas.
- Mais preocupação com os Irmãos idosos.
- Mais acompanhamento dos novos.
- Mais espaço para quem pensa diferente.
- Mais telefonemas sem qualquer agenda.
- Mais amizade.
Porque uma Grande Loja pode administrar a Maçonaria.
O Grão-Mestre pode dirigi-la.
Uma Grande Secretaria pode organizá-la.
Um ritual pode transmiti-la.
Mas apenas os homens conseguem transformá-la em fraternidade.
Talvez a verdadeira retenção seja muito simples
A Maçonaria não conseguirá reter os seus membros através de campanhas de recrutamento, novos graus, aplicações, estratégias de comunicação ou programas de membership.
Tudo isso pode ajudar.
Mas um homem permanece durante décadas quando consegue responder afirmativamente a três perguntas muito simples:
- Aprendo alguma coisa aqui?
- Sou importante para estes homens?
- Estes homens são verdadeiramente meus Irmãos?
Quando as três respostas são “sim”, dificilmente precisamos de falar de retenção.
Quando começam a ser “não”, podemos ter os Templos cheios e, ainda assim, estar perante uma organização vazia.
E talvez aqui resida o paradoxo mais importante:
A Maçonaria preocupa-se frequentemente em ensinar aos homens como construir o Templo interior.
Mas talvez tenha chegado o momento de perguntar se os próprios homens ainda encontram nesse Templo um lugar onde desejam permanecer.
Porque ninguém deveria permanecer numa fraternidade apenas por obrigação, hábito, títulos ou passado.
Deveria permanecer porque, depois de muitos anos e depois de desaparecida toda a novidade, ainda consegue olhar para os homens à sua volta e pensar:
“É por isto que continuo a chamar-vos meus Irmãos.”
Rui Calado, M. M.
Membro efectivo de:
