Reflexões sobre a Maçonaria contemporânea e alguns dos seus desafios (I)
Reflexões sobre a Maçonaria contemporânea e alguns dos seus desafios: mulher, o uso das redes sociais, laicidade e Landmarks – Parte I
Introdução
A sociedade contemporânea vem passando, desde a segunda metade do Século XX, por profundas e exponenciais transformações que têm provocando mudanças significativas nas relações sociais e culturas nas mais diversas partes do planeta. Estas transformações (fundamentadas no desenvolvimento das Tecnologias da Informação e Comunicação; da Logística Global e das forças político-económicas provenientes das Empresas Corporativas) têm gerado aculturações, hibridismos culturais e multiculturalismos proporcionados pelo uso dos sistemas de comunicação e forças mediáticas que aproximam e / ou afastam povos e induzem comportamentos.
A estes factos, soma-se a convergência das tecnologias digitais, biológicas e físicas que sinalizam fortemente a possibilidade, já quase real, da ocorrência de singularidades que marcarão a profunda conexão simbiótica entre homens e máquinas de várias formas e meios, selando o início definitivo de um novo ciclo de desenvolvimento humano, onde também a inteligência artificial confrontará em muito a inteligência humana no seu uso em diversas actividades da vida.
Frente a uma contemporaneidade que se apresenta como palco onde pessoas e instituições são profunda e constantemente confrontadas com desafios concretos nas suas relações, a Maçonaria também se posta neste cenário como mais um agente que enfrenta desafios que possuem as suas origens em gerações passadas, concomitantemente com desafios característicos desde século XXI que, directa ou indirectamente, influenciam significativamente as dinâmicas das relações sociais.
Dentro deste contexto algumas questões vinculadas com a Maçonaria na contemporaneidade emergem como norteadoras de estudos e reflexões sobre esta temática. Dentre elas, pode-se destacar: Como se configuram os desafios em relação ao papel da mulher na Maçonaria contemporânea? De que maneira a laicidade está relacionada com a actuação maçónica? De que forma os Landmarks se apresentam como um ponto de pauta no contexto maçónico da contemporaneidade? Como as redes sociais podem ser usadas de forma construtiva no ambiente maçónico?
Vale destacar que a realização de estudos que se debruçam sobre estas questões se ancoram na percepção da sociedade como campo de interacções e transformações. A sociedade transforma-se de tempos em tempos através de processos contínuos e abruptos de mudanças culturais e tecnológicas, gerando tensões entre gerações de pessoas e instituições. Estas tensões provocam ajustes na forma com que os indivíduos e as instituições lidam com determinados valores de tal monta que práticas consideradas inadmissíveis em determinada época podem ser consideradas normais noutra e vice e versa.
A Maçonaria, fundamentada em Landmarks, Estatutos, Constituições, bem como usos e costumes específicos da Ordem, está também sujeita ao mesmo fenómeno temporal e tem apresentado traços evidentes de plasticidade em alguns casos e rigidez em outros, no que diz respeito às características da sua manifestação como um fenómeno social.
Neste sentido, dilemas como Landmarks e contemporaneidade, a participação da mulher, o uso de Redes Sociais, bem como da laicidade vêm persistindo no tempo como tópicos presentes em alguns círculos de discussão e geradores de impasses nas relações entre pessoas e instituições.
Vale destacar também que, a partir da segunda metade do século XX, houve significativas mudanças nas relações entre empresas, instituições, grupos sociais e pessoas, na medida em que estes sujeitos começaram, através da internet e das novas tecnologias, aceder, processar e divulgar rapidamente um volume maior de informações.
A Maçonaria também não ficou a parte destas transformações, na medida em que várias instituições maçónicas vêm de forma crescente incorporando mudanças no modo de operar as suas informações através da criação de sites, blogs, e-mails corporativos, sistemas de informações gerenciais customizados, redes sociais, dentre outros.
Estudos que se esforçam em resgatar estas temáticas são considerados relevantes na busca de melhor entender como estes fenómenos se apresentam em uma Ordem místico- filosófica que historicamente tem sido denominada de secreta por uns e de discreta por outros.
Este trabalho busca entender, num olhar exploratório, como estão configurados os dilemas da mulher, das redes sociais, da laicidade e dos Landmarks na Maçonaria com a intenção de contribuir para estudos e práticas futuras voltadas para compreensão das transformações características da contemporaneidade. Desta forma, o objectivo geral deste trabalho reside em tecer considerações sobre os desafios da Maçonaria actual, direccionando os esforços mais especificamente em
- analisar a participação da mulher na Maçonaria como um desafio da contemporaneidade;
- analisar potencialidades do uso das redes sociais no contexto maçónico;
- analisar elementos vinculados à relação entre laicidade e Maçonaria; e
- apresentar reflexões sobre os Landmarks sob a perspectiva da Maçonaria contemporânea.
O presente estudo caracteriza-se como sendo de cunho exploratório, com procedimentos que incorporam técnicas de pesquisa bibliográfica numa abordagem de colecta e análise de dados predominantemente qualitativa. A predominância qualitativa do presente estudo não descarta a manipulação e avaliação de informações quantificáveis envolvendo a aplicação de um conjunto de práticas interpretativas.
A trajectória estabelecida para o resgate dos desafios elencados neste artigo foi delineada com o propósito de estabelecer foco na intencionalidade de provocar reflexões daqueles que se propõem a navegar entre as dinâmicas do fenómeno maçónico no contexto da actualidade. O caminho percorrido no actual trabalho não perpassa pelo aprofundamento das questões de definição e origem da Ordem, bem como, nas questões de funcionamento, estrutura e ritualística, pois a exploração destes temas excederia significativamente os limites desta peça e do escopo proposto. Sobre a perspectiva destas questões, os trabalhos de Zeldis (1995), Pinto (1999), Castellani (2005), Costa (1994) e Charlier (1995) apresentam-se como fontes iniciais para um mergulho exploratório.
Além desta parte introdutória, o presente trabalho está estruturado em seis sessões. A primeira referente a um breve resgate teórico relacionado com a Maçonaria vista como fenómeno social e objecto de estudo académico. As três subsequentes sessões apresentam reflexões sobre os desafios da mulher, das redes sociais, da laicidade e dos Landmarks frente a uma Maçonaria contemporânea. Por fim, nas últimas sessões, são apresentadas considerações finais e as fontes utilizadas no apoio das reflexões apresentadas neste ensaio exploratório.
A Maçonaria como objecto de estudo
Desde a sua existência, a Maçonaria tem sido tópico de estudo e produção de trabalhos por vários escritores pelos mais diversos motivos e propósitos. Neste sentido, vale destacar, algumas temáticas desenvolvidas nos trabalhos em Maçonaria como a divulgação de regulamentações das suas actividades operativas; a descrição dos processos de participação dos seus membros em eventos históricos; a apresentação de vínculos entre os seus preceitos morais com processos de formação místico-filosófica do homem; a descrição de práticas ritualísticas maçónicas; a descrição do seu desenvolvimento histórico como Ordem Iniciática; dentre outros.
É de se esperar que nem todos os trabalhos produzidos sobre Maçonaria utilizem métodos rigorosos de pesquisa. Um número bem significativo de estudos que são divulgados pelos mais variados meios fundamentam-se predominantemente no uso de compilações baseadas em impressões e opiniões pessoais, e quando muito, por processos de transcrição de informações primárias obtidas através das mais inúmeras fontes sem muito cuidado no que se refere à implementação, com mais rigor, de técnicas apuradas de obtenção e analise de dados.
Desta forma, muita coisa escrita em Maçonaria traduz opiniões pessoais que beiram a hipóteses não testadas tidas como verdades comprovadas, sendo apresentadas na prática como fenómenos genéricos (quando são na realidade singulares), ou como fenómenos reais (quando na realidade se caracterizam como mitos / lendas ou costumes inovadores). Esta situação tem gerado críticas entre escritores de Maçonaria, principalmente por aqueles que têm aplicado métodos sistemáticos de estudo da realidade e assumido posturas éticas nos trabalhos produzidos, na busca de separar factos, de mitos / lendas e de opiniões / suposições pessoais a exemplo de Ismail (2012. p. 7-10).
Em um esforço de destacar as diversas abordagens de produção de conhecimento em Maçonaria, Leadbeater (1978, p. 13-28) separa as linhas de pensamento maçónico em quatro vertentes, chamadas de Escolas de Pensamento Autêntica; Antropológica; Mística e Oculta. No que diz respeito a Escola Autêntica,
ela […] surgiu na segunda metade do século dezanove, em resposta ao desenvolvimento do conhecimento crítico noutros campos. As antigas tradições da Ordem foram minuciosamente examinadas à luz de registos autênticos ao alcance do historiador. Empreendeu-se enorme soma de pesquisas em actas de Lojas, documentos de todas as espécies versando sobre o passado e presente da Maçonaria, arquivos de municipalidades e vilarejos, sentenças legais e judiciais; enfim, foram consultados e classificados todos os registos acessíveis. […] Devido aos trabalhos dos eruditos da Escola Autêntica, aos estudantes da nossa Ordem tornou-se acessível uma vasta soma de material que lhes será de permanente utilidade. (LEADBEATER, 1978, p. 14-15).
Por mais que os trabalhos dos eruditos desta corrente de pensamento tenham tornado acessível uma importante e vasta soma de informações fidedignas, vale destacar a existência de limitações decorrentes do facto de existir muita coisa na Maçonaria que nunca foi escrita, e sim transmitida apenas oralmente, tornando relativo valor dos documentos e arquivos que são incorporados à cultura maçónica. Segundo o autor, a Escola Antropológica está vinculada aos estudos e descobertas na área da cultura humana, associando os costumes religiosos e iniciáticos de sociedades do passado e do presente, de vários países e continentes, com os rituais e simbologia maçónica. Dentro desta perspectiva, os argumentos apontam para o facto de que os sinais e rituais utilizados na Maçonaria são também encontrados em vários locais como Egipto, México, China, Índia e em diversos Templos e Catedrais da Europa Medieval.
A terceira corrente de pensamento, denominada de Escola Mística, vê predominantemente os mistérios da Ordem como um plano para o despertar espiritual e o desenvolvimento interior do homem. A espiritualização torna-se a via individual interna, na qual a Maçonaria oferece um roteiro que orienta a marcha mística consciente da união do buscador com o Divino. Sob esta perspectiva, o interesse está mais centrado na interpretação do que na pesquisa histórica. Desta forma, esta escola de pensamento tende a associar o parentesco da Maçonaria com os antigos Mistérios que buscam proporcionar ao homem uma Senda na qual possa se desenvolver espiritualmente. Os pensadores desta corrente tendem a declarar que os graus maçónicos representam simbolicamente os estados de consciência a serem despertados individualmente no iniciado.
Já a quarta e última corrente de pensamento maçónico, apresentada por Leadbeater, denominada de Escola Oculta ou Sacramental, postula sobre a eficácia do poder sacramental do cerimonial maçónico, quando realizado de forma devida e executado regularmente. Esta abordagem fundamenta-se na noção da existência de um lado subtil oculto da natureza, que pode ser mobilizado pelos poderes existentes em todos os homens, mas adormecido na maioria da humanidade. Por mais que o objectivo do ocultista, como o do místico, seja a união consciente com o Divino, o autor alerta que os seus métodos são diferentes. Enquanto o ocultista trilha nos seus trabalhos um caminho no qual é de grande importância a exacta observância da forma com o auxílio de invocações, o místico trilha um caminho através da oração, da prece e da acção consequente, não cuidando estritamente de formas, embora, pela sua união com elas, trilhe também caminhos na busca da harmonização divina.
Frente aos limites da Escola Autêntica (que não se resumem apenas na impossibilidade dos seus métodos captarem outros dados relevantes que não são possíveis de serem obtidos através de documentos escritos), abre-se um extenso horizonte de possibilidades de estudos sérios com o uso de técnicas de pesquisa qualitativa e quantitativa.
Actualmente, o pensamento científico tem avançado significativamente no que se refere à adopção e integração de métodos e desenhos de pesquisa que viabilizam leituras mais apuradas da realidade nos mais diversos campos do saber. Na medida em que a Maçonaria se torna objecto de estudo académico, ela incorpora a qualidade de ser passível do crivo nas mais diversas áreas do conhecimento, a exemplo das Ciências Humanas, Sociais, Sociais Aplicadas, Exactas, da Saúde,
Neste sentido, cada área com as suas abordagens metodológicas específicas, é passível de proporcionar respostas consistentes para diversas questões de pesquisa relacionadas com a Maçonaria vista como um fenómeno observável e capaz de ser delimitado, observado e analisado à luz da ciência.
Para além de uma postura que rechace qualquer autor de literatura maçónica, podemos assumir que, ao falar de pesquisa científica em Maçonaria, estamos falando de adopção de método sistemático para produção de conhecimento científico. Neste sentido, existem ainda nítidos desafios e oportunidades para pesquisadores que se interessam em mergulhar nesta trilha de desenvolvimento do saber.
Na medida em que o estabelecimento de agendas de pesquisa maçónica faz-se necessário para o enriquecimento da produção literária nacional, o entendimento de que os pesquisadores podem assumir alguns paradigmas diferenciados para estudar o mesmo fenómeno torna-se imprescindível para a boa produção, o bom diálogo e a redução das improdutivas “intolerâncias académicas” entre autores de paradigmas diferentes, provocadas muitas das vezes por falta de uma compreensão mais apurada das possíveis rotas epistemológicas de estudo que um mesmo objecto comporta.
Para se perceber o quanto é amplo este espectro de possibilidades de pesquisa maçónica, pode-se apontar algumas alternativas baseadas no pressuposto de que “Ao compreendermos a Maçonaria como um fenómeno social somos capazes de analisá-la sob a esfera dos estudos organizacionais”. Sobre este prisma, a título de exemplo, além da possibilidade de pesquisas científicas em Maçonaria fundamentadas no conceito de metáforas, similares àquelas sugeridas por Morgan (1996) [1], elas podem também assumir abordagens diferenciadas conforme os paradigmas sociológicos propostos por Burrell (1999) em função da natureza dos instrumentos / técnicas de colecta e análise dos dados (subjectivos / objectivos) e da natureza do processo sociológico estudado (regulação / mudança), conforme ilustrado na Figura 2:
Levando em consideração as possibilidades de pesquisa em Maçonaria que se abrem ao considerá-la um fenómeno social capaz de ser abordado pelo método científico, pode-se estabelecer pautas de pesquisa maçónica as quais os pesquisadores nacionais contemporâneos possam compor uma frente de produção de conhecimentos capazes de elucidar vários pontos obscurecidos e de subsidiar o fortalecimento das Ordens maçónicas. Estas pautas podem ser estruturadas em três vertentes de estudos caracterizados por pesquisas direccionadas às 1) “Questões de Origem”, 2) “Questões de Evolução” e 3) “Questões de Natureza, Finalidade e Sentido”, conforme apresentado na Tabela 1.
Tabela 1: Sugestão de agenda de pesquisa maçónica
Questões de pesquisa |
Aspectos |
| Origem da Maçonaria | Marcos de surgimento. |
| Evolução da Maçonaria | Maçonaria até o Século XVII;
Maçonaria nos Séculos XVIII e XIX; Maçonaria no Século XX e Maçonaria Contemporânea (Século XXI). |
| Natureza, finalidade e sentido da Maçonaria | correntes de pensamento maçónico; filosofia, misticismo e simbologia maçónica;
ritualística e liturgia maçónica; relacionamento social maçónico; processos administrativos, económicos e políticos das Ordens maçónicas; processos de formação maçónica. |
Fonte: Próprio Autor
Os estudos relacionados às “Questões de Origem da Maçonaria” estariam concentrados nos esforços de identificação de demarcações temporais que apresentam características que apontam a criação de tradições, instituições, costumes e grupos sociais relacionados à Maçonaria. Neste sentido, as pesquisas histórico-arqueológicas focadas no continente Latino-Americano e no Brasil estariam entre as opções mais amigáveis aos pesquisadores nacionais.
Já os estudos relacionados com as “Questões de Evolução da Maçonaria” estariam concentrados em identificar e descrever processos de mudanças e permanências entre as mais variadas características dos fenómenos maçónicos. Neste sentido, o estabelecimento de faixas temporais para análise das transformações ocorridas nas diversas variáveis vinculadas com o fenómeno da Maçonaria no Brasil e nos continentes, torna-se um traço marcante nos desenhos metodológicos das pesquisas nesta área. As quatro faixas temporais que se apresentam como prováveis marcadores de horizontes podem ser definidas como aquelas
- até o Século XVII;
- dos Séculos XVIII e XIX;
- do Século XX e
- do Século XXI (Maçonaria Contemporânea).
Por fim, os estudos relacionados às “Questões de Natureza, Finalidade e Sentido da Maçonaria” estariam concentrados em temáticas vinculadas com
- as correntes de pensamento maçónico;
- os elementos de filosofia, misticismo e simbologia maçónica;
- os elementos de ritualística e liturgia maçónica;
- as dinâmicas de relacionamento social maçónico nas esferas interna e externa das Ordens;
- os elementos relacionados aos processos administrativos, económicos e políticos das Ordens maçónicas;
- os processos de formação maçónica.
Neste contexto, vale destacar que à adopção da rotina de estudo sistemático também por todos os membros das Ordens, desde o estágio inicial de Aprendiz, torna-se uma prática necessária de tal forma que possa ser percebida como traço marcante da cultura de formação do obreiro e gerador de uma produção constante de conhecimento maçónico consistente e de qualidade.
A Maçonaria contemporânea e alguns dos seus desafios: mulher na Maçonaria e uso das redes sociais
Longe de ser um facto novo, a questão da participação da mulher na Maçonaria esteve presente desde o início da sua trajectória de formação e desenvolvimento. A natureza desta participação apresenta-se de forma diversa, conforme o tipo de relação que se estabelece entre a mulher e as dinâmicas da Ordem.
Neste sentido, pode-se apontar formas de relações que vão desde uma participação superficial (como simples esposa, ou filha, de um Maçom), passando por actuações mais activas (integrando entidades para-maçónicas) e até assumindo papéis de vanguarda no processo histórico de desenvolvimento da Maçonaria (a exemplo da criação de Lojas / Potências femininas e mistas).
Todas estas formas de participação não se restringem apenas à esfera de discussão conceitual e dogmática. Elas são factos dados e como tais devem ser analisados. Sobre este aspecto, a despeito das diferenças naturais existentes entre os seres, a mulher e o homem possuem características que os tornam, similares por uns aspectos, complementares e singulares por outros.
Evidencias demonstram que, para além do simples papel de esposa de Maçom, ou integrante de entidades para-maçónicas, existem registos esporádicos de mulheres que participaram em trabalhos dentro de lojas maçónicas conforme destaca Mellor (1989, p. 100.).
Alguns nomes de mulheres são encontrados nos documentos da Fase operativa, como o de uma certa Margaret Wild, nos idos de 1663. Em 1696, o Mason’s Court Book cita duas viúvas. Em 1713-1714, as fontes referem a uma tal Mary Banister, filha de um barbeiro de Barking, aprendiz registada por um tempo de serviço de sete anos, recebendo a corporação 5 shillings desse chefe.
Além deste argumento, Millor (1989, p. 99-100.) aponta duas outras afirmativas contestadoras sobre a justificativa do impedimento da participação da mulher nos trabalhos regulares de uma loja maçónica conforme os Landmarks da Ordem. O primeiro diz respeito ao facto de que “nenhuma exclusão das mulheres estava escrita nos Old Charges, ou Antigas Obrigações, (documentos originais da Maçonaria) e o segundo está relacionado ao facto de que na Maçonaria especulativa a admissão da mulher não seria comprometida por uma suposta necessidade de força física exigida pela Maçonaria operativa.
Na sua obra, o resgate feito por Mellor contextualiza este tema crítico, identificando- o como um grande problema a ser enfrentado pela actual Franco-Maçonaria. Neste resgate, são trazidos à tona os elementos envolvidos nos processos de consolidação do movimento feminista e as características da participação da mulher na Maçonaria desde antes do século XVIII até o século XX, detalhando inclusive o processo de formação da Maçonaria feminina (através da fundação da Grande Loja “O Direito Humano”), da evolução da Maçonaria mista e da própria fundação da Grande Loja Feminina da França. Fundamentado neste contexto, foram destacados pelo referido autor quatro possíveis cenários frente a questão da mulher na Maçonaria contemporânea, conforme Tabela 2.
Tabela 2: Cenários frente aos desafios relacionados com a participação da mulher na maçonaria contemporânea
Cenário |
Característica |
| Exclusão | A exclusão incondicional das mulheres tem a seu favor toda a tradição maçónica, bem como argumentos psicológicos similares ao contexto de organizações do tipo Rotary e Lion’s Clube Internacional |
| Assimilação | A assimilação integral, ou seja, a fórmula do Direito Humano, seria sem dúvida alguma a solução mais lógica e mais conforme à evolução social, se a Maçonaria fosse apenas um grupo entre muitos outros. |
| Separação | Uma terceira solução é a do Apartheid dos sexos. Liberdade às mulheres para praticarem um Ritual masculino, mas estritamente entre elas. Nada de “mixidade”. Nem mesmo a admissão de homens na qualidade de visitantes. |
| Adaptação | Desde que a Franco-Maçonaria representa um enorme enriquecimento espiritual, não é justo afastar as mulheres do seu convívio, apenas porque não sejam aptas ou iniciáveis. |
Fonte: Extraído de Mellor (1989, p. 151-154)
No meu entender, como já me referi, não deve haver a separação das mulheres dos homens na Maçonaria, embora respeite a liberdade de cada ser humano na sua escolha. A Maçonaria mista é a mais próxima à Maçonaria Universal, pois, sendo formada por homens e mulheres, que trabalham em conjunto, pelo que a considero assim, mais justa, mais perfeita e mais equilibrada. Os homens e as mulheres têm características diferentes, é certo, mas que se completam e se complementam ainda melhor se caminharem, lado a lado, pensando, e, construindo novos rumos. (PRIRES, 2015. p. 123.).
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As mulheres maçonas são mulheres como as outras, sem qualquer elitismo. São mulheres inseridas na sociedade, vindas de toda a origem cultural, sem idade determinada, solteiras, casadas, mães, estudantes, profissionalmente activas ou reformadas, mas que possuem em comum um olhar mais consciente sobre elas mesmas e sobre o mundo, além de uma vontade de participar na organização social ou política da Cidade ou Estado. (…) Temos a plena consciência que o Homem é o outro polo da humanidade, sabemos quão enriquecedor é trabalhar em Templo com Irmãos de outras Obediências, mas o Homem e a Mulher são seres distintos e como tal, sentem pensam e vivenciam de forma diversa o que lhes é dado a experimentar, na especificidade da riqueza de cada um dos seus géneros (Ruan, 2015. p. 123-124).
As perspectivas apresentadas acima denotam o quanto o assunto demarca um importante campo de debate e construção das relações maçónicas nos dias de hoje. Neste sentido, Ismaill (2012. p. 70-73) colabora apontando que as diferentes justificativas para a restrição das mulheres na Maçonaria se aglutinam em dimensões de cunho histórico, social, ocultista, sexual, legal e moral, sendo necessário que estas dimensões sejam observadas no enfrentamento honesto dos dilemas e paradoxos característicos da Maçonaria contemporânea.
Vale ressaltar que, da mesma forma que a Maçonaria operativa não era a mesma da Maçonaria moderna, tão pouco a mesma da Maçonaria contemporânea, a Maçonaria da segunda metade do século XXI terá na aceitação da participação da mulher nos trabalhos de Loja em coexistência reconhecida de Lojas Masculinas, Femininas e Mistas um ponto de pauta no campo das prováveis mudanças a serem debatidas.
Já a temática do uso das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) no ambiente maçónico vem ganhando cada vez mais espaço privilegiado no estabelecimento das pautas de discussões e deliberações administrativas dos Organismos Maçónicos.
Os dilemas inerentes a uma instituição centenária, como a Maçonaria, frente aos desafios relacionados com o uso das TICs, remetem os dirigentes e obreiros a ela vinculados à uma revisão em vários dos seus valores e atitudes relacionados com a maneira com que lidam com as informações. Tendo em vista a natureza que caracteriza a Maçonaria, vale resgatar o apontamento trazido pelos professores Júnior e Rocha (2019). Conforme eles nos alertam,
A Maçonaria ou as Maçonarias, como toda e qualquer outra instituição, entidade ou empresa, independentemente dos seus interesses privados ou da sua concepção ou forma de actuação, possui um cabedal de saberes e valores outros, cultura, filosofia, simbolismo, doutrinas e políticas, que, podendo serem definidas formal ou praticadas informalmente, precisa ser preservada em garantia e segurança da própria instituição e dos seus membros efectivos ou associados. (JÚNIOR E ROCHA, 2019, p. 42)
Neste sentido, torna-se crítico o entendimento de que as Ordens maçónicas devam acompanhar as mudanças da contemporaneidade, incorporando os avanços tecnológicos na gestão da informação, tendo o cuidado de preservarem os traços que às caracterizam como instituições que possuem elementos próprios e singulares que as definem. Sobre este aspecto, vale resgatar as sugestões apresentadas por Lobo (2015) usando apenas o Instagram como objecto de análise. Ao apontar os potenciais uso do Instagram no ambiente empresarial (e inclusive não empresarial) o autor destaca que:
[…] O Instagram é uma óptima plataforma para quem quer aumentar o engajamento e criar uma personalidade para a sua marca por meio da interacção com os fãs; Por ser um aplicativo de dispositivos móveis a sua taxa de conversão tende a ser maior; O Instagram tem 15 vezes mais engajamento do que o Facebook, mesmo sendo menor, e a plataforma de fotos ainda está crescendo; Qualquer tipo de negócio pode usar o Instagram, e empresas com produtos físicos podem aproveitar ainda mais a plataforma; Há 5 formas básicas de aplicar uma boa estratégia de engajamento no Instagram: Usar fotos dos seguidores; Mostrar os bastidores; Organizar competições e sorteios envolvendo fotos; Imitar os seus fãs; Promover uma imagem. (LOBO, 2015)
Desta forma, apenas para exemplificar, são elencados na Tabela 3 possíveis abordagens de uso das ferramentas Instagram, Facebook, WhatsApp, e-mail, YouTube viáveis à Maçonaria contemporânea. Estas propostas foram elaboradas incorporando o pressuposto de Organizações Maçónicas que as Organizações devam estabelecer planeamento prévio de uso e códigos de conduta relacionados com a utilização das redes sociais pelos seus membros.
Tabela 3: Propostas de uso do Instagram, Facebook, WhatsApp, E-mail, YouTube por Organizações Maçónicas
Ferramenta |
Proposta |
Objectivo |
| 1- Abertura de perfil provisório (ou permanente) de projectos sociais da Organização Maçónica.
|
1- Divulgar a realização em tempo real de acções sociais (filantrópicas e / ou educativas) promovidas pela Organização Maçónica para maçons e membros da sociedade | |
| 1- Abertura de perfil institucional no Facebook da Organização Maçónica.
|
1- Congregar uma comunidade de amigos e interessados sobre maçonaria onde pode-se divulgar programações, eventos, mensagens, e estabelecer um ambiente de diálogo directo entre vários públicos para além dos maçons vinculados a organização | |
| 1- Criação de Grupo Específico do Quadro Administrativo da Organização Maçónica.
2- Criação de Grupo dos Obreiros (Maçons) Regulares da Organização Maçónica. 3- Criação de Grupo dos Amigos da Organização Maçónica. |
1- Estabelecer um Fórum aberto entre os dirigentes da Organização Maçónica (Loja, Potência, etc.) para debates, discussões e deliberações de temas específicos na área administrativa.
2- Estabelecer um Fórum aberto entre os Maçons regulares Integrantes da Organização Maçónica (Exemplo Loja Maçónica) para divulgação de mensagens, avisos, diálogos e debates relacionados a temas relevantes da Maçonaria. 3- Estabelecer um Fórum aberto entre os Maçons, familiares e amigos relacionados com a Organização Maçónica (Exemplo Loja Maçónica) para divulgação de mensagens, avisos, diálogos e debates de temas considerados relevantes para o grupo. |
|
| 1-Abertura de e-mails Institucionais das áreas que integram a estrutura da Organização Maçónica (Secretaria; tesouraria; Presidência; Vice-Presidência; etc.). | 1- Estabelecer canal de comunicação com o público interno e externo para formalização de demandas institucionais entre estes públicos e a organização maçónica. | |
| YouTube | 1- Abertura de um Canal Oficial da Organização Maçónica. | 1- Depositar vídeos relacionados com as temáticas Maçónicas para o público maçónico e público em geral. Os vídeos podem ser institucionais, não institucionais, Cursos, Palestras, bem como mensagens relacionadas com temas específicos. |
Fonte: Próprio autor
O uso das TICs, e em especial das Redes Sociais pela comunidade maçónica, se mostra como um fenómeno irreversível e que remete aos actuais gestores das Ordens maçónicas, tanto a uma releitura dos seus valores, quanto ao tratamento que deve ser dado à gestão da informação nos ambientes maçónico e não maçónico vinculados aos trabalhos das Ordens.
Neste sentido, o uso adequado das novas tecnologias pode ser considerado benéfico, devendo, entretanto, haver cautela na categorização dos tipos, níveis de acesso e de divulgação de informações, bem como, no estabelecimento de adequados códigos de conduta vinculados ao relacionamento dos obreiros da Ordem com às diversas tecnologias existentes, sendo estes considerados temas relevantes de estudo.
Alexandre Gomes Galindo
(Continua – Ligação para a Parte II)
Fonte
Notas
[1] Organização maçónica vista como Máquina; Organização maçónica vista como Organismo Vivo; Organização maçónica vista como Cérebro; Organização maçónica vista como Sistema Cultural; Organização maçónica vista como Sistema Político; Organização maçónica vista como Prisão Psíquica; Organização maçónica vista como Processos, Fluxos e Transformações e Organização maçónica vista como Instrumentos de Dominação.
