Freemason

Os Papas e os jesuítas contra a Maçonaria

✍️ Desconhecido 📅 14/05/2021 👁️ 5 Leituras

jesuítas

Tal como demonstrámos, a Maçonaria Moderna, instituição militante de filosofia social, foi fundada em 1717, tendo a primeira Constituição da Grande Loja de Inglaterra sido publicada em 1723. Nos dez anos seguintes conquistou toda a Europa e propagou os seus princípios de altruísmo e de tolerância religiosa e política, admitindo nas suas Lojas todos os que, sob os seus estatutos, queriam trabalhar para a libertação e para o progresso da Humanidade.

A base da Maçonaria era, e é ainda, a libertação do espírito, o afastamento de todos os dogmas que não possam ser provados nem discutidos e a prática de princípios demonstrados pela ciência, em substituição das crenças que não têm bases. Estas ideias são diametralmente opostas às normas da Igreja Católica que, julgando-se a única na posse da verdade, impõe o seu dogmatismo, exigindo uma obediência cega, e não admite tolerância em matéria religiosa.

“Crer ou morrer”, eis o seu lema, que era gritado através das chamas da Inquisição. Quando o Papa romano, então Clemente XII, ao fim de vinte anos de propaganda maçónica, se apercebeu que a Igreja Católica tinha a recear um inimigo perigoso, que se impunha denunciar e fulminar, principiou a luta e os Papas que lhe sucederam prosseguiram essa luta contra tudo e contra todos, pelo que se pode estudar quase no dia a dia a história da vida maçónica pelas suas bulas excomungatórias.

A 24 de Abril de 1738, o Papa Clemente XII publicou a Constituição Apostólica “In eminenti” e, pela primeira vez, a sociedade dos franco-maçons, que contava já 21 anos, foi rudemente atacada. Eis alguns fragmentos desta Encíclica, em que o espírito retrógrado da Igreja Católica e o espírito progressivo da Maçonaria são claramente definidos.

“Os rumores públicos fizeram chegar até nós a extensão, o contágio e os progressos cada vez mais rápidos de certas sociedades, assembleias ou conventículos denominados de “Liberi Muratores” ou de “Franco-Maçons”, ou outro nome, de acordo com a variedade das línguas. Nestas sociedades, homens de todas as religiões e seitas, sob uma aparência de natural honestidade, entre si ligados por um pacto tão rigoroso como impenetrável, seguem leis e estatutos para seu uso, e comprometem-se por um juramento terrível, feito sobre a Bíblia, e sujeito a medonhos castigos, a guardar por um silêncio inviolável as práticas secretas da sua sociedade.
.
Portanto, considerando os grandes males que são normalmente o resultado deste tipo de sociedades ou conventículos, não apenas para a tranquilidade dos Estados como para a salvação das almas, considerando como estas sociedades estão em desacordo com as leis canónicas, resolvemos condenar estas ditas sociedades ou reuniões de franco-maçons: em consequência, e em virtude da santa obediência, ordenamos a todos e a cada um dos fiéis de Jesus Cristo que nenhum deles, seja sob que pretexto for, tenha a audácia de entrar nas sobreditas sociedades, de as favorecer, de as propagar, de as receber ou esconder em sua casa, de nelas tomar algum grau e de assistir às suas reuniões.
.
E mais ordenamos que todos os bispos e prelados e os inquisidores procedam contra os transgressores, qualquer que seja o seu estado, condição ou dignidade, os reprimam e, se necessário, os punam com castigos merecidos, visto que eles são gravemente suspeitos de heresia”.

O sucessor deste Papa, Bento XIV, treze anos mais tarde, em 18 de Maio de 1751, voltou à carga contra a Maçonaria, criticando-a pela sua tolerância em matéria religiosa e pelo seu segredo. Eis as suas palavras na Constituição Apostólica “Providas”:

“Entre os poderosos motivos da proibição e condenação da Franco-Maçonaria enunciados pelo meu predecessor devem-se destacar que, nas sociedades e conventículos deste tipo, homens de todas as religiões e seitas se associam entre eles e pode-se facilmente compreender quão grave alteração pode aí receber a pureza da Religião Católica. O outro motivo refere-se ao pacto estreito e impenetrável do segredo, pelo qual se esconde tudo o que se faz neste tipo de conventículos”.

No entanto, a civilização avançava, ajudada pela Maçonaria, que não fez o menor caso das excomunhões pontifícias e contribuiu largamente para a Revolução Francesa1. As ideias de liberdade agitaram os povos e os reis absolutos, aterrados, que apesar disso não estavam dispostos a entrar pelo menos no caminho das monarquias constitucionais.

No entanto, e por esta razão, lado a lado com a Maçonaria filosófica e burguesa, um outro tipo de Maçonaria, a “Florestal”, conhecida mais vulgarmente por Carbonarismo, surgiu à luz do dia.

Borges Grainha faz-se aqui um pouco eco dos historiadores que queriam a todo o custo ver na Maçonaria um dos promotores da Revolução de 1789-ora, quando muito, a Maçonaria francesa limitou-se a oferecer o ambiente acolhedor e tolerante das suas Lojas aos conspiradores. E não foram poucos os marrons que depois morreram na guilhotina… (A. C. C.).

O Vaticano foi obrigado a reconhecer que as suas fulminações não tinham petrificado a sua inimiga e que, bem pelo contrário, a obra de libertação desta avançava a passo de gigante.

Mas o Papa, que era já Pio VII, não cede. A 13 de Setembro de 1821 (setenta anos depois da bula de um dos seus antecessores) publica a Constituição Apostólica “Ecelesiam aJesu Christo” na qual condena os Carbonari com estas palavras:

“Deve-se lembrar aqui uma sociedade formada recentemente que fez grandes progressos na Itália e em outros países e que, embora partilhada em diversos ramos, e sob diferentes nomes de acordo com a sua diversidade, é, no entanto, pela comunidade dos sentimentos e dos crimes e pelo pacto que os liga, verdadeiramente uma, a sociedade daqueles que se chamam normalmente Carbonari. Os preceitos de moralidade estabelecidos pela sociedade dos Carbonari não são menos terríveis, embora ela se vanglorie de exigir dos seus sectários o amor e a prática da caridade e de todas as outras virtudes… Ela ensina que é permitido matar aqueles que violarem o juramento de guardar segredo; e embora Pedro, o príncipe dos Apóstolos, ordenasse aos cristãos que se submetessem, por amor de Deus, ao rei como chefe de Estado e aos governadores como delegados do rei, embora Paulo ordene a submissão aos superiores, esta sociedade, pelo contrário, ensina que é honroso excitar a sedição para despojar do seu poder os reis e aqueles que governam e ela ousa chamar a todos tiranos, indistintamente…”.

A Maçonaria avançava sempre. Fazia a sua entrada nas Universidades e nas cátedras dos Liceus e de outros Institutos.

Os Papas não desencorajaram e Leão XIII, a 13 de Março de 1825, publicou a Encíclica “Quo Graviora” onde diz:

“Entre as sociedades secretas deve-se mencionar particularmente a que se chama Universitária porque tem a sua sede e o seu estabelecimento em várias Universidades, onde os jovens são guiados por professores que, longe de os instruírem, os pervertem, iniciando-os nos mistérios desta sociedade, que se podem chamar mistérios da iniquidade, preparando-os para todos os crimes”.

E Pio VIII, na sua Encíclica “Traditi”, de 21 de Maio de 1829, continua:

“Nós resolvemos assinalar-vos principalmente, entre todas estas sociedades secretas, uma constituída há pouco tempo, que tem por fim a corrupção da juventude que segue os cursos dos Ginásios e dos Liceus. Tendo a convicção do poder das palavras dos professores sobre o coração e o espírito dos alunos, trata-se de dar à juventude mestres depravados que os conduzem para os caminhos de Baal, por doutrinas que não são segundo Deus”.

O Papa Gregório XVI julga ver quase afundar-se a barca de Pedro numa negra conspiração e na sua Encíclica “Mirari”, de 15 de Agosto de 1832, reconhece que as ideias maçónicas, que desprezam o dogma católico, triunfam:

“A autoridade divina da Igreja é atacada, os seus direitos aniquilados, é sujeita a condições terrestres, reduzida a uma escravatura vergonhosa e entregue, por uma profunda injustiça, ao ódio dos povos. A obediência devida aos bispos é infringido e os seus direitos são calcados aos pés”.

Pio IX, reconhecendo que o espírito científico, proclamado nas Constituições maçónicas, expulsava as superstições dos ignorantes, tentou eviltar esse espírito na sua Encíclica “Qui pluribus”, de 9 de Novembro de 1846, com estas palavras:

“Estes não hesitam em arrogar-se o nome de filósofos, como se a filosofia, cujo objecto é a procura e o estudo da verdade da ordem natural, devesse rejeitar desdenhosamente tudo o que Deus, supremo e clemente, se permitiu revelar aos homens para a sua verdadeira felicidade e para a sua salvação. Não há ninguém que ignore a guerra terrível iniciada por esta raça de homens, ligados entre eles por uma associação criminosa, contra a fé católica; eles arrancam às trevas as mais monstruosas opiniões e espalham-nas a favor da mais funesta publicidade, fazendo-as penetrar em todos os espíritos”. Finalmente, Leão XIII que, ao subir ao trono pontifício, não encontrou do antigo Estado temporal dos Papas senão o palácio do Vaticano, apercebeu-se que os Estados civis tentavam separar-se da Igreja e, atribuindo este facto aos maçons, publicou, a 20 de Abril de 1884, a sua célebre Encíclica “Humanum Genus”.
.
“A seita dos franco-maçons propõe-se, mesmo que isso lhe custe longo e pertinaz trabalho, reduzir a nada, no seio da sociedade civil, o ensino e a autoridade da Igreja e, para atingir o seu fim, tenta sem cessar vulgarizar e defender a necessidade de separar a Igreja do Estado”.

Estes factos, receados e previstos pelos Papas nas suas últimas Encíclicas e atribuídos por eles à Maçonaria, tornaram-se hoje, para a maior parte, realidades em muitas nações, entre as quais se conta o Portugal dos últimos tempos, pelo esforço intenso e honroso dos maçons portugueses. O dr. Afonso Costa, ao publicar o seu último decreto sobre a separação da Igreja do Estado, não hesitou em confessar com segurança que pertencia à Maçonaria.

Os Jesuítas, devemos dizê-lo, proclamam contra a Maçonaria os mesmos anátemas dos chefes da Igreja Católica, o que se prova à evidência por esta carta circular, assinada pelo Provincial dos Jesuítas portuguesas, Vicente Ficarelli, em 15 de Julho de 1884, enviada a todas as casas da Ordem em Portugal:

Aos padres e irmãos da Companhia de Jesus em Portugal
.
Reverendos padres e muito queridos irmãos
.
Pax Christi. O muito Reverendo Padre Vigário-Geral, acorrendo ao apelo feito pelo Santo Padre a todos os católicos para combater as sociedades secretas, acaba de dirigir a toda a Companhia uma carta Encíclica, na qual convida todos os seus filhos a tomar parte nesta campanha gloriosa.
.
Se (assim como o diz o Reverendo Padre Vigário) não basta ler uma vez a admirável Encíclica: “Humanum Genus”, mas é indispensável que meditemos nela com atenção para gravar profundamente a doutrina no espírito, o mesmo se passa, até certo ponto, com esta carta. Eis a razão pela qual desejo que todos aqueles aos quais ela se refere não se contentem em ouvi-la ler no refeitório; é necessário ainda que a considerem atentamente e tentem fazê-la passar ao vosso espírito.
.
Trata-se de combater o inimigo mais terrível da Igreja, o qual, orgulhoso das vitórias obtidas até agora, julga-se triunfador e proclama que nada se pode mais opor à realização dos seus tenebrosos desígnios; a nós, filhos da obediência, deve-nos bastar, para encetarmos corajosamente a luta, sabem que essa é a vontade do Vigário de Jesus Cristo e daquele que a Providência divina acaba de nos dar como pai, mestre e gula das nossas acções. Tenhamos, portanto, coragem e, ao grito de “Deus o quer”, corramos a alistarmo-nos nesta gloriosa cruzada.
.
Trata-se de corresponder ao que o Soberano Pontífice e todos aqueles que são bons esperam de nós. Não deixemos que tantos seculares, dóceis à voz de Leão XIII, nos ultrapassem, tomando armas contra o inimigo comum. Que as dificuldades não nos desencorajem; elas não enfraquecem o zelo dos nossos inimigos. Contamos com a bênção de Deus. Em frente.
.
Devemos todos contribuir para o êxito da empresa. Os confessores e os directores espirituais, sobretudo os da juventude, pelos seus conselhos e advertências oportunas; os professores, tratando de formar o espírito dos alunos, insinuando-lhes os princípios da fé e da filosofia cristão, por oposição à doutrina do naturalismo professada pela maldita seita; os pregadores e os escritores, aproveitando com prudência as oportunidades para atacar directa ou indirectamente as próprias sociedades secretas ou combater as suas doutrinas. Guiados sempre pela obediência e pela prudência, não percamos uma única ocasião de fazer detestar a Maçonaria; nas conversas e nas cartas familiares, nas instruções religiosas e nos sermões, nos exercícios para o clero e para os outros fiéis, nas missões e, de maneira especial, nos colégios, tratemos seriamente de contrariar a sua acção venenosa.
.
Esforcemo-nos para premunir os nossos alunos contra as manobras da Maçonaria, fazendo-lhes ver a sua abominável natureza, para que eles a detestem tanto como ela merece. Tenhamos cuidado particular com as Congregações, sobretudo com as dos homens, segundo o nosso Instituto, e oponhamos a estas sociedades diabólicas as nossas, onde as máximas do Evangelho são inculcados sem cessar, e assim introduziremos, ou melhor, gravaremos, pouco a pouco, no coração dos nossos congregacionistas, o espírito de Jesus Cristo e o amor das virtudes cristãs.
.
E aos superiores que compete regular estes movimentos; que o zelo excessivo dos indiscretos seja reprimido e a valentia dos mais indolentes estimulada, para que a prudência não vá até à cobardia nem a coragem até à indiscrição e à temeridade.
.
Desejo que esta carta, onde tentei o meu melhor para reunir as principais ideias da Encíclica do Reverendo Padre Vigário-Geral, chegue ao conhecimento de todos; e, para que ela produza o bem que pretendo, invoquemos as luzes e as graças do Espírito Santo.
.
Recomendo-me às vossas orações. Lisboa, 15 de Julho de 1884″.

P. V. Ficarelli, S. J.

De acordo com estas ordens do Provincial, os Jesuítas forçavam os seus alunos, à entrada para a Congregação da Santa Virgem, a assumir o seguinte compromisso:

“Obedecendo com amor filial à autoridade do Vigário de Jesus Cristo, nitidamente expressa na Encíclica “Humanum Genus”, por Sua Santidade Leão XIII, que, assim como os Soberanos Pontífices seus antecessores, condenou frequentemente a Franco-Maçonaria e todas as outras sociedades secretas, assumo o compromisso de nunca me alistar numa destas seitas, seja qual a designação. Pelo contrário, combaterei valentemente, sempre e por toda a parte, as suas tradições, a sua doutrina e a sua influência. Que Deus venha em nosso auxilio”. [1]

Por esta exposição se pode fazer ideia do sistema de educação que forçava crianças quase de tenra idade a fazer compromissos perpétuos acerca de assuntos que ignoravam. Sobre a base de promessas solenes pretendia-se arvorar a inconsciência e a ignorância. Miserável educação, fanatismo detestável!

Autor desconhecido

Notas

[1] “Manual das Congregações da Santíssima Virgem”, pág. 110, 3.a edição, Lisboa, 1884. (N. do A.).

Artigos relacionados

Sugestões de Estudo