Os mistérios egípcios e a Maçonaria
O Deus Osíris
Uma das crenças mais difundidas entre os antigos egípcios era a de que a sua civilização lhes tinha sido transmitida directamente pelo Deus Thoth, que viera a terra justamente para esta missão civilizadora. Ele deu-lhes os rudimentos da civilização, ensinando-lhes a agricultura, a metalurgia e a organização social. Mais tarde este deus foi identificado com Osíris, o atlante, primeiro rei a organizar um governo nas terras do Egipto. E este a teria propagado entre todos os povos do Nilo, mantendo a harmonia e a paz no Egipto até o dia em que foi assassinado pelo seu invejoso irmão Seth. Esta é a lenda que é divulgada até hoje.
Osíris, segundo uma variante desta lenda, era um príncipe atlante que sobreviveu ao grande dilúvio. Ele e a sua esposa Ísis, que também era sua irmã, tinham origem divina, sendo filhos de Geb e Nut, divindades representativas do sol e da lua, respectivamente.
O culto de Osíris foi, seguramente, o que mais longa vida manteve entre os antigos egípcios. E foi o mais significativo também. A sua origem situa-se em épocas pré-históricas e ao longo do tempo sofreu tantas modificações e adaptações que se toma muito difícil a qualquer estudioso descrever exactamente o que ele era e o que significava na complexa vida espiritual dos povos do Nilo. Osíris é, indubitavelmente, o deus mais conhecido do Antigo Egipto. Isto é facilmente verificável pelo grande número de templos registados no seu nome nos anais da história egípcia. Cultuado concomitante como um herói, iniciador da civilização e como deidade, a mitologia que se desenvolveu em volta do seu nome constitui a mais rico celeiro literário que a antiga civilização do Nilo legou à humanidade.
Historicamente acredita-se que Osíris era visto pelos seus primeiros adoradores apenas como a encarnação das forças da natureza. Mas à medida que o seu culto foi se difundindo por todo o país, este deus foi absorvendo os atributos das divindades que ia substituindo nas cidades que o adoptavam, até que, por fim, acabou confundindo-se com a própria deidade maior do país, Rá, o deus Sol. [1]
Segundo Wallis Budge, ele representava o “olho omnisciente da divindade”, ou seja, o próprio Sol, que era o símbolo maior da divindade. Como tudo, no Egipto, girava em torno do sol e das águas do Rio Nilo, o seu nome, conectado aos dois grandes responsáveis pela vida do país acabou proporcionando o desenvolvimento de uma rica mitologia que ainda hoje fascina os estudiosos do pensamento humano e das tradições que o informam.
A Deusa Ísis
Ísis era tida por irmã e esposa de Osíris. Este costume de casamento entre irmãos consanguíneos era comum no Antigo Egipto. Tinha como função preservar o poder da dinastia, mantendo sempre no trono um descendente do mesmo sangue.
A deusa Ísis é, juntamente com Osíris e Mitra, os arquétipos religiosos mais importantes que as antigas religiões solares legaram à humanidade. Cultuada como modelo de mãe e esposa ideal, ela era também vista como protectora da natureza, símbolo da magia e da ressurreição, deusa da maternidade, da fecundidade e da família.
Como esposa de Osíris e mãe de Hórus, Ísis faz parte da trindade egípcia, sobre a qual se assenta o equilíbrio do mundo.
Os primeiros registos do culto a Ísis aparecem em documentos egípcios datados por volta de 2500 a.C., mas acredita-se que esse culto é mais antigo, tendo derivado de uma época em que os povos do Nilo formavam clãs governados por princípios centrados mais no poder matriarcal do que no patriarcal. Esta noção vem do facto de que, historicamente, o poder político no Antigo Egipto, até épocas mais recentes, fartamente documentadas, sempre foi composto através da linhagem feminina e não da masculina. O Egipto, como revela Wallis Budge e nos confirma Bachofen, sempre teve em Isis o símbolo do poder matriarcal, o que prova a enorme influência da mulher muito na composição do poder político no país.
Isis foi a única deidade do Antigo Egipto que resistiu à helenização do país após a conquista por Alexandre Magno. Sobreviveu também à posterior cristianização do país, ocorrida após a sua incorporação ao Império Romano, e forneceu aos teóricos do Cristianismo o arquétipo modelar para a composição da figura de Maria, mãe de Jesus, a parte feminina do Logos cristão.
Isis não só resistiu as repetidas tentativas de aculturação do Egipto pelas potências que o ocuparam, como também irradiou a sua influência por toda a cultura do Oriente Médio e tornou-se uma das mais importantes divindades do Império Romano.
Durante os primeiros séculos de implantação do Cristianismo nos territórios governados por Roma, o culto à Isis espalhou-se por todo o mundo romano. Na Itália e na própria Roma, Isis era uma das principais divindades do panteão romano, e nessa condição permaneceu até a vitória final do Cristianismo, quando muitas das suas estátuas foram revestidas com trajes cristãos e adorados como se fosse Maria, a mãe de Jesus.
A tradição esotérica ligada ao nome de Isis é simplesmente fabulosa. Nenhuma outra lenda se desenvolveu com tanta riqueza em interesse espiritual, salvo o Mistério da morte e ressurreição de Cristo.
Ao longo de milénios, sacerdotes e sacerdotisas ocuparam-se em desenvolver uma rica tradição que envolve elementos de história, religião, sociologia, astrologia, medicina, política e outros conhecimentos, tudo tratado com uma aura de misticismo e mistério que excita o espírito humano até os dias de hoje.
Isis e a astrologia
Como a estrela Spica (Alpha Virginis), era a mais brilhante da constelação de Virgem, e sendo essa a constelação que segundo os egípcios, correspondia ao país no desenho cósmico, Isis foi relacionada à essa estrela. E como a constelação de Virgem surgia no firmamento acima da linha do horizonte justamente numa época do ano em que à colheita do trigo e outros grãos era feita em todo o Vale do Nilo, Isis também foi associada a divindades gestoras da fertilidade e passou a presidir as colheitas. Daí a sua associação com Deméter, a deusa grega da agricultura e o consequente paralelo entre os Mistérios de Isis e Osíris, como bem observou Plutarco na sua obra clássica. [2]
Isis também foi associada à estrela Sirius (Sept em egípcio). O aparecimento desta estrela no firmamento simbolizava o advento de um novo ano. Daí Isis ser também considerada a deusa do renascimento e da reencarnação; e como protectora das almas dos mortos ela presidia o renascimento do tempo e dos astros no céu. Dessa forma, Isis exercia um papel primordial nos rituais do Livro dos Mortos, no sentido de proteger e guiar as almas dos defuntos pelo mundo subterrâneo (a terra intermediária das sombras, a Tuat). Vários hinos desse estranho e famoso hinário são dedicados a ela.
A associação desta deusa com a agricultura e a estrologia, assuntos que no Antigo Egipto estavam umbilicalmente ligados, tem uma larga influência no simbolismo maçónico. Isis, com o seu feixe de trigo junto ao peito (simbolizando a estrela Spica) é um dos ícones mais amados da Maçonaria. Da mesma forma que o céu maçónico tem na constelação de Virgem um dos seus símbolos mais significativos, Isis é, talvez o seu arquétipo que melhor o representa.
Isis e a política
Isis era vista como a deificação do poder matriarcal no sentido que ela representava, na hierarquia da corte egípcia, a esposa do faraó. A sua representação como aquela que devolve a vida ao rei morto conferia à esposa do faraó um papel de extraordinária relevância nos ritos funerários, de tal forma que o seu nome é o mais citado nos chamados Textos das Pirâmides, escritos que descrevem os ritos funerários aplicados aos diversos faraós que os mandaram escrever. Daí o grande poder e influência que as rainhas egípcias exerciam na hierarquia de poder no país. A época do Novo Império, entre os reinados das XVIII, XIX e XX dinastias, (+-1570 a 1070 a.C.) Isis era considerada mãe e protectora do faraó. Durante este período, desenhos e estátuas dessa deusa amamentando o faraó foram esculpidas e reverenciadas por todo o Egipto.
Tão forte era a associação de Isis com o poder, que ela considerada a mãe-trono. Esta, aliás, teria sido a sua primitiva função, razão, pela qual muitos estudiosos acreditam ter sido o primitivo Egipto uma sociedade matriarcal, onde Isis teria sido a sua mais importante matriarca. No entanto, uma corrente mais moderna afirma que aspectos desse papel vieram mais tarde, por associação. Em muitas tribos africanas, o trono real ainda é conhecido como “a mãe do rei”.
Influência no cristianismo
Embora a Igreja Católica sempre tenha negado veementemente que o culto à Virgem Maria é uma adaptação ao culto da deusa Isis, não parece haver dúvida que existe uma grande influência da tradição egípcia nesse culto. Quando o Cristianismo começou a ganhar popularidade no Império Romano, muitos templos de Isis foram transformados em santuários cristãos, e para evitar os conflitos que naturalmente adviriam com os adoradores da deusa egípcia, os primitivos cristãos associaram-na com a mãe de Jesus e foi dessa curiosa metonímia que nasceu o culto à Mãe de Deus, a Virgem Maria, que a muitos cristãos puristas pareceu verdadeira heresia, pois estes não admitiam que o seu Deus- por principio um ser incriado – pudesse ter tido uma mãe. Esta ideia era defendida principalmente pelos cristãos gnósticos que negavam a natureza humana de Jesus, vendo-o como um ser angélico que viera a terra através de uma manifestação divina e não por concepção carnal. Esta tese viria a ser retomada pelos evangélicos, os quais tem em Maria apenas o canal humano pelo qual Deus se manifestou em carne, mas não como “mãe de Deus”.
Conteúdo iniciático do Mistérios
Os Mistérios de Isis e Osíris, base do famoso drama iniciático que leva este nome, talvez a uma corruptela de um evento político ocorrido em tempos pré-históricos, quando ao Egipto ainda era uma nação governada pelo princípio do matriarcado. Como bem nos mostra Bachofen no seu magnífico ensaio sobre este tema, nesses remotos tempos, a rainha era a deusa-mãe e encarnava os poderes da terra. Assim foi no Egipto com Isis, entre os povos mesopotâmicos com a deusa Ishtar, Lakshmi para os Hindus, Ixchel dos Maias, e outros povos.[3] Daí a associação que faz entre os poderes regeneradores desta deusa e a capacidade da terra em renovar a vida do planeta.
Os Mistérios de Isis e Osíris, também conhecidos como Mistérios Egípcios baseiam-se no drama da ressurreição desse deus, morto e esquartejado por Seth, o seu invejoso irmão. Como já aventado, esse drama pode estar na origem de um facto histórico onde um possível conflito de natureza política tenha originado o assassinato do rei por um irmão que lhe pretendia tomar o trono. Isto era muito comum na antiguidade, sendo um dos principais motivos das antigas tragédias gregas, cujos enredos geralmente se fundamentam em histórias desse tipo, onde reis são mortos e os seus assassinos se casam com a rainha para legitimar as suas conquistas. No caso da lenda de Isis e Osíris há uma reacção da rainha, que juntamente com o seu filho Hórus reagem ao assassinato do marido e pai, e vencem o tirano regicida.
Aversão mais acreditada desta lenda, entretanto, a de que na origem os Mistérios de Isis e Osíris eram tradições religiosas muito antigas, nas quais se celebrava o poder de regeneração que Isis, a Mãe-Terra, possuía para dar vida à semente que nela era lançada. Daí foram desenvolvidos rituais que visavam reproduzir o processo segundo o qual esse evento mágico se realizava. Então, talvez por um processo de metonímico de adaptação, cunhou-se a lenda de que Isis, a Mãe Sacerdotisa, teria recomposto o corpo morto do seu marido e restituído a sua vida, da mesma forma que a terra transforma em planta viva uma semente considerada morta.
Foi Plutarco, escritor grego do século V a. C. que popularizou no Ocidente este mito ao escrever um longo trabalho explicando o seu verdadeiro significado. Para ele, os Mistérios Egípcios eram semelhantes em conteúdo aos Mistérios Gregos (representados no santuário de Elêusis), onde também se cultuavam os poderes regeneradores da terra.
A lenda diz que Osíris era filho do deus Seb com a deusa Nut. Foi um príncipe originário da mítica Atlântida, que sobreviveu à destruição daquele antigo e extraordinário mundo. Após baixarem as águas do dilúvio que fez desaparecer as antigas civilizações da terra, ele, com a sua esposa Ísis e o seu filho Hórus, mais alguns membros da sua família, entre eles o seu irmão Seth, aportaram no Vale do Nilo, onde começaram a ensinar aos povos que ali começavam a se desenvolver, os rudimentos da civilização. Com o tempo Osíris tornou-se rei do Egipto, tornando-se o primeiro Manes dos povos do Nilo. [4]
Após organizar o governo no vale do Nilo, Osíris partiu em peregrinação por toda a terra, para fazer o mesmo com outros povos. Na Babilónia ele ficou conhecido como Enlil, na Pérsia como Mitra, na India como Shiva, o civilizador. Enquanto peregrinava pelo mundo ensinando os povos os segredos da agricultura, da metalurgia, das artes e demais disciplinas que fazem uma civilização, a sua irmã e esposa Isis ficou governando o Egipto no seu lugar. Quando voltou, após implantar a civilização pelo resto do mundo, foi assassinado pelo seu irmão Seth, que escondeu o seu corpo dentro de uma arca e o atirou às águas do Rio Nilo.
Ao saber da morte do marido, Isis partiu à procura do corpo encontrando-o, afinal, nas praias de uma cidade de Biblos, preso aos galhos de um tamarineiro. Todavia, o rei de Biblos, (que não era a cidade fenícia onde foi inventado o termo Bíblia, mas um povoado egípcio que ficava numa das bocas do Nilo), tinha cortado a referida árvore, para com ela sustentar o tecto do seu palácio. Entretanto, após uma longa negociação com rei de Biblos, conseguiu recuperar a arca com o corpo do marido e retornou com ele ao Egipto. Colocou-o num templo, aguardando a ocasião propícia para realizar os rituais funérios. Foi então que o invejoso Seth o roubou e dividiu o corpo em quatorze partes, que enterrou em quatorze lugares diferentes do país.
Isis, ao tomar conhecimento da nova maldade do seu terrível cunhado, saiu à procura dos restos mortais do marido, e onde encontrava uma parte, sepultava-a com as devidas cerimónias, erguendo no lugar da tumba um templo em homenagem a Rá, o deus da luz. Cada uma destas procuras representava uma “viagem” ritual que ela realizava, rendendo homenagem ao sol regenerador, “fonte fecunda de luz e virtude”, que prodigaliza a vida para todas as espécies.
Após ter reunido todas as partes do corpo do rei assassinado, dando a cada uma delas sepultura de acordo com os rituais, o rei morto recuperou a vida, porém não a vida terrena, mas sim uma vida espiritual, pois Osíris tornou-se um deus e foi feito governador da terra dos mortos, a Tuat. [5] Recomposto em espírito, Osíris instruiu Hórus, o seu filho, a continuar a sua obra civilizadora, combatendo Seth, que se tornou o símbolo do mal. Hórus, à frente de um exército de “filhos da luz”, deu combate a Seth e o venceu.
A função escatológica deste mito é clara. Osíris, morto para a vida, ressuscitou espiritualmente por força das cerimónias que Ísis prodigalizou aos seus restos mortais. O poder da Deusa-Terra, aliada ao poder do Deus-Sol vence a morte e promove a ressurreição. Daí a necessidade de toda iniciação – que simboliza a morte ritual do profano, para possibilitar a sua ressurreição como iniciado – incluir uma “viagem ao interior da terra”, onde ele fica um tempo na total escuridão. [6]
Também por processo metonímico a lenda de Ísis e Osíris passou a ser a representação simbólica do dia que derrota a noite, da luz que supera as trevas, da vida que vence a morte. E Ísis é a terra, a mãe em cujo útero esse processo acontece.
Os Mistérios Egípcios e a Maçonaria
O mito de Ísis e Osíris é um dos arquétipos fundamentais da prática maçónica, na sua visão espiritualista. Ísis é a deusa que regenera o morto e o conduz à região onde brilha a luz. Osíris é o próprio morto que é regenerado por esse poder, e ao alcançar essa graça adquire também o poder de guiar outros espíritos pela escuridão e levá-los à zona de luz. A partir desta alegoria se constrói a metáfora: Ísis é a própria Maçonaria, que regenera o psiquismo dilacerado do profano que recebe a sua Luz; e a partir da iniciação nos seus Mistérios ele toma-se também capaz de conduzir outros pelos mesmos caminhos, em busca da Luz. Este é o sentido simbólico de toda iniciação e a Maçonaria não foge a este conteúdo. Todos os elementos rituais da iniciação maçónica evocam a magia dos influxos que vêm desses antigos arquétipos e dessas arcanas sabedorias praticadas pelos antigos povos.
Por isso, conhecer e sentir de facto a Arte Real é penetrar na alma desses ritos e extrair-lhes os verdadeiros significados. É só a partir daí que começamos a trilhar, com segurança os caminhos que nos levam ao Reino de Enteléquia, onde nos tornamos verdadeiros Obreiros da Arte Real.
Notas
[1] Muitos historiadores acreditam que o mito de Osíris está fundado em verdadeiros acontecimentos históricos. Neste sentido, Osíris é visto como sendo um chefe nómade, que teria sido responsável pela introdução da agricultura na região do Delta. Com isso teria entrado em conflito com Seth, líder das populações do Delta. Em consequência, Osíris teria sido morto por Seth e depois vingado pelo seu filho
[2] Plutarco – De Iside et Osíride,
[3] Esta tese também é defendida por James Frasier no seu famoso estudo antropológico “O Ramo de Ouro”.
[4] Daí a tradição de que o Egipto teria sido unificado por um faraó de nome Menés. Na verdade, esse nome era um título religioso (Manes, um deus-lar, um protector do clã) e não um nome próprio.
[5] Esta é a razão de alguns historiadores enxergarem no mito de Osíris a inspiração para os mistérios da ressurreição de Cristo.
[6] Assim como Jesus passou três dias no sepulcro antes de ressuscitar.
