Os antigos Landmarks da Maçonaria
É sabido que os Maçons são regidos por alguns princípios essenciais muito antigos que vieram a ser conhecidos como Landmarks, Limites ou, mais propriamente, Antigos Landmarks. Em 1856, o Dr. Albert Gallatin Mackey (1807 – 1881) publicou uma lista dos Landmarks da Maçonaria num jornal da época, lista essa que mais tarde republicou na sua Enciclopédia da Maçonaria.
Podemos interrogar-nos sobre o que são os Landmarks, em que consistem, que conteúdo e significado têm hoje. Para começar, digamos que são princípios essenciais da Ordem que remontam a tempos imemoriais. Desde que Mackey as enumerou no seu livro, foram feitas tentativas para os estudar, para os fixar definitivamente e para os explicar com relativa exactidão. Hughan, Gould, Speth e Begeman são alguns dos autores que estudaram esta espinhosa questão nos seus dias, após estudos críticos de documentos antigos relacionados com o assunto. Mackey enumerou um total de vinte e cinco princípios ou Landmarks essenciais, que foram aceites por várias obediências maçónicas em todo o mundo. Alguns sentiram, no entanto, que teria sido melhor não tentar enumerá-los ou fixá-los com tanto zelo. Este ponto de vista foi mantido por algumas Grandes Lojas que reconheceram na altura como válidos os Deveres Antigos contidos na primeira edição da Constituição da Grande Loja de Inglaterra.
A essência filosófica da Maçonaria tem como fundamento as antigas instruções morais de carácter simbólico, ensinadas em formas e costumes antigos através de símbolos.
É bem sabido que a Maçonaria especulativa, que surgiu em 1717 com a formação e funcionamento da Grande Loja de Inglaterra, deriva da Maçonaria operativa, ou seja, das corporações medievais de pedreiros. A organização e os estatutos dessas lojas operativas são a base inicial sobre a qual foram construídos os princípios que actualmente regem os modos éticos, filosóficos e estruturais das obediências modernas.
A maioria dos estudiosos da Maçonaria admite que o objectivo fundamental do ensino simbólico oferecido aos iniciados maçónicos consiste principalmente em inculcar-lhes, passo a passo, os mais sólidos princípios morais, ensinamentos que são encapsulados e limitados pelos Landmarks da Ordem. Este sistema peculiar está entrelaçado com as ideias fundamentais da transcendência da alma humana e a crença num Deus universalizado, duas essências indispensáveis sem as quais não estaríamos a falar de Maçonaria, mas de outra coisa. Através deste sistema simbólico de aprendizagem, a Maçonaria procura unir homens de diferentes países, raças e religiões numa comunidade fraterna que transcende os preconceitos e os pequenos horizontes nacionais ou zonais. É fácil deduzir, então, que a Maçonaria é um sonho, uma utopia, uma busca do ideal social e humano, um anseio de paz, igualdade e perfeição.
A base principal do ensino maçónico gira em torno da crença em Deus, chame-se-lhe o que se quiser. Os maçons chamam-no e invocam-no como o Grande Arquitecto do Universo, mas, em última análise, é a crença num princípio superior que pode ligar qualquer tipo de prática religiosa ou princípio moral. A Maçonaria liberal contemporânea também não exige que os seus membros tenham uma crença firme em quaisquer dogmas de fé específicos. Estas premissas religiosas estavam presentes nas primeiras lojas de maçons operativos, de quem a tradição foi herdada. Os maçons medievais ergueram templos de pedra para a glória do Senhor. Os maçons especulativos de hoje erguem templos espirituais dentro de si próprios, para encontrarem o seu auto-aperfeiçoamento e equilíbrio. Um dos Antigos Landmarks estabelece as fundações que tratam deste assunto, tal como outros Landmarks regulam assuntos bastante diferentes, tais como as relações que os maçons devem manter com o Estado a que pertencem, os deveres e direitos dos iniciados, formas ou sinais de reconhecimento, a divisão em graus da Irmandade, o trabalho dentro das oficinas, a conduta social do bom maçon, e mesmo a forma correcta de conduzir reuniões ou serviços.
A primeira menção aos antigos Landmarks aparece no art. XXXIX da compilação do Grão-Mestre George Payne, que data de 1720. Nele se afirma que cada obediência tem o poder de modificar ou substituir os seus próprios regulamentos, desde que, no entanto, as marcas da tradição sejam preservadas. John W. Simons refere que os Landmarks devem ser consideradas como princípios de acção que existem desde tempos imemoriais, quer na lei escrita quer na forma tradicional. Albert G. Mackey define os Landmarks como os antigos costumes da Ordem, que eventualmente tomaram a forma de regras de acção para os iniciados. Por outras palavras, se aceitássemos a hipótese de que estes Landmarks foram outrora, num passado remoto, leis internas inalteráveis da Ordem, teríamos de afirmar que os Landmarks não passam, na melhor das hipóteses, de princípios costumeiros a preservar.
Os Deveres do Maçom contidos nas famosas Constituições de Anderson de 1723, resumem de certa forma os Antigos Landmarks, que deram origem a tanta controvérsia nos últimos dois séculos da história maçónica.
O importante neste caso não é delimitar quais os princípios que estão ou não integrados nos Landmarks, mas sim saber que estes bons e nobres princípios existem, que estão lá, que são reconhecidos por todos os Maçons e que sobrevivem ao longo do tempo pela simples razão de serem respeitados na sua integridade. A Maçonaria deve evoluir com os tempos, deve reunificar-se e adaptar-se à sociedade o mais rapidamente possível, se quiser prosperar no seu seio. Mas o transcendental que nunca deve perder são os valores antigos e humanos que pretende defender.
Ricardo Serna
Fonte
- Revista la Acacia
