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O simbolismo da fauna filosófica de Zaratustra

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✍️ Desconhecido 📅 05/04/2026 👁️ 0 Leituras
Zaratustra
Zaratustra

Ao adentrar o universo simbólico de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche, depara-se o leitor com uma linguagem que ultrapassa a simples construção literária e se estabelece como um sistema imagético de grande densidade filosófica. Neste cenário, os animais que acompanham Zaratustra não ocupam um papel meramente decorativo; constituem, ao contrário, expressões condensadas de forças, tensões e possibilidades que habitam o próprio espírito humano no seu processo de superação.

Desde o Prólogo, quando Zaratustra decide descer da montanha para compartilhar o seu ensinamento, a presença da águia e da serpente já se impõe como chave interpretativa essencial. Ambas surgem unidas, a serpente enroscada no pescoço da águia, numa imagem que sugere harmonia entre princípios que, à primeira vista, pareceriam inconciliáveis. Esta união não expressa dominação, tampouco conflito, e sim uma convivência simbiótica que traduz o ideal de integração perseguido ao longo da obra.

A águia, senhora das alturas, representa o espírito que se eleva acima das convenções e das estruturas herdadas. O seu voo sugere liberdade, amplitude de visão e distanciamento crítico em relação às normas estabelecidas. Há, neste símbolo, a afirmação de uma dignidade que se ancora na capacidade de autodefinição. O orgulho, nesse contexto, não se apresenta como vício moral, e sim como expressão de força interior, de reconhecimento da própria potência. O olhar da águia abarca vastidões e não se detém nos detalhes estreitos da planície, onde se desenrolam as paixões mais imediatas.

Em contraste complementar, a serpente permanece ligada à terra. A sua proximidade com o solo indica uma forma de conhecimento que não se projecta para além da realidade sensível. Trata-se de uma inteligência que se desenvolve no contacto directo com a vida concreta, com os seus riscos, as suas necessidades e os seus ciclos. A serpente evoca prudência, astúcia e adaptação. A sua forma circular, frequentemente associada à ideia de retorno, remete ao carácter cíclico da existência, antecipando uma das noções mais desafiadoras do pensamento nietzschiano. Nessa perspectiva, a serpente representa uma sabedoria que não busca refúgio em abstracções, permanecendo fiel ao mundo tal como ele se apresenta.

A imagem conjunta desses dois animais sintetiza um ideal de equilíbrio. A elevação sem enraizamento conduz à abstracção vazia; o apego exclusivo ao terreno pode limitar a visão e impedir a criação. A união entre ambos sugere a necessidade de um espírito que saiba elevar-se sem perder o contacto com a realidade, que seja capaz de criar valores sem ignorar as condições concretas da existência. Nesse ponto, delineia-se uma tensão produtiva entre o instinto e a reflexão, entre o impulso vital e a consciência crítica.

Paralelamente a essa simbologia, Nietzsche apresenta, num dos momentos mais célebres da obra, a doutrina das três metamorfoses do espírito: o camelo, o leão e a criança. Estas figuras não representam estágios fixos, e sim movimentos internos que descrevem a transformação do indivíduo diante dos valores herdados e da capacidade de instaurar novos horizontes

O camelo surge como o espírito que aceita carregar pesos. Ele se curva para receber o fardo das tradições, das normas e das obrigações que lhe são impostas. Há, nesse estágio, uma virtude associada à resistência, à disciplina e à capacidade de suportar exigências elevadas. O camelo busca o deserto, espaço de solidão e provação, onde o peso que carrega se torna objecto de confronto interior. Esta fase revela a interiorização dos valores estabelecidos, bem como a disposição para suportar as suas consequências.

No silêncio do deserto, ocorre a transformação em leão. O leão encarna a força que se insurge contra o imperativo do “tu deves”. Diante do grande dragão, cujas escamas reluzem com os valores acumulados ao longo de séculos, o leão afirma a sua vontade própria. O seu rugido expressa negação, ruptura, recusa da submissão. Esta etapa não cria novos valores, mas abre o espaço necessário para a sua emergência. Trata-se de um momento de libertação, no qual o espírito conquista o direito de dizer “eu quero”.

A transição final conduz à criança. Esta figura representa um estado de criação que ultrapassa tanto a submissão quanto a negação. A criança simboliza o recomeço, a leveza, a capacidade de afirmar a vida na sua totalidade. A sua inocência não decorre de ignorância, e sim de uma superação das cargas e dos conflitos anteriores. A criança cria sem ressentimento, sem necessidade de justificar-se diante de padrões antigos. Nela, a existência adquire a forma de jogo, de movimento espontâneo, de afirmação plena.

Essas metamorfoses delineiam uma trajectória ética que se afasta de modelos normativos tradicionais. A maioria dos indivíduos permanece vinculada ao estágio do camelo, vivendo sob o peso de valores não examinados. A passagem pelas etapas seguintes exige coragem, ruptura e, sobretudo, capacidade de reconstrução. A criança, nesse percurso, representa o ápice de uma autonomia criadora, na qual o indivíduo se torna fonte de seus próprios valores.

Quando se relacionam essas imagens com os conceitos centrais da obra, percebe-se a coerência interna do pensamento de Nietzsche. A chamada “morte de Deus” indica o colapso dos fundamentos absolutos que sustentavam a moral tradicional. Diante dessa ausência de referência transcendente, o espírito que ainda se encontra na condição de camelo experimenta o peso de valores desprovidos de sustentação última. Surge, então, o risco do niilismo, entendido como a percepção da falta de sentido previamente garantido.

A superação desse estado exige transformação. A figura do Além-do-Homem corresponde ao ideal de um ser que atravessou esse vazio e foi capaz de criar novos valores. Nesse sentido, a criança representa a expressão mais acabada dessa condição. A presença simbólica da águia, associada à elevação e à auto-afirmação, indica a dignidade com que esse novo tipo humano assume a sua própria potência.

A ideia do eterno retorno encontra ressonância na serpente. A repetição infinita da existência, concebida como hipótese, funciona como um critério ético de grande exigência. Viver de tal maneira que cada instante possa ser desejado eternamente implica uma forma de afirmação radical da vida. A criança, na sua leveza criadora, aproxima-se desta disposição, ao passo que a consciência comum tende a perceber essa ideia como um peso insuportável.

Por fim, a vontade de poder atravessa toda essa construção simbólica. Ela se manifesta como impulso de expansão, de superação e de criação. No leão, assume a forma de força destruidora que rompe com os valores herdados. Na serpente, adquire a dimensão de inteligência estratégica, que orienta essa força em direcção à transformação. Na criança, culmina como potência criadora, capaz de instaurar novos sentidos.

Dessa forma, a fauna filosófica de Zaratustra revela-se como um sistema simbólico que articula, com notável coerência, imagens e conceitos. Águia e serpente, camelo, leão e criança não constituem figuras isoladas, e sim expressões de um movimento contínuo de transformação do espírito. Nesse movimento, a ética deixa de ser entendida como adesão a normas externas e passa a ser concebida como criação interna, enraizada na própria vida. Trata-se de um percurso exigente, no qual o indivíduo é chamado a confrontar os seus limites, a dissolver antigas certezas e a afirmar, de maneira plena, a realidade que o constitui.

Desdobramentos contemporâneos

Faz sentido, então, pensar que o maior desafio ético moderno é justamente sair do estágio de camelo num mundo onde os valores antigos já não se sustentam mais. A transição do camelo (que aceita o fardo) para a criança (que cria o novo) ressoa perfeitamente com a ideia de que as escolhas pessoais, por mais invisíveis que pareçam no quotidiano, são os fios que tecem aquilo que o indivíduo se torna. No fim das contas, a águia e a serpente são o lembrete constante de que é necessário ter asas para as alturas do pensamento, mas também de escamas para sentir a realidade da terra.

Esta formulação busca revelar a coerência com o horizonte interpretativo que se pode extrair da obra nietzschiana. Considerar que o maior desafio ético moderno reside na superação do estágio do camelo encontra fundamento no próprio diagnóstico de crise de valores que atravessa a modernidade. Quando os referenciais tradicionais perdem a sua força normativa, o indivíduo já não encontra justificativa sólida para os fardos que carrega. Ainda assim, muitos continuam a sustentá-los por inércia, hábito ou temor diante do vazio que se anuncia.

Nesse cenário, o camelo assume uma condição particularmente delicada. Ele persiste na obediência, embora os mandamentos que o orientavam tenham perdido a sua autoridade originária. O peso que antes possuía sentido torna-se progressivamente opaco. Surge, então, uma tensão silenciosa: continuar carregando por fidelidade a uma estrutura esvaziada ou arriscar a travessia rumo ao desconhecido. Esta travessia não ocorre sem custo. O deserto, na imagem proposta, representa precisamente esse espaço de suspensão, no qual antigas certezas já não sustentam e novas formas ainda não se consolidaram.

A passagem ao leão implica um gesto de ruptura. Trata-se de um momento em que o espírito afirma a sua autonomia ao recusar a submissão aos imperativos herdados. Contudo, essa etapa permanece marcada por uma negatividade constitutiva. O leão conquista liberdade ao negar, ao romper, ao afastar-se. Há força neste gesto, porém ainda não se encontra nele a plenitude da criação. A liberdade conquistada abre um campo de possibilidades, embora não determine, por si só, o que será construído.

É nesse ponto que a figura da criança adquire centralidade. Ela representa uma forma de existência que já não se define pela relação reactiva com o passado. A sua criação não nasce de oposição, tampouco de obediência, e sim de uma afirmação originária. A criança simboliza a capacidade de inaugurar sentidos, de instaurar valores que não dependem de legitimação externa. Esta condição exige uma leveza que não se confunde com superficialidade, e sim com a superação do ressentimento e da necessidade de justificação constante.

A leitura proposta, ao relacionar essa transição com o quotidiano, acrescenta uma dimensão particularmente fecunda. As escolhas aparentemente discretas, quase imperceptíveis, configuram o tecido da existência. Cada gesto, cada decisão, cada renúncia participa da formação de um estilo de vida. A ideia de que tais escolhas constituem os fios que tecem o próprio ser encontra ressonância na noção de que a ética se constrói a partir de dentro, como expressão contínua de uma vontade que se organiza e se transforma.

Sob essa perspectiva, a imagem da águia e da serpente aparece como síntese exigente. A elevação do pensamento, associada à águia, sugere a necessidade de distanciamento crítico, de capacidade de ver além das convenções imediatas. Já a serpente remete ao contacto com a realidade concreta, à sensibilidade para as condições efectivas da existência. A ausência de qualquer desses elementos compromete o equilíbrio do processo. A elevação sem enraizamento corre o risco de perder consistência; o enraizamento sem elevação pode restringir o horizonte de criação.

Dessa forma, o desafio ético contemporâneo pode ser compreendido como a articulação dessas dimensões num contexto no qual os fundamentos tradicionais já não oferecem sustentação automática. Sair da condição de camelo não implica rejeitar toda herança, e sim submetê-la a um processo de transformação. A passagem à criança não representa um retorno à ingenuidade, e sim a conquista de uma forma madura de criação, capaz de afirmar a vida na sua complexidade.

A questão, portanto, não se reduz a abandonar pesos, e sim a compreender quais deles ainda possuem valor e quais se tornaram vestígios de uma ordem já dissolvida. Nesse discernimento reside uma tarefa exigente, que envolve coragem, lucidez e disposição para assumir as consequências da própria liberdade. Nesse percurso, a tensão entre altura e profundidade, entre pensamento e realidade, permanece como um eixo orientador, constantemente lembrado pela presença simbólica da águia e da serpente.

Giovanni Angius, MI-33º REAA – ARLS Orvalho do Hérmon nº 21 – Grande Loja Maçónica do Estado do Espírito Santo — Brasil

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