A maçonaria e o racismo
“Ninguém nasce a odiar o outro pela cor da pele,
pela origem ou pela religião As pessoas aprendem
a odiar e, podem aprender a se odiar, também
podem apreender a amar!”
Nelson Mandela (1918-2013)
No término de uma palestra sobre racismo, um grupo (todos Maçons), que assistia ao colóquio, dirigiu-se a um restaurante, e, lá o assunto versava sobre a exposição do palestrante cujos conceitos ainda ecoavam nos seus ouvidos. Um deles estava entusiasmado com as frases, que o orador incluía na sua locução, tendo anotado duas delas, a que mais gostou: “Você pode disparar contra mim com as suas palavras, pode cortar-me com os seus olhos, pode matar-me com o seu ódio, mas, ainda assim, como o ar, eu levantar-me-ei!” e “O preconceito é um fardo que confunde o que passamos, ameaça o futuro e torna o presente inacessível!” Ambas são de autoria de Maya Angelou (1928-2014), figura extraordinária das letras norte-americanas.
O racismo é uma chaga social no Brasil. Apesar de mais de um século da abolição da escravatura, a população negra continua, na maioria das vezes, à margem dos espaços de influência. A relação de exclusão, com base na cor da pele, está presente nos ambientes de trabalho, nas universidades, nas rotinas quotidianas. Compreender como o racismo opera na construção social e como é possível superá-lo é confrontar uma ferida que marca o nosso país. Foram algumas palavras do palestrante, que encerrou dizendo “o preconceito tem olhos e não vê, enxerga e nada distingue!”
A palavra “racismo” foi criada por Joel Kovel (1936-2018) para descrever os comportamentos raciais ténues de qualquer grupo étnico ou racial que nacionalizem a sua aversão a um grupo específico, apelando a regras ou estereótipos. Consiste no preconceito e na discriminação a partir de percepções sociais baseadas em diferenças biológicas entre os povos, e, não raro, tomando forma de acções sociais superiores ou inferiores segundo características, habilidades e por vezes qualidades comuns herdadas dos antepassados. Os mais rigorosos afirmam que as pessoas de diferentes raças devem ser tratadas de formas distintas. Isto é, racismo é a denominação da discriminação e do preconceito (directa ou indirectamente) contra indivíduos ou grupos por causa da sua etnia ou cor.
O tema racismo costuma vir à tona quando algo inusitado e trágico acontece com um negro ou pardo, uma das raças. Quando se levantam vozes contra o preconceito, com ajuda da imprensa, e, que logo se calam até outro trágico acontecimento surgir. O preconceito racial e a marginalização dos mais pobres resultam na morte de milhares de indivíduos da raça negra todos os anos.
É sabido o quanto o racismo está entranhado na medula da nossa sociedade que é um atestado do nosso fracasso civilizatório. Não há como desconsiderar o racismo que perpassa a sociedade brasileira pelo excesso de vidas que destrói.
É muito tortuoso um branco entender o íntimo de um negro ao meio de uma comunidade negra. Porém, há quem consiga, pois é um exercício de interpretação alcançável a todas as pessoas.
Não há como negar que o racismo existe no Brasil e, provavelmente, por muitos anos, ainda, acompanhado da eterna indignação daqueles que são contra. Todavia, parece, cada vez mais, difícil fechar os olhos para o facto de que o racismo caminha para ser, finalmente, compreendido como um problema de todos.
Na verdade, as entidades e associações que se propõem a resolver este problema, não sabem o que fazer, na prática, contra o preconceito e racismo. Erguer bandeiras e cartazes não funciona mais, não basta. Estas organizações têm de aprender a lidar com a questão de modo a coibir actos racistas de qualquer natureza. Aplicação da Lei, pra valer, como previsto, pode ser uma saída. Educar é sempre o melhor caminho; punir é sempre um apelo. Contudo, neste caso, é necessário aprender a punir. Dificuldade para acabar com esta mácula, não pode ser sinal de rendição do poder público.
No restaurante, a conversa mantinha o entusiasmo sobre o assunto, demonstrando que tinham gostado da palestra. Um deles perguntou ao grupo:
“Por que não tem Papa Negro e nem Grão-Mestre negro, na Maçonaria ?!”
A pergunta pareceu mais uma brincadeira e um olhou para outro e ninguém falou nada.
A Igreja Católica já teve três Papas africanos: Vitor I (189-198), Melquíades (311-314) e Gelásio I (492-496). Eles assumiram numa época de relações estreitas entre a Igreja e o Oriente Alexandria, Cartago e Hipona, que eram cidades chaves para o domínio Cristão. Até o Século V, houve um forte intercâmbio entre a Itália e o norte da África. Porém, apesar de africanos, os Papas não eram negros. Em virtude da mistura de raças na região, alguns estudiosos dizem que talvez fossem mestiços ou morenos. Não obstante, a confirmação é difícil, pois não há referências da época.
O católico negro mais próximo de se tornar Papa da Igreja Católica foi o Cardeal nigeriano Francis Arinze, muito cotado em 2013 para substituir Bento XVI, o alemão que anunciou a sua aposentadoria dando lugar ao actual Papa Francisco. Não estreou um negro na chefia do Vaticano, mas entrou o primeiro Papa latino-americano.
Quanto ao Grão-Mestre negro, na Maçonaria, a história é outra!
O Grande Oriente do Brasil teve um Grão-Mestre afrodescendente, o Irmão Marcos José da Silva, o primeiro negro a exercer este cargo no país.
O negro, Irmão José Renc dos Santos, foi Grão-Mestre Adjunto da Grande Loja Maçónica do Estado de Paulo (gestão 1998 a 2001).
Neste caso não há surpresa pois, o facto de um candidato a ingressar na Maçonaria, ser um “homem de cor” (expressão que caiu em desuso), não o impede de ser Iniciado. A sublime Ordem, além de combater a Tirania, o Despotismo, a Ignorância, o Preconceito e os Erros, luta contra o racismo. A Maçonaria tem milhares de negros, todos com chances de exercer qualquer cargo, inclusive o de Grão-Mestre.
O objectivo maior da Maçonaria é ser uma escola de vida para aqueles interessados em fazer um mundo melhor. As reuniões realizadas nos Templos não são cultos, mas sim, encontros em que são discutidos variados temas, como filosofia, história, actualidades, visando tornar feliz a Humanidade. Se nos seus primórdios a Instituição erguia catedrais e monumentos, hoje ela edifica obras de transformação social. Dentre elas o combate ao preconceito, ao racismo.
Obviamente, não somente a Sublime Ordem está nesta luta. Outras organizações e associações também trabalham neste sentido. O ideal seria se todas se aglutinassem formando um verdadeiro exército numa luta sem quartel contra o famigerado racismo.
Dentro da aprendizagem, o genuíno Maçom, mentaliza que, para a pessoa afrodescendente, a consciência da sua raça é fundamental para qualquer acção a ser executada na sua actividade. Analisa-se antes, os problemas que poderão advir serão reduzidos. Caso contrário, os incómodos serão inevitáveis.
Mesmo não sendo Grão-Mestre ou ocuparem altos cargos, muitos Maçons negros contribuíram com a História do Brasil! André Rebouças, José do Patrocínio, João Maurício Wanderley (Barão de Cotegipe), Luiz Gama, Antonio Carlos Gomes, Rui Barbosa de Oliveira, Francisco Glicério, Nilo Peçanha, Castro Alves, todos eram afrodescendentes e Maçons.
O preconceito, um dos alvos na luta da Maçonaria, é um sentimento hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio, atada à intolerância. Racismo, implícito no preconceito, é a discriminação, directa ou indirectamente, contra indivíduos ou grupos por causa da sua etnia ou cor. A Sublime Ordem dedica grande parte das suas acções para esse seguimento na sua batalha, que não pode ficar alheia à questão. A este racismo insidioso, não explícito e não manifesto que condiciona as acções individuais e o funcionamento das instituições, que não raro presenciamos. É importante devolvermos, por meio da nossa cultura e forma de comunicar, a identidade que foi roubada das pessoas por conta da escravidão e preconceito.
A cor da pele não deve e não pode ser factor de risco para o ser humano. Num país, como o nosso, onde parte expressiva da população é negra (sem contar que a padroeira é uma santa negra!), é inadmissível termos casos brutais, não raro até com morte, como tem acontecido. Ademais, no Brasil, racismo é crime (Previsto na Lei n° 7.716/1989 – assinada em 5 de Janeiro de 1989). A discriminação pode ser declarada ou disfarçada, mas a consequência é a mesma: é crime! Sabendo-se que sistemas de justiças podem falhar….
Alguns intelectuais e homens públicos apregoam o absurdo de que não há racismo no Brasil! A maior expressão do preconceito racial está, justamente, na negação desse preconceito. Entretanto o negacionismo de alguns não impede o extermínio constante da população negra; segundo o anuário de Segurança Pública, perto de 67% dos presos e 74% das vítimas de violência letal são pessoas negras. O discurso que segrega, como pretendem alguns críticos, não é aquele que reconhece o racismo que se impõe como realidade, mas aquele que nega o racismo estrutural. Racismo estrutural é o termo usado para reforçar o facto de que há sociedades estruturadas com base na discriminação que privilegia algumas raças em detrimento das outras. No Brasil, esta distinção favorece os brancos e desfavorece negros, pardos e indígenas. O pior do nosso racismo não está no sujeito que xinga ou maltrata alguém na rua, mas na estrutura invisível que a impede de entrar nos lugares em que hoje os brancos são maioria. Caímos na conta de quanto, ainda, precisamos avançar na superação de preconceitos, injustiças estruturais e violências primitivas; a Maçonaria induz o caminho da fraternidade e da amizade social para tentar a solução desse problema. A questão racial é crucial para a sociedade. Porém, não se pode permitir que o negro, pardo, indígena sejam reduzidos, apenas, a um tema.
Haveria um “privilégio branco”? Se comprovado, seria um disparate e lamentável. Todo privilégio é odioso. Privilégio é um direito especial de um grupo sobre a maioria. Uma espécie de vantagem que uma pessoa ou grupo pode receber por condições várias em face do restante da sociedade. No nosso país, considera-se que o racismo estrutura todas as relações de poder, uma premissa distorcida, que leva a generalizações infundadas como a de que pessoas brancas têm maiores salários, mais acesso à educação e até mesmo mais possibilidade de se manterem vivas. Não se trata de privilégio branco. A questão é muito mais profunda e abrangente. Afirmar que existe privilégio branco, também é racismo. A igualdade entre todos, como reconhece o artigo 5° da nossa Constituição, não pode ser garantia para o mal, dando legitimidade ao malfadado “erro communis facit us” (o erro comum faz o direito) e sim para o bem, sob pena de todas as injustiças decorrentes das desigualdades imorais, serem enquadradas como crime, não importando, portanto, a cor da pele ou a etnia.
O Historiador e sociólogo Lourenço Cardoso, ao ser perguntado “O que é branquitude enquanto conceito?”, respondeu:
“A branquitude significa a pertença étnico-racial atribuída ao branco. Podemos entendê-la como o lugar mais elevado da hierarquia racial, um poder de classificar os outros como não-brancos, colocando-os assim, como inferiores aos brancos. Ser branco expressa-se na corporeidade, isto é, a brancura, e vai além do fenótipo (características hereditárias). Ser branco consiste em ser proprietário de vantagens, privilégios raciais simbólicos e materiais”.
Nem todos concordam com esta assertiva por dar a falsa interpretação de supremacia branca.
Ângela Yvonne Davis, professora e filósofa, ensina-nos que “Numa sociedade racista não basta não ser racista: é necessário ser anti-racista. Sem acções intencionais, amplas e sistemáticas contra o racismo, esse cenário não vai mudar!”. Ela quis dizer que se torna vazia no seu sentido, na medida em que o posicionamento de muitos se restringe a mensagens e frases de efeito. Outrossim, a filósofa argumenta a necessidade da não hierarquização das opressões, isto é, o quanto é preciso considerar a intersecção de raça, classe e género para possibilitar um novo modelo de sociedade. E acrescenta dizendo que é preciso reflectir bastante para perceber as intersecções entre raça, classe e género, de forma a perceber que entre essas categorias existem relações que são mútuas e outras que são cruzadas. Ângela Davis é uma negra estadunidense.
O último livro publicado por Martin Luther King (1929-1968) traz no seu título ”Where Do We Go From Here: Chaos or Community?” (Para Onde Vamos a Partir Daqui: Caos ou Comunidade?) Para onde? É a pergunta de Luther King que permanece sem resposta. E não avançamos quase nada desde que ele morreu. Ainda lidamos com os mesmos problemas.
No romance Americanah, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, (1977- ) que conta a história de uma jovem que se muda da Nigéria para os Estados Unidos, num determinado trecho ela escreve:
“O único motivo pelo qual você diz que a raça nunca foi um problema é porque queria que não fosse. Nós todos queríamos que não fosse. Mas isso é uma mentira. Eu sou de um país onde a raça não é um problema; eu não pensava em mim mesma como uma negra e só me tornei negra quando vim para os Estados Unidos. Quando você é negro nos Estados Unidos e se apaixona por uma pessoa branca, a raça não importa quando vocês estão juntos sem mais ninguém por perto, porque então é só você e o seu amor. Mas no minuto em que põe o pé na rua, a raça importa. Mas nós não falamos sobre isso. Nem falamos com o nosso namorado branco sobre as pequenas coisas que nos irritam e as coisas que queríamos que ele entendesse melhor, pois temos medo de que ele diga que estamos exagerando ou que nos ofendemos com facilidade demais. E não queremos que diga: ‘Olhe como evoluímos, há apenas quarenta anos seria ilegal sermos um casal’, porque sabe o que a gente está pensando quando ele diz isso? Por que foi ilegal um dia, porra? Mas não dizemos nada disso. Deixamos que se acumule dentro da nossa cabeça, e quando vamos a jantares de gente liberal e legal como este, dizemos que a raça não importa porque é isso que se espera que digamos, para manter os nossos amigos liberais e legais confortáveis”.
No Brasil, as diferenças sociais entre brancos e afrodescendentes são nítidas no dia-a-dia. Além da questão económica, na qual pessoas pretas e pardas são maioria entre as que possuem rendimentos mais baixos, a persistência de situações de maior vulnerabilidade, indicada por evidência nos campos da educação, saúde, moradia, entre vários outros, mostram evidente desequilíbrio na garantia de direitos em prejuízo para a população negra. E isso é possível, também, observar a sub-representação entre líderes de equipes nas empresas, entre juízes e políticos. Não somente pela cor da pele, se há-de considerar a questão social.
A arregimentação de homens de várias raças, na Sublime Ordem, no Brasil, nascidos livres e libertos, vem desde a segunda metade do Século XIX, desempenhando um papel importante dentro do cenário de crise escravista. A Instituição estabeleceu, em todos os cantos do país, difundiu e consolidou-se como espaço da sociabilidade, principalmente, entre as camadas sociais mais abastadas e a participação de homens provenientes de camadas mais pobres da sociedade. Na Maçonaria todos são iguais.
Logo após iniciado, o Aprendiz integra-se no que a Maçonaria se propõe a desenvolver. Começa pelo intelecto e o espírito dos seus membros criando neles um compromisso com a transformação e o progresso social. É um processo de autoconhecimento e uma tarefa de lapidação de carácter que o acompanhará até chegar a Mestre Maçom. Com isso, a Sublime Ordem pretende reduzir os preconceitos existentes na sociedade, que tornam difícil a consolidação da Paz, da Felicidade e da Prosperidade dos Homens. Os Maçons passam a acreditar que primeiro é preciso conhecer a si mesmo, vencer os seus vícios e lapidar o seu espírito, para só então ser capaz de contribuir, efectivamente, para o progresso e evolução da Humanidade. Assim estará integrado a participar do combate contra a ignorância, a superstição, o fanatismo, o orgulho; a intemperança, o vício, a discórdia, a dominação, os privilégios e, principalmente, ao preconceito e racismo. Todavia, não basta o Maçom conhecer esses males da Humanidade; terá também de actuar como promotor da igualdade racial combatendo de maneira veemente e forte, assumindo a responsabilidade pela transformação do estado das coisas.
A Maçonaria sozinha não é suficiente para levar avante esta obra cujo mérito se situa em fazer com que qualquer raça, tenha os mesmos direitos na sociedade. Ela entende que numa política composta, maioritariamente, por pessoas brancas, é imperativa a participação de todos na luta anti-racista. Há de se juntar forças com outras instituições para que sejamos mais fortes. Se não enfrentarmos o racismo unidos, com o coração, coragem e urgência, a cor da pele continuará a determinar, não apenas o tamanho dos sonhos das nossas crianças, mas quem vive e quem morre. Situações similares anteriores, mostram que as práticas utilizadas não foram transformadas na profundidade e com a agilidade que se esperava. Evidentemente, que o poder público também precisa se responsabilizar por legislação e fiscalização apropriadas, e medidas jurídicas para garantir que essas práticas sejam adoptadas inteiramente e de forma eficaz. Toda atitude deve buscar a igualdade e abominar a discriminação. Tanto a Maçonaria como o Estado devem permanecer atentos, em especial organizações e associações que estariam integradas, num tipo de coalizão, envolvidas nesse movimento, sob um bem elaborado Plano de Acção, de forma estratégica, visando o futuro, avaliando o trabalho que precisa ser feito, para a igualdade de direitos e oportunidades aos negros e aos seus descendentes. Um plano consequente que enfrente as desigualdades e que se consiga uma integração racial bem-sucedida. O maior desafio, o de lembrar dia após dia que vidas negras importam, que o racismo deve acabar, que o futuro precisa ser justo e perfeito para os hoje, absurdamente, menorizados. Isto é, igualdade de oportunidades. Se a desigualdade crescer, então há erro nas nossas instituições. Na nossa história foi uma constante batalha entre o ideal, de que somos todos criados iguais, e a dura e feia realidade do racismo, nativismo e o medo que nos dilacera. A Luta é perene, mas vencer é uma incógnita.
É importante, também, o próprio negro se integrar nos movimentos da luta contra o racismo, demonstrando interesse. A afro-americana Sojourner Truth (1797-1883), foi uma abolicionista activistas dos direitos das mulheres negras, considerada uma das precursoras do feminismo negro. Ela nasceu escravizada, e, quando conseguiu a liberdade, actuou como abolicionista e pregadora evangélica itinerante. No seu discurso famoso “Ain’t I a Woman?” (“Não sou eu uma mulher?”) Sojourner Truth denunciava as disparidades entre mulheres negras e mulheres brancas. Trecho do seu discurso:
“Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagem, devem ser carregadas para atravessar valas e merecem o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagem ou saltar sobre poças de lama. E nunca me ofereceram o melhor lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim! Olhem para o meu braço! Eu capinei, eu plantei, juntei palha nos celeiros e homem nenhum conseguiu me superar! E não sou uma mulher? Eu consegui trabalhar e comer tanto quanto um homem – quando tinha o que comer – e também aguentei chicotadas! E não sou mulher? Eu pari 5 filhos e vi a maioria deles ser vendida para a escravidão, e quando eu clamei com minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu. E não sou uma mulher?”
Apesar de mais de 200 anos terem decorridos, a experiência de Sojourner Truth ecoa na comunidade negra dos Estados Unidos até hoje. Ela encontrou na fé o impulso para lutar pelo seu povo. A espiritualidade, em todas as suas expressões, é uma forma de humanização para o povo negro. O discurso é um marco nas relações entre o feminismo e o abolicionismo, e é considerado uma das primeiras falas do feminismo negro.
O ímpeto, das mulheres negras do Brasil, não difere das norte-americanas. Elas, também, combateram a escravidão de dentro da senzala, e da casa-grande, onde se perpetravam estupros colectivos, e, na resistência, o que hoje chamam de feminicídio.
São visíveis os avanços ocorridos em virtude das políticas que pretendem promover a igualdade racial. Todavia, ainda fica evidente a necessidade de ampliação de medidas ao combate à desigualdade Não obstante, não será a partir de classificações arbitrárias ou ideológicas que corrigiremos o erro histórico do preconceito e racismo, que espelham o Brasil de desigualdade. Há necessidade de sairmos do campo ideológico e teórico com práticas e atitudes positivas e concretas, cada um fazendo a sua parte, conscientemente. Censurar livros infantis de Monteiro Lobatto (e de outros autores) é um exercício fútil. A literatura tem, entre as suas funções, a de documento histórico de uma época e do pensamento do seu autor; alterar trechos, não importa por qual motivo bem-intencionado, causará inevitável distorção do conteúdo.
O debate sobre a questão racial explodiu, mundialmente! Tem havido congressos, palestras, encontros, seminários, painéis, todo mundo discutindo se o racismo existe ou não Porém, o que realmente, de prático, foi realizado até agora? Muito pouco ou quase nada. Enquanto isso a comunidade negra continua com as adversidades presentes nas nossas vidas. Nesses colóquios muita coisa já foi dita, mas muito precisa ser realizado, e o denunciar não dispensa o agir.
Nos debates, por vezes, alguém cita “Democracia Racial”. A Democracia Racial, no entanto, é desmitificada por sociólogos e antropólogos que estudam o preconceito e por vários indicadores sociais e económicos que revelam desigualdades ligadas à etnia. O preconceito está arraigado na sociedade em larga escala. Desta forma, a verdadeira Democracia Racial é uma meta que ainda está longe de ser atingida e por enquanto é um mito que tenta criar uma imagem positiva da sociedade, que não coincide com os factos documentados.
A versão dominante sobre o passado brasileiro contém imprecisões históricas e ajuda a manter a supremacia branca viva. Entretanto, não devemos desprezar o que os homens fizeram no século XX e nos primeiros anos deste. É o ocorrido, consubstanciado em categorias como sangue, raça, língua e cultura, que forja uma nação isenta de marginalização racista. Tentarmos verificar que no futuro à competição das raças, a sobrevivência dos mais aptos significa o triunfo do bom, do mais belo e da verdade, de que devemos ser capazes de preservar para as civilizações futuras tudo o que é realmente bom, nobre e forte, e não continuar estimulando a cobiça, a indecência e a crueldade. Para trazer esta esperança para proveito, estaremos compelidos, diariamente, num estudo consciente dos fenómenos que envolvem a convivência entre as raças, porém um estudo franco, justo e perfeito, não falsificado e pintado com as cores dos nossos desejos e medos. A proposta é bem objectiva: questionar, propor, imaginar a participação negra na construção do futuro. E estamos vivenciando um momento favorável para esta empreitada.
Qualquer que seja tipo de movimento contra o racismo, que for engendrado, deverá evitar a utilização do “politicamente correcto” É uma daquelas expressões que, de tão enraizadas no senso comum, tornam-se difíceis de delimitar, conceitualmente. Primeiro por se tratar de algo muito vago e pode significar várias coisas. Segundo, é uma maneira útil e poderosa de consolidar algum tipo de identidade política antidemocrática. O adjectivo “politicamente correcto” é usado para descrever linguagens ou acções que devem ser evitadas por serem vistas como “excludentes” ou “ofensivas”. Teoricamente, o politicamente correcto defende a censura de ideias que marginalizam ou insultam grupos de pessoas tidos como desfavorecidos ou discriminados, especialmente grupos definidos por género, raça ou transgéneros.
Os obstáculos para implementar práticas institucionais anti-racistas e a dificuldade de tornar o sistema de justiça mais diverso e igual precisam ser superados de forma rápida, devendo contar também com o olhar e a experiência das pessoas negras. Sem dar combate com vigor, o racismo, o preconceito, a intolerância, a xenofobia e violência, a sociedade, num todo, perde. Agressores presos, vítimas mortas, famílias negras enlutadas, famílias brancas destruídas, categorias profissionais coagidas, empresas desacreditadas e com conceito ridicularizado. E a comunidade agredida e desalentada. Combater a discriminação racial em todas as suas manifestações individuais, estruturais e institucionais é premente! Ainda que a diferença racial seja uma dura realidade, é sabido que, para algo grande acontecer, é preciso envolver iniciativa privada, sociedade civil, Ministério Público, Judiciário e governo num todo para que seja possível a construção de um mundo mais justo e perfeito.
É uma luta de todos nós!….
E. Figueiredo
Bibliografia
- Adichie, Chimamanda Ngozi – Americanah
- Azevedo, Célia Maria Marinho – Maçonaria, Anti-racismo e Cidadania
- Cardoso, Lourenço – O Branco Ante a Rebeldia do Desejo
- Davis, Ângela Yvonne – Mulheres Raça e Classe
- Du Bois, William Edward Burghardt = As Almas do Povo Negro
- Fanon, Frantz Omar – Pele Negra, Máscaras Brancas
- Figueiredo, E – A Revolta dos Alfaiates – (Artigo)
- King, Martin Luther – Por Que Não Podemos Esperar
- Lima, Ivan Costa – História da Educação do Negro(a) no Brasil
- Ribeiro, Djamila – Pequeno Manuel Anti-racista
- Truth, Sojourner – E não sou uma Mulher?
- Voltaire – Tratado Sobre a Tolerância
- Ritual da GLESP
