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A filosofia da Maçonaria – William Preston

✍️ Desconhecido 📅 07/02/2021 👁️ 8 Leituras

filosofia

Os FILÓSOFOS não estão de forma alguma de acordo no que diz respeito ao âmbito e ao assunto da filosofia. Nem os estudiosos Maçónicos estão de acordo com relação ao âmbito e ao propósito da Maçonaria. Consequentemente, não se pode esperar definir e delimitar a filosofia Maçónica de acordo com o método fácil do editor de Dickens que escreveu sobre a metafísica chinesa lendo na Enciclopédia sobre a China e sobre a metafísica e combinando as suas informações. É suficiente dizer desde o início que, no sentido em que os filósofos da Maçonaria usaram o termo, a filosofia é a ciência dos fundamentos. Possivelmente seria mais correcto pensar na filosofia da Maçonaria como conhecimento Maçónico organizado – como um sistema de conhecimento Maçónico. Mas passou a haver um ramo bem definido da aprendizagem Maçónica que tem a ver com certas questões fundamentais; e essas questões fundamentais podem ser chamadas de problemas da filosofia Maçónica, uma vez que aquele ramo da aprendizagem Maçónica que trata delas tem sido comumente chamado de filosofia da Maçonaria. Estas questões fundamentais são três:

  1. Qual é a natureza e o propósito da Maçonaria como instituição? Para que existe? O que procura fazer? É claro que para o filósofo isto envolve também e principalmente as questões: o que deve ser a Maçonaria? Para que deveria existir? O que deve buscar como seu fim?
  2. Qual é – e isto envolve o que deveria ser – a relação da Maçonaria com as outras instituições humanas, especialmente aquelas voltadas para fins semelhantes? Qual é o seu lugar num esquema racional das actividades humanas?
  3. Quais são os princípios fundamentais pelos quais a Maçonaria é governada para atingir o fim que busca? Isto, novamente, para o filósofo, envolve a questão de quais deveriam ser esses princípios.

Quatro eminentes estudiosos Maçónicos tentaram responder a estas perguntas e, ao fazê-lo, deram-nos quatro sistemas de filosofia Maçónica, a saber, William Preston, Karl Christian Friedrich Krause, George Oliver e Albert Pike. Destes quatro sistemas de filosofia Maçónica, dois, se assim posso dizer, são sistemas intelectuais. Eles apelam e são baseados apenas na razão. Estes dois são o sistema de Preston e o de Krause. Os outros dois são, se assim posso dizer, sistemas espirituais. Eles não fluem do racionalismo do século XVIII, mas, em vez disso, surgem de uma reacção às ideias místicas dos filósofos herméticos do século XVII. Como tentarei mostrar a seguir, isso é característico de cada um, embora muito mais marcado num.

Resumidamente, então, temos quatro sistemas de filosofia Maçónica. Dois são sistemas intelectuais: primeiro, o de Preston, cuja palavra-chave é Conhecimento; segundo, o de Krause, cuja palavra-chave é Moral.

Dois são sistemas espirituais: primeiro o de Oliver, cuja palavra-chave é Tradição; e em segundo lugar, o de Pike, cuja palavra-chave é Simbolismo.

Comparando os dois sistemas intelectuais da filosofia Maçónica, a importância intrínseca de Preston é muito menor do que a de Krause. A filosofia da Maçonaria de Krause tem um valor muito alto por si só. Por outro lado, o principal interesse da filosofia da Maçonaria de Preston, além da sua posição histórica entre os filósofos Maçónicos, deve ser encontrado na circunstância de que a sua filosofia é a filosofia das nossas palestras americanas e, portanto, é a única com a qual o Maçom Americano médio tem qualquer familiaridade.

Preston não era, como Krause, um homem à frente do seu tempo que ensinou o seu próprio tempo e o futuro. Ele era totalmente um filho do seu tempo. Portanto, para compreender os seus escritos, devemos conhecer o homem e a época. Consequentemente, dividirei esta análise em três partes:

  • homem,
  • tempo,
  • A filosofia da Maçonaria de Preston como um produto dos dois.

O homem

William Preston nasceu em Edimburgo em 7 de agosto de 1742. O seu pai era um solicitador sénior – o ramo inferior da profissão jurídica – e parece ter sido um homem de alguma educação e habilidade. De qualquer forma, ele enviou William para o colégio em Edimburgo, cujo calibre naqueles dias pode ser julgado pela circunstância de o menino ter entrado lá aos seis anos – embora ele fosse considerado muito precoce. Na escola, fez alguns progressos no latim e até começou no grego. Mas tudo isto foi numa idade precoce. O seu pai morreu quando William era apenas um menino e ele foi tirado da escola, aparentemente antes dos doze anos. O seu pai tinha-o deixado aos cuidados de Thomas Ruddiman, um linguista conhecido, e ele tornou-se o escrivão deste. Mais tarde, Ruddiman tornou William aprendiz do seu irmão que era impressor, de modo que Preston aprendeu o ofício de impressor quando tinha quatorze ou quinze anos. Com a morte do seu patrono (aparentemente nada tendo por herança de seu pai) Preston foi para a gráfica como aprendiz e trabalhou lá como jornaleiro até 1762. Naquele ano, com o consentimento do senhor de quem tinha sido aprendiz , ele partiu para Londres. Ele tinha apenas dezoito anos, mas levou uma carta para o impressor do rei e, assim, encontrou emprego imediatamente; permaneceu ao serviço deste último durante substancialmente todo o período restante da sua vida.

As habilidades de Preston na gráfica, mostraram-se desde o início. Ele não apenas definiu o assunto em que trabalhava, mas planeou de alguma forma lê-lo e pensar a seu respeito. Ao seleccionar a grande variedade de matérias que chegavam ao impressor do rei, adquiriu um notável estilo literário e tornou-se conhecido dos autores cujos livros e escritos ajudou a estabelecer como juiz de estilo e como crítico. Assim, tornou-se revisor e corrector para a imprensa e trabalhou como tal durante a maior parte da sua carreira. Fez este tipo de trabalho nos escritos de Gibbon, Hume, Robertson e autores dessa craveira, e as cópias de apresentação das obras desses autores, que foram encontradas entre os pertences de Preston após a sua morte, atestam o valor que eles atribuíram aos trabalhos da impressora.

Preston tinha acabado de atingir a maioridade quando foi feito Maçom numa loja de escoceses em Londres. Esta loja tinha tentado obter um mandado da Grande Loja da Escócia, mas esse corpo muito apropriadamente recusou-se a invadir Londres, e os peticionários escoceses voltaram-se para a Grande Loja dos Antigos, por quem foram licenciados. Assim, Preston foi iniciado no sistema do seu grande rival, Dermott, da mesma forma que este foi inicialmente afiliado a uma Loja regular ou moderna. De acordo com o uso Inglês, que permite a associação simultânea em várias lojas, Preston tornou-se membro de uma loja subordinada à antiga Grande Loja. Algo aqui o converteu, e ele persuadiu a Loja na qual tinha sido iniciado a se separar dos Antigos e ser reconstituída pelos chamados Modernos. Assim, lançou a sua sorte definitivamente com o último e logo se tornou o seu maior defensor. Lembremo-nos de que o Preston que fez tudo isso era um jovem de vinte e três anos e um impressor.

Aos vinte e cinco anos, tornou-se Venerável Mestre da Loja recém-constituída e, como tal, concebeu ser seu dever fazer um estudo completo da instituição Maçónica. Vale a pena citar as suas próprias palavras:

Quando tive a honra de ser eleito Venerável Mestre de uma Loja pela primeira vez, achei apropriado informar-me totalmente sobre as regras gerais da sociedade, para que pudesse cumprir o meu próprio dever e impor oficialmente a obediência aos outros. Os métodos que adoptei com esta atitude, despertou em alguns conhecimentos superficiais uma aversão absoluta ao que eles consideravam como inovações, e noutros, que eram bem mais informados, um ciúme de preeminência que os princípios da Maçonaria deveriam ter verificado. Não obstante esses desencorajamentos, no entanto, eu insisti na minha intenção“.

Na verdade, não é de se admirar que as pretensões desse impressor jornaleiro de 25 anos tivessem sido exploradas por Maçons mais velhos. Mas, por enquanto, Preston não teve de lutar com nada, para além de sacudir a cabeça. Ao contrário do erudito, filosófico, imperturbável e académico Krause, Preston era um lutador. Provavelmente o seu dogmatismo confiante, que se mostra ao longo das suas palestras, a sua agressividade e a sua ambição fizeram mais inimigos do que as supostas inovações resultantes da sua pesquisa Maçónica. Para além disto, não devemos esquecer que ele teve que superar três obstáculos muito graves, a saber: a dependência para a sua sobrevivência de cada dia de um comércio em que trabalhava doze horas por dia, a sua juventude e a ligação recente com a fraternidade. O facto de Preston não ter sido perseguido nesta fase da sua carreira e de ter conseguido assumir a liderança como o fez é um testemunho completo das suas capacidades.

Preston tinha três grandes qualificações para o trabalho que empreendeu:

  1. Diligência incansável, por meio da qual encontrou tempo e meios para ler tudo o que dizia respeito à Maçonaria após doze horas de trabalho diário no seu ofício, seis dias por semana;
  2. uma memória maravilhosa, da qual nenhum detalhe da sua leitura jamais escapou; e
  3. um grande poder de fazer amigos e obter a sua cooperação entusiástica. Ele utilizou este último recurso abundantemente, correspondendo-se diligentemente com todos os Maçons bem informados no exterior e aproveitando todas as oportunidades para se relacionar com os Maçons em casa. Os resultados desta comunicação com todos os maçons proeminentes do seu tempo podem ser vistos nas suas palestras.

Foi um passo ousado, mas muito oportuno, quando este jovem Mestre de uma nova Loja decidiu reescrever, ou melhor, escrever as palestras da Maçonaria. As antigas “charges” eram lidas originalmente para o iniciado, e daí cresceu a prática de expor oralmente o seu conteúdo e comentar os pontos importantes. Transformar isto num sistema de palestras fixas e dar-lhes um lugar definido no ritual era uma etapa muito necessária no desenvolvimento do trabalho. Mas foi um passo tão diferente que a facilidade com que foi alcançado é tão impressionante quanto o próprio resultado.

Quando Preston começou a composição das suas palestras, organizou uma espécie de clube, composto pelos seus amigos, com o objectivo de o ouvir e criticar. Este clube costumava reunir-se duas vezes por semana para repassar, criticar e aprender a palestra como Preston a concebia. Finalmente, em 1772, após sete anos, ele interessou os oficiais da Grande Loja pelo seu trabalho e fez uma oração, que aparece na primeira edição das suas Ilustrações da Maçonaria, antes de uma reunião de eminentes Maçons, incluindo os principais Grandes Oficiais. Após a oração, ele expôs o seu sistema para a reunião. Os seus ouvintes aprovaram as palestras e, embora a decisão oficial não tenha sido dada imediatamente, o resultado foi dar-lhes uma base que assegurou o seu sucesso final. Os seus discípulos começaram agora a ir de loja em loja, dando as suas palestras e a voltar às reuniões semanais com críticas e sugestões. Assim, em 1774, o seu sistema estava completo. Ele então instituiu uma escola regular de instrução, que obteve a aprovação da Grande Loja e, assim, difundiu as suas palestras por toda a Inglaterra. Isto tornou-o o Maçom mais proeminente da época, de modo que foi eleito para a famosa Loja da Antiguidade, uma das quatro antigas lojas de 1717, e aquela que reivindicou Sir Christopher Wren como Antigo Venerável. Ele logo eleito Venerável Mestre desta Loja e continuou assim por muitos anos, dando à loja um lugar preeminente na Maçonaria Inglesa, que tem mantido desde então.

A carreira Maçónica de Preston, no entanto, não foi de triunfo ininterrupto. Em 1779, as suas opiniões sobre a história Maçónica e a jurisprudência Maçónica colocaram-no em conflito com a Grande Loja. É difícil obter os factos exactos na massa de escritos controversos que essa disputa trouxe. Parece ter sucedido o seguinte:

A Grande Loja tinha uma regra contra as lojas irem em procissões públicas. A Loja da Antiguidade determinou no dia de São João, 1777, ir em grupo para a igreja de São Dunstan, a poucos passos do Templo da Loja. Alguns dos membros protestaram contra isto como estando em conflito com a regra da Grande Loja e, em consequência, apenas dez compareceram. Estes dez vestiram-se na sacristia da igreja, sentaram-se no mesmo banco durante o culto e o sermão e, em seguida, atravessaram a rua até ao Templo da Loja usando as suas luvas e aventais. Esta açcão deu origem a um debate na Loja na reunião seguinte, e no debate Preston expressou a opinião de que a Loja da Antiguidade, que era mais antiga que a Grande Loja e havia participado na sua formação, tinha certos privilégios inerentes, e que nunca tinha perdido o direito de ir em procissão como em 1694, antes que existisse qualquer Grande Loja. Até agora, a controvérsia pode recordar-nos as diferenças recentes entre o Irmão Pitts e as autoridades da Grande Loja do Michigan. Mas a autoridade das Grandes Lojas era muito recente naquela época para ser conveniente ignorar tal doutrina quando anunciada pelo primeiro estudioso Maçónico da época. Consequentemente, por manter esta opinião, Preston foi expulso pela Grande Loja, e em consequência a Loja da Antiguidade cortou a sua ligação com a Grande Loja dos Modernos e entrou em relações com a revivida Grande Loja em York. A separação só se resolveu em 1787.

Após a resolução da controvérsia com a Grande Loja dos Modernos, Preston, restaurado de todas as suas honras e dignidades, imediatamente retomou as suas actividades Maçónicas. Entre outras coisas, organizou uma sociedade de eruditos Maçónicos, a primeira do seu tipo. Era conhecida como Ordem dos Harodim e incluía os Maçons mais ilustres da época. Preston deu as suas palestras nesta sociedade e, por meio dela, elas vieram para a América, onde são a base das nossas palestras Maçónicas. Infelizmente, na União na Inglaterra em 1813, as suas palestras foram substituídas pelas de Hemming, que os críticos concordam em considerar muito inferiores. Mas Preston estava doente na altura e parece não ter participado nas negociações que conduziram à União, nem na própria União. Ele morreu em 1818, aos 76 anos, após uma doença prolongada. Uma vida diligente e frugal permitiu-lhe ganhar algum dinheiro e ele deixou 800 libras para usos Maçónicos, 500 libras para a instituição de caridade Maçónica para órfãos – pelo qual, deixado o próprio órfão antes dos doze anos, ele tinha um simpatia natural – e 300 libras para apoiar a chamada palestra Prestoniana – uma palestra anual nas palavras de Preston literalmente por um conferencista nomeado pela Grande Loja. Esta palestra ainda é mantida e serve para nos lembrar que Preston foi o primeiro a insistir na minuciosa precisão verbal que agora é uma característica das nossas palestras. Deve-se notar também que, para além de suas palestras, o livro de Preston, Ilustrações da Maçonaria, teve grande influência. Teve cerca de vinte edições na Inglaterra, quatro ou cinco na América e duas na Alemanha

Já chega de falar sobre o homem.

O tempo

Três características marcantes dos primeiros três quartos do século XVIII em Inglaterra são importantes para a compreensão da filosofia da Maçonaria de Preston:

  1. Foi um período de quiescência mental;
  2. tanto em Inglaterra quanto em outros lugares, foi um período de grande refinamento formal;
  3. era a chamada idade da razão, quando o intelecto era considerado auto-suficiente e os homens tinham a certeza de que o conhecimento era uma panaceia.

1 – Em contraste com o século XVII, o século XVIII foi um período de quietude. A sociedade tinha deixado de estar num estado de furiosa ebulição, nem havia um conflito de ideias manifestamente irreconciliáveis ​​como no tempo que acabava de passar. À superfície, havia harmonia. É verdade que, como os eventos do final do século mostraram, foi uma harmonia de compromisso, e não de reconciliação – uma trégua, não uma paz. Mas os homens pararam por um tempo de discutir sobre os fundamentos e voltaram a sua atenção para os detalhes e a forma. Uma filosofia teológica comum era aceite por homens que antes se denunciavam uns aos outros por diferenças de opinião relativamente triviais. Na política, Whig e Tory tinham-se tornado pouco mais do que nomes, e ambas as partes concordaram em aceitar, com poucas modificações, o corpo de doutrina posteriormente conhecido como os princípios da Revolução Inglesa. As ideias políticas foram fixadas. Os homens concebiam um pacto social a partir do qual todos os detalhes dos direitos e deveres sociais e políticos podiam ser deduzidos por raciocínio abstracto e acreditavam que era possível, desta forma, elaborar um código modelo para o legislador, uma pedra de toque da lei sã para o juiz e um guia infalível de conduta privada para o indivíduo. Na literatura e na arte havia uma aquiescência semelhante aos cânones aceites.

Um certo estilo supostamente clássico foi considerado o último e o único modo de expressão permitido. Por outras palavras, a aquiescência era a tendência dominante e a finalidade era a ideia dominante. Por exemplo, Blackstone, um verdadeiro representante do século, pensava complacentemente no sistema jurídico da sua época, com sua pesada carga de arcaísmos, quase maduro para o movimento de reforma legislativa da próxima geração, como substancialmente perfeito. Nada, pensava ele, restava para a conclusão de quinhentos anos de desenvolvimento jurídico, a não ser consertar alguns detalhes triviais. Com o mesmo espírito de finalidade, os autores das nossas declarações de direitos comprometeram-se a traçar marcos legais e políticos para sempre.

Na verdade, a filosofia jurídica absoluta dos nossos livros didácticos, que tanto causou problemas aos reformadores sociais de ontem e de hoje, existe desde o século XVIII. Foi neste espírito de finalidade, com esta mesma confiança de que o seu tempo tinha a chave da razão e podia pronunciar-se de uma vez por todas para todos os tempos, para todos os lugares e para todos os povos, que Preston enquadrou os discursos dogmáticos que aceitamos tomar como palestras da Maçonaria.

2 – Para o mundo moderno, o século XVIII foi por excelência o período do formalismo. Foi o período de enorme refinamento formal em todos os departamentos da actividade humana. Era a época dos versos formais e da dicção heróica, de uma escola clássica na arte que perdia de vista o espírito de reproduzir as formas da antiguidade, da elaborada e envolvente etiqueta da corte, da diplomacia formal, da burocracia e do Red Tape and Circumlocution Office (Charles Dickens) em todos as áreas da administração, de tácticas militares formais em que a eficiência no campo cedia às exigências do desfile e os soldados entravam em campo vestidos como que para o salão de baile. A nossa insistência na reprodução fonográfica perfeita do ritual vem desse período, e Preston fixou essa ideia nas nossas palestras, talvez para sempre.

3 – A terceira circunstância, de que o século XVIII foi a era da filosofia puramente intelectualista, determinou naturalmente a filosofia da Maçonaria de Preston. Naquela época, a razão era a ideia central de todo o pensamento filosófico. O conhecimento era considerado o solvente universal. Portanto, quando Preston descobriu nas suas antigas palestras que, entre outras coisas, a Maçonaria era um corpo de conhecimento e descobriu nas antigas leituras uma história do conhecimento e da sua transmissão desde a antiguidade, era inevitável que ele fizesse do conhecimento o ponto central do seu sistema. O quão meticulosamente ele fez isso fica evidente hoje na nossa palestra American Fellowcraft, que, com todos os resumos a que foi submetida, ainda é essencialmente Prestoniana. O tempo não é suficiente para ler Preston na sua prolixidade retórica original. Mas alguns exemplos da versão de Webb, que nesses pontos é apenas um resumo, servirão para esclarecer este ponto. As citações são de um monitor Webb, mas foram comparadas em cada caso com uma versão autêntica de Preston.

Os Globos são dois corpos esféricos artificiais, em cuja superfície convexa estão representados os países, mares e várias partes da terra, a face dos céus, as revoluções planetárias e outros particulares.
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“A esfera, com as partes da terra delineadas na sua superfície, é chamada de Globo Terrestre; e a com as constelações, e outros corpos celestes, o Globo Celestial.
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“O principal uso dos Globos, além de servir como mapas para distinguir as partes externas da Terra, e a situação das estrelas fixas, é ilustrar e explicar os fenómenos decorrentes da revolução anual e da rotação diurna da Terra em torno do seu próprio eixo. São os instrumentos mais nobres para melhorar a mente, e dar-lhe a ideia mais distinta de qualquer problema ou proposição, bem como possibilitar a sua resolução“.

Tem sido apontado frequentemente que estes globos nas colunas são puros anacronismos. Devem-se ao desejo de Preston de fazer com que as palestras Maçónicas ensinassem astronomia, que naquela época era a ciência dominante.

Observe particularmente o propósito, conforme a palestra o expõe expressamente: “para melhorar a mente e dar-lhe a ideia mais distinta de qualquer problema ou proposição, bem como habilitá-la a resolvê-los“.

Por outras palavras, estes globos não são simbólicos, não foram projectados para melhorar a moral. Eles repousam sobre as colunas, grotescamente deslocados, simples e exclusivamente para ensinar à Loja os elementos de geografia e astronomia.

Devemos lembrar que Preston, que trabalhou doze horas por dia ajustando letras ou lendo provas, teria uma visão muito diferente do Maçom de hoje. O que são lugares-comuns da ciência agora não o eram de forma alguma então. Para ele, o ensino dos globos era um assunto perfeitamente sério.

Passe-se para a solene dissertação sobre arquitectura na nossa palestra de Companheiro. Da forma como o damos, é Preston não adulterado, mas felizmente é frequentemente muito resumido. Você sabe como funciona, como descreve cada ordem em detalhes, dá as proporções, conta qual era o modelo, anexa uma crítica artística e apresenta a lenda da invenção da ordem coríntia por Calímaco. A base de tudo isto está nas antigas “charges”. Mas nas mãos de Preston, tornou-se simplesmente um tratado de arquitectura. O Maçom que o ouvisse repetidamente tornar-se-ia um homem erudito. Ele saberia o que um homem culto deve saber sobre as ordens da arquitectura.

Da mesma forma, ele dá-nos um resumo sobre Euclides:

A geometria trata dos poderes e propriedades das magnitudes em geral, onde o comprimento, a largura e a espessura são considerados, de um ponto a uma linha, de uma linha a uma superfície e de uma superfície a um sólido. Um ponto é uma figura adimensional, ou uma parte indivisível do espaço. Uma linha é um ponto continuado e uma figura com uma capacidade, a saber, comprimento. Uma superfície é uma figura de duas dimensões, a saber, comprimento e largura. Um sólido é uma figura de três dimensões, a saber, comprimento, largura e espessura“.

Mas chega disto. Você percebe o raciocínio. Ao tornar as palestras epítomes de todos os grandes ramos do conhecimento, a Loja Maçónica pode tornar-se uma escola na qual todos os homens, antes dos dias das escolas públicas e das universidades abertas, poderiam adquirir conhecimento, pelo qual somente eles poderiam alcançar todas as coisas . Se todos os homens tivessem conhecimento, pensou Preston, todos os humanos, todos os problemas sociais estariam resolvidos.

Com conhecimento sobre o qual proceder dedutivamente, a razão humana eliminaria a necessidade de governo e da força e uma era de perfeição estaria próxima. Mas aqueles foram os dias de escolas públicas que não eram para muitos. O solvente inestimável, o conhecimento, estava fora do alcance da maioria dos homens que mais precisavam dele. Portanto, para Preston, em primeiro lugar e acima de tudo, a ordem Maçónica existia para propagar e difundir o conhecimento. Para isto, portanto, ele aproveitou a oportunidade proporcionada pelas palestras e buscou por meio delas desenvolver num todo inteligente, todo o conhecimento da sua época.

Agora que o conhecimento se tornou vasto demais para estar contido em qualquer esquema e multifacetado para ser formulado quanto a qualquer um dos seus detalhes, mesmo para a breve vida de um texto moderno, os defeitos de tal esquema são bastante óbvios. Que esta era a concepção de Preston, pode ser demonstrado abundantemente nas suas palestras. Por exemplo:

O olfacto é aquele sentido pelo qual distinguimos odores, os vários tipos dos quais transmitem diferentes opiniões à mente. Corpos animais e vegetais, e, de facto, a maioria dos outros corpos, enquanto expostos ao ar, continuamente emitem eflúvios de vasta subtileza, tanto no estado de vida e crescimento, como no estado de fermentação e putrefacção. Estes eflúvios, sendo sugados para as narinas juntamente com o ar, são os meios pelos quais todos os corpos são cheirados“.

Este pedaço da física do século XVIII, que nos faz sorrir hoje, ainda é gravemente recitada em muitas das nossas lojas como se tivesse alguma importância real ou simbólica. Significa simplesmente que Preston se estava a esforçar para escrever uma introdução à fisiologia e à física.

Ele afirma a sua teoria expressamente nestas palavras:

Todo o nosso conhecimento deve depende da mente; o que, portanto, pode ser um assunto mais adequado para a investigação dos maçons? Por dissecação e observação anatómica, familiarizamo-nos com o corpo; mas é apenas pela anatomia da mente que descobrimos os seus poderes e princípios“.

Ou seja: todo conhecimento depende da mente. Portanto, o Maçom deve estudar a mente como o instrumento de aquisição de conhecimento, a única coisa necessária.

Hoje, esta parece uma concepção estreita e inadequada. Mas a base de tal filosofia da Maçonaria é perfeitamente clara se nos lembrarmos do homem e da época. Devemos pensar nestas palestras como o trabalho de um impressor, filho de um pai instruído, mas tirado da escola antes dos doze anos e condenado a estudar o que pudesse nos manuscritos que montou na loja de impressão ou pelo trabalho incansável à noite após um dia inteiro de trabalho. Devemos pensá-los como o trabalho de um trabalhador, principalmente autodidacta, associado aos grandes literatos da época, que ele conheceu por meio da preparação dos seus manuscritos para a imprensa e da leitura das suas provas, e assim cheio do seu entusiasmo pelo esclarecimento no que os homens pensavam na idade da razão. Devemos pensar neles como a obra de alguém imbuído das noções cardeais da época – intelectualismo, a suficiência total da razão, a necessidade absoluta de conhecimento como a base sobre a qual a razão procede, e a finalidade.

Como é que, então, Preston responde aos três problemas da filosofia Maçónica?

  1. Para que é que existe a Maçonaria? Qual é o fim e o propósito da Ordem? Preston responderia: Difundir a luz, isto é, difundir o conhecimento entre os homens. Isto, diria ele, é o fim imediato. Ele poderia concordar com Krause que o propósito final é aperfeiçoar os homens – torná-los melhores, mais sábios e consequentemente mais felizes. Mas o meio para atingir essa perfeição, diria ele, é a difusão geral do conhecimento. Portanto, acima de tudo, a Maçonaria existe para promover o conhecimento; o Maçom deve, antes de tudo, cultivar a sua mente, deve estudar as artes liberais e as ciências; deve tornar-se um homem culto.
  2. Qual é a relação da Maçonaria com as outras actividades humanas? Preston não responde a essa pergunta directamente em nenhum lugar dos seus escritos. Mas podemos deduzir que ele teria dito algo assim: O estado busca tornar os homens melhores e mais felizes preservando a ordem. A igreja busca esse fim cultivando a pessoa moral e mantendo em segundo plano sanções sobrenaturais. A Maçonaria esforça-se para tornar os homens melhores e mais felizes, ensinando-os e difundindo o conhecimento entre eles. Isto, tenha-se em mente, foi antes que a educação das massas se tornasse uma função do Estado.
  3. Como é que a Maçonaria procura atingir os seus objectivos? Quais são os princípios pelos quais ela é governada para atingir o seu fim?

Preston responde que tanto por símbolos quanto por palestras o Maçom é (primeiro) admoestado a estudar e adquirir aprendizagem e (segundo) realmente ensinado um sistema completo de conhecimento organizado. Temos as suas próprias palavras para ambas as ideias. Quanto ao primeiro, no seu sistema tanto as palestras quanto as “charges” o reiteram. Por exemplo: “O estudo das artes liberais, aquele valioso ramo da educação que tende tão eficazmente a polir e adornar a mente, é seriamente recomendado para a sua consideração“. Novamente, observe como ele discorre sobre as vantagens de cada arte à medida que a expõe:

A gramática ensina o arranjo adequado das palavras de acordo com o idioma ou dialecto de qualquer pessoa em particular, e a excelência de pronúncia que nos permite falar ou escrever uma língua com precisão, de acordo com a razão e o uso correcto. A retórica ensina-nos a falar abundante e fluentemente sobre qualquer assunto, não apenas com propriedade, mas com todas as vantagens da força e elegância, sabiamente planeando cativar o ouvinte pela força do argumento e beleza da expressão, seja para suplicar e exortar, ou para admoestar ou aplaudir“.

Quanto à segunda proposição, um exemplo será suficiente:

As ferramentas e os instrumentos de arquitectura são seleccionados pela Fraternidade para imprimir na memória verdades sábias e sérias”.

Por outras palavras, até mesmo o propósito dos símbolos é ensinar verdades sábias e sérias. A palavra sério aqui é significativa. É palpavelmente um golpe para aqueles dos seus Irmãos que estavam inclinados a ser místicos e a se envolver com o que Preston considerava o jargão vazio dos filósofos herméticos.

A filosofia da Maçonaria de Preston como um produto dos dois

Finalmente, para mostrar a sua estimativa sobre o que estava a fazer e, portanto, o que, na sua opinião, as palestras Maçónicas deveriam ser, ele mesmo diz sobre a sua palestra de Companheiro: “Esta palestra contém um sistema regular de ciência [observe que ciência significava conhecimento] demonstrado nos princípios mais claros e estabelecidos na base mais firme“.

Não é preciso dizer que não podemos aceitar a filosofia Prestoniana da Maçonaria como suficiente para os Maçons de hoje. Muito menos podemos aceitar os detalhes ou mesmo a estrutura geral do seu ambicioso esquema para expor todo o conhecimento e apresentar um esboço completo de uma educação liberal em três palestras. Não precisamos de nos surpreender de que a filosofia Maçónica tenha feito tão pouco progresso na Maçonaria anglo-americana quando reflectimos que isso é o que fomos criados e que é tudo o que a maioria dos Maçons já ouviu falar. Ela vem com uma sanção oficial que parece impedir a investigação, e esquecemos o seu propósito nos seus detalhes obsoletos. Mas suspeito que cometemos uma grande injustiça com Preston ao preservar assim os termos literais das palestras em detrimento da sua ideia fundamental. Na sua época, eles ensinavam – hoje não. Suponha que hoje um homem com a diligência incansável de Preston tentasse um novo conjunto de palestras que deveria unificar o conhecimento e apresentar os seus fundamentos para que o homem comum pudesse compreendê-los. Para usar as palavras de Preston, suponha que palestras tenham sido escritas, como resultado de sete anos de trabalho e da cooperação de uma sociedade de críticos, que estabeleceu um sistema regular de conhecimento moderno demonstrado nos princípios mais claros e estabelecido nos alicerces mais firmes . Suponha, se quiser, que isto se limita simplesmente ao conhecimento da Maçonaria. Não seria a ideia real de Preston (numa época de escolas públicas) mais verdadeiramente sustentada pelo nosso discurso actual, e sua noção central da Loja como um centro de luz, não se justificaria pelos seus resultados?

Deixe-me dar dois exemplos. Na época de Preston, havia uma necessidade geral, da qual Preston sofria, de educação popular – de fornecer os meios pelos quais o homem comum pudesse adquirir conhecimento em geral. Hoje, não há necessidade menos geral de um tipo especial de conhecimento. A sociedade está nitidamente dividida em classes que não se entendem muito bem e, portanto, estão a perder totalmente a simpatia entre si. Que palestra Maçónica mais nobre poderia haver do que aquela que assumiu os fundamentos da ciência social e se comprometeu a espalhar um conhecimento sólido sobre ela entre todos os Maçons? Suponha que tal palestra foi composta, como as palestras de Preston foram, foi experimentada por entrega em Loja após Loja, como ela foi, e após crítica e reformulação como resultado de anos de trabalho, foi ensinada a todos os nossos Mestres. Não iriam as nossas lojas difundir uma luz real na comunidade e dar um grande passo no seu trabalho de fazer para a perfeição humana?

Novamente, apesar do que está a acontecer no momento no continente, esta é uma era de universalidade e internacionalidade. O mundo pensante tende fortemente em insistir em romper as fronteiras locais estreitas e em olhar as coisas de um ponto de vista mundial. Arte, ciência, economia, organizações trabalhistas e fraternas e até mesmo o desporto tendem a se tornar internacionais. A crescente frequência de congressos e conferências internacionais sobre todos os tipos de assuntos enfatiza este rompimento dos laços políticos locais. O movimento sociológico, em todo o mundo, está a fazer com que os homens tenham uma visão mais ampla e mais humana, está a fazer com que pensem mais na sociedade e, portanto, mais na sociedade mundial, está a fazer com que eles focalizem menos a sua visão no indivíduo, e portanto, menos na localidade individual.

Neste movimento mundial em direcção à universalidade, os Maçons devem assumir a liderança. Mas quanto sabe o atarefado Maçom, muito menos pensa, do movimento pela internacionalidade ou mesmo do movimento pacifista que vem avançando em torno dele? No entanto, todo o Maçom deve saber estas coisas e levá-las a sério. Cada Loja deve ser um centro de luz de onde os homens saem cheios de novas ideias de justiça social, justiça cosmopolita e internacionalidade.

Preston, é claro, estava errado – o conhecimento não é o único fim da Maçonaria. Mas, por outro lado, Preston estava certo. O conhecimento é um fim – pelo menos um fim próximo – e não é o menor daqueles pelos quais a perfeição humana será alcançada. Os erros de Preston foram os erros do seu século – o erro de fé na finalidade do que era conhecido naquela época, e o erro de considerar a apresentação formal correcta como o único método válido de instrução. Mas o que se pode dizer do erro maior que cometemos hoje, quando continuamos a recitar as suas palestras – tosquiadas e resumidas até que não significam nada para o ouvinte – e gravemente as apresentando como um sistema de conhecimento Maçónico? Tenha em mente que ele pensava que eles apresentavam um esquema geral de conhecimento, não um sistema de informação puramente Maçónica. Se fôssemos governados pelo seu espírito, compreendêssemos a ideia básica da sua filosofia e tivéssemos apenas metade do seu zelo e diligência, certamente poderíamos fazer das nossas palestras e, por meio delas, das nossas Lojas uma verdadeira força na sociedade.

Aqui, de facto, devemos encontrar os precisos e formalistas de quem as Lojas sempre estiveram cheias e que devem ser carregados de inovação. Mas Preston foi chamado de inovador. E foi-o, no sentido de colocar novas palestras no lugar da velha leitura das constituições góticas. Preston encontrou os mesmos precisos e os mesmos formalistas e escreveu as nossas palestras apesar deles. Odeio pensar que toda a iniciativa se foi da nossa Ordem e que nenhum novo Preston surgirá para assumir a sua concepção de Conhecimento como um fim da fraternidade e apresentar aos Maçons de hoje o conhecimento que eles deveriam possuir.

Roscoe Pound

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

Fonte

  • THE BUILDER MAGAZINE – Vol. 1 No. 1 – January 1915

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