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William Schaw, pai da Maçonaria

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✍️ Desconhecido 📅 27/05/2025 👁️ 0 Leituras
William Schaw (1550 – 1602)
William Schaw (1550 – 1602)

“Esta humilde estrutura de pedras cobre um homem de excelente habilidade, notável probidade, singular integridade de vida, adornado com a maior das virtudes – William Schaw, Mestre das Obras do Rei, Presidente das Cerimónias Sagradas e Camareiro da Rainha. Morreu a 18 de Abril de 1602.

Entre os vivos, viveu cinquenta e dois anos; viajou em França e em muitos outros reinos, para melhorar a sua mente; não carecia de formação liberal; era muito hábil em arquitectura; foi desde cedo recomendado a grandes pessoas pelos dons singulares da sua mente; e não só era incansável nos trabalhos e negócios, mas constantemente activo e vigoroso, e era muito querido por todos os homens bons que o conheciam. Nasceu para fazer bons serviços e assim conquistar o coração dos homens; agora vive eternamente com Deus”.

“A Rainha Ana ordenou que este monumento fosse erigido em memória deste homem tão excelente e íntegro, para que as suas virtudes, dignas de louvor eterno, não desaparecessem com a morte do seu corpo.”

A inscrição no túmulo de William Schaw, na abadia de Dunfermline, é a fonte mais segura de informação biográfica e apresenta o que poderá ser a marca de pedreiro mais antiga, uma escultura complexa de todas as letras do nome S-C-H-A-W. Cada pedra utilizada no seu túmulo tem uma marca inscrita.

Num painel separado do seu túmulo pode ler-se:

“Ao amigo mais íntegro, William Schaw, Vive com os Deuses, e vive para sempre, homem mais excelente; Esta vida para ti foi trabalho, a morte foi repouso profundo. Alexander Seton”.

William Schaw nasceu, segundo o seu epitáfio, por volta de 1550. Pertencia a um ramo de cadetes de uma família de lairdes [1], os Schaws de Sauchie, perto de Stirling, no condado de Clackmannan, uma família que tinha laços estreitos com a corte, pois era proprietária da adega do rei. É por esta razão que, ao que parece, William Schaw recebeu um emprego na corte desde a sua juventude.

Em vários documentos da época aparecem referências a um certo número de actividades de Schaw. Em 1581, quando a Igreja Reformada da Escócia temia que o rei Jaime VI caísse sob a influência católica, tanto o rei como os seus cortesãos tiveram de assinar o que ficou conhecido como a “Confissão Negativa”, uma denúncia sistemática do catolicismo – entre as assinaturas, a de William Schaw.

Em 17 de Janeiro de 1584, os registos da época mencionam a partida de William Schaw para França com Lord Seton, um diplomata experiente cuja missão era renovar os tratados entre a Escócia e a França. A inclusão de William Schaw na missão parece dever-se ao facto de ter conseguido o apoio da família Seton, sobretudo devido à paixão de Alexander Seton – o mais novo dos filhos de Lord Seton – pela arquitectura. O nome Alexander Seton – que na altura era o primeiro conde de Dunfermline – é o mencionado no túmulo de William Schaw na Abadia de Dunfermline.

Em 1585, William Schaw aparece num grupo de três homens escolhidos pelo rei para receber os embaixadores dinamarqueses que acabavam de chegar, na esperança de obter as ilhas Orkney e Shetland que tinham sido devolvidas à Dinamarca. Depois de 1585, William Schaw parece ter trabalhado para Lord Seton.

Em 1588, o Presbitério de Edimburgo chamou a todos “papistas e apóstatas”, entre os quais William Schaw. Em 1593, quando foi feita uma lista dos que, na corte, apoiavam os interesses ingleses, Schaw foi também incluído e descrito como “um jesuíta suspeito” e, alguns anos mais tarde, uma obra latina destinada a provar que Jaime VI favorecia os católicos mencionava que Schaw era o “praefectum architecturae” do rei, apesar de ser católico.

A paixão de William Schaw parece ter sido a arquitectura, mas o facto de ter sido nomeado para receber os embaixadores dinamarqueses indica que possuía também as qualidades de diplomata, que lhe seriam úteis nas suas actividades posteriores. A proximidade com os embaixadores dinamarqueses pode também explicar o facto de ter sido incluído no grupo do rei Jaime VI, que no final de 1589 se deslocou à Dinamarca para trazer Ana da Dinamarca, que viria a ser sua esposa. Atrasado pelas tempestades na Noruega, parece que Schaw permaneceu com Jaime VI na Dinamarca durante o Inverno.

No início de 1590 regressou à Escócia, enviado antes dos outros para terminar os preparativos necessários para a chegada do Rei e da sua noiva, nomeadamente as reparações no Palácio de Holyroodhouse e na residência dada à Rainha em Dunfermline.

Mais tarde, tornou-se próximo de Ana da Dinamarca e foi nomeado camareiro do domínio de Dunfermline, cargo que ocupou até 1593.

Os registos não mostram qualquer menção de casamento ou possíveis herdeiros para William Schaw. Além disso, o facto de ter sido suspeito de ser jesuíta pode até ser uma prova de que permaneceu solteiro.

Em 21 de Dezembro de 1583, James VI nomeou William Schaw como Mestre de Obras na Escócia para toda a vida, sendo responsável por todos os castelos e palácios reais. O momento da sua investidura como Mestre sugere que o acontecimento esteve ligado aos desenvolvimentos políticos da época. James VI tinha acabado de escapar de uma facção protestante extremista, os Ruthven Raiders, que o tinham raptado no ano anterior, e a sua reacção levou ao poder vários conservadores. Por conseguinte, o investimento, que envolveu a substituição do seu antecessor (Sir Robert Drummond de Carnock) de um cargo vitalício, sugere que Shaw estava associado a interesses conservadores.

O facto de William Schaw, apesar de católico, o que nesta perspectiva até constituía uma preocupação para os ingleses, ter ocupado o cargo que lhe foi atribuído pelo rei Jaime num país protestante, prova a sua capacidade diplomática de manter o equilíbrio. Os registos mencionam outros escoceses na corte que, embora católicos, evitavam acções que pudessem gerar perseguições e, provavelmente, até assistiam a serviços protestantes de vez em quando. Um dos amigos mais próximos de Schaw, Alexander Seton, praticou esse “acto de equilíbrio religioso” durante muitos anos, enquanto ocupava altos cargos públicos.

Em 28 de Dezembro de 1598, na qualidade de Mestre de Obras e Director dos Mestres Maçons, Schaw publicou o “Estatuto e Ordenança que devem ser observados por todos os Mestres Maçons do reino” – o Primeiro Estatuto de Schaw.

A introdução refere que os Estatutos foram publicados com o acordo de uma convenção de artesãos, mencionados apenas como “todos os mestres maçons reunidos nesse dia”. Parece que William Schaw convocou uma reunião de mestres maçons no dia 27 de Dezembro, o dia mais importante do calendário maçónico, e que, após as conversações do dia, os primeiros Estatutos de Schaw foram elaborados e publicados no dia seguinte.

Os primeiros Estatutos de Schaw baseiam-se em Textos Antigos, mas também trazem informações adicionais para descrever uma hierarquia de Vigilantes, Diáconos e Mestres. Isto dá uma indicação clara de que estes textos antigos eram conhecidos na Escócia muito antes de meados do século XVII, altura a partir da qual temos provas claras desse facto. O material retirado dos Textos Antigos foi modificado e alargado nos Estatutos, de modo a abranger as condições específicas da Escócia. Por outras palavras, William Schaw não fundou as lojas, mas introduziu regulamentos normalizados, parcialmente derivados dos Textos Antigos.

Não vou apresentar aqui os textos dos Estatutos, pois podem ser lidos separadamente, mas é preciso notar que eles trazem muitos elementos novos no que diz respeito a várias regras relativas ao funcionamento da Loja, à escolha do chefe da Loja, à supervisão dos trabalhos e à imposição de multas por não participar nas reuniões da Loja ou por assumir um trabalho sem ter a competência necessária para o executar, ao emprego de aprendizes, ao acesso na Loja, etc. Os Estatutos foram aprovados por todos os Mestres Maçons presentes e foram enviadas cópias a todas as Lojas da Escócia.

Os primeiros Estatutos de William Schaw oferecem novas provas sobre a organização maçónica na Escócia, ao mesmo tempo que introduzem novos aspectos. A organização maçónica descrita no Primeiro Estatuto baseia-se em lojas. O nome é antigo, mas as lojas descritas actualmente são muito diferentes das que aparecem em fontes anteriores. As lojas medievais eram ou edifícios temporários (locais de trabalho, de alimentação e de dormida no local), ou instituições semi-permanentes que funcionavam associadas a grandes edifícios eclesiásticos, mas limitadas aos pedreiros que trabalhavam nesses edifícios. Não há provas de que essas lojas tivessem jurisdição sobre todos os pedreiros que trabalhavam numa área ou se tinham controlo geral sobre as pessoas que podiam entrar nas lojas, ou se as lojas individuais tinham ligações com outras lojas para alargar a sua jurisdição, embora o Segundo Estatuto de Schaw indique que a Loja Kilwinning alegou ter tido esses direitos no passado.

Todas estas características aparecem pela primeira vez no Primeiro Estatuto de Schaw. Mencionam a necessidade de estabelecer um sistema coerente de Lojas em toda a Escócia, com um Vigilante Geral que deverá ter jurisdição sobre todas as Lojas. Também menciona (vagamente, no entanto) reuniões e encontros acima do nível de uma Loja e, embora a relação entre Loja e Condado não esteja definida, parece que as Lojas de um Condado tinham de trabalhar em conjunto.

É claro que estas novas lojas têm semelhanças com as anteriores. O próprio nome foi aceite durante muito tempo para designar um grupo ou organização de pedreiros, e as lojas anteriores tentaram certamente regular a entrada no ofício e as práticas de trabalho, tal como fizeram as Lojas Schaw. No entanto, quer fossem temporárias ou semi-permanentes, as lojas medievais tardias tinham-se preocupado apenas com os pedreiros que trabalhavam num único edifício, ou talvez, no máximo, em todos os edifícios públicos de um determinado bairro. Se existia uma forma de organização acima deste nível, ou era informal – com os pedreiros a deslocarem-se de um edifício para outro (com os mesmos regulamentos do ofício, introduzindo assim um elemento de uniformidade) -, ou baseava-se no facto de, em certas zonas, os pedreiros frequentarem ocasionalmente as reuniões dos vigilantes regionais, criando assim uma espécie de assembleia de pedreiros. Além disso, não há dúvida de que as lojas anteriores tinham rituais e cerimónias, pois seria difícil conceber uma organização medieval de artesãos sem rituais. Nada indica, no entanto, que esses rituais fossem idênticos aos das novas Lojas Schaw.

O nome do chefe oficial das novas lojas era, sem dúvida, uma herança do passado. Há uma referência ao Vigilante de uma loja em Inglaterra no século XIV, e a Lei de 1427 do Parlamento escocês referia-se aos Artisans’ Wardens. No entanto, mais uma vez, a semelhança de nome não deve ser tomada como prova de que o funcionário medieval era o mesmo que o descrito nos Estatutos de Schaw e que presidia a uma instituição idêntica. O cargo de vigilante da obra numa cabana de estaleiro nada tinha a ver com as lojas dos Estatutos de Schaw ou com os seus vigilantes, e o facto de as lojas de estaleiro de estilo medieval poderem existir ao lado das novas lojas de Schaw, mas completamente separadas delas, sublinhava o facto de serem muito diferentes, apesar de terem o mesmo nome.

Tanto no Ritual como na organização, William Schaw parece ter-se baseado nas tradições fragmentárias do Ofício (craft), mas o tema central é a inovação, em vez da continuidade.

O sistema de lojas do Primeiro Estatuto de Schaw oferecia uma solução para o problema da época relativo à pertença de uma pessoa tanto a uma organização “corporativa” autónoma (havia muitas) como a uma loja. Com a experiência diplomática adquirida na corte, Guilherme Schaw resolveu esta dificuldade, permitindo que os maçons mantivessem a sua filiação em “corporações” (sob o controlo dos burgos), pelas vantagens que isso trazia dentro dos burgos, e fossem membros de Lojas (fora do controlo do conselho do burgo).

Esta interpretação da razão pela qual tanto as lojas como as “corporações” eram consideradas necessárias pelos maçons afirma que, embora o pedreiro quisesse beneficiar dos privilégios oferecidos pela sua pertença às organizações dos bairros, também queria evitar o controlo total do bairro sobre o seu ofício. Esta sugestão é apoiada pela forte tradição segundo a qual as lojas não devem reunir-se dentro dos bairros. Os primeiros registos maçónicos sublinham que isto foi por vezes posto em prática. Os pedreiros de Melrose reuniam-se fora do bairro de Newstead; os pedreiros de Aberdeen atravessavam o Dee para se reunirem fora da jurisdição do bairro; os pedreiros de Elgin reuniam-se na Loja de Kilmolymock, os pedreiros de Perth na Loja de Scone. Embora estas lojas tivessem o nome de lugares fora dos bairros, parece que os membros se reuniam dentro delas e que os seus nomes eram uma espécie de declaração simbólica de que as lojas não se consideravam instituições do bairro. Outras lojas não estavam associadas a um único bairro: Kilwinning atraía membros de Irvine, Ayr e outras cidades, enquanto Aitchison’s Heaven tinha membros de vários bairros em redor de Edimburgo.

O facto de Shaw aceitar diáconos “incorporados” para presidir às lojas do burgo pode ser o preço que teve de pagar para convencer as “incorporações” a aceitarem o que poderiam ter visto como uma ameaça às associações de artesãos. Diz-se que os primeiros registos perdidos sobre a “incorporação da Capela de Maria” continham muitos exemplos de assinaturas de Schaw, o que sugere que ele tinha um papel fundamental nestas questões, permitindo-lhe assim convencer alguns dos membros a aceitar a criação de uma loja.

É claro que as lojas teriam gostado de ser as únicas a exercer autoridade sobre o ofício da maçonaria, mas a circunspecção com que actuaram na prática mostra que se aperceberam da existência de “incorporações” e conselhos de bairro, da necessidade de evitar desafiá-los, bem como da necessidade de atrair novos membros, para que se fortalecessem ao longo do tempo.

No Primeiro Estatuto de Schaw são mencionadas as marcas maçónicas, bem como a necessidade de as registar nas actas da loja. No entanto, não há provas de que lhes tenha sido atribuído um significado simbólico. A sua evolução ao longo da Idade Média foi feita como forma de identificar os trabalhos realizados por cada um dos pedreiros e, como tal, poderiam não ser essencialmente diferentes dos métodos de identificação registados no século XVII, mas apenas monogramas das iniciais dos pedreiros e, como tal, claramente desprovidos de qualquer significado esotérico. A única excepção a esta regra geral é a notável obsessão de Sir Robert Moray pela sua marca de pedreiro, mas sendo ele um pedreiro tão extraordinário e atípico, não podemos basear as nossas conclusões na comparação das suas atitudes com as de outros pedreiros.

Uma novidade introduzida por Schaw nos Estatutos foi a interdição imposta aos pedreiros de trabalharem com os cowans. De acordo com as actas das lojas, tratava-se de “pessoas semi-qualificadas” destinadas a realizar apenas determinados trabalhos. Parece que lhes faltava não a habilidade, mas a iniciação na tradição esotérica. William Schaw queria, portanto, que os pedreiros fossem um corpo exclusivo de homens qualificados, tanto pela sua educação e competências, como pela sua iniciação na tradição esotérica do ofício.

Os Estatutos de Schaw não foram aplicados em todos os pormenores porque as práticas locais variavam muito. No entanto, os Estatutos definiram o carácter básico da Loja durante o século XVII.

O Segundo Estatuto de Schaw foi assinado a 28 de Dezembro de 1599 em Holyroodhouse. Nele são nomeadas três lojas que aparentemente tinham uma disputa sobre a prioridade. Assim, como compromisso, a Loja de Edimburgo foi reconhecida como a principal loja na Escócia, Kilwinning como a segunda e Sterling como a terceira. Além disso, a Loja de Kilwinning passou a ter jurisdição sobre outras lojas no oeste da Escócia, e os oficiais da loja foram encarregues de garantir que todos os membros dominassem “a arte da memória” [2].

Foram estabelecidas regras para a correcta manutenção de registos das lojas e para a resolução de problemas de saúde e segurança quando se trabalha em alturas consideráveis. Podemos dizer que as lojas Schaw estavam a reorganizar-se como instituições a longo prazo.

Tal como o Primeiro Estatuto partia dos Textos Antigos, aos quais foram acrescentados elementos inovadores, também no Segundo Estatuto, William Schaw sublinha a importância de manter as tradições do ofício. Há uma referência directa aos mestres mais habilidosos que devem testar e iniciar os outros na arte do ofício, da ciência e da memória antiga, e que aqueles que desejam entrar para as lojas devem mostrar que dominam “a arte da memória”, entre outras qualificações necessárias. A “arte da memória” era uma técnica de memorização que tinha as suas raízes na Grécia Antiga. Inicialmente um método puramente utilitário – embora notavelmente complexo – para ajudar a memória, durante a Idade Média e o Renascimento a arte da memória assumiu nuances mais complexas, ganhando conotações simbólicas e até ocultas. O antigo sábio egípcio Hermes Trismegisto sublinhava o facto de a sabedoria mais valiosa ser secreta, sendo o seu conhecimento limitado aos iniciados. Nos seus Estatutos, Schaw aconselha os maçons a estudarem a arte da memória e da ciência, técnicas derivadas do mundo antigo para memorizar discursos.

Não existem provas suficientes para sustentar a teoria de que William Schaw introduziu a “arte da memória” na organização maçónica como uma prática inovadora ou se apenas a continuou, dado que na sociedade escocesa, onde os costumes e práticas do passado eram dominantes e importantes, a continuidade é mais aceitável do que a inovação. No entanto, a referência à “arte da memória” pode ser uma evidência de que as lojas de Schaw estavam inclinadas para o pensamento místico da Renascença, de reavivar o esoterismo.

Os Estatutos têm ainda mais valor histórico pelo facto de Schaw ter ordenado às lojas que nomeassem secretários e mantivessem um registo das reuniões. Assim, as primeiras actas das lojas de Aitchison’s Heaven e Edinburgh Mary’s Chapel datam de 1599, o que faz delas as actas maçónicas mais antigas do mundo. Estas actas revelam que as lojas de Schaw eram muito diferentes das outras formas de organização dos pedreiros da época. Continuavam a existir “cabines” nos estaleiros de construção, cada uma sob a autoridade do mestre de obras responsável pelos projectos individuais, mas as lojas Schaw, que surgiram em 1598-1599, tinham jurisdição sobre todos os pedreiros de uma cidade ou área – justificando assim a designação “lojas territoriais”.

A razão pela qual as lojas funcionavam paralelamente às “incorporações” (onde geralmente também se filiavam outras profissões: carpinteiros, canalizadores, etc.) justifica-se, em primeiro lugar, pelo facto de os pedreiros terem as suas próprias tradições, rituais e segredos que não queriam partilhar com outros artesãos. Para estas funções esotéricas, necessitavam de organizações exclusivistas onde só os iniciados podiam ser membros.

Uma segunda razão pela qual os pedreiros insistiam em ter lojas autónomas das “incorporações” é ditada pelo facto de as “incorporações” terem as suas sedes nas cidades onde os artesãos se activavam, mas a maioria deslocava-se em busca de trabalho e necessitava de uma organização que fosse reconhecida não só na cidade, mas também nas zonas fora dela onde se desenvolviam as obras em que trabalhavam. É certo que, durante algum tempo, as “cabanas” de estaleiro responderam a esta necessidade, mas tinham a desvantagem de estar sob o controlo dos representantes do comissário ou de um conselho municipal. É por isso que, pouco antes de 1600, os pedreiros escoceses começaram a desenvolver as suas próprias lojas autónomas, distanciando-se da autoridade da cidade ou do patrão, reunindo-se muitas vezes fora da cidade.

Assim, tendo como pano de fundo os bons motivos dos pedreiros para desenvolverem lojas independentes das “incorporações”, fora do controlo do burgo, William Schaw iniciou a reorganização e uniformização das lojas que, aparentemente, se encontravam na altura em desordem. Para além disso, como Mestre de Obras do Rei, Guilherme Schaw considerava que esta reforma era o seu dever.

Um problema da uniformização das lojas era a sua vastíssima extensão territorial, que William Schaw tentou resolver solicitando a protecção do rei Jaime VI. Foram redigidas duas cartas das lojas de Dunfermline, St. Andrews, Edimburgo, Aitchison’s Heaven e Haddington, assinadas por Schaw como Mestre de Obras. Presume-se que confirmam o papel do Barão de Roslin como patrono e protector dos maçons. As cartas também sugerem que a reorganização proposta por Schaw enfrentou uma série de problemas, relatando a confusão e o declínio entre os pedreiros e a forma como os potenciais empregadores tinham abandonado as regras estabelecidas anteriormente, especialmente depois de perderem o patrocínio da Igreja após a Reforma e o número de projectos e construções.

William Schaw pretendia assim obter a autoridade real para a protecção das lojas, dada a sua proximidade com o Rei. Mas conceder um privilégio tão especial a um ofício em vez de outro, passando por cima da autoridade das cidades ou de outras autoridades locais, poderia dar origem a muitas controvérsias, mesmo de carácter religioso, razão pela qual este reconhecimento tardou a ser concedido.

Independentemente da sua localização no tempo ou no espaço, os pedreiros sempre procuraram ser “especiais” em comparação com o resto da sociedade, o que é possível com uma selecção pragmática de aplicações e uma verdadeira exigência de probidade moral, carácter, experiência de vida e conhecimento.

Mirela Elena Ene, chefe de redacção do Masonic Forum Magazine

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

Fonte

Notas

[1] Proprietários de terras

[2] A Arte da Memória é uma técnica clássica que associa imagens a lugares por meio de um processo de lembrança e significação.

Apenas algumas pessoas sabem que, entre as muitas artes que os gregos inventaram, está uma arte da memória que, como as outras artes gregas, foi transmitida a Roma, de onde passou para a tradição europeia. Essa arte busca a memorização por meio de uma técnica de imprimir “lugares” e “imagens” na memória. Tem sido classificada como “mnemotécnica”, ramo da actividade humana que parece ser pouco considerado nos tempos actuais. Mas, antes da invenção da imprensa, uma memória treinada era de vital importância; e a manipulação de imagens na memória deve sempre implicar, em certa medida, a psique como um todo. Além disso, uma arte que utiliza a arquitectura da época para elaborar seus lugares de memória e, para suas imagens, o repertório figurativo da mesma época terá, como as outras artes, seus períodos clássico, gótico e renascentista.

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