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Tradição na Maçonaria

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✍️ Desconhecido 📅 24/04/2026 👁️ 0 Leituras

tradição

Tradição: (do latim tradere, transmitir) o modo de transmissão do conhecimento de geração em geração. O conjunto de conhecimentos e sabedoria assim transmitidos.

Na sua obra “Simbolismo Maçónico Tradicional”, Jean-Pierre Bayard, citando René Guénon, esclarece:

“Na confusão mental que caracteriza a nossa época, passamos a chamar ‘tradição’ a ​​todo o tipo de coisas, por vezes insignificantes, como costumes simples de pouca importância e de origem recente. Uma transmissão de factos deste tipo não pode ser chamada de tradicional, mas sim de folclórica.

Assim sendo, utilizaremos a palavra Tradição no sentido de transmissão e ligação a um centro de natureza sagrada, do qual somos originários, que perdemos e que procuramos reintegrar através da iniciação.”

Contudo, na Maçonaria do Rito Escocês Antigo e Aceite, a tradição e a contemporaneidade (modernidade) estão intimamente interligadas. Estas noções abrem caminho à fraternidade, à liberdade, à construção de um futuro melhor e à procura de significado. A modernidade (contemporaneidade) não aparece como um conceito, mas como uma interpretação de fenómenos complexos. e mutáveis, oscilando entre formas de cultura, o estado do progresso material e as ideias filosóficas nebulosas de cada época.

A modernidade contém, portanto, uma reflexão sobre si mesma, uma busca permanente de sentido em todas as suas formas — espiritual, intelectual, económica ou outras. É de particular interesse para o investigador porque representa a chave para um futuro que ele pode prever melhor e sobre o qual espera exercer influência.

Esta busca reflecte-se no processo maçónico, que consiste em trabalho incessante, uma viagem sem fim, a chave para o aperfeiçoamento do indivíduo (e da humanidade?). É de notar que o homem renascentista se posicionava não em oposição, mas na distinção de conceitos; Não opôs a tradição ao progresso, a metafísica à filosofia, a ciência à religião, mas, pelo contrário, enfatizou os seus respectivos domínios de aplicação, até mesmo complementares. Esta atitude encontra-se também na Maçonaria do Rito Escocês. Tomemos como exemplo os seus símbolos mais conhecidos: o esquadro, que, através do arquétipo do esquadro, remete para o mundo, e o compasso, que, através do arquétipo do círculo, remete para o espírito, para a consciência — ou seja, para a questão ontológica.

A Maçonaria apropria-se destes dois conceitos, entrelaçando-os e sobrepondo-os, colocando progressiva e pedagogicamente o compasso acima do esquadro, depois cruzado com o esquadro e, finalmente, acima do esquadro.

Através deste gesto e simbolismo, transmite uma mensagem fundamental de unidade, de procura da unidade de forças ou entidades dispersas ou opostas, com o espírito a alcançar a sua superioridade sobre a matéria. Envia um segundo sinal, cuja importância é clara para todos: como o significado de cada uma destas figuras é enriquecido pela outra, a sua correspondência sugere que a vida humana segue a mesma regra e que um indivíduo nada é sem o outro, sem os outros. Isto traduz-se no reconhecimento e respeito pela diferença e, por conseguinte, na rejeição de qualquer atitude de dominação ou ignorância: o outro torna-se uma fonte de renovação. Eis um exemplo de consciência adquirida através dos outros, de importância primordial, cuja transmissão subsequente se revela não só útil, como necessária.

Estamos, pois, no próprio âmago da razão de ser da tradição, desta Tradição, cuja etimologia latina, “tradere“, significa precisamente transmitir (mas também trair…). A Tradição transmite um corpo de informação deste tipo. Ora, a Tradição Maçónica tem a particularidade de conter ensinamentos que afectam, para além da moralidade, um modo de estar no pensamento e na acção.

É por isso que a Maçonaria do Rito Escocês procura num passado que é ao mesmo tempo mítico e histórico os meios para viver na modernidade. A Tradição contém em si o germe do ideal de fraternidade, pois constitui um recurso entre todos aqueles que se abriram à sua mensagem. O fenómeno desta abertura é chamado de “iniciação” por nós, maçons, tanto que os iniciados maçons se referem a si próprios como irmãos.

A fraternidade constitui tanto um modo de comunicação como um objectivo, um laço horizontal. Se a Tradição Maçónica tivesse sido entendida como a transmissão de um dogma religioso, ter-se-ia, sem dúvida, revelado inadequada à modernidade.

De facto, todo o dogma fica preso na teia da infalibilidade e impede a humanidade de evoluir. Não esqueçamos que a rigidez do geocentrismo quase privou a humanidade das descobertas de Galileu, e que a afirmação, entre outras coisas, não de um único Adão, mas de uma pluralidade de Adãos, levou Giordano Bruno à fogueira. Pela própria concepção de Tradição, a Maçonaria do Rito Escocês evita esta armadilha: afirma-se e define-se como adogmática.

Esta escolha acarreta três consequências principais: em primeiro lugar, a Maçonaria do Rito Escocês Antigo e Aceite nunca descreve o caminho, mas apenas indica a direcção e uma metodologia, deixando cada indivíduo livre para desenvolver o seu próprio método; em segundo lugar, todos os princípios da tradição permanecem abertos ao enriquecimento pessoal contínuo; e, finalmente, a abordagem maçónica reside no âmbito da experiência íntima, o que explica a natureza fundamental do segredo.

Através desta aplicação e à luz disto, compreendemos porque é que, embora a cerimónia de iniciação maçónica seja de facto um acontecimento único, o processo iniciático em si se mostra infinito: a consciência do Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceite manifesta-se a cada momento da sua vida, tanto dentro como fora da Loja.

O problema do método de transmissão ainda tem de ser resolvido. Este conjunto de informações é passível de uma ampla divulgação para a humanidade, desde que se utilize um código acessível a todos. Como é que isso pode ser conseguido perante tantas línguas e modos de raciocínio diferentes? Lembremo-nos da Torre de Babel, que se desmoronou devido ao desaparecimento de uma linguagem universal, que se diferenciou então em línguas egoístas, expressões idiomáticas ou idiolectos! A Maçonaria Escocesa possui um método compreensível por todas as pessoas, independentemente do espaço ou do tempo: é composta de símbolo, imagem e mito. É isto que a torna universal. Isto também nos ajuda a compreender porque é que ela navegou com sucesso pela história e como se adaptou a cada fase da sua modernidade.

Por exemplo, ao contrário do que se pensa, não foram os maçons que instigaram a Revolução Francesa: simplesmente transmitiram e tentaram aplicar os valores da sua tradição ao longo dessa época.

Isto ajuda a explicar como o Rito Escocês Antigo e Aceite ainda pode oferecer uma abordagem iniciática nos tempos modernos, enquanto muitas religiões lutam agora, ou têm muita dificuldade, em ligar os dois conceitos. A Maçonaria, de que estamos a falar, é sem dúvida uma das últimas sociedades esotéricas do mundo, dedicada à liberdade de pensamento. É claro que a transmissão da Tradição Maçónica e a sua aplicação à vida contemporânea exigem uma conduta exemplar. Quem, porém, seria tão cego ao ponto de ignorar que todo o Maçom permanece numa viagem, que a perfeição imaginada é inatingível neste mundo e que todo o grupo humano é composto por indivíduos com a sua grandeza, a sua força, mas também as suas fraquezas?

A Maçonaria, uma ordem iniciática e tradicional, é um dos caminhos que permite ao indivíduo perseguir o seu compromisso e busca ao máximo. Ela sugere este caminho sem o cegar e mostra-lhe o caminho para a transcendência pessoal e para a transgressão racional — ou seja, para a liberdade. (Ritual de iniciação para o 4º grau: Cito: “Não forjareis ídolos humanos para agirdes cegamente sob a vossa influência, mas decidireis por vós mesmos as vossas opiniões e as vossas acções”, e ainda: “Respeitem todas as opiniões, mas aceitem-nas como justas apenas se assim vos parecerem depois de as examinarem.”)

Esta viagem passa também por ir cada vez mais longe, em busca de si, dos outros, através deles e com eles, e sobretudo, do progresso contínuo. A transgressão ponderada constitui um factor de avanço quando acompanhada por uma vontade criativa enraizada na razão e na realização desse avanço.

Na Maçonaria, o processo de reunião, de esforço no sentido da unidade de forças, de entidades dispersas ou opostas, de reorganização através de uma observação mais precisa do caos pessoal e íntimo para caminhar para a ordem, conduz à noção de regras, que se traduzem em rituais. Estes rituais correspondem tanto à estrutura como à implementação do processo. A sua existência gera a instituição e vice-versa, de tal modo que, por um lado, a Maçonaria sem rituais permanece inconcebível e, por outro, a qualidade desses rituais reflecte a riqueza e a qualidade do processo.

Assim, do ritual à unidade restaurada, a tradição maçónica, iniciática e metodológica, estabelece um caminho privilegiado, aberto à humanidade para se tornar livre. Assim, da reflexão à acção, o processo sugere que, na “nossa modernidade actual”, composta de busca perpétua, trabalho incessante e dever, somos de facto como Sísifo, mas um Sísifo prestes a descobrir, para além de um aparente absurdo, que a sua busca constitui o sentido da sua vida e do seu dever.

Concluo com uma citação de “A Fé de um Maçom”, de Richard Dupuy:

“Da reconciliação da humanidade consigo mesma e com o seu tempo, a palavra perdida e finalmente redescoberta ressurgirá espontaneamente, iluminando o mundo: AMOR”.

Christian Belloc

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

Fonte

Bibliografia

  • Le Symbolisme maçonnique traditionnel (Jean-Pierre Bayard) – La foi d’un Franc-maçon (Richard Dupuy) Rituel du 4ème degré

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