Tecnologias de comunicação na Maçonaria… e o Ritual?
É possível utilizar as novas tecnologias de comunicação na Maçonaria sem perder o Ritual?
Numa época em que as lojas maçónicas eram poucas, a organização das Reuniões seguia um ritmo tranquilo. No início de cada ano, os participantes anotavam à mão, a lápis, as datas das futuras sessões nas suas agendas pessoais. Os correios eram o único meio de transmitir informações especiais, enquanto o boca a boca servia como elo constante entre os membros. Tudo acontecia mais lentamente, mas em uma atmosfera serena e tranquila.
Então, com a generalização do telefone, uma nova era se abriu. Essa evolução poderia ter continuado até uma transformação natural das práticas, mas uma revolução inesperada surgiu. Iniciada por jovens inovadores da costa oeste dos Estados Unidos, a revolução digital introduziu ferramentas como o teletexto, o fax, o e-mail, o SMS, o MMS, o chat e a videoconferência. Estas inovações, vistas por alguns como intrusões, começaram a interferir com a tradição iniciática dos círculos de reflexão, onde a busca da luz passava por trabalhos introspectivos.
Hoje, uma nova geração privilegia os pontos de acesso Wi-Fi para conectar os seus smartphones ou tablets de última geração, às vezes em detrimento da profundidade das trocas tradicionais. Essa evolução levanta uma questão candente: “É melhor ou pior do que antes?” Ninguém pode responder com certeza, pois isso remete à noção controversa de “progresso”.
Uma perspectiva histórica sobre o progresso
Para os nostálgicos, lembremos um exemplo esclarecedor. Em 1910, em Paris, o meu bisavô sofria com as consequências da poluição urbana. Naquela época, 80.000 veículos puxados por cavalos circulavam pelas ruas, exigindo a intervenção de 3.200 cantoneiros e 600 varredoras para remover diariamente 900 toneladas de esterco. Os Campos Elísios eram até sujeitos a um trânsito alternado para permitir a coexistência de cavalos e bicicletas. Este flagelo não poupava outras grandes cidades: Nova Iorque reciclava anualmente 15.000 carcaças de cavalos e Chicago 8.000. Em 1910, uma cimeira mundial de urbanismo, reunida em Nova Iorque durante dez dias, terminou em fracasso face a este problema insolúvel. No entanto, dez anos mais tarde, o automóvel substituiu os cavalos, trazendo uma nova forma de poluição, embora o vento fosse então apresentado como uma solução milagrosa para dissipar os fumos.
Este exemplo ilustra a dupla problemática do progresso tecnológico e da preservação dos valores fundamentais. O primeiro ponto merece uma análise aprofundada. Durante uma entrevista de uma hora em estúdio com Marc Giget, presidente do Clube de Paris dos directores de inovação, este resumiu o seu pensamento:
“Se isto serve aos seres humanos, é benéfico; se é tecnicamente aborrecido, é preciso parar“
Por outras palavras, a tecnologia é positiva quando liberta o indivíduo e encontra uma utilidade concreta, mas torna-se problemática se servir apenas para incentivar o consumo excessivo e desnecessário.
Tecnologia e valores iniciáticos: uma coexistência possível?
Olhando de perto, as práticas filosóficas nunca foram estranhas aos avanços tecnológicos. Os rituais, outrora transmitidos oralmente, são hoje impressos em papel brilhante de 300 g com capas cartonadas. As decorações dos oficiais são bordadas por máquinas electrónicas de alto desempenho, os templos são iluminados por centrais nucleares e os participantes chegam em veículos modernos, por vezes poluentes. Os ágapes, provenientes de uma agricultura intensiva e química, são preparadas com técnicas automatizadas. Até mesmo as velas, sejam elas eléctricas ou não, estão longe dos modelos artesanais de cera de abelha de outrora. As ferramentas simbólicas, como compassos, esquadros e réguas, muitas vezes são produzidas em massa, e os aventais, embora usados com orgulho, às vezes percorreram mais quilómetros do que seus proprietários.
Como Maurice Druon escreveu com perspicácia:
“Uma tradição não é mais do que um progresso bem-sucedido”
A Maçonaria, enquanto arte viva, sempre se adaptou à sua época, inovando, testando e integrando o que funciona. Assim, as ferramentas contemporâneas podem ser utilizadas, mas com discernimento, respeitando o espírito desta tradição.
A essência da prática: além da forma
Mas qual é a essência dessa abordagem? Se dissermos que é o ritual, alguns argumentarão que se trata de uma forma e não de uma substância. Se mencionarmos a fraternidade, outros verão nela uma consequência e não um fundamento. Talvez seja necessário procurar uma pista mais esclarecedora num trabalho consciente sobre o simbolismo, guiado pelos princípios da geometria sagrada. Os símbolos – fio de prumo, nível, sol, lua, quadro da loja, mosaico, delta radiante, ou ainda os números 3, 5, 7 e as formas geométricas como o quadrado, o triângulo, o pentagrama ou o círculo – servem de suporte para caminhar da dualidade humana para uma libertação das paixões.
Estas ferramentas permitem unir espírito e matéria, representados pelo cruzamento do fio de prumo e do nível, para elevar a humanidade e reforçar a fraternidade. O objectivo final é a elevação progressiva da consciência, libertando o indivíduo de seus impulsos para promover o enriquecimento mútuo. Os participantes tornam-se “suplementos” uns para os outros, além de simples complementos que compensam as lacunas.
No século XV, a passagem do ensino oral para o impresso suscitou preocupações. O tempo demonstrou a sua pertinência. Recentemente, foi lançado um serviço de tele instrução online para principiantes, atraindo mais de 150 inscritos. Como previu Arthur Schopenhauer, toda a inovação passa por três fases: o escárnio, a oposição e, por fim, a evidência. O verdadeiro perigo para esta tradição não reside no uso das novas tecnologias, mas numa mudança para debates políticos ou sindicais, distantes da busca iniciática. Os rituais insistem na edificação da virtude e na erradicação dos vícios, um trabalho interior simbolizado pelo polimento da pedra, seja ele realizado com ferramentas tradicionais ou modernas.
Uma reinvenção necessária
Se a Maçonaria está ameaçada no século XXI, não é por causa dos avanços tecnológicos, mas sim por uma perda de sentido e de valores. O progresso de ontem, criticado pelos antigos, tornou-se a tradição defendida hoje. Em vez de se opor às ferramentas modernas, seria sensato reencantar esta prática através de uma profunda busca iniciática, deixando às instituições académicas a tarefa de formar os líderes políticos — um domínio em que a Maçonaria nunca se destacou, uma vez que os seus trabalhos permanecem voluntariamente confidenciais.
Em conclusão, as ferramentas de transmissão evoluirão com o tempo. O dever dos membros é duplo:
- Manter o entusiasmo pelo trabalho para iluminar as trevas e distinguir os suportes dos valores, evitando transformar os símbolos em fetiches.
- Uma reflexão aprofundada sobre este assunto será proposta dentro de duas semanas, dada a sua riqueza e complexidade.
Pierre d’Allergida
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Fonte
