Reflexões de um Antigo Venerável Mestre
Muitas das ideias e reflexões sobre as quais escrevo provêm de conversas com Irmãos ou de debates a que assisti em vários círculos maçónicos. Este caso não é diferente.
No outro dia, tive o privilégio de integrar uma comissão de investigação para um Irmão que se candidatava a ingressar numa Loja de Observância Tradicional. Por coincidência, tratava-se da minha própria Loja, e estou genuinamente entusiasmado com a possibilidade de trabalhar ao lado destes homens.
Durante a conversa, foi-me feita uma pergunta simples, mas profunda: “Como é que vê a Maçonaria?”
Naturalmente, discutimos caridade, filantropia, bolsas de estudo e serviço comunitário. Todas estas são iniciativas louváveis. Os maçons procuram, há muito, melhorar o mundo à sua volta e, na minha jurisdição, a nossa Fundação Maçónica realiza um trabalho notável nesse sentido. Tenho orgulho em apoiar esses esforços.
Mas não acredito que estas coisas sejam a essência da Maçonaria.
Também conheci homens que encaram a Maçonaria principalmente como uma organização social, não muito diferente dos Elks, Eagles, Moose ou outras entidades fraternas. Como não sou membro dessas organizações, não vou falar sobre o que elas oferecem ou não. Só posso falar sobre a Maçonaria.
E, para mim, o cerne da Maçonaria reside em algo muito mais profundo.
As pessoas costumam dizer que se retira da Maçonaria aquilo que se investe nela. Isso é verdade. Na verdade, aplica-se a quase tudo o que vale a pena na vida. Mas se me pedissem para descrever o que a Maçonaria realmente é, a minha resposta poderia surpreender algumas pessoas.
Para mim, a Maçonaria é, em muitos aspectos, um empreendimento profundamente egoísta.
Agora, antes que alguém conteste, ouçam-me até ao fim. Somos chamados a ajudar os nossos Irmãos na sua busca pela luz e pelo conhecimento. Encorajamo-los, orientamo-los e caminhamos ao seu lado neste percurso. Mas não podemos ajudar eficazmente os outros se nós próprios nos recusarmos a crescer. O trabalho começa no nosso interior.
Chegaria mesmo a dizer que a Maçonaria é uma ordem mágica, pura e simples.
Há algum tempo, fiz uma observação semelhante e alguém respondeu: “Não há lugar para a magia na Maçonaria.” Meu Irmão, sugeriria respeitosamente que isso falha completamente o essencial.
Em *Magia na Teoria e na Prática*, Aleister Crowley definiu a magia como “a Ciência e a Arte de provocar Mudanças em conformidade com a Vontade”. Deixem de lado quaisquer imagens modernas que a palavra “magia” possa evocar. Considerem a própria definição.
A Maçonaria não é descrita como uma ciência progressiva? Não procura ela conduzir o homem de um estado de compreensão para outro? Através dos graus, das alegorias, dos símbolos e das lições, somos desafiados a remodelar o nosso carácter e a expandir a nossa consciência. Se aplicarmos verdadeiramente esses ensinamentos, eles transformam-nos. Já vi isso acontecer repetidamente.
Mas a transformação nunca é passiva. Exige esforço. Exige disciplina. Nada de valor nos é simplesmente entregue. Talvez seja por isso que, ao longo da nossa jornada, nos perguntam repetidamente se as nossas acções são de “nossa livre vontade e consentimento”. ”
Lá está essa palavra outra vez: vontade.
Costumamos dizer que a Maçonaria procura “agarrar em homens bons e torná-los melhores”. Isto só pode acontecer se o candidato — e, mais tarde, o Irmão — se envolver activamente com os princípios que lhe são transmitidos. Ele deve contemplá-los, pô-los à prova e, em última análise, vivê-los. Afinal, todo o homem que se candidata à Ordem fá-lo porque, consciente ou inconscientemente, procura alguma forma de mudança.
O nosso papel é ajudá-lo a aplicar a ciência que facilita essa transformação.
Por outras palavras, o nosso papel é praticar magia.
Certa vez, ouvi um Antigo Grão-Mestre descrever este processo não como magia, mas como alquimia — a antiga arte da transformação. Não a transmutação do chumbo em ouro, mas do eu bruto e imperfeito em algo mais nobre. Sempre achei que esta era uma bela forma de o expressar e concordo plenamente.
À medida que a nossa conversa prosseguia, voltámo-nos para as dimensões simbólicas e espirituais da própria Loja. Falamos da sala da Loja como representando o Templo do Rei Salomão. Muitas vezes chamamos-lhe simbólica, mas por vezes pergunto-me se esta palavra não fica aquém.
Se toda a criação começa com o pensamento, se os símbolos moldam a consciência e a consciência molda a realidade, então será meramente simbólica?
Não creio que seja assim.
Quando a Loja é devidamente aberta e os oficiais assumem os seus postos, algo profundo acontece. Através do ritual, da intenção e de um propósito comum, deixamos de ser simplesmente homens sentados numa sala. Tornamo-nos trabalhadores reunidos na realidade espiritual do Templo do Rei Salomão — o próprio local que albergava o Sanctum Sanctorum, o Santo dos Santos, a morada simbólica do Divino.
Se chamam a essa presença Divina, Deus, o Grande Arquitecto do Universo ou por outro nome sagrado, é uma questão que cabe ao vosso próprio coração e à vossa consciência. Mas acredito que, quando uma Loja é devidamente aberta e devidamente fechada, estamos juntos na presença do próprio Mestre Artesão.
E sempre que o Mestre está presente, a mudança é possível.
Sempre que o Divino é convidado a participar no trabalho, a transformação torna-se inevitável.
E onde há transformação através da vontade, do propósito e do trabalho sagrado, aí está — a Magia.
Amo-vos e que possamos reger-nos em conformidade.
Duanne A. Marshall
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex-Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
