Raça, Religião, Política e Maçonaria
José de Souza Marques: confluências de uma memória negra, republicana e suburbana
“A tarefa principal da biografia é descrever e mostrar o homem nas suas relações com a época. Até que ponto o conjunto contraria ou favorece, que ideias ele forma em resultado disso a respeito do mundo e da Humanidade, e de que modo as reflecte? Mas isto exige algo quase impossível: Que o homem conheça a si próprio e ao seu século. Quanto a si próprio, até que ponto permanece o mesmo em todas as circunstâncias? E quanto ao século, na medida em que nos arrasta consigo por bem ou por mal, nos molda ou determina, de sorte que todo homem, pode-se dizer, se tivesse nascido dez anos mais cedo ou mais tarde, seria bem diverso do que é no tocante à sua própria cultura e à acção que exerce sobre o mundo exterior” [1]
O verbo recordar, segundo Sérgio Buarque de Holanda Ferreira (2001, p.588) [2] é um verbo transitivo directo e indirecto. Os seus significados traduzem-se em trazer à memória, lembrar-se de, rememorar, fazer lembrar. O sentido da recordação é pertinente e particular a cada indivíduo, implicando em aprendizagens significativas e formativas sobre o que ficou retido na memória. Sabe-se que a escola enquanto espaço de memória contribuiu para o apagamento e o silenciamento da memória de algumas personalidades significativas ao entendimento amplo da realidade brasileira.
Neste sentido, busca-se na actualidade referenciais que lidem com histórias de vida, com a biografia e a memória, abordadas por outros sentidos cujo compromisso seja o de romper com a neutralidade fria da Ciência. A história oral, nesta perspectiva possui larga utilização entre os historiadores que buscam entender e aprofundar conhecimentos sobre determinada realidade ou momento histórico através de conversas com pessoas e relatos orais. (SILVA et alli, 2007, p.29) [3] Busca-se assim (re)compor e contrapor-se à memória oficial disseminada pelas práticas de exclusão e esquecimentos.
Tudo quanto é presente hoje será passado amanhã: Procede sempre tendo em vista esta verdade, para não teres arrependimento, quando te encontrares com o teu passado no futuro. (MARQUES, José de Souza. Pensamentos para você pensar. RJ, Edição do Autor, 1963, p.31).
Um dos menos conhecidos “arquitectos” da educação republicana brasileira, José de Souza Marques (1894-1974) entreteceu para a sua existência, muitos outros fios que se misturam à linha maçónica da sua biografia. Personalidade múltipla; soube conciliar aspectos e funções exercidas, para muitos inconciliáveis, com hábil maestria.
Nascido de família [4] de parcos recursos [5], negro numa sociedade que apenas seis anos antes abolira a escravidão, profundamente religioso [6], dedicando toda a sua vida adulta a recolher ovelhas desgarradas como pastor baptista, Maçom respeitado universalmente pelos seus contemporâneos, verdadeira liderança [7] moral e intelectual entre os pedreiros-livres do seu tempo. Foi político actuante numa época de repressão às liberdades civis e institucionais, e, finalmente, professor inconformado com a mera lide diária nos bancos escolares. Queria mais, e, pelo seu querer, tornou-se ente muito especial. Aquilo que os maçons chamam de “Construtor de Templos à Virtude”.
O maior legado da sua existência, sem dúvida foi a instituição escolar que leva o seu nome. O Colégio Souza Marques, nascido, como seu criador, modesto e localizado numa área pobre e periférica dos subúrbios [8] da cidade do Rio de Janeiro. Cultivado e burilado com carinho de mestre competente, o educandário cresceu e actualmente se chama Fundação Técnico-Educacional Souza Marques, instituição de ensino superior que, na actualidade, contempla um conjunto de faculdades de ensino superior.
Apesar do extenso e multifacetado percurso nos campos da educação, cultura, política e religião, Souza Marques é personagem relativamente pouco retratado em verbetes bibliográficos. Talvez por ter realizado o seu trabalho nos subúrbios cariocas e caracterizar-se como um perfil dissonante na sociedade da primeira metade do século XX: ser evangélico, [9] negro e Maçom.
Formado em Ciências e Letras, e em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, na turma de 1922, aos 28 anos de idade, Sousa Marques foi pastor no Paraná. Voltou ao Rio de Janeiro no ano seguinte, formando-se em Direito.
Sagrado como ministro evangélico, torna-se pastor, vinculado à Convenção Batista Brasileira, foi pastor da Igreja Batista do Engenho Novo, no Rio de Janeiro, e da Primeira Igreja Batista de Campo Grande no período de 1923 a 1925. Neste período, erigiu vários templos baptistas, dentre outros, nos bairros cariocas de Realengo, Osvaldo Cruz e Engenho Novo. Eleito sucessivas vezes Presidente da Convenção dos Baptistas Cariocas, foi Presidente da Convenção Batista Brasileira, em 1935, com 41 anos de idade, na Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro. Posteriormente, foi Presidente da Ordem dos Ministros Baptistas do Brasil, em 1958, aos 64 anos de idade, quando se deu o Primeiro Congresso de Pastores Baptistas do Brasil.
No campo da Educação foi Secretário e Vice-director do Colégio Batista do Rio de Janeiro. Por concurso público de provas e títulos, leccionou como professor do antigo Distrito Federal. Em 1929 fundou uma Escola Primária que se transformou no Colégio Souza Marques. Posteriormente ampliado, tornou-se em 1966 a citada Fundação Técnico- Educacional Souza Marques, situada ainda hoje no bairro de Cascadura, no Rio de Janeiro, que também mantém uma Faculdade de Medicina e presta serviços sociais à comunidade local.
Empreendimento de cunho familiar, a instituição é hoje administrada pelas filhas de Souza Marques, que conduzem o seu legado educacional de acordo com os preceitos que ele adoptava, buscando a integração e a qualificação dos espaços sociais das comunidades adjacentes. Exemplo disto, em 28 de Março de 2012 foi inaugurada a Clínica da Família Souza Marques, localizada nas imediações da Fundação, na Praça do Patriarca, bairro de Madureira. Com oito equipes de Saúde da Família e três equipes de Saúde Bucal, a Clínica garante acesso a um serviço médico de qualidade e resolutivo. Na Clínica funcionam um Centro de Referência de Obesidade, para acompanhamento de pacientes com sobrepeso e obesos mórbidos, e um Centro de Referência da Mulher, garantindo acesso a exames, acções de promoção de saúde e planeamento familiar.
O governo do Estado do Rio de Janeiro homenageou-o postumamente, criando um colégio estadual com o seu nome: “Colégio Estadual Professor José de Souza Marques”, localizado no bairro de Brás de Pina, outro subúrbio carioca.
Outra homenagem governamental foi a nominação de “Praça Souza Marques” a um logradouro situado também na região central do bairro de Cascadura. Actualmente descuidado e abandonado pelo poder público, um grupo de estudantes coordenados pela professora Leopoldina de Souza Marques, filha de Souza Marques e a actual directora da Fundação, elaborou um projecto de revitalização da praça, encaminhando-o à prefeitura para aprovação. Dois anos depois, a autorização para o início dos trabalhos ainda não foi dada.
Na área das comunicações, foi redactor do jornal “O Batista Federal”. Fundador do “Jornal Nova Era”, director da “Editora Souza Marques”, proprietário da “Livraria Evangélica Suburbana” e director-proprietário da “Revista Selecções Brasileiras”.
Na Academia Evangélica de Letras do Brasil foi o 1° Ocupante da Cadeira 04, tornando-se assim o Patrono desta vaga.
Ampliando a sua actuação em prol da educação republicana, actuou no cenário político, objectivando a melhoria das condições de ensino. Fundador e presidente do Partido Republicano Democrático, foi vereador no Rio de Janeiro em 1935, deputado constituinte durante a primeira legislatura do Estado da Guanabara e, quando faleceu, em 1974, era deputado estadual.
Seguindo a tradição inglesa e estadunidense de militância de líderes cristãos na Maçonaria, foi um destacado membro do Grande Oriente do Brasil, exercendo cargos de expressão na administração maçónica. Foi presidente do Supremo Tribunal de Justiça Maçónica. Ainda hoje, a única foto existente no Salão do Conselho do Palácio Maçónico do Lavradio, é a que homenageia o professor Souza Marques. No mesmo Palácio, a sala do Tribunal de Justiça tem o nome de José de Souza Marques. Foi ainda membro efectivo do Supremo Conselho do Brasil para o Rito Escocês Antigo e Aceito, encontrando-se na sua sede, no bairro de São Cristóvão, em exposição, um retrato seu pintado a óleo.
Em mais uma homenagem póstuma, desta feita organizada pela Maçonaria, em 28 de Abril de 1981 foi criada a Loja Maçónica José de Souza Marques, que, após alguns anos actuando em outros bairros da cidade, no início dos anos noventa fixou-se na Rua Nerval de Gouveia, situada também em Cascadura. A loja ocupa o prédio da antiga Gráfica Souza Marques. Esta casa, de propriedade da família Souza Marques, foi cedida ao grupo de maçons que, a partir de então, ali realizam as suas sessões semanais.
Proporcionalmente à extensa rede de actividades que desempenhou nos seus oitenta anos de vida, são raras as fontes de informação escritas sobre Sousa Marques. É citado em verbete do Dicionário Biobibliográfico Regional do Brasil, de Mário Ribeiro Martins [10]. Esparsa e superficialmente analisado na Enciclopédia de Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho e J. Galante [11], sendo melhor citado na obra História dos Baptistas no Brasil: 18822001, de José dos Reis Pereira (Juerp, 2001). [12].
Discreto, Souza Marques nunca fez militância da sua condição de integrante da raça negra ou do facto de ser baptista ou Maçom, despontando como um construtor pragmático, moderado e conciliador. O que, entretanto, não significa que o professor fosse alienado da sua condição ou a dos demais afro-descendentes que sofrem dentro da sociedade brasileira das formas mais insidiosas de racismo, aquelas sub-reptícias, que não se apresentam nem se assumem, mantendo-se no anonimato e dificultando o seu combate e eliminação. Sobre isto, é esclarecedora a referência que Lopes (2004) faz a Souza Marques na forma de outro verbete, na sua Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana:
Na década de 1960 foi deputado estadual no Rio de Janeiro em várias legislaturas. Segundo Abdias do Nascimento em O negro revoltado, em certa ocasião denunciou em sessão pública na Associação Brasileira de Imprensa ter sido preterido num cargo de secretário de Estado pelo facto de ser negro. (LOPES, Nei. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. SP, Selo Negro Edições, 2004.) [13]
Na tentativa de analisar as suas múltiplas facetas, podemos dividir a sua biografia em três etapas de vida. Nos primeiros anos, temos um jovem Souza Marques caracterizado pelo fervor religioso, e iniciando a sua carreira docente, conforme nos diz Pereira (2001, p. 298):
Converteu-se na juventude, no Rio, e entrou para o Seminário, onde se formou na turma de 1922 (…) Desde os tempos de seminarista era professor. Após a formatura e um breve pastorado no Estado do Paraná, voltou ao Rio, onde fundou uma pequena escola primária, depois de ter trabalhado algum tempo com Shepard, como secretário do Colégio Batista. A sua pequena escola cresceu, tornou-se ginásio. Propriedades adequadas foram adquiridas em Cascadura, no Rio, e, ao findar a vida, aquele que todos chamavam “o professor” teve o prazer de ver praticamente formada a Universidade com que sempre sonhara. Chama-se hoje Fundação Educacional Souza Marques e conta com Faculdades de Medicina, Engenharia, Química, Letras e outras, além de cursos básicos.”
Como visto, nada se cita sobre os aspectos maçónico ou político da sua vida. As biografias optam pelas facetas que mais lhe interessam, e tornam, muitas das vezes, o biografado um pouco menos do que realmente é.
Sobre tal, a citação que abre esta análise biográfica (GOETHE, 1971, p.93) é bem esclarecedora dos mecanismos que a obra biográfica estabelece na apresentação do personagem biografado. O autor que rememora a vida do personagem, não é o homem em si, ele acaricia o tecido da sua rememoração. Como mero comprador que vai adquirir uma peça, ele escolhe e analisa a qualidade da obra que mais lhe interessa. Nesse sentido, está a elaborar trabalho semelhante ao do mito grego da rainha Penélope, esposa do ausente Ulisses, rei de Ítaca. No seu labor, além de ludibriar os seus pretendentes, ela elabora o seu próprio trabalho de reminiscência, amalgamando-se às lembranças das quais não quer se separar relativas ao esposo desaparecido. Ou seria preferível falar do trabalho de Penélope do esquecimento ou apagamento da desagradável realidade do seu presente?
Não seria, portanto, este trabalho de rememoração espontânea por parte do biógrafo, acção consciente de escolha das qualidades preferidas do biografado, onde a recordação é a trama e o esquecimento a urdidura? Quem escreve sobre a vida de outrem, segura nas suas mãos as franjas da tapeçaria da existência vivida daquele, e não a da sua própria, moldando-a ao próprio corpo da maneira que acha mais conveniente e proveitosa. Cada linha escrita pelo biógrafo, intencionalmente ou não, de certa forma através das suas próprias experiências e reminiscências pessoais, desfaz os fios do ornamento do personagem perdido no passado.
Desta forma, aquele que busca entender a vida pregressa do outro, deve beber de múltiplas fontes, a fim de melhor compor esta tapeçaria de memórias.
Buscamos assim, para ilustrar o segundo momento do percurso de vida de Souza Marques, a referência d seus irmãos maçons. A mais difícil e oculta, pelas características que conformam esta ordem. Apesar de Souza Marques nunca ter ocultado a sua condição osde Maçom, também não a apregoou, mantendo postura de naturalidade em relação à sua profícua existência entre os pedreiros-livres. Desta forma, apesar da sua importância, também entre os maçons são raras as menções a Souza Marques. Destacamos uma, citada por Castellani (2006) e compilada em artigo pelo Maçom Ezequias Raimundo Alves Júnior, apresentado posteriormente na Loja Souza Marques, em sessão magna comemorativa dos seus 25 anos de existência, em 06 de Maio de 2006:
Pedagogo, educador e professor, jornalista, poeta. (…) Casado com D. Leopoldina de Souza Marques, teve sete filhos (…) Iniciado em 17 de Março de 1943, na Loja Brasil, CIM 33.867. Filiado à Loja Duque de Caxias, em 17 de Agosto de 1945 e à Loja Independência II, em 12 de Julho de 1947. Membro do Conselho Federal da Ordem; Deputado na Soberana Assembleia Federal Legislativa; Benemérito da Ordem maçónica, membro do Sacro Colégio do Grande Oriente do Brasil em 15 de Novembro de 1965. Um dos signatários do Tratado entre o Grande Oriente do Brasil e o Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito para o Grau 33. Passou por todos os graus simbólicos e filosóficos na ordem maçónica. Foi o primeiro presidente do Supremo Tribunal de Justiça do Grande Oriente do Brasil no Rio de Janeiro. Em 28 de Abril de 1981, um grupo de irmãos fundou uma loja maçónica em sua honra, a ARLS José de Souza Marques, n° 2098, situada à Rua Nerval de Gouveia, 409, no bairro de Cascadura, Rio de Janeiro. (Castellani, José. Do pó dos arquivos. 3 Vol., Londrina, Editora maçónica A Trolha, 1996).
Em outra “peça de arquitectura”, nome como os maçons denominam os seus trabalhos de pesquisa relativos à sua simbologia, ritualística e história, o mesmo Maçom Ezequias, expõe as directrizes do trabalho exercido pela Loja maçónica Souza Marques, pautadas em trinómio que rege desde a sua fundação também a instituição educacional que leva o seu nome. No trecho da referida pesquisa, é relatado ainda, o percurso desenvolvido pela loja, desde a sua fundação até o momento em que passa a ocupar o imóvel onde até hoje se situa, a antiga gráfica e editora Souza Marques. É o próprio Maçom que nos assinala as marcas deixadas por Souza Marques na memória dos seus contemporâneos, bem como externa o projecto da loja maçónica, fruto da disciplina, da moral e do trabalho deste pedreiro-livre, de deixar a sua marca na sociedade, propagando desta forma, o projecto maçónico de construção de uma república pautada no ideário iluminista irradiado desde os séculos XVII e XVIII. Tal projecto, assinalamos, passa estrategicamente e de forma essencial para sua consecução, pelo campo da educação nacional.
Nenhuma instituição, empresa ou qualquer tipo de agremiação comemora, com sucesso, 30 anos de existência se não se portar sempre de maneira disciplinada, moralmente comprometida com os seus objectivos e abnegadamente dedicada ao trabalho. Não por acaso, a trilogia disciplina, moral e trabalho foi adoptada pela nossa Loja, herdando o lema criado pelo nosso patrono para inspiração da sua conceituada instituição educacional – a Fundação Técnico-Educacional Souza Marques. Por isso, manter-se fiel a este lema tem sido ponto de honra para a Augusta e Respeitável Loja Simbólica José de Souza Marques n° 2098, ao longo desses 30 anos de labuta. (…)Nascida no bairro de Jacarepaguá, a nossa Loja peregrinou nos seus primeiros anos de vida por templos cedidos por lojas co-irmãs, saindo da Rua Valentim Dunham para a Rua Ana Barbosa (Loja Cayru do Méier), daí para o condomínio maçónico da Rua Maricá, no Campinho e, finalmente, para o actual endereço, sob o beneplácito da Fundação Souza Marques. Enfrentou e venceu grandes dificuldades, jamais desistindo da luta por dias melhores. Os seus idealizadores, bem como aqueles que posteriormente se comprometeram em mantê-la viva, deixaram – cada um a seu modo – as suas marcas na História, mas deixaram também uma mensagem de fé e de esperança. E é apoiada nessa mensagem que ela chega aos 30 anos de trabalhos ininterruptos, desbastando a pedra bruta e festejando com garbo juvenil a meritória condição de Benemérita da Ordem, sempre em obstinado e vigoroso processo de crescimento [14].
A vida maçónica de Souza Marques, bem como a sua actuação no campo da Educação, naturalmente conduziram-no ao terço final da sua existência ao terreno da política. Percebendo que só através da acção dentro dos gabinetes das câmaras e das assembleias legislativas os princípios nos quais acreditava poderiam ser aplicados e propagados na sociedade brasileira, Souza Marques envolve-se na actuação política até o fim da sua vida. Pauta a sua actuação na defesa dos interesses da educação de qualidade para os necessitados e discriminados, corroborando a agenda maçónica neste campo.
Pode-se atestar tal assertiva pelo que recolhemos dos Anais da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, actual ALERJ, quando da actuação de Souza Marques como deputado da assembleia constituinte do antigo Estado da Guanabara, de 1960 a 1962. Posteriormente, ingressou no Movimento Democrático Brasileiro – MDB, reelegendo-se novamente em 1966 ao final da sua vida, portanto. Deste período, compilamos e aqui assinalamos do período relativo ao mês de Março de 1961, quatro inserções de Souza Marques nas discussões ali entabuladas a respeito da elaboração da nova Constituição estadual: Sobre os horrores que identificou e denuncia sobre o Serviço de Assistência ao Menor, o SAM, instituição de recolhimento de menores infractores (1961, p.83). Sobre o pudor público e a necessidade de uma política pública mais eficaz de inserção do jovem no mercado de trabalho, pleiteando especificamente uma política atenta e voltada para a questão do primeiro emprego (1961, p.89). Ainda sobre a questão do trabalho, conforme visto pelo projecto constitucional à época elaborado, fazendo aqui uma análise geral do pensamento social modelador deste projecto (p.429-476). Por fim, Sobre a sua saída do bloco da chamada minoria partidária, considerações sobre a Constituição do Estado da Guanabara e sobre a figura e actuação política dos líderes na esfera estadual e federal, Carlos Lacerda e Jânio Quadros (p. 580) [15].
Em todos estes discursos, Souza Marques deixa clara a sua marca maçónica, bem como os seus claros princípios religiosos e morais, ao optar sempre nas suas inserções pelos problemas menores, dos que não têm voz dentro de uma sociedade brasileira pré-iluminista, como assinala o pesquisador Maçom William Almeida de Carvalho (2007) [16]
O historiador que lida com documentos pessoais, biografias, entrevistas de história oral e outras fontes biográficas tem ampliados o seu conhecimento de mundo (ALBERTI, 2006, p.1) [17]. Isto posto, destacamos a título de conclusão, uma importante referência a Souza Marques, e que, de certa forma, resume a importância do seu percurso e exemplo como educador, religioso e Maçom, que pode ser encontrada na tese de doutoramento do agora professor doutor Paulo Baía. Nela, na sua parte relativa aos agradecimentos aos que contribuíram para a sua formação, ele destaca, junto aos seus parentes, a figura de Souza Marques, assinalando-o como representante de todos os que lutaram pela via da educação, através de um trabalho árduo e honesto, por uma melhor qualificação social, recusando os rótulos que o discurso oficial lhes impingia, como negros, suburbanos e, por isso, discriminados:
A meus primos, primas e sobrinhos, de forma especial a Sérgio Baía, Fábio Bahia e Mariza Bahia, enfatizando que Mariza foi a nossa primeira doutora da nossa família, suburbana e afro-descendente e, se tudo correr bem, eu serei o segundo. Essa observação pode parecer pueril e sem sentido para muitos, mas não para mim, pois aprendi com meu pai, Luciano Baía, e com o professor negro José de Souza Marques que nunca devemos esquecer da nossa origem e das marcas da trajectória das nossas famílias. Assim, ao agradecer de forma especial a Mariza, estou agradecendo a todas as gerações de vizinhos e moradores dos subúrbios de Marechal Hermes, Guadalupe, Jardim Sulacap e Vila Valqueire, que apoiaram meus pais e tios a chegarem a uma escolarização de nível técnico e nível superior, propiciando a mim, a meus irmãos e a meus primos as oportunidades necessárias para sermos uma segunda geração de universitários afro-brasileiros e suburbanos. O professor José de Souza Marques, pastor da Igreja Batista de Jacarepaguá e director do Colégio Souza Marques, incentivava-nos a estudar e, por meio da luta política, dos conhecimentos técnicos profissionais e de uma sólida formação intelectual, ascendermos socialmente pela via do trabalho árduo e honesto, porém sem esquecer jamais que éramos negros, suburbanos e discriminados, e que o nosso papel era muito importante para alavancar a auto-estima das populações negras e afro-brasileiras dos subúrbios da cidade do Rio de Janeiro. (BAÍA, Paulo Rogério dos Santos. A tradição reconfigurada. Mandonismo, municipalismo e poder local no município de Nilópolis e no bairro da Rocinha na região metropolitana do Rio de Janeiro. Tese de doutorado, Seropédica – RJ, UFRRJ, 2006, p. 7).
Fernando da Silva Magalhães e Vanessa Soares da Silva
- Prof. MSc.Fernando da Silva Magalhães – PROPEd-UERJ – Orientadora: Prof.ª Dr.ª Lia Faria – Co-Orientadora: Prof.ª Dr.ª Edna Santos
magallegal@ibest.com.br / 21 96540461 / R. Joaquim Palhares, 585/504. Estácio.
Prof.ª MSc. Vanessa Soares da Silva – PPFH-UERJ – Orientadora: Prof.ª Dr.ª Denise Barata – Co-Orientadora: Prof.ª Dr.ª Lia Faria
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Notas
[1] GOETHE, W. Memórias, poesia e verdade. Porto Alegre, Globo, 1971. P.5.
[2] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio Século XXI Escolar: O minidicionário da língua portuguesa. 4.ed. versão ampliada. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2001.
[3] SILVA, Aline Pacheco et alli. “Conte-me a sua história”: reflexões sobre o método de Historia de Vida. In: CA/FAFICH. Mosaico: Estudos em psicologia. Revista do Centro académico de Psicologia da FAFICH. Belo Horizonte, UFMG, Vol. I, n. 1, 2007. Pág.. 25-35. O método de Historia de Vida se insere dentro de metodologias qualitativas (Abordagens Biográficas) que surge com a Escola de Chicago. Objectiva apreender as articulações entre a historia individual e a historia colectiva, uma ponte entre a trajectória individual e a trajectória social. Discute-se também o vinculo entre pesquisador e sujeito, dimensão priorizada aqui. Dessa maneira o método de historia de vida pode ser classificado como cientifico, com a mesma validade e eficiência de outros métodos, sendo que o compromisso maior do pesquisador é com a realidade a ser compreendida.
[4] Carinhosamente, o professor é descrito por uma das suas filhas como um homem voltado não só ao trabalho como ainda preocupado com a família. Teve ao longo da sua vida sete filhos, seis meninas e apenas um menino, o quinto na linha de nascimento da família. Dininha; a professora Leopoldina de Souza Marques, como era chamada pelo pai, descreveu certa ocasião em que o seu pai fora convocado a trabalhar na Constituinte num domingo, e ele respondeu que este dia era por ele reservado à família e ao culto. O encontro foi remarcado para outra data, tendo em vista a sua influencia enquanto figura ilustre da época.
[5] Segundo a sua filha, professora Leopoldina de Souza Marques, ele nasceu e foi criado no morro do Andaraí, zona norte do Município do Rio de Janeiro. Filho de pai carpinteiro e mãe lavadeira. Em virtude do seu tino de liderança, organizou aos 16 anos de idade um bloco de carnaval, no qual se fantasiava de “Caboclo”. Adorava música.
[6] Num dos desfiles do seu bloco carnavalesco, no Arco da Igreja de Santana foi surpreendido por um temporal. Ao buscar abrigo da chuva, ouviu uma música vinda do interior do Colégio Batista, entoada por um coral ali localizado. Encantou-se. A partir dali iniciar-se-ia a sua vocação religiosa.
[7] O seu espírito de liderança e perseverança o levou de faxineiro empregado no Colégio Batista, a título de custeio dos seus estudos, a se formar em Letras, Português-Latim, e, posteriormente, Bacharel em Direito. Galgou diversas funções no educandário, até que, em 1922, tornou-se vice-director do Colégio Batista. Ao casar-se, transfere-se para o Estado do Paraná, onde reside com a família por 1 ano. Não adaptando-se, retorna e, com o auxílio da esposa começa o empreendimento de fundar um pequeno colégio primário, iniciando-o com dois alunos.
[8] Interessante discussão antropológica e sociológica sobre a carga pejorativa do termo “subúrbio” é levantada por FERNANDES, Nélson da Nóbrega. O rapto ideológico da categoria subúrbio. Rio de Janeiro 1858-1945. RJ, FAPERJ/Apicuri, 2012. O pesquisador da Universidade Federal Fluminense, a partir do campo da Geografia, elabora o seu estudo na linha da geopolítica dos espaços urbanos e trabalha com o conceito de “cidade capitalista”, apontando as distorções geradas pelos investimentos na cidade do Rio de Janeiro desde a Reforma Pereira Passos. A discussão é pertinente a este estudo por quebrar um paradigma recorrente a respeito da Maçonaria como um grupo elitizado, visto que a penetração da ordem se dá em amplas fatias do espectro social, actuando tanto nas áreas mais privilegiadas da sociedade quanto nos chamados “subúrbios” estendendo a sua actuação a locais onde a pesquisa académica pouca atenção dá nos seus estudos.
[9] Outra hipótese é que a sua invisibilidade histórica se dê por conta do aparato ideológico vigente à época, que fazia uso da força física e ideológica, que associava a imagem do negro a uma condição de inferioridade e preconceito. A partir desta perspectiva, o apagamento deste expoente da educação no Brasil pode ser percebido a contar do pensamento de certos intelectuais do século XX, cujas bases vinham das ideias positivistas, do darwinismo, do evolucionismo e principalmente do arianismo. Exemplifica-se este caso com o pensamento do médico Nina Rodrigues. Na sua escrita faz-se presente a forte influência das ideologias racistas presentes no final do XIX, e vigentes ainda no início do XX. Dava-se à miscigenação um carácter de degeneração da raça, como sendo um factor de atraso do país. Os pressupostos de civilização eram baseados na construção identitária de uma população de pele branca e de hábitos europeus.
[10] MARTINS, Mário Ribeiro. Dicionário Biobibliográfico Regional do Brasil. Brasília/DF, 2003.
[11] COUTINHO, Afrânio; SOUSA, J. Galante de. Enciclopédia de literatura brasileira. Rio de Janeiro, Fundação Biblioteca Nacional, Academia Brasileira de Letras, 2001.
[12] PEREIRA, José dos Reis et alii. História dos Baptistas no Brasil. 1882-2001. Rio de Janeiro, JUERP, 2001.
[13] Para o autor, a Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana sinaliza um passo decisivo na reflexão para construção de uma auto-estima positiva na emocionalidade do leitor afro-brasileiro. São referências onde o leitor negro se localiza e se estrutura para construir a tão buscada e quase nunca atingida auto-estima. Nei Lopes lembra que nas publicações disponíveis, o negro parece só ter interesse etnográfico. Nessas obras, raramente figuram heróis, sábios, grandes homens. Para essas publicações, em geral, o vocábulo ‘negro’ define, no Brasil, mais uma categoria social, já que os “grandes homens”, quando afro-descendentes, são apenas “nascidos em lar humilde” e quase nunca efectivamente “negros”. Na Maçonaria brasileira, destacam-se uma série de maçons negros, verdadeiras lideranças que, assim como Souza Marques, encontraram no centro de união maçónico, espaços de sociabilidade onde puderam demonstrar e exercer as suas capacidades intelectuais e morais.
[14] (ALVES JR. Ezequias Raimundo. Augusta e Respeitável Loja Simbólica José de Souza Marques. Trinta anos desbastando a pedra bruta com disciplina, moral e trabalho. Artigo apresentado em forma de discurso na ocasião do 30° aniversário de fundação da loja. RJ, Abril/2011).
[15] Anais da Assembleia Legislativa e Constituinte do Estado da Guanabara. Rio de Janeiro, Março/1961, Vol. IV, sessões de 01-27 de Março de 1961.
[16] CARVALHO, William Dálbio Almeida de. Simbologia maçónica. Uma proposta de abordagem. In: GOB. Primeiro concurso anual de monografias do Grande Oriente do Brasil. Brasília, GOB, 2007.
[17] ALBERTI, Verena. Biografia das avós: uma experiência de pesquisa no ensino médio. Rio de Janeiro, CPDOC, 2006.
