Origem da Maçonaria
Espíritos românticos e fantasistas emprestaram à Maçonaria origens lendárias; alguns encontraram-nas entre os construtores do Templo de Salomão, outros nos antigos mistérios dos orientais e dos egípcios e há que julgue que ela procede dos mistérios greco-romanos interpelados nas corporações operárias ou Collegium Adtificum dos romanos.
Imaginações exageradas fizeram-na remontar ao Paraíso Terrestre e Adão teria sido o primeiro Mestre ou, mais tarde, à época do Dilúvio, na construção da Arca de Noé, o qual teria sido, então, o primeiro Grão-Mestre. Hoje, a História da Maçonaria, assim como a das outras associações, entrou no domínio científico, e as suas lendas foram postas de lado pelos historiadores maçónicos dignos desse nome, e estudaram-se mesmo as épocas e as circunstâncias em que tinham tido a sua origem. Seguidamente, fez-se minucioso inquérito sobre as origens positivas da Ordem Maçónica actual, e a análise do que dos antigos ritos orientais, egípcios e clássicos, tinha passado para as associações arquitectónicas medievais dos artistas da pedra, da madeira e do ferro, a verdadeira génese da Maçonaria modernas com o seu carácter beneficente e científico, de solidariedade humana e de ciência filosófica.
É verdade que na classe sacerdotal dos antigos persas, assírios, egípcios, gregos e latinos se estudava a astronomia e a vida da Natureza, e que vários símbolos maçónicos têm aparentemente relação com estes estudos.
Mas isto é perfeitamente explicável pelos elementos científicos que entraram nas associações de arquitectos e operários construtores, que formavam a Maçonaria activa medieval, instituição artística e industrial. Conhece-se a existência, na Idade Média, de várias associações de operários construtores que construíram estas catedrais grandiosas, estes campanários cujas esbeltas flechas se perdem nas nuvens, estas naves de grande extensão, apoiadas sobre inúmeras colunas, povoadas de estátuas e de figuras simbólicas as mais fantasistas, cuja liberdade e imaginação ferem vivamente os preconceitos da moralidade religiosa, sobretudo nos claustros de algumas igrejas, onde esta liberdade atinge proporções extraordinárias.
Estas associações e seus mestres tinham sinais convencionais, que encontramos esculpidos nos edifícios que eles construíam, e que se podem ver reproduzidos nos dicionários e livros de Arte que lhe fazem referência. Tinham igualmente certos toques e palavras de passe que permitiam o reconhecimento dos filiados de outras associações idênticas que trabalhavam um pouco por toda a parte.
No entanto, estas confrarias ou associações perderam gradualmente a sua grandeza porque as edificações góticas, cuja construção exigia anos e por vezes séculos, cederem o passo às da Renascença e da Arte Moderna, que, construídos mais rapidamente, não exigem tão grande número de operários.
A transformação destas sociedades de construtores teve ainda outra origem.
Desde há séculos, estes aceitavam como auxiliares alguns civis ou eclesiásticos; mas por toda a parte, desde o final do séc. XVI e o começo do XVII, as Lojas, com o fim de ganharem influência para a associação, iniciaram alguns homens eminentes pela riqueza ou pela ciência, embora estranhos à profissão, e que se designavam por Maçons Aceites. Os construtores guardavam para si próprios a designação de Maçons Antigos. Os primeiros desta categoria de que se conhece a história autêntica foram o nobre escudeiro Thomas Boswuell, o marechal do exército escocês Robert Moray e o notável arqueólogo Elie Ashmole.
Os Maçons Aceites, simples amadores da Arte, começaram o exame dos velhos códigos das Lojas, das suas tradições, estatutos e costumes, e deram-lhe um estilo mais regular e filosófico.
Isto aconteceu no fim do séc. XVII. No entanto, no começo do séc. XVII, em Londres, havia apenas, quatro Lojas maçónicas deste tipo e cada uma delas tinha pequeno número de irmãos. Por outro lado, as lutas das facções políticas, então desencadeados em Inglaterra, levaram alguns indivíduos instruídos, e que não acreditavam nos partidos militantes, a procurar no segredo maçónico um abrigo para o desenvolvimento das suas ideias. Acolhidos como Maçons Aceites, tornaram-se membros dessas Lojas até que, depois de certas combinações, os Maçons Antigos e Aceites das quatro Lojas de Londres se fundiram no mês de Fevereiro de 1717.
Instituiu-se, com toda a espécie de formalidades, uma Grande Loja, união das quatro Lojas, que todos os trimestres devia reunir os seus membros, presidida pelo Mestre mais antigo enquanto não fosse eleito um Grão-Mestre. Finalmente, a 24 de Junho do mesmo ano (solstício de Verão e festa de S. João) foi eleito como Grão-Mestre Anthony Sayers, o qual, aclamado por toda a assembleia, designou o capitão Elliot e o mestre carpinteiro Lamball como inspectores.
Estabeleceu-se então que todos os privilégios da Maçonaria seriam tornados extensivos não apenas aos operários construtores, mas também a todas as pessoas de qualquer nível social que, depois de terem sido devidamente propostas e aprovadas, fossem regularmente iniciadas como maçons. Deste modo se aboliu o carácter estritamente artístico da instituição e se abriu a porta a indivíduos de todas as condições, o que permitiu admitir várias pessoas notáveis e importantes. Mas, ao mesmo tempo, manteve-se rigorosamente a organização interna e o espírito da antigo Maçonaria – os três graus – Aprendiz, Companheiro e Mestre, a divisão por Lojas, e os costumes, hábitos, sinais, palavras e toques dos velhos maçons.
Assim se transformou a antiga Maçonaria, arquitectónica e operária, na Maçonaria moderna, filosófica e social.
Portanto, é a partir daí que a sua história começa e o seu primeiro documento basilar é o Livro das Constituições da Grande Loja de Inglaterra, obra de Anderson, publicado em Londres no ano de 1723. De Londres, a Maçonaria conquista toda a Inglaterra, o continente europeu e, seguidamente, todas as partes do Mundo. De 1721 a 1736 estabelece-se em França; de 1733 a 1741, na Alemanha; de 1723 a 1735, nos Países Baixos; em 1731, na Rússia; de 1735 a 1754, na Suécia; de 1743 a 1749, na Dinamarca; de 1727 a 1728, na Espanha; em 1733, na Itália; de 1733 a 1743, em Portugal; em 1737, na Suíça; em 1738, na Turquia. Em França e na Alemanha desenvolve-se desde 1733 até 1783; mas a vivacidade francesa e o filosofismo alemão, contraste do carácter prático e tradicionalista do espírito inglês, introduziram na Maçonaria novos ritos ou graus que mais tarde foram aceites em Inglaterra.
Segundo o “Anuário da Maçonaria Universal” de 1912, editado em Berna, por Edit Quartier la Tente, a Maçonaria contava no Mundo inteiro, em 1911, 22 910 Lojas com 2 209 936 membros. Nesta estatística 149 Lojas e 2887 Maçons pertenciam a Portugal.
In Manuel Borges Graínha, História da Franco-Maçonaria em Portugal, Lisboa,
