O Simbolismo da Maçonaria XIX: O Rito de Investidura
Outro simbolismo ritualístico, ainda mais importante e interessante, é o rito de investidura.
O rito de investidura, chamado, na linguagem coloquialmente técnica da ordem, a cerimónia do vestuário, leva-nos imediatamente à consideração desse símbolo bem conhecido da Maçonaria, o avental de pele de cordeiro.
Este rito de investidura, ou a colocação de uma peça de vestuário no aspirante, como indicação da sua preparação adequada para as cerimónias em que ia participar, prevaleceu em todas as iniciações antigas. Apenas algumas delas serão consideradas.
Assim, na economia levítica dos israelitas, os sacerdotes sempre usavam o abnet, ou avental de linho, ou cinta, como parte da investidura do sacerdócio. Este, com as outras vestimentas, devia ser usado, como expressa o texto, “para glória e formosura”, ou, como foi explicado por um erudito comentarista, “como emblema da santidade e pureza que sempre caracterizam a natureza divina, e o culto que lhe é digno”.
Nos Mistérios Persas de Mitra, o candidato, depois de receber a luz, era investido com um cinto, uma coroa ou mitra, uma túnica púrpura e, por fim, um avental branco.
Nas iniciações praticadas no Indostão, na cerimónia de investidura substituía-se a faixa ou zennaar sagrado, constituído por um cordão, composto por nove fios torcidos num nó na extremidade, e pendurado desde o ombro esquerdo até à anca direita. Este era, talvez, o tipo do lenço maçónico, que é, ou deveria ser, usado sempre na mesma posição.
A seita judaica dos Essénios, que se aproximava mais do que qualquer outra instituição secreta da antiguidade da Maçonaria na sua organização, investia sempre os seus noviços com um manto branco.
E, por último, nos ritos escandinavos, onde o génio militar do povo tinha introduzido uma espécie guerreira de iniciação, em vez do avental encontramos o candidato a receber um escudo branco, que era, no entanto, sempre apresentado com o acompanhamento de alguma instrução simbólica, não muito diferente da que está ligada ao avental maçónico.
Em todos estes modos de investidura, qualquer que seja a matéria ou a forma, o significado simbólico que se pretende transmitir é o da pureza.
E, portanto, na Maçonaria, o mesmo simbolismo é comunicado pelo avental, que, por ser o primeiro presente que o aspirante recebe, – o primeiro símbolo no qual ele é instruído, – tem sido chamado de “distintivo de um maçom”. E muito apropriadamente tem sido chamado assim; pois, qualquer que seja o futuro avanço do candidato na “Arte Real”, em qualquer arcano mais profundo que sua devoção à instituição mística ou sua sede de conhecimento possa levá-lo, com o avental – sua primeira investidura – ele nunca se separa. Mudando, talvez, sua forma e suas decorações, e transmitindo a cada passo alguma nova e bela alusão, sua substância ainda está lá, e continua a reivindicar o título honroso pelo qual foi primeiramente dado a conhecer a ele na noite de sua iniciação.
O avental, como símbolo de pureza, tem duas origens: a sua cor e o seu material. É necessário, pois, considerá-lo sob cada um destes pontos de vista, antes de se poder apreciar correctamente o seu simbolismo.
E, em primeiro lugar, a cor do avental deve ser um branco sem manchas. Essa cor tem sido, em todas as épocas, considerada um emblema de inocência e pureza. Foi com referência a esse simbolismo que uma parte das vestimentas do sacerdócio judaico foi ordenada a ser tornada branca. E por isso foi ordenado a Aarão, quando entrava no santo dos santos para fazer expiação pelos pecados do povo, que aparecesse vestido de linho branco, com seu avental de linho, ou cinto, em torno de seus lombos. É digno de nota que a palavra hebraica LABAN, que significa tornar branco, denota também purificar; e por isso encontramos, ao longo das Escrituras, muitas alusões a essa cor como um emblema de pureza. “Ainda que os teus pecados sejam como a escarlata”, diz Isaías, “eles se tornarão brancos como a neve”; e Jeremias, ao descrever a condição outrora inocente de Sião, diz: “Os seus nazireus eram mais puros do que a neve; eram mais brancos do que o leite”.
No Apocalipse, uma pedra branca era a recompensa prometida pelo Espírito aos vencedores; e no mesmo livro místico o apóstolo é instruído a dizer que o linho fino, limpo e branco, é a justiça dos santos.
Nos primórdios da Igreja Cristã, uma veste branca era sempre colocada sobre o catecúmeno que tinha sido recentemente baptizado, para denotar que ele tinha sido purificado dos seus pecados anteriores e que deveria, daí em diante, levar uma vida de inocência e pureza. Por isso, era-lhe apresentado com este encargo apropriado: “Recebe a veste branca e imaculada, e apresenta-a sem mancha perante o tribunal de nosso Senhor Jesus Cristo, para que possas alcançar a vida imortal.”
A alva branca ainda faz parte dos paramentos da igreja romana, e a sua cor é dita pelo Bispo England “para excitar a piedade, ensinando-nos a pureza de coração e corpo que devemos possuir ao estarmos presentes nos santos mistérios”.
Os pagãos prestavam a mesma atenção ao significado simbólico desta cor. Os egípcios, por exemplo, decoravam a cabeça da sua divindade principal, Osíris, com uma tiara branca, e os sacerdotes usavam vestes de linho branquíssimo.
Na escola de Pitágoras, os hinos sagrados eram entoados pelos discípulos vestidos de branco. Os druidas davam vestes brancas aos seus iniciados que tinham atingido o último grau, ou seja, o da perfeição. E isso tinha a intenção, de acordo com o seu ritual, de ensinar ao aspirante que ninguém era admitido a essa honra senão aqueles que estivessem limpos de todas as impurezas, tanto do corpo quanto da mente.
Em todos os Mistérios e ritos religiosos das outras nações da antiguidade, observava-se o mesmo uso de roupas brancas.
Portal, no seu “Tratado das Cores Simbólicas”, diz que “o branco, símbolo da divindade e do sacerdócio, representa a sabedoria divina; aplicado a uma jovem, denota a virgindade; a um acusado, a inocência; a um juiz, a justiça”; e acrescenta – o que em referência ao seu uso na Maçonaria será peculiarmente apropriado – que, “como sinal característico de pureza, exibe uma promessa de esperança após a morte”. Vemos, portanto, a conveniência de adoptar esta cor no sistema maçónico como um símbolo de pureza. Este simbolismo permeia todo o ritual, desde o grau mais baixo até ao mais elevado, onde quer que sejam usadas vestes brancas ou decorações brancas.
Quanto ao material do avental, exige-se imperativamente que seja de pele de cordeiro. Nenhuma outra substância, como linho, seda ou cetim, poderia ser substituída sem destruir inteiramente o simbolismo da vestimenta. Ora, o cordeiro, como expressa o ritual, “tem sido, em todas as épocas, considerado um emblema de inocência”, mas mais particularmente nas igrejas judaicas e cristãs esse simbolismo tem sido observado. Exemplos disso dificilmente precisam ser citados. Eles abundam no Velho Testamento, onde aprendemos que um cordeiro era escolhido pelos israelitas para suas ofertas pelo pecado e holocaustos, e no Novo, onde a palavra cordeiro é quase constantemente empregada como sinónimo de inocência. “O cordeiro pascal”, diz Didron, “que foi comido pelos israelitas na noite anterior à sua partida, é o tipo daquele outro Cordeiro divino, do qual os cristãos devem participar na Páscoa, a fim de se libertarem da escravidão em que são mantidos pelo vício.” O cordeiro pascal, um cordeiro carregando uma cruz, foi, portanto, desde um período inicial, retratado pelos cristãos como se referindo a Cristo crucificado, “aquele Cordeiro imaculado de Deus, que foi morto desde a fundação do mundo”.
O material, portanto, do avental, une-se à sua cor para dar à investidura de um maçon o significado simbólico de pureza. Isto, então, juntamente com o facto que já demonstrei, de que a cerimónia de investidura era comum a todos os antigos ritos religiosos, formará outra prova da identidade de origem entre estes e a instituição maçónica.
Este simbolismo indica também o carácter sagrado e religioso que os seus fundadores procuraram impor à Maçonaria, e ao qual tanto as qualificações morais como físicas dos nossos candidatos têm indubitavelmente uma referência, uma vez que é com a loja maçónica como era com a igreja judaica, onde foi declarado que “nenhum homem que tivesse uma mancha se aproximaria do altar”;” e com o sacerdócio pagão, entre os quais nos é dito que era considerado uma desonra para os deuses ser servido por qualquer um que fosse aleijado, coxo ou de qualquer outra forma imperfeito; e com ambos, também, ao exigir que ninguém se aproximasse das coisas sagradas que não fosse puro e imaculado.
O avental de pele de cordeiro pura e sem manchas é, portanto, na Maçonaria, um símbolo da perfeição do corpo e da pureza de espírito que são qualificações essenciais em todos os que querem participar nos seus mistérios sagrados.
Albert G. Mackey, M.D.
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Fonte
