O Rito Sueco
Realizando pesquisa para redigir uma Peça de Arquitectura, inspirado por sadia provocação de um dos meus estimados e respeitabilíssimos irmãos, deparei-me com citação sobre o Rito Sueco e, foi o mesmo irmão quem me exortou a buscar maiores informações sobre este modo de praticar Maçonaria, desconhecido de grande parte dos Maçons interioranos como eu.
Lembrei-me da trilogia produzida pelo irmão Xico Trolha, que no seu Ritos & Rituais catalogou mais de duzentos ritos maçónicos ou co-maçónicos e encontrei no terceiro volume do seu hercúleo trabalho, algumas informações sobre o Rito Sueco.
Naquele conhecido e reconhecido trabalho, o irmão Xico informa-nos que o citado rito foi fundado em 1777 e que seria “uma pequena mistura do Rito York, com alguns Ritos Franceses, com fragmentos da Antiga Ordem dos Templários e da Ordem Rosacruciana”.
Uma curiosidade do Rito Sueco é que ele – assim como o Rito Escocês Rectificado – não aceitaria membros que não fossem cristãos e, conforme consta do Ritos & Rituais, “foge dos princípios da Maçonaria Universal, que preconiza aos seus Adeptos, plena e absoluta Liberdade de Religião”, com o que, a princípio concordo. Entretanto, a análise do tema, por profundo e complexo, será oportunamente objecto de outro estudo.
Efectuando pesquisa na página oficial da Grande Loja da Suécia [1] e, com o auxílio de ferramenta electrónica de tradução – já que o conhecimento do idioma sueco não está entre as habilidades deste escriba – pude obter as informações que reproduzo a seguir:
A Maçonaria foi trazida para a Suécia pelo conde Axel Wrede-Sparre, um oficial de cavalaria que durante o serviço na França tinha-se tornado Maçom. Depois de retornar à Suécia, ele reuniu alguns amigos que, como ele, se tinham tornado maçons no exterior. Em 1735, ele indicou, aprovou e iniciou o seu cunhado, o conde Carl Gustaf Tessin, em Estocolmo. A maioria dos irmãos que se juntaram à Loja de Wrede-Sparre, pertencia à alta nobreza. As reuniões desta Loja parecem ter cessado no final da década de 1740.
No início da década de 1750, havia um grande número de maçons na Suécia, que foram iniciados por Wrede-Sparre ou no exterior. O conde Knut Posse estabeleceu então em 1752, a Loja Saint Jean Auxiliaire (São João Batista); assim, Wrede-Sparre e a maioria dos irmãos da sua Loja, juntaram-se à Loja recém-fundada, incorporando ao acervo desta, os rituais e outros documentos que possuíam.
Passou a Loja Saint Jean Auxiliaire a ser chamada então, Loja-Mãe da Suécia e se considerava autorizada a emitir Cartas Constitutivas ou Patentes (mandados) para fundação de outras Lojas no país e na Finlândia, que naquele tempo fazia parte do território sueco. O conde Carl Fredrik Scheffer, que se tinha iniciado em Paris no ano de 1737, foi eleito o Grão-Mestre Nacional em 1753. Durante a década de 1750, as Lojas existentes passaram a aceitar membros de outras classes sociais que não apenas nobres.
Em 1756, Carl Fredrik Eckleff, juntamente com mais seis outros irmãos, fundaram a Scottish Lodge L’Innocente em Estocolmo, trabalhando nos chamados Graus Escoceses de Santo André. O passo seguinte no desenvolvimento da Maçonaria Sueca, foi dado por Eckleff
em 1759, quando ele estabeleceu um Grande Capítulo em Estocolmo. Eckleff era funcionário do Ministério das Relações Exteriores da Suécia e, por isso, possuía uma patente estrangeira que o autorizava a fundar novas Lojas, não sendo possível apurar a data e o local de origem desta Carta Patente e dos rituais utilizados. Oficialmente, considera-se fundada em 1760 a Grande Loja da Suécia.
Por sua vez, o surgimento do Rito Sueco, deu-se sob bases cristãs, pois Eckleff estabeleceu um sistema sob esta fundamentação, cuja filosofia moral foi posteriormente desenvolvida pelo Duque Carl, que mais tarde se tornou Rei Carl XIII, sucedendo a Eckleff como Grão-Mestre.
O Rito Sueco tornou-se verdadeiramente progressivo e contínuo, após duas revisões dos seus rituais, ocorridas respectivamente em 1780 e 1800, dando surgimento a um sistema de ao Maçom os conhecimentos para acesso ao grau seguinte, agrupados em três divisões conforme segue.
Loja ou Graus de São João (Maçonaria de Ofício – Simbolismo):
- Aprendiz;
- Companheiro;
- Mestre.
Relacionada aos rituais do simbolismo, o tempo para que o irmão percorra os três graus é de cerca de dois a três anos.
Loja ou Graus de Santo André (Maçonaria Escocesa):
- Aprendiz / Companheiro de Santo André;
- Mestre de Santo André.
Relaciona-se ao graus equivalente ao Mestre da Marca e Real Arco, que podem ser realizados através de outros Corpos com os quais a Grande Loja detém Tratado, conforme rituais em uso e conhecidos no Brasil. Dentro de cerca de quatro a seis anos, o irmão pode atingir o sexto grau. Soma-se, portanto, ao tempo transcorrido no simbolismo, para cômputo do tempo geral.
Loja ou Graus Capitulares (Capítulo):
- Irmão Muito Ilustre ou Mui Ilustre Irmão;
- Irmão Mais Ilustre ou Mais Ilustre Irmão;
- Irmão Iluminado;
- Irmão Muito Iluminado ou Mui Iluminado Irmão.
Relaciona-se esta sequência de graus, com os Grandes Priorados e Supremos Conselhos, possuindo, entretanto, os seus rituais próprios e, somando-se ao tempo decorrido para completar o período de cerca de doze anos desde a Iniciação no Grau de Aprendiz, para que chegue ao Grau 10.
Este sistema tem, no seu ápice, o Irmão Mais Iluminado, denominado também Cavaleiro Comandante da Cruz Vermelha (quase que exclusivamente acessível somente aos Oficiais da Grande Loja); existindo actualmente, conforme informação contida na referida página electrónica oficial, cerca de oitenta Cavaleiros Comendadores da Cruz Vermelha (sendo trinta e cinco activos) que são extensivamente, membros actuais ou anteriores do Grande Conselho ou Grandes Oficiais.
Em 1811, o Rei Carl estabeleceu a Ordem Real do Rei Carl XIII, uma Ordem Civil que é ainda conferida pelo Rei, mas apenas aos Maçons portadores do título de Cavaleiros Comandantes da Cruz Vermelha, limitando-se a trinta e três o número de membros efectivos (note-se a semelhança com o sistema do Rito Escocês Antigo e Aceito). Tal honraria, não é, entretanto, considerada um grau maçónico.
A progressão de um grau a outro, não é automática, mas sim, deve ser obtida após demonstração de conhecimentos e comprovação de comparecimento efectivo às reuniões dos respectivos Corpos Maçónicos. Um irmão alcançará o décimo grau, em período de cerca de 10 a 12 anos decorridos da sua Iniciação ao primeiro grau simbólico. A título de informação, no sistema adoptado pela Potência e Corpo Filosófico ao qual está vinculada a minha Loja no Rito Escocês Antigo e Aceito, o tempo para chegar ao Grau 33 é de cerca de 12 anos.
Registe-se que todos os Grão-Mestres de 1774 a 1997, pertenceram à Casa Real, quando faleceu o Príncipe Bertil que era o Grão-Mestre de 1973. O Rei Carl XVI Gustaf é o Alto Protector da Ordem dos Maçons Suecos, mas ele não é Maçom. Desde 2019, o Grão-Mestre é o irmão Christer Persson.
A sede da Grande Loja da Suécia está localizada em Estocolmo, no Palácio de Bâât, edifício erigido em 1666 e ampliado entre os anos de 1874 e 1877. Lá funciona o Templo Maçónico da Ordem dos Maçons Suecos.
Actualmente, existem cerca de 60 Lojas Simbólicas, sendo 28 trabalhando nos Graus de Santo André, 2 Lojas de Stewards (à semelhança do sistema britânico, composta por Grandes Mestres de Cerimónias e Grandes Mestres de Banquetes e Oficiais designados para organização cerimonial das sessões), 8 Capítulos e uma Loja de Estudos e Pesquisas Maçónicas.
Há também em plena actividade, 66 Sociedades Fraternais (semelhantes aos nossos Triângulos) que geralmente actuam em pequenas cidades e, na Finlândia, 7 Lojas trabalhando nos Graus Simbólicos e 3 Sociedades Fraternais sob responsabilidade da Ordem dos Maçons Suecos, sendo que 2 Lojas trabalham nos Graus de Santo André, 1 Loja de Stewards e um Grande Capítulo sediado em Helsinque.
O número total de Maçons na Suécia, supera os quinze mil e na Finlândia, são cerca de mil e quinhentos irmãos, reitere-se, exclusivamente cristãos. O Venerável Mestre de uma Loja Simbólica tem mandato de 6 anos, sendo que após os 75 anos, considera-se compulsoriamente Emérito, não podendo exercer cargos em Loja.
Praticado além da Suécia e Finlândia, na Noruega, na Dinamarca e na Islândia, há também na Alemanha uma Grande Loja trabalhando com base nos rituais originais de Carl Friedrich Eckleff (1760) que guarda pouca semelhança com o Rito Sueco praticado actualmente.
Nas Sociedades Fraternais, é permitido aos Maçons realizar os seus compromissos e melhorar os seus conhecimentos individuais, convivendo fraternalmente o organizando grupos de estudos que, visitando regularmente as Lojas, permite a obtenção dos graus mediante a respectiva iniciação, já que as distâncias geográficas muitas vezes se tornam maiores do que são, por conta da característica do clima e da topografia dos países escandinavos.
No Rito Sueco, o irmão deve buscar o seu desenvolvimento pessoal, a amizade e a prática da caridade. Deve professar a fé cristã, crescendo na sua própria compreensão sobre os princípios filosóficos e morais do cristianismo, agregando assim, valores à sua vida religiosa exercida à parte dos trabalhos maçónicos.
Sempre presentes as perguntas que habitam a mente das criaturas humanas: de onde vim, qual o meu papel nesta vida e para onde vou; somados naturalmente, aos mitos e lendas maçónicos trabalhados desde o simbolismo. Uma curiosidade é que compete à Grande Loja da Suécia a jurisdição sobre todos os graus, sob governo do Grão-Mestre, mas, a partir do simbolismo, com uma autonomia relativa na sua gestão.
Os recursos financeiros obtidos das actividades maçónicas diversas, são distribuídos por um Conselho de Beneficência da Ordem dos Maçons Suecos, arrecadando aproximadamente quarenta e cinco milhões de coroas suecas, que equivalem a cerca de cinco milhões de Euros.
Estes recursos são utilizados anualmente para o financiamento de: pesquisas científicas em geriatria, actividades geriátricas, acções contra entorpecentes entre os jovens, ajuda a jovens com necessidades
A página oficial da Grande Loja da Suécia, indica que no Brasil, aquela Potência detém Tratado de Amizade e Mútuo Reconhecimento com o Grande Oriente do Brasil, com a Grande Loja Maçónica do Estado de São Paulo e com a Grande Loja Maçónica do Estado do Espírito Santo, entre outras Potências da Europa, Estados Unidos, Oriente, Oceânia e América Latina.
Domingos Léo Monteiro
Notas
[1] No endereço electrónico https://frimurarorden.se/en/start/who-we-are/, com acesso em 4 de Maio de 2021.
Referências
- CARVALHO, Assis. Ritos & Rituais, volume 3 / Francisco de Assis Carvalho – 1a – Londrina: Ed. Maçónica “A TROLHA”, 1993.
- Grande Loja da Suécia, página oficial, acesso em 4 de Maio de 2021 no endereço electrónico https://frimurarorden.se/en/start/who-we-are/
