O bastão de comando na liturgia do Rito de York
Introdução
Sabemos que a Maçonaria está impregnada de elementos, símbolos, práticas e materiais, todos guardam em si um significado e uma história, junto aos seus cargos em loja os maçons devem contribuir para o bom andamento dos trabalhos, mas um facto que deve ser elencado é a origem destes processos que constantemente em loja nos deparamos, mas por vezes, não temos tempo de contemplar a sua ancestralidade e a sua história que é importante para o desenvolvimento da arte real.
Alguns objectos são bastante singulares e antigos, de facto, a trolha, malho, cinzel, a régua de vinte e quatro polegadas, mas além destes temos em alguns ritos (particularmente aqueles de origem inglesa) objectos que fazem parte e são fundamentais, dão a dimensão do trabalho de alguns irmãos e são tão antigos quanto os outros elementos já mencionados.
A Maçonaria ao se fundir, entre operativa e especulativa, passa a introduzir relações filosóficas em tais insígnias, mas também mantém uma acção histórica, tendo o cargo ou função associado ao objecto em particular.
Na Idade Média os antigos construtores formaram corporações de ofício que chamavam de Guildas, estas tinham a obrigação de proteger o ofício e os segredos dos profissionais, com o tempo eles acabam incorporando também relações sociais e filosóficas dentro dos seus grupos, onde somente os iniciados tinham poder de conhecimento de tais segredos.
Originalmente as guildas marcaram uma nova sociedade, instituída pelo cunho urbano, manifestava-se num relativo equilíbrio entre nobreza e os seus trabalhadores de oficio, agora se relacionavam para o bem da sociedade, assim sendo os antigos artífices da pedra também ganharam diferentes actividades e foram sendo referenciados com elementos que pudessem identificar as suas acções e obrigações no “Craft”, O termo em inglês “Craft” significa, como substantivo, a arte, o ofício.
Como verbo designa a acção de “fazer”, assim neste contexto é o mesmo que a arte ou o ofício de construir o que lhe dá, no caso, uma relação directa com a Maçonaria.
Um objecto dos mais antigos e ainda usado no Rito de York quando empregamos a ritualística em loja é o bastão de comando, este fica sob a guarda do Marechal, sobre este tema vamos empregar uma observação histórica e o seu uso em diferentes momentos, bem como a representação do objecto de comando em diferentes grupos sociais que ainda nos deparamos de forma usual.
A origem
No simbolismo histórico da Idade Média quando um senhor feudal entregava uma gleba de terra para um vassalo a cerimónia era marcada por um acto solene, a entrega de um elemento que pudesse representar o direito de uso sobre o local, uma bolsa com um punhado de terra, um galho ou uma chave, depois quando um nobre se tornava chefe militar recebia do seu senhor um bastão para comandar as suas tropas e delimitar as acções de defesa, segundo Le Goff (2018)..
O bastão foi usado a partir da Idade Média, quando os comandantes de diversas forças de diversas nacionalidades e do porte das legiões romanas, com mais de mil homens. Os comandantes tinham que se distinguir na tropa, para que qualquer soldado, das diversas legiões soubessem quem é o seu dirigente, o chamado Marechal (o Grão-Mestre do Campo de Batalha e da Guerra). Tal distinção no meio de numerosos exércitos, ao que tudo indica, surgiu entre os chamados de marechal, da Ordem dos Templários segundo destaque de Vasconcellos (1939).
O Bastão, como símbolo de autoridade e insígnia de comando era usado pelos reis, assim como pelos grandes comandantes. Em campanha, as batalhas só́ se iniciavam quando o monarca ou o líder no caso o Marechal fazia o sinal com o bastão.
Na Idade Media, o bastão era liso e simples, com 60 a 70 centímetros de comprimento. No século XVIII, o bastão passou a ser curto, coberto de veludo e ornamentado com emblemas e guarnição de ouro.
Ainda na Idade Média o local de trabalho dos Pedreiros era governado por um director que protegia o direito dos artesãos em actividade e como sinal da sua autoridade, esse director portava uma vara.
A origem desta vara era da igreja, os diáconos nos templos religiosos eram responsáveis por manter a harmonia do local, para isto usavam uma vara para indicar os irmãos que deveriam executar tal actividade, assim eram reconhecidos como os que mantinham a ordem e facilmente os iniciados poder-se-iam dirigir a eles para pedir informações (CRYER).
O mestre construtor tinha junto dois encarregados ou zeladores que observavam os trabalhos e direccionavam as actividades de construção, também poderiam adentrar na câmara dos traçados e manter as informações para o mestre, desta ordem de hierarquia temos a função do Venerável e dos Vigilantes em loja segundo ASLAN (1975) os dois Vigilantes carregavam bastões ou varas de comando com desenhos diferenciados para indicar as suas atribuições.
Conclusão
O bastão de comando que hoje é importante para os ritos, sendo empregado nos segmentos de origem inglesa, apresenta uma característica comum desde a Idade Média onde os seus trabalhadores era designados como autoridades distintas, eram aqueles que tinham uma ligação directa com o mestre artífice, as guildas precisavam de uma ordem de funcionamento.
Além dos companheiros de trabalhos, aquele iniciado na arte de lapidar a pedra bruta, também existiam os jornaleiros, aqueles que recebiam trabalho por jornada, ou seja, por dia, eram trabalhadores comuns que executavam funções mais simples, mas não menos importantes dentro da construção das catedrais.
O responsável por manter tudo funcionando eram os zeladores ou Vigilantes, já que o mestre se deveria preocupar em cuidar dos planos e manter a obra funcionando na prerrogativa administrativa
Para reconhecer os diferentes trabalhadores foi designado um elemento de identificação, uma vara ou bastão de comando, originalmente vindo do sistema militar dos antigos cavaleiros e depois empregado por diáconos nas igrejas, responsáveis por manter a paz e a harmonia da equipe de trabalho no templo
Hoje notamos que o Diácono, Mestre de Cerimónias e o Marechal são funções e cargos empregados dentro do Rito de York, cabe a eles contribuir com a administração da loja, além é claro dos Vigilantes.
O simbolismo do bastão é importante, nele notamos a organização e a identificação dos antigos trabalhadores do ofício e que ainda hoje estão a disposição do mestre, a função do Marechal é o de coordenar as cerimonias da Loja para que se desenvolvam com perfeição e decoro, orientar os visitantes e irmãos da Loja para que tomem assento de acordo com os seus graus. O seu posto em Loja é no Oriente, a frente e a esquerda do Venerável Mestre, do lado esquerdo do Capelão. O seu emblema são dois bastões curtos cruzados, pois o bastão é o instrumento dos condutores de cerimónias, inclusive os militares.
Não podemos negar que outra função marcante é o mestre de cerimónia, cuja função é a preparação dos candidatos antes da conferência de cada um dos três graus, e a condução dos candidatos durante as cerimónias. Mas o bastão não significa sobrepor-se aos actos do Venerável e sim que este está sob os cuidados do grande líder dos trabalhos e foi designado para uma honrada função junto aos irmãos da loja para manter a harmonia e a egrégora.
A função deste texto não é elucidar o tema, mas sim indicar uma pequena referência histórica da origem do uso do bastão no Rito de York, sabemos que outros ritos como o REAA e o Adonhiramita (origem Francesa) ou o Rito Schröder (origem germânica) não guardam esta particularidade do bastão de comando, sendo possível um novo trabalho observando o uso do bastão ou outros elementos em cara rito.
Por fim para destacar podemos notar que a Maçonaria mesmo sendo uma em formação, guarda na sua ritualística, rituais e liturgias, histórias tantas que merece um trabalho histórico constante e profícuo sempre com as bênçãos do GADU para o bom proveito dos Irmãos em loja.
Adriano Viégas Medeiros – ARLS Labor e Concórdia nº 146 – Confederação Maçónica do Brasil – COMAB
Bibliografia
- ASLAN, Nicola. A Maçonaria Operativa. Rio de Janeiro: Ed. Aurora, 1975.
- BORGES, Hugo; CAVALCANTE, Sérgio. Rito York: O Simbolismo Aprendiz Maçom. 1ª ed. João Pessoa: Gráfica e Editora Imprell, 2008.
- S. Vasconcellos. Princípios de Defesa Militar. Editora Biblioteca do Exército Marinha do Brasil, VI Edição, 1939.
- LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval. Editora Vozes; Edição: 1 RJ. 2018.
- CRYER, Extraído de www.pglel.co.uk/wpcontent/uploads/2016/06/AncientSumbolsOfOffice.pf
- Revista Verde-oliva. Ano XXXV, nº 196.Abr/ Mai./Jun. 2008. p. 18 e 19.
- RIBEIRO, J. G. da C. Ritual de Aprendiz – Rito de YORK / Grande Oriente de Santa Catarina, 2010.
