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O Princípio do Simbolismo no seu Duplo Aspecto

✍️ Desconhecido 📅 02/09/2022 👁️ 6 Leituras

esquadro, compasso, letra g, simbolismo

Ao abordarmos o estudo do simbolismo, encontramo-nos confrontados com um sistema binário desconcertante porque todo o símbolo tem um duplo sentido: o + e o -, o activo e o passivo, o bem e o mal para os maniqueístas.

Todavia, quando ligamos uma ficha macho a uma ficha fêmea, não ficamos nada admirados por obtermos uma terceira dimensão eléctrica: a luz, o calor, a energia. Dito de outra forma, a complementaridade.

Retomando o simbolismo do triângulo, não será demasiado difícil compreender que o Passivo e o Activo são complementares, que se unem sobre o terceiro ponto neutro do triângulo para, finalmente se harmonizar no seu centro: a oposição do Passivo e do Activo não existe senão num primeiro nível. Desde que se comece a compreender intelectualmente que um e outro procedem do mesmo princípio unitário, apreende-se (pela iniciação) um segundo nível, depois um terceiro. Isto traduz-se então pelos três graus simbólicos da Franco-Maçonaria: Aprendiz, Companheiro, Mestre. Estes três graus são complementares entre si : as inferioridades e as superioridades não são senão aparentes, um dos primeiros deveres do Maçon é não se deter aqui. Uma longa explicação sobre este assunto não é necessária, resume-se numa só palavra: solidária (solidariedade de um magnetismo cósmico que mantém o equilíbrio dos planetas entre eles, do universo inteiro).

Tomemos todavia um exemplo relativo aos sexos ditos opostos: não são eles complementares? Não encontram eles uma harmonia no seio do Amor? Que isto seja quase sempre e o mais tristemente pontual, não muda nada ao que é, e AO QUE É fora do espaço e do tempo.

Não há Amor perfeito aqui e agora porque o inefável não se aprisiona num contexto espaço-temporal, e menos ainda o fazem o homem e a mulher na civilização materialista.

Torna-se em absoluto legítimo considerar dois aspectos contrários e de não excluir o que é próprio de cada um segundo a sua natureza.

Conhecer a dupla polaridade de um símbolo, é poder empregá-lo como meio de reconhecimento acasalando os seus aspectos Activo-Passivo. Por exemplo, a linha recta em si é neutra, torna-se activa quando eixo vertical e passiva no horizontal. O Passivo e o Activo harmonizar-se-ão no símbolo da cruz cujo ponto mais importante será o centro. Vê-se, por exemplo, que o duplo aspecto do símbolo duplica-se ainda uma vez oferecendo novas visões. Esta perpétua duplicação do aspecto do símbolo abre concepções que constituem a linguagem iniciática, fazendo-nos franquear a subtil fronteira separando o mundo sensível da ordem metafísica.

Para ilustrar esta dificuldade consideremos o seguinte:

Do zero metafísico, do nada, do não-ser, nasce o ponto
Do ponto nasce a linha.
O primeiro símbolo activo-passivo é a cruz
Este quaternário duplica-se e torna-se oito
Oito esquadros formam a cruz

Este símbolo pode formar o alto da Cruz Pautada

Estes dois opostos complementares dão origem ao quaternário Este ilustra o ser que se introspecta ao permanecer aberto sobre as quatro vias cardeais

De facto, a maneira de utilizar um símbolo, num sentido ou noutro, corresponde à multiplicidade dos estados do ser ( o que René Guénon explicou sabiamente) : é a presença da forma que caracteriza este ou aquele estado.

Dito doutra forma, o símbolo extirpa do informal abstracto uma forma concreta reveladora: esta repetição, que se redescobrirá por vezes no decurso da leitura, torna-se necessária a fim de que se tenha sempre no pensamento o duplo aspecto do símbolo. Posto tudo isto, como princípio do simbolismo, evita-se atribuir qualquer valor moral ao passivo ou ao activo. O símbolo não nada mais do que um utensílio técnico.

Pode conferir-se-lhe um aspecto benéfico ou maléfico, o que não é seguramente efeito do ensino maçónico.

A importância do simbolismo na Franco-Maçonaria tem por síntese a reconstituição do ser no seu estado primordial: o masculino, o feminino, o Andrógeno, que é o equivalente do Homem Universal.

Todo o simbolismo maçónico não visa senão a união das complementaridades: a totalização do ser no equilíbrio que simboliza o círculo, o qual apela à perfeição da esfera: o círculo é plano a esfera é volume. O mesmo sucede com o quadrado que precede o cubo.

Tudo isto indica que o simbolismo maçónico ajuda a fazer passar o ser de uma dimensão inferior para uma dimensão superior num plano de estruturas hierarquizadas. Esta hierarquia corresponde a uma ordem cósmica, universal, sem conotações pejorativas porque se trata simplesmente de evolução. E, para ser preciso: uma compreensão da evolução.

Esta especulação encontra na Loja todos os utensílios que permitem a operatividade. O que não quer dizer que o Maçon especulativo se torne necessariamente operativo. O que não quer dizer também que ele não se venha a tornar.

A resolução das oposições pertence finalmente, às qualidades e aos esforços iniciáticos do indivíduo. Se este considerar que as oposições são irredutíveis, o simbolismo nunca o ajudará.

Para Ter êxito ou progredir na caminhada simbólica não chega ter uma inteligência aguda, pode mesmo considerar-se como negligenciável se uma grande soma de Amor e de humildade presidir à pesquisa. A este respeito, o simbolismo dos textos sagrados toma um certo relevo: “ E quando eu não tiver o dom da profecia, a ciência de todos os mistérios e de todo o conhecimento, quando não tiver mesmo toda a fé para remover montanhas, se eu não tiver Amor, não serei nada.” (Paulo. Primeira Epístola aos Coríntios, XIII, 2)

O quadrado é formado por quatro rectas ou dois esquadros. Basta acrescentar um segundo quadrado partindo do primeiro para que o volume nasça. Esta operação geométrica torna-se especulativa por analogia: o profano é plano como o Quadrado. O iniciado é volume como o cubo. Mas a perfeição volumosa fica para a esfera (donde a quadratura do círculo). Jogo de Triangulação que demonstra que o volume se obtém pelo triângulo, o que, num plano especulativo, se torna significante ao nível da condição humana.

Texto recolhido e traduzido da obra de Roger Luc Mary Le Symbolisme dans la Franco-Maçonnerie, Paris, Editions de Vecchi, 1993

Fonte

  • Cadernos de Cultura Maçónica nº 2 organizados pela Loja Astrolábio nº 51, a Oriente de Palmela (GLLP / GLRP), com coordenação de Alberto Trovão do Rosário, Antigo Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP.

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