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O Orgulho Maçónico… O cancro da Maçonaria

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✍️ Desconhecido 📅 28/07/2025 👁️ 0 Leituras

rei leão, orgulho

Nos templos discretos da Maçonaria, onde impera o simbolismo e a busca interior, um tema raramente abordado em voz alta emerge com uma força insidiosa: o orgulho. Este sentimento, muitas vezes entendido como um vício humano universal, assume uma dimensão particular no seio desta fraternidade iniciática, onde a humildade deve ser a pedra angular do edifício espiritual. Este tema, “O orgulho do Maçom“, convida-nos a explorar esta dualidade com uma reflexão profunda e lúcida.

No momento em que as Lojas retomam os seus trabalhos após o Verão, mergulhemos nesta análise para compreender como o orgulho, como um cancro, ameaça a harmonia da Maçonaria, e como uma transmutação alquímica poderia transformá-lo numa força de renascimento.

Porquê falar de orgulho numa Loja?

À primeira vista, falar de orgulho numa Loja pode parecer incongruente, uma vez que o trabalho maçónico se centra tanto nos símbolos – o compasso, o esquadro, a pedra bruta – e na sua interpretação filosófica. No entanto, “o orgulho é para um Maçom o que uma miragem é para um errante desesperado no deserto“: uma ilusão irresistível, necessária ao seu desenvolvimento, mas perigosa se ele não se tornar o seu mestre. Este tema, embora aparentemente sociológico, vai ao cerne da iniciação:

transformar as fraquezas em virtudes. Se o orgulho não for domado, corre o risco de corroer a fraternidade, transformando um espaço de luz num campo de rivalidade estéril.

A Maçonaria, fundada na dualidade – sol/lua, pavimento de mosaico branco/preto, este/oeste – reconhece o orgulho como a antítese da humildade, o “humus” grego simbolizando a terra, que cada Aprendiz toca ao passar pela porta inferior durante a sua iniciação. Esta humildade, enraizada no concreto, contrasta com o orgulho, descrito como vazio, uma ilusão nascida de uma falta interior. Compreender esta dinâmica é essencial se quisermos preservar a própria essência do ensinamento maçónico.

O orgulho: uma ilusão a domar

Henri Bergson
Henri Bergson

Henri Bergson distingue o orgulho da vaidade: o orgulho é um “amor solitário de si próprio“, um desejo de dominar os outros por comparação, enquanto a vaidade procura a aprovação externa, revelando uma humildade subjacente. O orgulho maçónico, pelo contrário, nasce muitas vezes de um medo fundamental: o de perder o seu lugar de “eleito”, de ser diluído pelos outros. Esta esquizofrenia – a necessidade de reconhecimento misturada com a negação – conduz a uma dinâmica tóxica em que o Maçom se isola, opondo-se à fraternidade que diz servir.

Ilustremos esta ideia com uma metáfora poderosa: “a escuridão não existe como entidade, apenas resulta da ausência de luz“. Do mesmo modo, o orgulho é apenas uma ausência de humildade. O verdadeiro Maçom, tendo passado pelos graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre, alinha-se como um fio de prumo, ancorado na sua terra interior. Ele não tem necessidade de ultrapassar os outros, ele simplesmente “é“. Por outro lado, aqueles que evitam a intensidade das provas iniciáticas preenchem os seus vazios através da intelectualização e da agitação, semeando a discórdia na Loja.

As manifestações do orgulho: um veneno fraterno

Auguste Comte
Auguste Comte

O orgulho, quando se instala, fractura a loja. Como escreveu Augusto Comte, “o orgulho divide-nos ainda mais do que o interesse“. Os debates transformam-se em lutas, as rivalidades ofuscam a busca comum. O Maçom orgulhoso vê os Aprendizes como noviços insignificantes, os Companheiros como subordinados e os Mestres como concorrentes a esmagar. O seu avental, símbolo de humildade, é transformado em troféu, e os cargos oficiais em distinções vãs. O autor ironiza-nos com estas felicitações prematuras no início do ano, quando o verdadeiro mérito é julgado no fim do ciclo, depois de um trabalho bem feito.

Esta deriva é acompanhada por uma perda da unidade dualista tão cara à Maçonaria. O masculino e o feminino, outrora complementares, tornaram-se opostos.

O orgulho espiritual, uma forma particularmente insidiosa, faz com que alguns se proclamem “embaixadores do Grande Arquitecto”, exibindo títulos e rituais com falsa modéstia.

Mascarados por um aparente auto-sacrifício, estes maçons arriscam-se a corromper o espírito fraterno, transformando a loja num teatro do ego.

Orgulho Mascarado: Modéstia Perversa

Vamos agora explorar uma categoria fascinante: os “modestos“, de quem La Rochefoucauld disse que atingem “o mais alto grau de orgulho“. Jules Renard acrescentou: “Sejam modestos! É o tipo de orgulho que menos desagrada“. Esta modéstia fingida, longe de ser uma verdadeira humildade, é uma estratégia para manter uma superioridade subtil. Antoine de Rivarol adverte: “É preciso fazer morrer o orgulho sem o ferir. Porque, se for ferido, não morre”. Ferido, o orgulho incha, afastando-se mais da realidade e da inteligência do coração.

Uma solução alquímica: transformar o orgulho em humildade

A Maçonaria oferece um meio de curar este “cancro”. Consideremos o orgulho como uma matéria-prima, um antimónio alquímico a transmutar em pedra filosofal. As iniciações, com os seus ciclos de dissolução e coagulação – o solve e o coagula – convidam-nos a desconstruir este orgulho para reconstruir uma essência de humildade. Esta fragrância de humanidade, sentida nas lojas harmoniosas, torna-se o remédio.

Em vez de lutar contra o orgulho dos outros, porque não usá-lo como espelho? Como diz o ditado, “o que torna o orgulho dos outros insuportável é o facto de ferir o nosso“. Cada incómodo torna-se uma oportunidade para agradecer a esse “parceiro involuntário” que revela as nossas próprias falhas. Ao abandonar a comparação em favor do “ser”, o Maçom liberta-se do mundo infernal do ego.

Uma reflexão universal

Thich Nhat Hanh
Thich Nhat Hanh

Thich Nhat Hanh identifica três complexos que afligem o ser humano: superioridade, inferioridade e… igualdade – O problema de base tem origem na comparação. Retomando o famoso “Conhece-te a ti mesmo” das iniciações, esta é uma proposta de recentramento correcto. O orgulho atinge o seu auge com o avental do Mestre que, para alguns, se torna um ecrã de separação e não uma ponte de ligação. Esta observação, deliberadamente provocadora, pretende ser uma chamada de atenção:

“Os maçons dividem-se naturalmente em três classes: os vaidosos, os orgulhosos e os outros. Mas eu ainda não conheci os outros”.

Auguste Detoeuf

Para uma Maçonaria curada

Enquanto as lojas vibram com novos trabalhos, o orgulho continua a ser um grande desafio. Este “cancro” ameaça a unidade, transformando a busca do esclarecimento numa corrida ao brilho pessoal. Mas a Maçonaria, com as suas ferramentas simbólicas e a sua filosofia alquímica, oferece uma cura: domar o orgulho através da humildade, transmutando-o numa força de união. Inspirado pelo fio de prumo e pelo solve / coagula, cada Maçom pode tornar-se artesão do seu próprio renascimento, fazendo da loja um santuário onde irradiar, em vez de brilhar egoisticamente.

Deste modo, o orgulho, longe de ser uma inevitabilidade, torna-se um convite ao crescimento, para o bem de todos.

Pierre d’Allergida

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

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