O Livro dos Salmos e o Salmo 133
Numa Loja de Aprendiz do Sistema de York, o Livro da Lei Sagrada é aberto, como todos bem o sabemos, no Salmo 133. Não obstante, para além de estar imerso no Livro da Lei Sagrada, que temos como Lei fundamental, faz parte integrante de um Livro concreto: o Livro dos Salmos.
O nome de Salmos, dado aos cento e cinquenta cânticos litúrgicos, deriva do grego Ψαλμοί [1] e foi adotado no séc. III a. C. para a tradução grega dos LXX, ou Septuaginta. Com efeito, no livro do Eclesiástico ou de Ben Sira [2] (Sir 40,21; 47,9; 50,18), já é referido com esse nome. Antes disso, pode ter tido outros nomes em hebraico como מזמורות [3], termo que significa “Cânticos”. Realmente, a designação de cântico aparece em vários títulos de salmos (Sl.s 33; 71; 95; 147; 149) como termo técnico. O título de “Orações” poderia igualmente ter andado em uso. De facto, o designativo de תְּ פִ לּוֹת “orações” [4] (Sl. 72), poderia servir como título adequado para toda a coleção.
De qualquer modo, תהילים [5], que significa “louvores”, foi o nome que acabou por se impor na Bíblia Hebraica. Este último título segue o modelo epigráfico adotado na tradução dos LXX. Numa fase mais tardia do judaísmo, a mesma ideia de louvor, expressa com o nome de הוֹדָיוֹת [6] de uma raiz hebraica sinónima, serviu em Qumrân para designar uma coleção de hinos (hinos de ação de graças) que o grupo escreveu no intuito de formar um saltério complementar.
Com a sua aparente simplicidade, a história literária dos Salmos comporta domínios de muito difícil análise. O tipo de texto que representam não é sempre fácil de articular com épocas, contextos, acontecimentos ou personalidades históricas. Esta dificuldade de concretização é pertinente sobretudo no que toca às questões de origem, composição e data de cada Salmo.
Sabe-se que as religiões orientais anteriores à Bíblia conheciam o uso litúrgico de hinos de grande valor literário e religioso. Essas religiões reconheciam que a atitude de louvor era o aspeto mais significativo da linguagem humana quando dirigida ao Criador. Por isso, a poesia litúrgica, associada pela tradição bíblica ao dinamismo criativo e organizador do rei David, deverá ter conhecido uma história igualmente dinâmica, na tradição religiosa de Canaã [7], antes dos hebreus. A vida cultual do templo de Jerusalém até ao tempo do exílio terá sido o espaço privilegiado para a criação e utilização dos salmos. No entanto, os indícios que existem vão no sentido de que esta criatividade se manteve até próximo da génese do Novo Testamento.
O templo representa o ambiente vivencial para estes textos; é ali que se realiza a sua dimensão comunitária. No entanto, a experiência religiosa e psicológica espelhada em muitos salmos exprime vivências de espiritualidade pessoal, sempre presente na vida de cada homem. Este lado íntimo e pessoal da experiência espiritual dos hebreus dá valor e profundidade à dimensão comunitária. Na realidade interior destas vivências é que assenta a consciência de que os salmos constituem uma herança de profunda continuidade na vida espiritual dos homens de todos os tempos.
A numeração dos salmos foi conhecendo algumas diferenças, desde os tempos antigos. Na versão da Bíblia Sagrada que costumamos usar em Portugal, aparece, em primeiro lugar, a numeração que se convenciona usar nas atuais edições críticas do texto hebraico; entre parêntesis, aparece, quando é o caso disso, a numeração específica da tradução grega dos LXX, que foi seguida pela tradução latina, chamada Vulgata. As divergências de número ocorrem entre o Sl. 9 e o Sl. 147.
No livro dos Salmos, podemos encontrar indícios de outras maneiras de os organizar em coleções. Exemplos disso podem ser: o uso de doxologias finais, que sugerem cinco coleções (1-41; 42-72; 73-89; 90-106; 107-150); a escolha de um nome específico para se referir a Deus (Sl.1-41 com o nome de Yahweh, e 42-83, com o de Elohim); os cânticos de peregrinação (dos quais o Salmo 133 faz parte) como designação de um outro conjunto (Sl 120-134).
A referência ao nome de um autor ou colecionador poderia ser outro princípio de organização. São referidos os filhos de Asaf (Sl 50; 73-83), filhos de Coré (42; 44-48; 8485; 87-88), David, com setenta e três salmos, segundo o texto hebraico, e mais catorze, segundo o grego. Ao rei Salomão são atribuídos dois salmos (72 e 127) e apenas um a Moisés (90). Muitos dos salmos, porém, não têm qualquer indicação de autor.
A tradição judaica e cristã, sempre associou o conjunto dos salmos à figura de David, tal como associou a Moisés o conjunto dos livros do Pentateuco. David, com efeito, foi o fundador da monarquia e o templo de Jerusalém aparece como seu templo oficial, não obstante a sua construção se dever a seu filho Salomão. Nisto assentava o sentimento de identidade nacional.
Desde as épocas remotas, no Oriente, a poesia, lírica, religiosa ou humanista, representa o fio de continuidade literária, por onde podemos acompanhar as vivências e a expressão de consciência dos homens. Assim também os salmos representam as vivências humanas e a consciência espiritual, ao longo da Bíblia. Alguns salmos podem ter a sua origem em tempo anterior aos hebreus (Sl. 29); outros, pelo contrário, podem ter sido compostos próximo da era cristã (Sl 44; 74; 85).
Nas literaturas orientais de que a Bíblia herdou modelos e temas, a poesia é o modelo de escrita preferido para tratar com mais profundidade, solenidade e beleza os assuntos de interesse humano mais intenso. Mitos, profecias, vivências históricas marcantes, cânticos, hinos e orações são expressões literárias onde se concentram as interrogações, as aspirações, as esperanças e os momentos de perplexidade e drama humanos.
O facto de serem apresentados em forma poética pode justificar-se por várias razões. Por um lado, é o tempo e o esforço de elaboração percebido como um caminho pedagógico para garantir maior apuramento dos sentimentos e sentidos que ali se encontram em jogo. Por outro lado, a beleza poética proporciona uma dose maior de satisfação no formular das questões e na maneira como se vão intuindo e interiorizando perspetivas de resposta. A capacidade de persistência e de resiliência do discurso poético torna-o mais adequado para que nele se concentrem as mais representativas convicções de fé e de sentido da vida.
Do ponto de vista do recorte literário, o discurso poético do Oriente antigo define-se e carateriza-se sobretudo pela maneira como exprime a sua posição face à realidade, numa atitude de contemplação das suas vertentes e matizes. Por isso, o pensamento poético exprime-se sob a forma de espelho, desdobrando as ideias em formas que se completam, se contrapõem ou se corrigem, de modo a criar espaço para uma síntese mais matizada. A isto chama-se o paralelismo que representa antes de mais uma atitude e uma forma de pensar. Esta é a marca poética mais clara que encontramos também nos salmos. Para além dela, pode assinalar-se o ritmo marcado das frases com um verso normalmente dividido em duas metades (hemistíquios) e sem uso sistemático de rima. No vocabulário e nas construções sintáticas, deparamo-nos com uma linguagem mais elaborada e também mais conservadora.
Os salmos são certamente os textos poéticos mais próximos dos estados de consciência individuais, das vivências comunitárias mais abrangentes e dos horizontes humanos mais universais. Esta riqueza de sentido fica mais valorizada ainda com o frequente uso litúrgico que os situa no imediato da experiência quotidiana e faz deles os conteúdos mais populares de literatura poética.
Sob este ponto de vista dos conteúdos e formas literárias, o estudo dos salmos levou à definição de modelos que podem derivar de práticas milenares. Na verdade, a Bíblia foi a última literatura a surgir entre as culturas do Antigo Oriente e foi viva e profunda a influência das anteriores. Os géneros literários utilizados dependiam principalmente de conteúdos e objetivos, contextos e modelos assumidos para cada salmo. Os elementos específicos de um género literário podem encontrar-se noutros géneros, dando lugar a formas mistas. Neste sentido, costumam considerar-se como principais géneros literários os seguintes: salmos de louvor, salmos de súplica, salmos históricos, salmos litúrgicos, salmos proféticos e salmos sapienciais.
O Salmo 133 é uma meditação sapiencial que se fixa na vida de Israel em comunidade, vendo-o como uma grande família de irmãos. As imagens do óleo e do orvalho sugerem a fertilidade da terra (Gn. 27,28). A personagem de Aarão [8] introduz neste quadro uma referência histórica de encantamento e solenidade; e o monte Hérmon ajuda a erguer a modesta colina de Sião aos píncaros das altas montanhas do norte de Canaã, cobertas de antigos mitos e simbolismos religiosos que Israel assume.
Creio que a nossa augusta Ordem o coloca na presidência de uma Loja de Aprendiz como que a advertir que só pela verdadeira união fraternal os homens podem prosseguir a sua “peregrinação quotidiana” com alento e com determinação. Na verdade, Este cântico é um apelo à comunhão fraterna de todos os homens de boa vontade, é um cântico que exala o perfume da amizade verdadeira e da dedicação fraternal. Possamos nós, em cada dia, cantá-lo não tanto com os lábios, mas principalmente com as obras que realizamos.
Sérgio C., M. M. – R. L. Miramar, nº 36 (GLLP / GLRP)
03.04.6024 (A. L.)
Notas
[1] Trans. Psalmói
[2] Livro sapiencial do início do Séc. II a. C.
[3] Transl. Mizmorot
[4] Transl. Teffilot
[5] Transl. Tehillim
[6] Transl. Hodayot
[7] Religião politeísta antropomórfica.
[8] Irmão mais velho de Moisés e o primeiro sumo-sacerdote dos hebreus. Era da tribo de Levi. (c. 1396 a.C a c. 1274 a. C.)
Bibliografia
- Bíblia de Jerusalém (Tradução dos originais hebraico, grego e aramaico). (2002). Paulus Editora.
- Champlin, R. N. (2014). O Antigo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. Hagnos.
- Perondi, Ildo. “Quando se vive como irmãos há bênção e vida para sempre! Uma análise do salmo 133.” Estudos Bíblicos, São Paulo, v. 31, n. 122, p. 175–188, 2021. Disponível em: https://revista.abib.org.br/EB/article/view/253.
