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Bíblia – O Livro da Lei

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✍️ Desconhecido 📅 19/03/2026 👁️ 0 Leituras

bíblia

Introdução

Entre os símbolos fundamentais de uma Loja Maçónica, poucos possuem a densidade espiritual, histórica e moral do Livro da Lei. No Oriente, repousando sobre o Altar dos Juramentos, ladeado pelo Esquadro e pelo Compasso, ele não é um ornamento, tampouco um objecto decorativo. Ele é, para nós, uma fonte de luz, a expressão escrita da busca humana por sentido, justiça, rectidão e transcendência.

Para o Aprendiz, que inicia a sua jornada ainda na penumbra da Pedra Bruta, compreender o significado do Livro da Lei é compreender parte essencial do próprio caminho iniciático. Por isso, examinaremos a sua história, a sua formação e a sua função ritualística, buscando captar não apenas o que ele “é”, mas principalmente o que ele “convoca”.

A Formação do Livro da Lei

Chama-se “Livro da Lei” a obra que, no contexto brasileiro e nas Lojas vinculadas ao Grande Oriente do Brasil, corresponde à Bíblia Sagrada. Ainda que cada iniciado possa prestar os seus juramentos sobre o texto da sua própria fé, como o Alcorão, o Zend Avesta, o Talmud, ou outros, a Bíblia tornou-se o símbolo padrão do Livro da Lei devido à nossa herança ocidental.

A Bíblia é, antes de tudo, uma colecção de livros, escritos ao longo de muitos séculos, por autores distintos, provenientes de culturas, épocas e intenções diferentes. As suas páginas foram lavradas em três línguas principais — aramaico, hebraico e grego — e os seus textos abrangem uma multiplicidade de formas literárias:

  • narrativas históricas,
  • pregações,
  • poesias,
  • cartas,
  • orações,
  • e até composições de carácter romanceado.

É uma obra complexa, que registra não somente acontecimentos, mas sobretudo a maneira como um povo percebeu e interpretou a presença de Deus na própria história.

O Povo da Primeira Aliança

O Antigo Testamento registra a caminhada de Israel desde aproximadamente 1200 a.C., descrevendo a sua organização social, a sua luta pela sobrevivência, as suas conquistas, os seus fracassos e as suas esperanças. Israel foi um povo peculiar por professar algo incomum para a época: a fé num único Deus, invisível, transcendente e absoluto.

Essa relação, fundamentada na Aliança, moldou toda a vida religiosa e moral daquela civilização. A Aliança era mais que um pacto: era a forma como Israel compreendia o seu compromisso com Deus e o compromisso de Deus com o seu povo.

Apesar das invasões, diásporas e crises que marcaram a história judaica, especialmente os exílios e a destruição do Templo de Jerusalém, o judaísmo preservou a sua identidade por meio da Lei, das Escrituras e da memória colectiva.

A Nova Aliança e o Nascimento do Cristianismo

Com a expansão do cristianismo, a Bíblia hebraica foi reinterpretada à luz da figura de Jesus de Nazaré. Para os cristãos, Ele representa o cumprimento das promessas messiânicas e a inauguração de uma Nova Aliança, destinada a toda a humanidade.

Assim, aquilo que antes era apenas a Escritura de Israel transformou-se, para o cristão, também em profecia, fundamento e revelação. O Novo Testamento, escrito por discípulos e seguidores de Jesus, tornou-se a continuidade natural daquele primeiro conjunto de textos.

Com o passar dos séculos, tanto judeus quanto cristãos preservaram as mesmas narrativas, mas sob perspectivas distintas. O que os une é o reconhecimento de que esses escritos contêm algo mais profundo que simples história: contêm uma visão moral e espiritual capaz de orientar a vida humana.

O Livro da Lei na Maçonaria

Para a Maçonaria, o Livro da Lei é uma das Três Luzes. Ele não é adoptado para impor doutrina, mas para simbolizar a presença da Verdade, a referência moral que transcende o indivíduo e lembra ao iniciado que sua conduta está subordinada a princípios superiores.

Por isso, cada Rito trata sua abertura de maneira distinta e no Rito Escocês Antigo e Aceite abre-se no Salmo 133, o qual cita:

Oh! Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união.

É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Arão, e que desce à orla das suas vestes.

Como o orvalho de Hérmon, e como o que desce sobre os montes de Sião, porque ali o Senhor ordena a bênção e a vida para sempre.

Percebe-se aqui que o símbolo é mais importante que a letra, pois o Livro da Lei representa não apenas um texto específico, mas o compromisso do Maçom com a virtude, a rectidão e a verdade — princípios universais.

A Bíblia como Símbolo de Comunicação e Consciência

A Bíblia é, antes de tudo, um meio de comunicação entre o ser humano e o Transcendente. Ler um texto sagrado apenas como história é uma escolha legítima; porém, aquele que o lê com abertura interior se depara com orientações bem actuais.

Por isso, muitos encontram na leitura dos salmos, dos profetas e dos evangelhos uma força interior que alimenta a fé e sustenta a caminhada. Mesmo os não-crentes reconhecem nesses textos uma profunda sabedoria humana.

A Maçonaria vê no Livro da Lei uma condensação de filosofia, história, misticismo, moral e tradição, elementos que fortalecem a consciência e orientam o Aprendiz na busca da Verdade.

Conclusão

A Luz da Lei no Templo e no Mundo

Se no mundo profano a Bíblia é vista principalmente como um livro religioso, no Templo ela assume um papel simbólico muito mais amplo: representa a Lei Moral que governa o universo, aquela que não muda com o tempo, que não depende de cultura, que não pertence a uma única nação ou religião.

No mundo profano, o Livro da Lei orienta comunidades, tradições, crenças e histórias particulares. Na Maçonaria, porém, ele transcende essas fronteiras e se transforma num instrumento universal de elevação humana.

Assim como o Esperanto (aquele idioma criado para ser a língua universal),  buscou unir povos pela linguagem, a Maçonaria busca unir homens pela Verdade, pela Justiça, pela Moral e pela rectidão de carácter. Princípios eternos que o Livro da Lei, nos recorda dia após dia.

Que esta reflexão permita-nos compreender que o verdadeiro sentido do Livro da Lei não está apenas nas suas páginas, mas naquilo que ele desperta: o compromisso interior de construir, em si mesmo, um templo digno do Grande Arquitecto do Universo.

Bruno Leite, CIM 352214 – ARLS Lealdade e Brio nº 257 – Or. Resende – Rio de Janeiro

Referências Bibliográficas

  • “100 Instruções de Aprendiz”, p. 26.
  • Artigos do portal freemason.pt:
    • A Maçonaria e o Livro da Lei Sagrada
  • Manly P. Hall, The Secret Teachings of All Ages.

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