Maçonaria? Mais parece uma fraternidade de néscios. Ah, Néscionaria!
Diariamente, o meu WhatsApp recebe uma enxurrada de mensagens com bizarrices maçónicas. Tem de tudo. As bizarrices aumentaram exponencialmente com as redes sociais… e cansam. Como cansam! As últimas dão conta de cursos sobre maçonaria, história da maçonaria e filosofia da maçonaria ministrado por quem pouco ou nada entende dessas disciplinas. Pior! Sem qualquer sincronia com a história da humanidade, inventando conexões entre a filosofia e a maçonaria que não existem e todo esse pacote sem qualquer fonte. O conteúdo deve, provavelmente, vir do além, via Bluetooth. Só pode.
Pior que isto, só Maçom que propaga todos os dias o Breviário de Rizzardo Da Camino sem qualquer filtro ou preocupação em verificar se o conteúdo divulgado corresponde com a verdade. Ao que parece, o futuro da Maçonaria está numa sinuca: ou há preocupação efectiva com o conhecimento maçónico ou se combate uma legião de estúpidos que propagam fábulas sem qualquer amparo histórico e filosófico.
Olhando as redes sociais cujo mote é a Maçonaria, é de se escandalizar como o debate não consegue virar a página da forma, da prática ritualística, da posição da mão, do bastão, do sinal, de como se faz o giro, de como se cumprimenta as dignidades e nada mais. Não há preocupação na compreensão da maçonaria per se. Confesso que talvez os néscios tenham estabelecido um novo “paradigma”, uma nova forma de se praticar a Maçonaria, agora denominada Néscionaria.
Muitos maçons fazem um discurso conservador. É preciso respeitar a prática ritualística independentemente da compreensão filosófica da fraternidade. Não há prática maçónica sem que o teatro seja repetido irretocavelmente à exaustão, ainda que, após a reunião, o Maçom viva uma vida completamente distinta daquilo que a fraternidade prega. Imagem é tudo. Um belo anel, uma gravata pomposa, símbolos maçónicos espalhados por tudo… desde as roupas, carros, tudo tem que ter um adesivo maçónico, mas a maçonaria pára por aí. Exactamente no limite da ostentação, porque praticar os ensinamentos maçónicos é deveras custoso para o espalhafatoso.
Se há trouxas no atacado, há espertalhões no varejo. Eis uma nova forma de empreendedorismo: o aproveitadorismo. Eis a fórmula: crie atalhos. Eis aí a tónica das diversas lojas maçónicas (espúrias, por óbvio!) que vendem iniciação pela internet, com direito a segredos, mistérios e tudo o mais.
Na maçonaria, a fórmula, ao que parece, é: já que não consegue escrever nada profundo, invente. Faça vídeos. Faça-se de inteligente. E não cite fontes. Faça cabotinagens. Copie dos outros (ou copie da própria Wikipédia, mas disfarce, afinal tem uma Wikipédia maçónica!). Faça colagem. E copie errado, porque nem sabe o que está cabotinando. Diga que você faz neurociência maçónica. Ninguém vai saber mesmo o que é isso.
Grave vídeos ensinando errado. E vídeos em série. Receberá muitos likes. E até monetização se for esperto e dominar o mecanismo. E diga que você defende a liberdade, afinal você é Maçom. Diga que Egrégora é um termo maçónico, ainda que você não saiba a origem desse termo grego. Ou diga que todos os filósofos eram maçons e o conteúdo dos seus trabalhos eram maçónicos, ainda que você jamais tenha lido qualquer um deles (Wikipédia não vale!). Participe de Academias de Ciências e Letras Maçónicas sem ter escrito nada, sem ter lido nada, apenas espalhando o “profundo” conhecimento (inútil!) do Breviário Maçónico.
Não nos esqueçamos dos cursos virtuais sobre maçonaria (não todos! Apenas aqueles que se apresentam como caça-níqueis, tocados por incautos que pretendem apresentar-se como doutrinadores, sem compromisso com fontes, com história, com filosofia e com a própria fraternidade!).
Quando comentar um assunto maçónico que não domina, faça cara de indignado e pergunte: – O que é a verdade? Você tem certeza do que está a afirmar? Pronto. Venceu. Conseguiu esconder a sua estultice. Como apontou o teólogo Dietrich BONHOEFFER no texto intitulado “Von der dummheit” (Sobre a estupidez), publicado pela primeira vez em “Widerstand und Ergebung. Briefe und Aufzeichnungen aus der Haft”: “A estupidez é um inimigo mais perigoso do bem do que o mal.” E prossegue: Diferente da estupidez, o mal tem as sementes da sua própria destruição. ”
O aproveitadorismo maçónico, é uma institucionalização do atalho. Maçons gostam de atalhos E para piorar, o aproveitadorismo se alimenta de vieses cognitivos. O busílis é: como argumentar contra a estupidez, se a estupidez não aceita argumentos? Argumentar significa já entrar no jogo de linguagem do néscio e já entrar derrotado.
É como jogar xadrez com pombo. Eis a situação da maçonaria brasileira. Reflictamos.
Rui Badaró, M. M., Justa e Perfeita Loja de São João, 680, Or. de Sorocaba, GLESP
O presente texto é uma adaptação da opinião publicada pelo Professor Doutor Lenio Streck, intitulada “A estupidez é um inimigo mais perigoso do bem do que o mal “publicado em 7 de Junho de 2022 no CONJUR, disponível em https://www.conjur.com.br/2022-jun-07/streck-estupidez-inimigo-perigoso-bem-mal
