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Maçonaria e Inquisição

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✍️ Desconhecido 📅 10/03/2025 👁️ 0 Leituras

inquisição

Inquisição é o acto de inquirir, isto é, indagar, investigar, interrogar judicialmente. No caso da Santa Inquisição, significa – questionar judicialmente aqueles que, de uma forma ou de outra, se opõem aos preceitos da Igreja Católica. Desta forma, a Santa Inquisição, também conhecida como Santo Ofício, foi um tribunal eclesiástico criado com a finalidade -oficial- de investigar e punir os crimes contra a fé católica. Na prática, os pagãos representavam uma constante ameaça à autoridade clerical e a Inquisição era um recurso para impor à força a supremacia católica, exterminando todos que não aceitavam o cristianismo nos padrões impostos pela Igreja. Posteriormente, a Santa Inquisição passou a ser utilizada também como um meio de coacção, de forma a manipular as autoridades como meio de obter vantagens políticas.

A Santa Inquisição teve seu início no ano de 1184, em Verona, com o Papa Lúcio III. Em 1198, o Papa Inocêncio III já tinha liderado uma cruzada contra os albigenses (hereges do sul da França), promovendo execuções em massa. Em 1229, sob a liderança do Papa Gregório IX, no Concílio de Tolouse, foi oficialmente criada a Inquisição ou Tribunal do Santo Ofício. Em 1252, o Papa Inocêncio IV publicou o documento intitulado Ad Exstirpanda, que foi fundamental na execução do plano de exterminar os hereges. O Ad Exstirpanda foi renovado e reforçado por vários papas nos anos seguintes.

Em 1320, a Igreja (a pedido do Papa João XXII) declarou oficialmente que a Bruxaria, e a Antiga Religião dos pagãos constituíam um movimento e uma “ameaça hostil” ao cristianismo. Os inquisidores, cidadãos encarregados de investigar e denunciar os hereges, eram doutores em Teologia, Direito Canónico e Civil. Inquisidores e informantes eram muito bem pagos. Todos os que testemunhassem contra uma pessoa supostamente herege, recebiam uma parte das suas propriedades e riquezas, caso a vítima fosse condenada. Os inquisidores deveriam ter no mínimo 40 anos de idade. A sua autoridade era outorgada pelo Papa através de uma bula, que também podia incumbir o poder de nomear os inquisidores a um Cardeal representante, bem como a padres e frades franciscanos e dominicanos. As autoridades civis, sob a ameaça de excomunhão em caso de recusa, eram ordenadas a queimar os hereges. Camponeses eram incentivados (ludibriados com a promessa de ascenderem ao reino divino ou através de recompensas financeiras) a cooperarem com os inquisidores. A caça às Bruxas tornou-se muito lucrativa. Geralmente as vítimas não conheciam os seus acusadores, que podiam ser homens, mulheres e até crianças. O processo de acusação, julgamento e execução era rápido, sem formalidades, sem direito à defesa. Ao réu, a única alternativa era confessar e retractar-se, renunciar à sua fé e aceitar o domínio e a autoridade da Igreja Católica. Os direitos de liberdade e de livre escolha não eram respeitados. Os acusados eram feitos prisioneiros e, sob tortura, obrigados a confessarem a sua condição herética. As mulheres, que eram a maioria, comumente eram vítimas de estupro. A execução era realizada, geralmente, em praça pública sob os olhos de todos os moradores. Punir publicamente era uma forma de coagir e intimidar a população. A vítima podia ser enforcada, decapitada, ou, na maioria das vezes, queimada.

Esta instituição teve duas versões: a medieval, nos séculos XIII e XIV, e a feroz Inquisição moderna, concentrada em Portugal e Espanha, que durou do século XV ao XIX [1]. Em 1231, o papa Gregório IX – preocupado com o crescimento de seitas religiosas – criou um órgão especial para investigar os suspeitos de heresia. “Qualquer um que professasse práticas diferentes daquelas reconhecidas como cristãs era considerado herege”, afirma o historiador Rogério Luiz de Souza, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Actuando na Itália, na França, na Alemanha e em Portugal, a Inquisição medieval tinha penas mais brandas – a mais comum era a excomunhão -, embora a tortura já fosse autorizada pelo papa para arrancar confissões desde 1252.

Gradativamente, contando com o apoio e o interesse das monarquias europeias, a carnificina espalhou-se por todo o continente. Para que se tenha uma ideia, em Lavaur, em 1211, o governador foi enforcado e a esposa lançada num poço e esmagada com pedras; além de quatrocentas pessoas que foram queimadas vivas. No massacre de Merindol, quinhentas mulheres foram trancadas num celeiro ao qual atearam fogo. Os julgamentos em Toulouse, na França, em 1335, levaram diversas pessoas à fogueira; setecentos feiticeiros foram queimados em Treves, quinhentos em Bamberg. Com excepção da Inglaterra e dos EUA, os acusados eram queimados em estacas. Na Itália e Espanha, as vítimas eram queimadas vivas. Na França, Escócia e Alemanha, usavam madeiras verdes para prolongar o sofrimento dos condenados. Ainda, a noite de 24 de Agosto de 1572, que ficou conhecida como “A noite de São Bartolomeu”, é considerada “a mais horrível entre as acções inquisidoras de todos os séculos”. Com o consentimento do Papa Gregório XIII, foram eliminadas cerca de setenta mil pessoas em apenas alguns dias.

Já a sua segunda encarnação surgiu com toda força na Espanha de 1478. Desta vez, o alvo principal eram os judeus e os cristãos-novos, como eram chamados os recém-convertidos ao Catolicismo, acusados de continuarem praticando o Judaísmo secretamente. “A justificativa desse retorno da Inquisição era a necessidade de fiscalizar a fidelidade desses conversos”, diz outro historiador, Nachman Falbel, da Universidade de São Paulo (USP). A verdade é que esses grupos já formavam uma poderosa burguesia urbana que atrapalhava os interesses da nobreza e do alto clero. O apoio dos reis logo aumentou o poder do Santo Ofício, que, para piorar, passou a considerar como heresia qualquer ofensa “à fé e aos costumes”. Por exemplo, quem usasse toalhas limpas no começo do sábado ou não comesse carne de porco era acusado de Judaísmo. A lista de perseguidos também foi ampliada para incluir protestantes e iluministas, homossexuais e bígamos.

As punições tornaram-se bem mais pesadas com a instituição da morte na fogueira, da prisão perpétua e do confisco de bens – que transformou a Inquisição numa actividade altamente rentável para os cofres da Igreja. A crueldade dos inquisidores era tamanha que o próprio papa chegou a pedir aos espanhóis que contivessem o banho de sangue. A migração de judeus expulsos da Espanha para Portugal, em 1492, fez com que a perseguição se repetisse com a criação do Santo Ofício lusitano, em 1536. O Brasil nunca chegou a ter um tribunal desses, mas emissários da Inquisição aportaram por aqui entre 1591 e 1767. Calcula-se que 400 brasileiros foram condenados e 21 queimados em Lisboa, para onde eram mandados os casos mais graves. Os inquisidores portugueses fizeram 40 mil vítimas, das quais 2 mil foram mortas na fogueira. Na Espanha, até a extinção do Santo Ofício, em 1834, estima-se que quase 300 mil pessoas tenham sido condenadas e 30 mil executadas.

E a Maçonaria???

Quanto à Maçonaria, apesar de ter tido uma Bula acerca da questão, e da ameaça de excomunhão para aqueles que descumprissem essa Bula, não havia algo sólido para que a Ordem fosse acusada de Heresia.

Os motivos da Igreja não apresentavam nada que realmente pudesse ser apontado como Heresia e que colocasse a Ordem em xeque. A Maçonaria era acusada de um “segredo” do qual, pelo simples facto de ser um segredo, já colocava a Ordem numa posição de, na teoria, estar escondendo algo que, sob hipótese alguma, teria como ser algo bom.

Ela é acusada por um Juramento que envolvia graves penas àqueles que  revelassem esse segredo. Penas essas que, apesar de realmente serem descritas de forma “cruel” (como é até hoje) ninguém nunca teve motivos reais para achar que elas iriam muito além do âmbito simbólico.

E há também a questão de reunir homens de todos os credos, a apresentando que, devido a isso, aparenta ter uma honestidade natural, mas que apresenta um juramento que pune gravemente os que violarem os segredos.

Pela forma como foi colocada, pode até parecer que se justifica. Mas perceba que tudo é baseado num segredo que não se faz ideia do que seja. E, curiosamente, não existe um motivo sequer que pudesse envolver algo que a Maçonaria fez e que tenha começado a gerar tanto incomodo nas nações.

O seu erro era apresentar uma ideologia que permitia um ambiente de Liberdade Religiosa em que pessoas de segmentos diferentes se podiam congregar. Tornava-se assim um lugar onde poderiam surgir muitas ideias que não eram nem um pouco interessantes para os poderes dominantes (ainda que não parecesse existir motivos para se preocupar com isso).

A própria Igreja parece estar dando uma justificativa que está ali apenas para apresentar um motivo de algo que ela já queria fazer, que era o mesmo que as outras nações que condenaram a Ordem. A diferença é que, para fazer uma Bula e ameaçar de excomunhão, seria necessário um motivo (diferente das nações).

Na prática, esta Bula teve efeitos bem distintos nas nações por onde ela passou, tendo diversos lugares onde ninguém se importou com ela. Apenas depois, em 1751, uma nova Bula foi feita para reforçar a Bula de Clemente, dessa vez, feita por Bento XIV.

Além da Europa, a Inquisição também fez vítimas no continente americano. Em Cuba iniciou-se em 1516 sob o comando de dom Juan de Quevedo, bispo de Cuba, que eliminou setenta e cinco hereges. Em 1692, no povoado de Salem, Nova Inglaterra (actual E.U.A.), dezanove pessoas foram enforcadas após uma histeria colectiva de acusações. No Brasil há notícias de que a Inquisição actuou no século XVIII. No período entre 1721 e 1777, cento e trinta e nove pessoas foram queimadas vivas.

1. O julgamento

A. A chegada da inquisição

Um grupo de monges do Santo Ofício chegava à aldeia e reunia toda a população na igreja. No chamado Período de Graça, que durava um mês, convidavam os pecadores a admitirem as suas heresias. Quem se confessasse, em geral livrava-se das penas mais severas

B. As investigações

Quem não aproveitasse o Período de Graça poderia ser denunciado. Como a Inquisição incentivava a delação, o pânico era generalizado: todos eram suspeitos em potencial. O acusado era convocado a se defender no tribunal

C. A sentença

O suspeito era interrogado por três inquisidores. Um deles, o inquisidor-mor, dava a sentença final. A defesa era difícil: raramente o réu tinha direito a um advogado. Para arrancar confissões, o Santo Ofício colocava espiões no encalço do suspeito e recorria a tenebrosas práticas de tortura

2. As torturas

A. Escala de punições

O inquisidor-mor variava a crueldade dos castigos conforme a heresia. Os mais leves incluíam deixar o acusado acorrentado, sem comer nem dormir por vários dias. Mas os relatos históricos registram outros bem mais dolorosos, como os aparelhos chamados potro e extensão. Para amedrontar os acusados, os carrascos faziam uma demonstração de como funcionavam esses dispositivos. Para abafar os gritos, era comum colocarem colchões nas portas.

B. O potro

John Coustos (1703 - 1746)
John Coustos (1703 – 1746)

A terceira Loja Maçónica conhecida em Portugal foi fundada em 1740 pelo lapidário de diamantes John Coustos, suíço naturalizado inglês, e agrupava cerca de trinta comerciantes e lapidários franceses, ingleses, um belga, um holandês, um italiano e três portugueses, maioritariamente católicos (John Coustos, o Venerável, era, porém, protestante). Denunciada esta Loja à Inquisição em 1743, os seus obreiros foram presos, torturados e condenados. Os seus principais elementos foram condenados às galés. Os portugueses foram, pura e simplesmente, executados. Por pressão de Jorge II de Inglaterra, John Coustos e os seus companheiros acabaram por ser libertados, em 1744, sob condição de abandonarem o país. John Coustos, já em Inglaterra, veio a publicar um livro que viria a ter alguma notoriedade na Europa desse tempo, The Sufferings of John Coustos for Freemasonry and for His Refusing to Turn Roman Catholic in the Inquisition (Os sofrimentos de John Coustos na Inquisição pela Maçonaria e pela sua recusa de se converter ao catolicismo). A Loja ficou, obviamente, extinta, com a intervenção da Inquisição.

O livro Prisioneiros da Inquisição traz a história de John Coustos, mestre da Loja Maçónica de Lisboa, condenado pelo tribunal. Coustos passou pelos horrores do potro em 1743:

“Prenderam-me com uma argola no pescoço, um anel de ferro em cada pé e oito cordas que passavam por furos no cadafalso. Ao sinal dos inquisidores, elas foram puxadas e apertadas pelos carrascos. As cordas entravam na carne até os ossos e faziam jorrar sangue. Repetiram a tortura por quatro vezes. Perdi a consciência e fui levado de volta à minha cela sem perceber”.

C. A extensão

Seis semanas depois, o Maçom foi submetido a outra tortura: a extensão.

“As cordas, puxadas por um torniquete, faziam com que os punhos se aproximassem um do outro, por trás. Puxaram tanto que as minhas mãos se tocaram. Desloquei os dois ombros e perdi muito sangue pela boca. Repetiram três vezes o mesmo tormento antes de me devolverem à cela”.

Nos meses seguintes, Coustos ainda sofreu mais uma série de torturas até confessar. Foi condenado a quatro anos de trabalhos forçados em 1744.

3. As sentenças

A. O auto-de-fé

Assim era chamada a cerimónia pública em que se liam as sentenças do tribunal. Os autos-de-fé geralmente ocorriam na praça central da cidade e eram grandes acontecimentos. Quase sempre o rei estava presente. As punições iam das mais brandas (como a excomunhão) às mais severas (como a prisão perpétua e a morte na fogueira)

B. Queimados vivos… ou mortos

A execução na fogueira ficava a cargo do poder secular. Se o condenado renunciasse às heresias ao pé do fogo, era devolvido aos inquisidores. Se a sua conversão à fé católica fosse verdadeira, ele podia trocar a morte pela prisão perpétua. Quando se descobria que um defunto tinha sido herético, o seu cadáver era desenterrado e queimado

C. Marcas da humilhação

Para serem vistos pelo público, os prisioneiros subiam num palco. Os que eram obrigados a vestir as chamadas marcas de infâmia, como a cruz de Santo André, chegavam a ser agredidos pela multidão. Outros levavam velas e vergastas nas mãos para serem chicoteados pelo padre durante a missa

O mais desumano inquisidor

Tomás de Torquemada (1420-1498)
Tomás de Torquemada (1420-1498)

Fanático. Cruel. Intolerante. Nos registros históricos, não faltam adjectivos depreciativos para definir o frei dominicano Tomás de Torquemada (1420-1498), o mais duro inquisidor de todos os tempos. Organizador do Santo Ofício espanhol, ele era confessor e conselheiro dos reis Fernando e Isabel. Em 1483, essa influência rendeu-lhe a nomeação de inquisidor-geral, responsável pelos 14 tribunais na Espanha e as suas colónias. Logo de cara, autorizou a tortura para obter confissões, ampliou a lista de heresias e pressionou os reis a substituir a tolerância religiosa pela perseguição aos judeus e aos conversos. Resultado: ao final da sua gestão, mais de 170 mil judeus foram expulsos da Espanha e 2 mil pessoas viraram cinza nas fogueiras.

Fonte

Nota

[1] Em Portugal e no Brasil, o Tribunal da Inquisição chamado de Monstrum horribilem (1535-1821) foi abolido em 5 de abril de 1821.

Bibliografia

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