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Maçonaria anti-direitos?

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✍️ Desconhecido 📅 16/07/2025 👁️ 0 Leituras

olho azul, maçonaria

Concordemos que aquilo a que chamamos Maçonaria é um fenómeno multifacetado, dividido em diferentes domínios conceptuais que prosseguem objectivos distintos – e por vezes até contraditórios – e que, sob a égide dessa diversidade, nem tudo é aceitável.

Admitamos também, a bem da verdade, que hoje se ouvem vozes contrárias aos direitos no seio da Maçonaria. Embora não representem a norma geral, mostram claramente que em alguns sectores há uma resistência activa ao progresso da sociedade em matéria de direitos humanos, especialmente em questões como a igualdade de género, o reconhecimento das minorias, a aceitação de orientações e identidades diversas, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, os direitos reprodutivos e laborais das mulheres, a migração e a justiça racial.

Em contraste, enquanto alguns quadrantes continuam a lutar por um mundo de maior liberdade, igualdade e fraternidade, outros maçons agarram-se a interpretações destes valores – filtrados através de uma lente de empatia limitada e selectiva – que os transformam para se adequarem aos seus próprios preconceitos e medos. Esta impressionante diversidade de posições pode criar tensões, mas também nos abre a porta para tomarmos consciência da discriminação estrutural e convida-nos a reflectir sobre o rumo que desejamos que a nossa vida maçónica tome.

De um modo geral, a Ordem sempre se considerou um refúgio para o pensamento livre e uma consciência aberta – um lugar onde a razão é cultivada e o debate floresce com poucas restrições. No entanto, no século XXI, não podemos ignorar que existem sectores determinados a obstruir qualquer progresso relacionado com os direitos humanos, tanto dentro como fora dos seus muros. Assim, enquanto o mundo avança – ainda que com muitas dificuldades – para uma maior igualdade, alguns maçons preferem ficar à margem ou mesmo opor-se activamente a essas mudanças.

Este problema não é novo, mas tornou-se mais visível nos últimos tempos devido às redes sociais. Sempre que uma Loja decide rejeitar a inclusão de mulheres, indígenas, negros ou pessoas com deficiência; evita discutir a diversidade; ou se agarra a crenças imutáveis e interpretações de textos antigos para justificar a exclusão e a discriminação, afasta-se dos princípios de fraternidade e universalidade que tão orgulhosamente proclamou nas suas Colunas. As razões – colectivas ou individuais – residem no medo da mudança, na aversão à incerteza, na propensão para a dissonância cognitiva, na tendência para a confirmação ou na adesão ao status quo, nas ideias religiosas, etc.

A Maçonaria orgulha-se dos seus valores, mas esses ideais não podem permanecer no nirvana da mera retórica. Têm de se reflectir nas nossas acções diárias. Dizer “sempre foi assim” já não é suficiente, especialmente quando a história da Ordem está repleta de mudanças e adaptações – desde as inicialmente inspiradas pelo Iluminismo, às subsequentes influências religiosas, pseudocientíficas, egípcias e orientalistas, e até mesmo aos movimentos democráticos que traçaram o curso de muitas sociedades. Enquanto o mundo luta pela equidade social e pela aceitação da diferença, os maçons anti-direitos preferem entrincheirar-se freneticamente nas suas obsessões, empregando uma narrativa distorcida da tradição como desculpa para justificar as desigualdades.

Por outro lado, é importante sublinhar que as tradições estão em constante evolução – mesmo que, por vezes, pareçam gravadas na pedra – e o que hoje podemos descrever como uma versão pura é, na realidade, o resultado de muitos anos de desenvolvimento acumulado. O que agora aparece como um pilar sagrado e imutável era algo completamente diferente há alguns séculos e, dentro de alguns anos, provavelmente voltará a ser diferente. A chave é distinguir quando uma mudança representa uma evolução genuína e quando é meramente uma tendência passageira.

Para que a Maçonaria continue a ser relevante, não basta apenas falar de liberdade de pensamento. É tempo de traduzir os seus princípios em acções concretas: reavaliar as estruturas mentais e de poder que continuam a perpetuar a exclusão; deixar de usar uma suposta “neutralidade” como desculpa para evitar debates difíceis; e abrir-se a um mundo onde os direitos humanos são indiscutíveis. Afinal, não tomar posição é em si mesmo uma posição – e, neste caso, uma que se afasta do próprio objectivo para o qual a Ordem foi fundada.

Além disso, a existência de maçons anti-direitos não é apenas uma questão interna. A sua atitude caracteriza-se mais por uma reacção ao avanço dos direitos do que por uma proposta construtiva, e assenta num discurso de exclusão que mistura o medo da mudança com a idealização de um passado que retratam como ordeiro e moralmente superior. Utilizar as competências adquiridas na Maçonaria – a aplicação efectiva das suas ferramentas e o potencial construtivo do ser humano e da sociedade – para esse fim é um absurdo colossal.

No final do dia, a Maçonaria deve continuar a basear-se em princípios fundamentais como o respeito mútuo, a busca da verdade e o bem-estar da humanidade, independentemente das nuances da sua natureza construtiva. Se alguns Maçons se desviam destes princípios, é uma oportunidade para todos nós questionarmos o que realmente desejamos como Maçons e como sociedade. Estamos a caminhar para um futuro mais equitativo, ou estamos presos a ideias ultrapassadas e preconceitos desumanizados?

Em todo o caso, a resposta está nas nossas mãos, enquanto membros de uma Ordem que sempre foi um reflexo dos mais elevados ideais da sociedade.

Iván Herrera Michel – Antigo Presidente do CLIPSAS

Fonte

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