Liturgia, Rito e Ritual
Introdução
A Maçonaria realiza as suas reuniões através de cerimónias litúrgicas, fazendo uso de rituais que seguem determinados Ritos. Mesmo nos sistemas maçónicos onde não se adopta o termo Rito – como o inglês – as cerimónias seguem de modo geral uma ordem estabelecida, com o objectivo de revelar os conteúdos iniciáticos que a Ordem propõe aos seus membros.
O objectivo deste trabalho é apresentar as definições de Liturgia, Rito e Ritual, vocábulos comumente utilizados no meio maçónico, no entanto frequentemente mal-empregados e menos ainda compreendidos. A exacta compreensão destes termos tende a clarificar o entendimento das cerimónias maçónicas, proporcionando uma percepção correcta das formas e dos conteúdos, distinguindo o supérfluo daquilo que é essencial, e deste modo melhor internalizar as lições que estas cerimónias visam transmitir.
A liturgia
Liturgia vem do grego leitourgia, e significa serviço, acção, trabalho ou serviço público. Neste sentido, não visa a utilidade particular, mas a comunidade. A Liturgia pode ser conceituada como um conjunto de actos preordenados para o desempenho de um serviço público, cujo objectivo é estabelecer uma ordem coerente dos mesmos, de modo a proporcionar que os assistentes percebam qual a finalidade da cerimónia que está sendo realizada.
A Liturgia pode ser de ordem social ou de ordem religiosa.
Existem no plano social diversas formas de liturgias. Por exemplo, no Poder Judiciário, quando se estabelece uma sequência de actos ordenados que têm por escopo promover a Justiça; ou numa Inauguração de edifício público, onde os actos solenes realizados buscam demonstrar ao público que aquela construção terá uma importante finalidade social.
Do mesmo modo, na esfera religiosa existem as formas de Liturgia. Por exemplo, as missas católicas e os cultos judaicos, onde se pretende, através de uma ordem de actos cerimoniais e rituais, transmitir os conceitos e sentimentos religiosos que fomentam a fé e orientam os devotos a seguir os seus princípios.
Neste ponto, é interessante anotar que no Antigo Testamento da tradução grega da Bíblia (Bíblia dos Setenta), o vocábulo “liturgia” é designativo do serviço de culto do Templo de Jerusalém. Somente mais tarde é que o termo passou a se referir também às celebrações cristãs.
Liturgia cerimonial e liturgia ritual
A Liturgia possui como tipos a Liturgia Cerimonial (da cerimónia) e a Liturgia Ritual (do rito).
Enquanto a cerimónia é o nome atribuído às formas exteriores de um acto, o Rito relaciona-se com um Mito e com símbolos.
O objectivo central da Liturgia Cerimonial é transmitir a sensação de ordem e beleza, através das formas exteriores dos actos praticados, ao passo que a Liturgia Ritual visa transmitir os elementos essenciais, a expressão dos mitos e símbolos, a interiorizar nos participantes os conteúdos iniciáticos. (MUNIZ, 2016, p. 35)
Por exemplo, o caso do Sacramento do Baptismo Católico. A Liturgia Cerimonial pode ser identificada pelos actos de entrada do sacerdote, pelos objectos ou pelas vestes usadas. Já a Liturgia Ritual está compreendida na essência do acto em si, que ocorre quando o sacerdote molha com água a cabeça do baptizado, consagrando-o na fé cristã.
Trazendo estes conceitos para uma sessão maçónica, podemos dizer que a Liturgia Cerimonial pode ser observada em elementos exteriores, como o sentido da circulação em loja, as músicas tocadas, a procissão de entrada, os títulos das autoridades maçónicas, a posição de sentar, o local onde se coloca os paramentos etc. Já a Liturgia Ritual pode ser identificada em actos como a abertura e o encerramento da loja, a disposição das Três Grandes Luzes, a verificação pelo Cobridor se o Templo está coberto, as provas da Iniciação, os sinais, toques e palavras etc. Todos estes são elementos internos essenciais da Liturgia.
Rito
Etimologicamente, a palavra Rito vem do latim ritus e significa “ordem prescrita” ou “ordem estabelecida”, e traduz um uso ou costume aprovado.
O Rito é uma forma de expressão de um Mito. De facto, a Maçonaria estrutura-se em torno de mitos, como por exemplo podemos citar a Construção do Templo de Salomão e a Lenda do Terceiro Grau. O Mito é o coração de um Rito, pois este se estrutura de modo a expressar aquele.
Historicamente, alguns dos primeiros Ritos conhecidos foram os primitivos Ritos Adivinhatórios e os Ritos Sacrificiais, onde se pretendiam influenciar as forças invisíveis e as divindades por meio de oferendas ou homenagens (ASLAN, 2012, p. 1173). Com o tempo, foram se desenvolvendo, por um lado, os Ritos Sociais, como o casamento e o funeral, e de outro lado os Ritos Religiosos, por meio de cerimónias e cultos.
Os Ritos possuem um aspecto exterior, manifestado pela Liturgia Cerimonial, e um aspecto interior, exprimido pela Liturgia Ritual.
Em termos maçónicos, o Rito é um método de conferir a luz maçónica, e vale-se para esse intento de uma colecção de graus, onde cada um deles contém uma etapa de conhecimento e progresso nos estudos. O Rito determina o conjunto de directrizes gerais pelas quais se praticam as sessões, e por intermédio do qual se expressam os elementos da Ordem.
Acredita-se que a terminologia maçónica se inspirou na Tradição da Igreja Católica (MELLOR, 1989, p. 213), que se divide em ritos, dos quais são espécies o Latino, o Bizantino, o Arménio, o Antioqueno, o Caldeu e o Alexandrino.
Como sabemos, na Maçonaria existem diversos Ritos, que se distinguem entre si pela forma e possuem pontos fundamentais em comum, que são uma síntese da essência da Maçonaria. Por outras palavras, a essência dos elementos maçónicos está presente nos Ritos, que são meios alternativos de se alcançar o mesmo objectivo, que é o de transmitir o conteúdo simbólico, filosófico e iniciático da Maçonaria.
Em Maçonaria, podemos dizer, sem sombra de dúvida, que a Cerimónia de Iniciação, parte essencial de todos os Ritos, que a realizam de variadas formas, é uma experiência representativa de uma Tradição que desde a Antiguidade segue os mesmos padrões: o aspirante deve renunciar à ambição e à possíveis aspirações para se submeter a uma prova, à qual se deve sujeitar sem esperança de sucesso. Deve estar preparado para passar por provações e inclusive morrer. A criação de uma atmosfera de morte e renascimento simbólicos é o verdadeiro propósito da Iniciação (HENDERSON, 2008, p. 170).
Os ritos e suas versões
Como dissemos, é possível que a Maçonaria se tenha inspirado na terminologia da Igreja Católica, que possui Ritos. O Rito Latino, que é o adoptado pela Igreja Católica Apostólica Romana, possui como versões o Rito Romano, o Rito Ambrosiano, o Rito Moçárabe e o Rito Galiciano (ou Lionês). As versões são, portanto, formas diferentes de se praticar o mesmo rito. No exemplo, trata-se de variações do Rito Latino. Fazendo comparação com a Maçonaria, podemos ver que o mesmo ocorre com os seus diversos Ritos.
O Rito Escocês Antigo e Aceito possui versões na forma como é praticado nos diversos países, e mesmo dentro de um mesmo país, como no Brasil, onde observamos que há variações na sua prática entre as potências simbólicas.
Também no Rito de York americano isto é verdadeiro, na medida em que cada Grande Loja dos Estados Unidos pode adoptar uma diferente versão do mesmo. No Brasil, a maioria das potências seguem o modelo da Grande Loja de Nova York, mas encontramos variação na Grande Loja da Paraíba, por exemplo, que adoptou o modelo da Grande Loja de Nevada.
Os ritos Maçónicos praticados no Brasil
O Brasil é um dos países onde a Maçonaria pratica maior quantidade de Ritos diferentes, o que se configura numa grande riqueza cultural disponível aos maçons brasileiros. No nosso país, os Ritos praticados pelas potências reconhecidas são os seguintes:
- Rito Escocês Antigo e Aceito
- Rito de York americano
- Rito de Schröder
- Rito Adonhiramita
- Rito Francês ou Moderno
- Rito Brasileiro
- Rito Joanita
- Rito Escocês Rectificado
- Emulation Work (sistema inglês)
Além destes, há outros Ritos que são adoptados por potências não reconhecidas, dentre os quais citamos o Rito Antigo Primitivo de Memphis-Misraim.
Ritual
A palavra ritual, do latim ritualis, isoladamente, possui outros significados. Como adjetivo, Ritual designa o que é relativo a Ritos (MENDES, 2011, p. 37). Como substantivo, de-signa o livro que contém a ordem e a forma de determinada cerimônia, das dramatizações e representações ritualísticas.
O Rito prescreve o conjunto de princípios gerais, enquanto que o Ritual é um conjunto de regras estabelecidas para a Liturgia das cerimônias maçônicas. Ao fazer analogia com ter-mos jurídicos, o Rito pode ser comparado a uma Lei – um conjunto de preceitos e obrigações gerais -, enquanto o Ritual pode ser comparado a uma Instrução Normativa – que regulamenta como esta Lei deve ser observada e praticada (ISMAIL, 2013).
Como substantivo, Ritual é o livro que serve como “manual de procedimentos”. Chamamos de Ritual o livro que usamos nas sessões, pois ele contém as fórmulas e instruções necessárias à prática uniforme e regular dos trabalhos, como por exemplo a fórmula ritualística de abertura e fechamento de uma sessão.
Enquanto o Rito é um gênero, o Ritual é uma espécie. Por outros termos, o rito é “continente” – que contém – e o ritual é “conteúdo” – está contido naquele. Cada Rito maçônico pode conter vários rituais, como o Ritual de Consagração de Templo, os Rituais de Iniciação, Elevação e Exaltação, o Ritual de Cerimônia Fúnebre, o Ritual de Loja de Mesa, os Rituais de abertura das sessões, entre outros.
Neste ponto do nosso estudo, adverte-se para não confundir Liturgia com Rito e com Ritual. Os Ritos fazem uso da Liturgia (Cerimonial e Ritual) para alcançar a finalidade de transmitir o seu conteúdo iniciático e simbólico, e também fazem uso dos rituais, para organizar os seus procedimentos nas sessões e cerimônias.
Conclusão
Conforme vimos, os vocábulos Liturgia, Rito e Ritual possuem definições diferentes, que se relacionam entre si, e que muitas vezes são objeto de confusão quando empregados no meio maçônico. A compreensão destes termos possibilita ao Maçom ampliar o seu entendimento acerca das cerimônias da Ordem, e assim apreciar a sua ordem e beleza, consciente de que se tratam de elementos meramente formais, ao mesmo tempo em que se torna apto a captar os seus aspectos mais profundos e essenciais.
Izautonio da Silva Machado Junior
Bibliografia
- ASLAN, Nicola. Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia. Londrina: Editora Maçônica “A Trolha”, 2012.
- HENDERSON, Joseph L. Os mitos antigos e o homem moderno. In: JUNG, Carl G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.
- ISMAIL, Kennyo. O que é Rito e o que é Ritual. Blog No Esquadro, 2013. Disponível em https://www.noesquadro.com.br/termos-e-expressoes/o-que-e-rito-e-o-que-e-ritual/. Acesso em 09 de maio de 2020.
- MELLOR, Alec. Dicionário da Franco-Maçonaria e dos Franco-Maçons. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
- MENDES, Fábio. Ritual de Emulação — O grau de Aprendiz Maçom. Sorocaba: Edição do Autor, 2011.
- MUNIZ, André Otávio Assis. Curso Elementar de Maçonologia. São Paulo, Richard Veiga, 2016.
