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Kant e a Maçonaria

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✍️ Desconhecido 📅 13/02/2026 👁️ 0 Leituras
Immanuel Kant (1724-1804)
Immanuel Kant (1724-1804)

A Maçonaria especulativa, instituída formalmente em 1717, emergiu num período de efervescência intelectual marcado pelo Iluminismo, movimento que defendia a razão, a liberdade e o progresso moral da humanidade. Entre os grandes pensadores dessa época, Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão (nativo do Reino da Prússia), destacou-se por sua formulação do dever moral universal, da paz perpétua e da doutrina do idealismo transcendental, conceitos que guardam notáveis paralelos com a filosofia maçónica. Kant propôs que a moralidade deveria basear-se em princípios racionais e universais, tal como ensina a Maçonaria ao incentivar os seus membros a agirem conforme valores éticos inquestionáveis, respeitando a dignidade humana e promovendo o bem comum.

Além disso, a visão kantiana de uma sociedade estruturada pela razão e pelo direito, culminando na paz entre as nações, reflecte-se no ideal maçónico da fraternidade universal. Para ambos, a construção de uma ordem social justa e harmónica exige a superação da ignorância e do egoísmo em prol da busca pela verdade e pelo aperfeiçoamento humano. Assim, a Maçonaria, ao absorver as ideias iluministas, tornou-se um espaço de reflexão e prática dos princípios kantianos, consolidando-se como uma instituição comprometida com o progresso moral e intelectual da humanidade.

Analisando cada um destes pontos do pensamento kantiano:

1. O dever moral universal — O dever moral é a ética baseada no conceito de dever e racionalidade, conhecida como ética deontológica. Para ele, a moralidade não deveria depender de circunstâncias ou consequências, mas sim de princípios universais derivados da razão.

Ele formulou o Imperativo Categórico, que é a base do seu conceito de dever moral universal. Algumas das suas formulações mais conhecidas são:

– “Age apenas segundo uma máxima tal que possas querer ao mesmo tempo que se torne uma lei universal” (Ou seja, antes de agir, pergunte-se: Se todos agissem assim, o mundo seria moralmente aceitável?);

– “Age de tal maneira que trates a humanidade, tanto na tua pessoa como na de qualquer outro, sempre como um fim, e nunca apenas como um meio” (Isso significa respeitar a dignidade humana e não instrumentalizar os outros para objectivos próprios).

Assim, o dever moral é universal porque é fundamentado na razão pura, válida para todos os seres racionais, independentemente de cultura, religião ou circunstâncias.

2. A paz perpétua — No seu ensaio À Paz Perpétua (Zum Ewigen Frieden, 1795), Kant propõe um modelo racional para acabar com as guerras e estabelecer uma paz duradoura entre as nações. Os seus principais princípios incluem:

  • Repúblicas com constituições baseadas na liberdade e na separação de poderes, pois ele acreditava que governos despóticos eram mais propensos à guerra;
  • Direito internacional baseado numa federação de Estados livres, uma ideia precursora da Liga das Nações e da ONU;
  • Respeito ao direito cosmopolita e hospitalidade entre os povos, promovendo cooperação e não conquista.

Para Kant, a guerra era irracional e contrária à moralidade, e somente um sistema internacional baseado na razão e no direito poderia garantir uma paz verdadeira e duradoura.

3. O idealismo transcendental — O idealismo transcendental é a base da epistemologia kantiana e aparece principalmente na sua obra Crítica da Razão Pura (1781). Kant argumenta que:

  • O homem não conhece a realidade como ela é em si mesma (noumenon), mas apenas como ela se lhe aparece (fenómeno);
  • O conhecimento do mundo é mediado por estruturas a priori da mente, como tempo, espaço e categorias do entendimento (causalidade, substância, etc.).

Ou seja, o mundo percebido é uma construção da mente a partir das informações dos sentidos. Isso não significa que o mundo exterior não exista, mas sim que nunca é possível acessá-lo directamente sem a mediação da estrutura cognitiva pessoal.

Desta forma, Kant uniu racionalidade, moralidade e política numa visão iluminista fundamentada na razão, buscando uma ordem universal tanto no conhecimento quanto na ética e nas relações entre as nações.

O Iluminismo e a Maçonaria

A Maçonaria especulativa foi fortemente influenciada pelo Iluminismo e as suas premissas filosóficas. O pensamento kantiano, como parte desse movimento intelectual, tem várias conexões com a visão maçónica, especialmente no que se refere ao dever moral, à paz universal e ao conhecimento humano. Seguem alguns pontos dessas relações em detalhe:

1. O dever moral universal e a ética maçónica — A Maçonaria é uma fraternidade baseada em princípios éticos universais, promovendo a busca pela verdade, a liberdade e o aperfeiçoamento do indivíduo. A ética kantiana do Imperativo Categórico guarda grande semelhança com a moral maçónica:

  • O conceito de agir conforme princípios universais ressoa com os ensinamentos maçónicos de trabalhar para o bem da humanidade, respeitando a dignidade e a liberdade de cada indivíduo;
  • O preceito “Tratar os outros como um fim, e não apenas como um meio” pode ser visto no espírito fraternal da Maçonaria, onde os Irmãos se ajudam mutuamente sem interesses egoístas;
  • A ênfase no dever e no autodomínio na conduta moral reflecte a filosofia maçónica de constante aperfeiçoamento pessoal para se tornar um “homem de bem”.

Assim, a Maçonaria e Kant compartilham a visão de que a moralidade deve ser universal, fundamentada na razão e na dignidade humana.

2. A paz perpétua e a fraternidade universal — Kant defendia que uma ordem internacional baseada em princípios republicanos e no respeito aos direitos dos povos garantiria a paz entre as nações. Este pensamento está alinhado com os ideais maçónicos de fraternidade universal e cooperação pacífica:

  • A Maçonaria se vê como uma sociedade sem fronteiras, onde os homens, independentemente de nacionalidade, raça ou religião, são Irmãos;
  • Em diversos momentos históricos, a Maçonaria defendeu ideias liberais e democráticas, contribuindo para a formação de governos constitucionais e para o fortalecimento do Estado de Direito, o que ecoa a visão kantiana de que repúblicas bem organizadas favorecem a paz;
  • A noção de uma federação de Estados livres, proposta por Kant, se assemelha ao ideal maçónico de uma irmandade mundial baseada na razão e na justiça.

Desta forma, tanto a filosofia kantiana quanto a Maçonaria buscam construir uma ordem social pautada pela razão, pela liberdade e pela fraternidade, evitando a violência e promovendo a concórdia.

3. O idealismo transcendental e a busca pelo conhecimento — O pensamento de Kant sobre o conhecimento e a realidade também encontra paralelos na Maçonaria:

  • A distinção entre fenómeno e noumenon (ou seja, entre o mundo como aparece e o mundo como realmente é) pode ser comparada à jornada iniciática do Maçom. O Aprendiz vê o mundo de forma limitada, mas, à medida que avança nos graus, amplia a sua percepção e compreensão da realidade;
  • A Maçonaria incentiva o estudo e o uso da razão para buscar a verdade, assim como Kant propunha uma investigação racional sobre os limites e capacidades do entendimento humano;
  • O ideal de “sair da caverna da ignorância” para alcançar uma compreensão mais elevada do universo, presente nos ensinamentos maçónicos, reflecte a visão kantiana de que o conhecimento verdadeiro requer um esforço activo do intelecto.

Desta forma, pode-se dizer que a filosofia kantiana e a Maçonaria compartilham uma mesma matriz iluminista, fundamentada na razão, na liberdade e na moralidade universal. Ambos defendem a busca pelo aperfeiçoamento moral e intelectual do ser humano, o respeito à dignidade e à autonomia dos indivíduos, a fraternidade como base para a construção de uma sociedade mais justa e harmoniosa, e a promoção da paz e da ordem por meio de princípios racionais e éticos.

Ao absorver as ideias iluministas, a Maçonaria também incorporou muitas das reflexões kantianas, ainda que indirectamente, fortalecendo a sua missão de construir uma sociedade mais justa e esclarecida.

Giovanni Angius, MI-33º REAA – ARLS Orvalho do Hérmon nº 21 – Grande Loja Maçónica do Estado do Espírito Santo — Brasil

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