Há “fogo lento” na Maçonaria? Algumas considerações…
Ao ler o artigo do professor Roger Bagnall [1], sobre as possíveis causas da extinção da Biblioteca de Alexandria, e acessar novamente o documentário de Terry Sanders [2], sobre os desafios enfrentados pelas bibliotecas no processo de preservação dos registros do conhecimento humano, fui novamente envolvido pela preocupação em relação a seriedade deste assunto.
Quando assisti pela primeira vez o referido documentário durante as minhas consultas e reflexões pessoais sobre o processo de transmissão e sobrevivência das “culturas humanas”, ocorridas na década de 2010, eu ainda não tinha iniciado a minha trajectória de estudos nas Ordens Maçónicas. Naquela época o senso de preocupação que me acompanhava gravitava principalmente sobre a fragilidade existente nas tecnologias que a humanidade tem usado para possibilitar a sobrevivência e desenvolvimento das suas gerações actuais e posteriores através do registro e resgate de dados, informações e conhecimentos.
O espectro é amplo e incorpora vantagens e limitações em cada opção existente. Entretanto, percebe-se que em todas as possibilidades (que vão desde os diálogos, transmissões de histórias orais e pinturas rupestres, até as tecnologias mais avançadas de digitalização e armazenamento de dados) a “Corrosão do Tempo” se apresenta como factor de perda inexorável. Esta corrosão está relacionada com vários elementos que incluem a falta de interesse dos homens pelo acesso, preservação e conservação dos meios de armazenamento e registro; destruição dos meios de armazenamento e registro pelos próprios homens; desconhecimento dos processos de acesso e decodificação utilizados por esses meios; e a própria deterioração natural característica desses meios de armazenamento e registro.
O termo “Fogo Lento” ganha corpo no documentário de Sanders ao se referir sobre o processo de deterioração gradual dos materiais que são utilizados como meios para registro e armazenamento (a exemplo do papiro, papel, microfilmes etc.), podendo incorporar nos dias de hoje o processo de degradação gradual de dados digitais. Percebe-se que a gravidade desse problema se difunde do âmbito restrito das bibliotecas para alcançar elevado grau de importância como tema de carácter estratégico relacionado com o desenvolvimento da própria humanidade na medida em que vários dos conhecimentos produzidos e registrados pelo homem se perdem no tempo.
Esta preocupação fica evidente no trabalho de Bagnall, quando sustenta a argumentação de que os motivos predominantes da extinção da Biblioteca de Alexandria estão mais relacionados com “o resultado inevitável do fim do ímpeto e do interesse que a criaram e da falta do tipo de gerenciamento e manutenção sustentáveis que a teriam ajudado a superar as sucessivas transições na mídia física por meio da qual os textos poderiam ter sido transmitidos” (p.539), do que, como sugerem alguns autores, com os incêndios e destruições provocados por Júlio César, por Caracalla, por Aureliano, por Diocleciano, pelos cristãos ou pelo califa Amr. Numa perspectiva ampliada podemos considerar como “Fogo Lento” esses motivos predominantes somados com a redução de interesse da sociedade em acessar os acervos.
Acredito ser oportuno resgatar alguns impactos citados por nossa fonte sobre a criação da(s) Biblioteca(s) de Alexandria que nos possibilitam perceber a abrangência e magnitude das consequências oriundas de esforços humanos em produzir, armazenar e difundir conhecimento. Sobre este aspecto podemos destacar:
- o aperfeiçoamento dos estudos mais rigorosos voltados para os processos de análise de autenticidade, de reprodução, de comparação, de interpretação e de edição de textos e documentos;
- o estabelecimento de base para desenvolvimento de uma gama ampla de outras actividades académicas, culturais e tecnológicas e
- a promoção da universalidade do conhecimento.
E no que se refere à Maçonaria? Podemos falar da existência sorrateira de um “Fogo Lento” no âmbito das Ordens Maçónicas?
Buscando não extrapolar os limites estabelecidos neste singelo ensaio, ouso afirmar que sim.
Baseio a minha afirmativa tecendo inicialmente alguns comentários sobre um texto escrito a 150 anos atrás, e republicado em diversos meios maçónicos [3], chamando a atenção para os desafios que as ordens maçónicas enfrentavam pelo facto de haver na época número significativo de maçons que não lêem.
Em 1875 Albert G. Mackey expõe a existência e características daquilo que podemos denominar de ignorância maçónica afirmando que
“nada é tão comum quanto encontrarmos maçons que estão na completa escuridão a respeito de tudo que se refere a Maçonaria. Eles são ignorantes da sua história, não sabem se uma produção é actual ou se ela vem de eras remotas na sua origem. Eles não têm compreensão do significado esotérico dos seus símbolos ou as suas cerimónias e dificilmente entendem os seus modos de reconhecimento. […] Portanto, há alguns maçons que pensam que o simples acto de iniciação é de uma só vez seguido por um fluxo de todo o conhecimento maçónico”.
Ao relatar a existência de poucos membros das ordens que lêem livros maçónicos Mackey aponta que geralmente esses maçons assumem os seus custos e despesas pessoais para pagar editoras e impressão e as revistas maçónicas são geralmente levadas para as Academias Literárias “onde os cadáveres de periódicos defuntos são depositados”.
Vale a pena destacar que fenómeno similar também é relatado na contemporaneidade por vários estudiosos. Como exemplo, podemos trazer algumas considerações de Prober ao reflectir por que os maçons não lêem com base em artigo publicado pela Comissão de Educação Maçónica da Grande Loja de Missouri – EUA [4].
Sobre este aspecto Prober afirma que o facto de haver número expressivo de maçons que não gostam de ler está relacionado com falta de interesse, entusiasmo e motivação íntima. Nas suas reflexões elenca diversas situações que se relacionam com o problema a exemplo da falta de leitura (ou leitura aprofundada) dos textos maçónicos em geral; do arquivamento inadequado das obras maçónicas; e do descarte frequente de obras maçónicas no lixo em vez de promover melhor destinação.
Ainda nas suas reflexões chama a atenção para o facto de que menos de 5% dos maçons possuem o hábito de comprar livros maçónicos e de que existem poucas lojas que possuem bibliotecas, sendo mais raro ainda haver irmãos de ordem que possuem as suas próprias bibliotecas maçónicas privadas. Este quadro é relatado como elemento que impacta negativamente na forma como os integrantes das Lojas lidam com os seus relacionamentos internos frente aos processos de formação, estudo e aprendizagem maçónica, bem como de consolidação das tradições e desenvolvimento da cultura maçónica.
Tendo em vista as considerações que acabo de tecer, em conjunto com os elementos que integram a “Corrosão do Tempo”, somos levados a crer que as Ordens Maçónicas convivem com o “Fogo Lento” sendo necessário o devido comprometimento por parte dos seus integrantes e instituições na direcção de abordar o seu combate como assunto de carácter estratégico e prioritário.
Para tal, o “enfrentamento do esquecimento”, podendo ser também chamado de “Cultivo da Memória Maçónica”, pode ser considerado como Pedra Angular dos projectos de enfrentamento do “Fogo Lento” no âmbito das Ordens. Vários pontos relacionados com o desenvolvimento dos trabalhos maçónicos se apresentam como legítimos objectos de enfrentamento, dentre os quais podemos citar:
- falta de preparo adequado dos secretários e escrivães que actuam nas Ordens;
- classificação e arquivamento inadequado dos documentos maçónicos;
- descarte incorrecto e inapropriado dos documentos e registros;
- deficiência na elaboração e arquivamento das actas das reuniões e dos documentos de comunicação interna e externa;
- falta de adequado registro, classificação e arquivamento dos discursos e obras maçónicas proferidas em reuniões;
- deficiência na elaboração e arquivamento dos registros fotográficos nas Ordens;
- inexistência/deficiência dos registros de Linhas do Tempo históricas dos corpos e potência desde a sua origem (linhas sucessórias das lideranças/directorias e as suas realizações) e
- predominância da Cultura do “Presente Raso”, isso é, actuação que não leva em consideração o conceito adequado de “Legado da Ordem” (resgate do legado histórico do passado concomitantemente ao registro histórico a partir do presente para as gerações futuras).
Desta forma, o combate ao “Fogo Lento” demanda de todas as instituições que integram as Ordens maçónicas uma avaliação séria na direcção de incorporar nos seus planeamentos e acções os seguintes objectivos:
- Qualificar em administração os Veneráveis Mestres (e Presidentes de Corpos);
- Qualificar Secretários e Escrivães no que se refere às especificidades das suas funções;
- Fortalecer a Cultura da “Responsabilidade sobre o Legado da Ordem”;
- Fomentar o estudo maçónico baseado no aprofundamento da leitura e produção de textos fundamentados nos rituais, livros e artigos maçónicos;
- Fomentar a leitura, escrita e preservação dos “Saberes da Ordem”;
- Investir em infra-estrutura, em aporte financeiro e em capital humano no resgate e preservação histórica da Ordem sob a perspectiva da “história vivida no passado” e da “história vivenciada no presente” através de digitalizações de obras e registros maçónicos e criação de bibliotecas físicas e virtuais com membros da ordem possuidores de conhecimento em biblioteconomia;
- Investir na criação de Museus Maçónicos em todos os estados da nação;
- Criar/Fundar Lojas de Estudos e Academias Maçónicas independentes de Letras, de Ciências, de Artes e Cultura, de história, etc. nos diversos estados da nação, vinculadas ou não às Potencias Maçónicas;
- Promover a aproximação formal entre as Academias Maçónicas voltada para o desenvolvimento de congressos, seminários, encontros e colóquios visando o debate sobre temas diversos e sobre os papéis dessas instituições no século XXI em prol da identificação de potencias caminhos a serem trilhados para o desenvolvimento das Ordens.
Ao finalizar esta singela reflexão não poderia deixar de expor o sentimento de esperança frente a capacidade das Ordens maçónicas em promoverem os seus adequados enfrentamentos ao “Fogo Lento” ressaltando o papel das Academias, das Lojas e das Potências Maçónicas, bem como de cada membro individualmente no registro e preservação do conhecimento maçónico tendo como directrizes as boas práticas somadas ao bom senso em relação ao compromisso moral fundante de silencio e discrição na relação que todo obreiro estabelece com a sua Ordem.
Alexandre Gomes Galindo
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Fonte
- Ensaio Publicado na Revista “Triponto”, nº 8 – Agosto 2025 e na II Antologia Literária Maçónica da Academia Paraibana de Letras Maçónica – APLM
Notas
[1] BAGNALL, Roger S. Alexandria: Library of Dreams. Proceedings of the American Philosophical Society, Curitiba, v. 146, n. 4, p. 348-362, Dec. 2002.
[2] Slow Fires: On the Preservation of the Human Record. Direcção: Terry Sanders. California: American Film Foundation; Council on Library and Information Resources, 1987. (58 min), color. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=xmZMXvPin3k (Parte 1/2); https://www.youtube.com/watch?v=ZQkcDwbHzvI (Parte 2/2). Acesso em: 23 jun. 2020.
[3] MACKEY, Albert G. Maçons que lêem e maçons que não lêem (Publicado em 1875 e reimpresso no “The Master Mason” em Outubro de 1924). Republicado na Revista Prumo de Hiran em 26 Set. 2016. Disponível em: https://www.oprumodehiram.com.br/macons-que-leem-e-macons-que-nao-leem/. Acesso em: 15 Ago. 2018.
[4] PROBER, Kurt, Por que os maçons não lêem?. Revista “A Trolha”, Londrina, 1979. Republicado na Revista electrónica freemason.pt em 05 Fev. 2022. Disponível em: https://www.freemason.pt/por-que-os-macons-nao-leem/. Acesso em: 12 mar. 2024.
