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Espiritualidade versus Secularidade e Realidade (II)

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✍️ Desconhecido 📅 28/12/2025 👁️ 0 Leituras

Espiritualidade versus Secularidade e Realidade

Para ler a primeira parte do artigo, clique AQUI

Durante a tradicional Corrente de União que encerra os nossos trabalhos, ouvimos a frase “Muito acima das preocupações da vida material, abre-se para o Maçom o vasto domínio do pensamento e da acção…”

O pensamento por si só, mesmo que melhore tanto quem o emite quanto quem o recebe, não é suficiente para transformar o mundo. É necessária uma tradução concreta, uma realização na realidade dos factos e dos actos.

É assim que se articulam a busca espiritual e a realidade, a da vida quotidiana.

É este caminho que ilustra, por exemplo, a obra de Goethe, quando descreve no seu poema Os Segredos, de 1785, uma sociedade constituída por homens bons e de boa vontade, que superam o egoísmo e as suas paixões e que cultivam o segredo não contra a sociedade que os rodeia e da qual fazem parte, mas em seu benefício, para se colocarem ao serviço dos seus semelhantes. Os membros desta irmandade impõem-se a si próprios o respeito pela lei do silêncio, porque este é o símbolo da sua vontade comum de progredir juntos e da sua confiança partilhada na humanidade dos homens.

Relemos também o livreto da Flauta Mágica, que foi encenada em Weimar em 1794, inspirando Goethe a escrever uma Segunda Parte da Flauta Mágica, um texto escrito um ano depois e que permaneceu inacabado.

O pensamento e a acção estão ligados.

O pensamento é, por natureza, obra do espírito, o produto puro da espiritualidade no sentido elementar do termo. Mas ainda é preciso chegar a um acordo sobre o que é o pensamento.

O pensamento pode ser definido simplesmente como o entendimento e a razão como capacidades de compreender e conhecer, o que integra, ultrapassando-as, as capacidades de percepção, memória, imaginação ou vontade.

Aristóteles considerava que o pensamento é a reflexão racional que se sobrepõe a um primeiro dado psicológico que é da ordem do sentido. O pensamento é sinónimo de inteligência e distingue-se dos sentimentos.

Para Descartes, o pensamento engloba todos os fenómenos da mente: “Pelo nome de pensamento, entendo tudo o que está em nós de tal forma que estamos imediatamente conscientes disso”. Pensar e reflectir sobre o próprio pensamento são um mesmo acto que se traduz no facto de ser consciente.

Finalmente, para Kant, pensar é “conhecer por conceitos e julgar”. Trata-se, portanto, de uma elaboração da mente que serve para formar representações, distinta da percepção directa dos estímulos do mundo exterior.

Pensar, em todo o caso, como conceito filosófico, remete para a noção de inteligência como ferramenta psicológica.

A noção de inteligência abrange a capacidade de compreender e de se adaptar. Trata-se de uma forma de equilíbrio que se estabelece no interior da mente de uma pessoa entre a assimilação dos dados de uma situação e as suas respostas moduladas para os apropriar a qualquer dado novo.

Mais elaborada do que esta inteligência adaptativa, a inteligência conceptual é caracterizada pelas funções de abstracção, análise das formas de organização do real pelo simbolismo, bem como pelo raciocínio e julgamento lógico.

O olhar lúcido, portanto, o julgamento sobre si mesmo, e a capacidade de agir sobre si mesmo são a base da verdadeira autoconsciência, ao mesmo tempo que o pré-requisito para quem quer agir sobre os outros.

Antigamente, o estudo da filosofia começava com O Primeiro Alcibíades, de Platão, onde Sócrates convence Alcibíades de que, se ele quer servir à cidade, primeiro precisa de se conhecer a si mesmo e a arte de governar. Todos nós conhecemos naturalmente este texto, pelo menos a famosa frase “Conhece a ti mesmo”, que é extraída dele.

E Confúcio dizia:

“Se um homem se sabe governar a si mesmo, que dificuldade terá em governar o Estado? Mas aquele que não se sabe governar a si mesmo, como poderá governar os outros? “

No Ocidente, pouco se sabe sobre o mandarim, filósofo e homem de acção Wang Shou Jen, que viveu na China de 1472 a 1529. Este pensador, que inspira muitos autores contemporâneos chineses e japoneses, como o realizador Mishima, escreveu: “É fácil derrotar bandidos escondidos na montanha, mas é difícil esmagar o inimigo escondido no nosso coração”.

Os testemunhos sobre a sua vida e influência revelam que a sua preocupação com a justiça e a equidade (Yi), a sua rectidão pessoal (Zheng), a sua vontade de ferro e a sua crença num ideal universal faziam dele um modelo particularmente querido no coração de todos aqueles que não toleravam o compromisso com a corrupção generalizada do poder político da sua época.

A Wang Shou Jen devemos uma fórmula famosa e quatro axiomas que resumem a sua doutrina. A fórmula é simplesmente: “Conhecimento e acção são um só”.

A Doutrina em quatro axiomas é assim enunciada:

  • “O Bem e o Mal não se encontram na substância original do Espírito”.
  • “O Bem e o Mal só aparecem quando a Intenção se activa”.
  • “O Bem e o Mal são, no entanto, reconhecidos graças à faculdade do Conhecimento Inato”.
  • “O Bem é praticado e o Mal é repelido graças à Rectificação pela Acção”.

Estes pensamentos, redigidos há cinco séculos do outro lado do mundo, não despertam em muitos de nós algumas reminiscências?

Do pensamento à acção, há, no entanto, um passo, um tempo necessário. É preciso fazer a diferença entre a capacidade de raciocinar e a actualização, a concretização dessa capacidade, ou seja, o pensamento “em acção” .

Além disso, ter a capacidade de realizar uma acção não garante o desempenho dessa acção.

Por fim, podemos ter a capacidade de executar uma acção, mas não necessariamente querer agir.

Portanto, embora o conhecimento de si mesmo e das suas capacidades intelectuais seja importante, a avaliação da aplicação das suas capacidades em situações concretas reveste-se de importância decisiva. É aqui, em particular, que intervém o recurso à prática da aprendizagem.

Gostaria de citar aqui um professor de filosofia da Universidade de Laval, no Quebec. Durante um seminário sobre a filosofia do pensamento, o Prof. Gilbert Boss lembrou que

“segundo a opinião comum, pensar e agir são duas coisas não só diferentes, mas mesmo opostas. Enquanto alguém pensa ou reflecte, ou, pior ainda, medita, sonha, obviamente não age. E assim que age, não se pode dizer que já não pensa, mas então o seu pensamento está inteiramente subordinado à acção, não passa de um mecanismo de regulação da acção, algo que é muitas vezes mais instintivo do que propriamente intelectual. “

Distinguem-se geralmente dois tipos de carácter opostos, o do homem de acção e o do meditativo. Estes dois caracteres dificilmente se misturam. Quando o meditativo se envolve em acção, é imediatamente ultrapassado pelos acontecimentos e quase sempre desfasado em relação ao que está a acontecer, que é de outra ordem que os objectos das suas reflexões.

E, inversamente, quando o homem de acção se envolve em filosofia, também se perde, apresenta banalidades como grandes verdades e, muitas vezes, expressa-se de forma inadequada, inclusive sobre as suas próprias acções, cujos motivos, causas subjacentes e circunstâncias é incapaz de analisar, porque não foi precisamente por tais considerações que decidiu e agiu.

No entanto, é obviamente impossível radicalizar essa oposição entre o pensamento e a acção.

As ciências e as técnicas ensinam-nos que os progressos da teoria, ou seja, da expressão de um pensamento muito abstracto, conduzem frequentemente a modificações essenciais no domínio da acção. As ciências empíricas e experimentais, por seu lado, demonstram que estes progressos teóricos não se devem apenas à meditação pura, fora de qualquer influência do mundo da acção. Implicam não só capacidades na ordem da experimentação, portanto da acção aplicada sob a forma de técnica e de uma forma de acção, mas também uma situação económica e social favorável e, portanto, um certo grau de desenvolvimento da acção.

Mesmo limitando-nos a este único exemplo, é evidente que entre o acto e o pensamento não existe uma oposição radical que signifique uma exclusão recíproca, mas que, pelo contrário, existem implicações muito evidentes na nossa civilização, bem como em outras que atribuíam um poder de acção directo ao pensamento, como na magia.

A oposição entre pensamento e acção é, no entanto, intuitivamente muito difundida.

Todos compreendem bem que, em qualquer meio, quando alguém lança a injunção: “agora é preciso agir!”, seria incongruente responder “tem razão, vamos reflectir! “, porque o que estava implícito no apelo à acção era precisamente o contrário, ou seja, algo como: “acordem, parem de reflectir ou de sonhar, é hora de agir!”.

Passar à acção é pôr fim ao que deveria preceder a acção e permanecer de natureza estranha a ela. E, no entanto!…

Por fim, admitiremos facilmente que o pensamento não é um movimento no sentido literal ou físico. É mesmo uma das características marcantes do pensamento o facto de poder decorrer na imobilidade, ao ponto de muitas vezes privilegiar este tipo de condições exteriores. Sem me mexer, posso percorrer o universo com o meu pensamento. Sem me mexer, posso antecipar a acção, imaginar as suas consequências, prever os seus efeitos.

Os nossos movimentos, nos nossos Templos, limitam-se ao essencial. Alguns passeios minimalistas e bem regulados; uma posição fixa na ordem para nos dirigirmos ao Venerável… nada que solicite verdadeiramente a mobilidade do nosso corpo, tudo, pelo contrário, para favorecer a única expressão do nosso espírito.

Em 1999, Bernard Ginisty, director da revista Témoignage Chrétien, escreveu que a busca de sentido se tornou um lugar-comum, revelando mais frequentemente um mal-estar do que um trabalho efectivo de reconstrução de significados colectivos. Daí a constatação de que, na falta de uma visão colectiva do futuro, o lugar fica livre para todas as regressões. Exemplos como o aumento dos nacionalismos ou dos extremismos religiosos mostram isto, infelizmente, cada vez mais a cada dia. O longo trabalho de reflexão, educação e espiritualidade para o reconhecimento da pessoa como indivíduo responsável, irredutível ao seu clã, religião ou corporação, está a ser questionado. A universalidade do bem comum já não é considerada acima dos interesses particulares, que proliferam em estratégias clânicas.

Então, escreve Bernard Ginisty, “resta-nos apenas afundar-nos numa melancolia sem esperança, vivendo dia a dia, para aqueles que podem, os consumos individualizados propostos pela publicidade? Curados para sempre dos impulsos generosos, tendo em conta as barbaridades cometidas em seu nome, devemos alinhar-nos com o paradigma único do mercado?“

Visão sombria que é iluminada por um convite a frequentar o que Ginisty chama de espaço laico, dando a essa palavra um sentido muito particular, lembrando o que escreveu um pastor protestante do século passado:

“Se Deus existe, ele é o Deus de todos os homens: ele é, portanto, laico.”

Este Espaço Laico, este espaço de espiritualidade universal, constitui um dos principais locais de luta contra os falsos ídolos diante dos quais as nossas sociedades se prostram. Reagindo contra as tentações do poder, da riqueza, da intolerância, ele convida-nos a reencontrar o caminho do despertar dos homens para a espiritualidade e para o compromisso com o projecto concreto da fraternidade universal.

Como nos convida a considerar uma reflexão do nosso Irmão Jean-Émile Bianchi:

“a realização interior e a apreensão exterior do mundo estão intimamente ligadas. O esoterismo e o exoterismo são apenas duas componentes, necessariamente simultâneas e conjuntas, do caminho em que o iniciado se engaja”.

O caminho espiritual que caracteriza o compromisso maçónico é, sem dúvida, antes de mais, uma viagem interior. Mas nenhum caminho pode criar raízes no mundo dos homens sem estar fundamentado ou apoiado por uma perspectiva externa. Os eremitas que se isolam em grutas no deserto, bem como aqueles que afirmam dedicar a sua vida à oração e à meditação para a salvação da minha alma, desligam-se duplamente dos seus semelhantes, tanto como pontos de partida para o seu trabalho interior como receptores de uma parte dos frutos desse trabalho.

E, acima de tudo, parece-me que nenhum progresso interior encontraria plenamente o seu sentido se não se concretizasse na realidade exterior, em benefício e em sintonia com o ambiente imediato, bem como com a sociedade em geral.

A abordagem maçónica é uma abordagem individual, certamente, mas também uma abordagem de solidariedade com o universal. O Maçom compromete-se a continuar fora a obra iniciada no Templo, graças à Luz que iluminou o trabalho partilhado com os seus Irmãos ou Irmãs e que continua a brilhar nele ou nela, embora permaneça invisível aos olhos dos profanos. O Mundo interpela o Maçom antes que ele se isole no Templo. O Mundo espera pelo Maçom no momento em que, concluído o trabalho na Loja, ele atravessa a porta para reencontrar o mundo profano.

As tensões entre espiritualidade, secularidade e realidade não devem ser vistas como contradições insuperáveis, mas como diálogos e complementaridades necessárias. Pois talvez seja na confrontação honesta entre o caminho interior, a tolerância e os factos do quotidiano que a sabedoria possa nascer.

Jean-Jacques Zambrowski

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

Fonte

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