Freemason

Crise da Maçonaria cubana: entre dignidade e manipulação

Compartilhar:
✍️ Desconhecido 📅 18/07/2025 👁️ 0 Leituras
Grande Loja de Cuba
Grande Loja de Cuba

“É melhor que a Maçonaria feche e desapareça com dignidade do que vê-la ser manipulada de forma flagrante pelo regime”

Em Julho de 2025, a Maçonaria cubana atravessa uma crise sem precedentes, marcada por tensões internas e uma pressão crescente do regime. Uma frase impactante, proferida pelo escritor Ángel Santiesteban e analisada com o advogado Edel González numa entrevista recente publicada no Diário de Cuba, resume o que está em jogo: “É melhor que a Maçonaria seja encerrada e desapareça com dignidade do que vê-la ser manipulada de forma flagrante pelo regime.” Esta declaração ilustra um debate profundo sobre a autonomia desta instituição face à ingerência estatal, um assunto que preocupa os membros e suscita interrogantes sobre o futuro da Maçonaria em Cuba.

Uma instituição sob influência

Âne Santiesteban-Prats
Ángel Santiesteban-Prats

Historicamente, a Maçonaria desempenhou um papel influente na sociedade cubana, especialmente durante as lutas pela independência no século XIX. No entanto, sob o regime actual, ela enfrenta uma regulamentação rigorosa imposta pelo Ministério da Justiça, que supervisiona as suas actividades. Segundo analistas, essa tutela transformou-se numa forma de controlo, com acusações recorrentes de infiltração por agentes da Segurança do Estado. Ángel Santiesteban, conhecido pelas suas críticas ao governo, destaca que esta manipulação visa alinhar as Lojas com os objectivos políticos do Partido Comunista, minando assim a sua independência espiritual e filosófica.

Edel González, advogado comprometido com a defesa dos direitos humanos, acrescenta que os fundos em moeda estrangeira, essenciais para o funcionamento das Lojas, são criminalizados ou confiscados, aumentando a pressão financeira. Esta estratégia, segundo ela, visa enfraquecer a organização por dentro, tornando os seus membros vulneráveis às directrizes estatais. Estas intervenções levantam questões sobre a capacidade da Maçonaria de preservar os seus valores tradicionais, como a liberdade de pensamento e a fraternidade, num contexto autoritário.

Uma revolta interna

A crise atingiu o seu auge com acções espectaculares levadas a cabo por membros dissidentes. Em Julho de 2025, grupos de maçons tentaram retomar o controlo da Grande Loja de Cuba, acusando o Grão-Mestre, Mayker Filema Duarte, de ter sido imposto pelo regime. Esta destituição, decidida em reuniões extraordinárias, marca uma ruptura aberta com os líderes considerados “falsos irmãos” ao serviço da ditadura.

Estes acontecimentos, amplamente divulgados nas redes sociais, traduzem uma vontade de resistência, mas também uma fractura no seio da instituição. Os testemunhos recolhidos indicam que esta implosão é o resultado de uma tensão crescente, acumulada ao longo de vários anos. Alguns membros consideram que a Maçonaria cubana, outrora um espaço de debate e reflexão, se tornou um instrumento de propaganda, esvaziando os seus rituais do seu significado original.

Esta situação leva parte da comunidade a preferir a dissolução a uma submissão degradante.

Uma dignidade ameaçada

A frase de Santiesteban reflecte um dilema ético central: preservar a integridade da Maçonaria ao preço do seu desaparecimento ou deixá-la sobreviver sob uma forma distorcida. Para González, esta opção de encerramento seria um acto de resistência simbólica, permitindo aos membros manter a sua honra diante de uma manipulação que trai os ideais maçónicos. No entanto, esta perspectiva divide, com alguns defendendo uma luta interna para restaurar a autonomia, apesar dos riscos.

Em 2025, esta crise insere-se num contexto mais amplo de restrições sociais em Cuba, onde as liberdades individuais são cada vez mais limitadas. A Maçonaria, como organização estruturada e influente, torna-se um símbolo dessa batalha entre o controlo estatal e a aspiração à independência. Os debates sobre o seu futuro reflectem, assim, uma luta mais ampla pela dignidade e identidade num país assolado por desafios económicos e políticos.

Um desfecho incerto

Até o momento, o desfecho dessa crise permanece incerto. As tentativas de recuperação da Grande Loja suscitaram reacções contrastantes, que vão da esperança à repressão. O regime, por sua vez, nega qualquer interferência, afirmando respeitar a autonomia das organizações privadas, uma posição amplamente contestada. Enquanto isso, a comunidade maçónica cubana encontra-se numa encruzilhada, dividida entre a resiliência e a resignação.

Este episódio ilustra uma tensão universal:

Até que ponto uma instituição pode preservar os seus valores diante de pressões externas? Para Ángel Santiesteban e Edel González, a resposta reside numa escolha radical, em que a dignidade prevalece sobre a sobrevivência a qualquer custo.

Em Julho de 2025, a Maçonaria cubana encarna assim um microcosmo das lutas pela liberdade num contexto autoritário, oferecendo uma reflexão comovente sobre os compromissos impostos pelo poder.

Erwan Le Bihan

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

Fonte

Fonte original

Artigos relacionados

Sugestões de Estudo