As origens históricas da Maçonaria
Permitam que vos apresente o resultado da minha pesquisa sobre as origens históricas da Maçonaria, para que possamos melhor compreender as suas tradições e dessa forma criar um alicerce sólido para a construção do nosso templo interior.
Tudo tem um Alfa e um Ómega, uma origem e um fim último. Procurar todas as influências e origens da nossa Augusta Ordem é decerto o trabalho de uma vida. No entanto, algumas são vincadamente marcantes e por isso comuns em diferentes fontes. Tomarei como centro da minha prancha o Templo de Salomão. O simbolismo que ecoa até às nossas Respeitáveis Lojas necessitou de uma onda propagante mas também de um antecedente criador, não me parecendo despiciendo a análise destas vertentes na procura das origens históricas da Maçonaria
Olhando para a antiguidade que antecedeu a construção do primeiro Templo de Salomão, podemos, segundo alguns autores, ir tão longe quanto a Noé. Este terá estabelecido o que podemos considerar, como uma primeira forma de Maçonaria. Com a separação dos seus descendentes logo após o dilúvio, verificou-se a criação de duas correntes da Maçonaria. Uma, denominada Maçonaria Espúria da Antiguidade substituiria as suas tradições anteriores por religiões idolatras e politeístas, constituindo-se como uma ciência especulativa composta por Mistérios que eram praticados pelos Maçons da Ásia Menor. Tiro, sendo a cidade mais rica e mais importante daquela região, teria diversas lojas destes arquitetos místicos. Por outro lado, sob o nome de Maçonaria Primitiva da Antiguidade, a outra vertente dos Noaquitas, manteve e transmitiu o seu legado, preservando a sua pureza e as duas grandes doutrinas da união de Deus e da imortalidade da alma, numa vertente mais operativa. Esta terá sido regular e inalteradamente transmitida através da linhagem judaica de patriarcas, sacerdotes e reis, até à época de Salomão. De facto, nas Constituições de Anderson, edição de 1738, é introduzida uma alteração em relação a primeira versão, de 1723, onde se passa a ler: “Um Maçom é obrigado a obedecer a lei moral.. como um verdadeiro Noaquita”, ou, “Noé o nono desde Seth, recebeu a ordem de Deus para construir uma grande arca, de madeira, certamente fabricada com geometria e de acordo com as regras da Maçonaria. Noé e seus três filhos, Jafé, Sem e Cam, todos verdadeiros Maçons, trouxeram com eles depois do dilúvio, as tradições e artes dos antediluvianos.”
Quando Salomão decidiu construir, de acordo com os propósitos do seu pai David, “uma casa sob o nome de Jeová, seu Deus”, pediu apoio ao seu amigo e aliado, Hirão, o Rei da cidade fenícia de Tiro, que escolheria para a tarefa hercúlea, um homem habilidoso no trabalho com ouro, prata, latão, ferro, pedra e madeira, hábil escultor e exímio manuseador de qualquer tipo de instrumento, chamado Hirão Abif. Este ponto na história da Maçonaria marcaria a união das vertentes operativa praticada pelos judeus, com a especulativa dos fenícios de Tiro, povo construtor e inovador que em contraste com outros povos seus contemporâneos, singravam pela sua conhecida tolerância religiosa e cultural, de que são claro exemplo o Rei Hirão, e que está intrinsecamente associado com a Maçonaria, levando-os a prosperar além das suas fronteiras enquanto que outras civilizações desapareceram na bruma da história. O povo fenício, detinha uma das maiores frotas mercantes da antiguidade e usava como sua proteção o Olho-que-tudo-vê associado com a Deusa Hathor, replicado nas embarcações egípcias sob o nome de Olho de Horus, e que encontramos ainda hoje nas notas de Dólar americanos e nas nossas Respeitáveis Lojas no Oriente.
Operários descendentes do Templo de Salomão viriam a ficar amplamente disseminados pela Europa durante a Idade Média. Conhecidos por Maçons Viajantes, podem ser encontradas evidências suas em monumentos do século IX e X, assim como pela identificação de uma linguagem vincadamente Maçónica nos Reinados de Carlos Magno em França e Alfredo de Inglaterra. Esta Maçonaria continuou a preservar as características operativa e especulativa combinadas, tais como eram praticadas no Templo de Salomão. No Século X os Maçons recebem proteção especial do Rei Athelstane, tendo, no século XI, Eduardo, o Confesor declarado ser o seu patrono, elevando sobremaneira o seu status quo na sociedade. No século XII, Henrique I protegeu igualmente a Maçonaria.
Encontramos as suas primeiras marcas na Escócia no início deste mesmo século XII, vincada pela construção da Abadia de Kilwinning, que a partir de então se tornou o berço da Maçonaria escocesa sob o governo de Rei Robert Bruce, levando à fundação da Ordem Real da Escócia e ao protecionismo aos Templários foragidos através da criação das Guildas de Maçonaria e construtores escoceses, especialmente em Bath, Bristol e York. Naquele país, estes cavaleiros, associados com a família Saint Clairs e a sua luta contra os Ingleses, encontrariam na Capela de Rosslyn uma ode à sua mística, local associado igualmente com a Maçonaria, onde entre muitas outras marcas, podemos encontrar entre os seus quatro altares, três pilares alusivos aos três primeiros graus da Maçonaria, sendo o mais famoso o do Aprendiz, assim como, um Cavaleiro Templário representado com um iniciado naquela ordem militar com um nó de corda ao pescoço, sendo esta a origem provável do simbolismo presente na nossa própria cerimónia de iniciação.
Num processo de evolução facilitado pela passagem do tempo, chegamos ao ano de 1663 onde numa assembleia de Maçons em Londres, se elege como Grão-Mestre o Conde de St. Albans tendo durante a mesma sido aprovados regulamentos relacionados com as qualificações prescritas aos candidatos e que eram claramente alusivos a um caráter mais especulativo da instituição. Finalmente, no início do século XVIII durante o reinado da Rainha Anne, foi acordada uma proposição pela sociedade em como os privilégios da Maçonaria não deveriam restringir-se aos Maçons operativos, mas estender-se aos homens de todas as profissões, uma vez que eram já à data regularmente aprovados e iniciados na ordem.
Esta união entre Maçonaria operativa e especulativa manter-se-ia até que no aniversário de S. João Baptista, dia 24 de junho de 1717, em Londres, na Goose and Gridiron Ale-House, organizada entre quatro lojas Maçónicas britânicas, se assistiria ao fim da vertente operativa, afirmando-se a Maçonaria Aceite na sua componente especulativa em exclusivo.
Apesar das inúmeras marcas que podemos encontrar em tempos imemoriais, a Maçonaria que praticamos nas nossas Respeitáveis Lojas teve origem nos Maçons operários livres que na idade média em Inglaterra se começaram a agrupar em lojas, criando regras e rituais. O momento marcante associado com a entrada de homens de todas as profissões terá induzido uma rápida transformação e aproximando-a mais daquilo que é hoje. No entanto, os exemplos que ecoam até hoje, revelam as suas influências e indiciam as origens da sua rica tradição. Seria por isso impossível dissociar esta prancha, atendendo ao seu objeto de estudo, sem falar sobre a maior e mais importante Ordem Militar da história. Refiro-me aos Pauperes Commilitones Christi Templique Solomonici, os Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, que fieis ao Salmo de David que entoavam antes de carregar sobre o inimigo: ”Non nobis Domine, non nobis, sed nomini tuo ad gloriam“, “Não a nós, Senhor, não a nós, mas pela Glória do teu nome”, e que como nós acreditavam no GADU. Estes pautavam a sua existência pela abnegação pessoal a favor da segurança dos peregrinos na Terra Santa, sendo conhecidos pela sua tolerância cultural e religiosa, e por elevar a fraternidade ao seu expoente máximo, fazendo parte do seu código de honra o auxílio a um cavaleiro em perigo iminente, impedindo-os nesta situação de abandonar um campo de batalha.
Também nós assumimos este compromisso entre Irmãos, assente na crença em Deus e na tolerância. Na procura deste pedaço particular da história, vejo-me regressado ao Templo onde estes cavaleiros tiveram a sua origem, não sendo difícil perceber as muitas características comuns com a Maçonaria.
Quando assistimos à sua dissolução pela bula pontifícia Vox in excelso, emitida em 1312 pelo Papa Clemente V, assistimos à morte de centenas destes cavaleiros e por outro lado à sua disseminação um pouco por toda a Europa, sendo natural a sua associação a lojas Maçónicas da época, aí exercendo a influência do seu legado. Em Espanha, integraram a Ordem de Calatrava, aí encontrando refúgio e santuário. Em Portugal, graças à ação diligente do Rei D. Dinis, O Lavrador, passariam para a Ordem de Cristo especificamente criada para eles, evitando que os seus bens fossem apoderados pelo Clero ou transferido para os Hospitaleiros, dessa forma permitindo que todo o conhecimento científico e pioneiro que detinham potenciasse os Descobrimentos e com eles a nossa Hora definidora. São exemplos por excelência a criação da Escola de Sagres e, consequentemente, a descoberta do Brasil pelo Cavaleiro da Ordem de Cristo Pedro Álvares Cabral, em 1500, que o apelidaria de Terra de Vera Cruz, ou terra da verdadeira cruz: a Templária.
Posso assim MMQQII, após esta minha pesquisa que me levou a navegar entre diferentes fontes e a conhecer os estudos de muitos Irmãos nossos de outros países, concluir que nos estabelecemos com uma forte simbologia emanada da Maçonaria operativa, que como os fenícios e os Templários devemos pautar a nossa atuação pela tolerância, pelo contributo abnegado e ativo para o melhorar da nossa sociedade e pela inabalável fraternidade que como Irmãos nos impedirá sempre de abandonar qualquer campo de batalha da vida se um de nós estiver em perigo. Somos os herdeiros do que de melhor o Homem deu à civilização. A compreensão desta herança e da enorme responsabilidade que encerra, pode e deve por si só motivar-nos a ser melhores homens e Maçons!
Nuno Monteiro da Silva, R. L. S. Rafael, nº 139 (GLLP / GLRP), a Oriente de Lisboa
