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As Mulheres na Maçonaria: Iniciação, Comunhão, Egrégora

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✍️ Desconhecido 📅 09/07/2025 👁️ 0 Leituras

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Sendo a tradição um imenso manancial que as ordens iniciáticas têm ao seu dispor como continentes de material identitário e espiritual, nada a deve elevar ao patamar de argumento quase dogmático. As evoluções fazem-se sempre construindo novas tradições onde as anteriores são postas em causa, passando a sua operatividade para a pedagogia própria das peças de museu, a demonstração das razões para se ter dado esse passo. Toda a tradição já foi inovação, num certo momento.

Iniciaticamente, os ritos que se cumprem em cada Rito, são chaves de atualização do mito que lhes está por trás, das narrativas que dão forma à liturgia no espaço e no tempo sagrado. Desta forma, a tradição expressa na repetição ritualística é a chave para que, municiados da vivência de cada um, sejamos atualizadores desses mitos, sendo leitores da História através dos olhos iniciados. Verdadeiramente, vivenciar uma linha iniciática é, sem perder o contacto com os elos da cadeia que nos une do passado ao futuro, conseguir ler o tempo e atualizar os conteúdos.

É desta forma que, mesmo sem ter mulheres nas suas Lojas, muitos Maçons e organizações para-maçónicas estiveram, e estão, na frente da luta pelos direitos das mulheres, sendo responsáveis por alguns dos saltos civilizacionais mais importantes neste tema. Apesar da interpretação da tradição dizer que a iniciação era apenas masculina, em termos cívicos, a igualdade foi para a globalidade da Maçonaria uma obviedade desde muito cedo.

Mas a própria interpretação da mulher como passível de ser iniciada, sofreu grandes alterações desde, pelo menos, o final do século XIX, seja com as chamadas Lojas de Adoção, que em Portugal funcionaram no âmbito do Grande Oriente Lusitano, seja com o aparecimento de obediências mistas, como o Direito Humano.

Hoje, com o caminho realizado, seja no campo da cidadania, seja no iniciático, as questões devem ser colocadas num olhar complexo que avalia a questão em três níveis de aprofundamento do reconhecimento: o iniciático, o da comunhão e da egrégora.

Iniciação Feminina?

A dimensão iniciática é, sem dúvida, por onde a questão deve ser abordada inicialmente: as mulheres podem ser iniciadas? Sem a resposta a esta questão clarificada, em termos de natureza e eficácia dos ritos cumpridos, nenhuma das outras tem lugar, uma vez que é ela que define se uma mulher iniciada pode estar em comunhão com os homens que viveram os mesmos ritos e, mais longe, se podem fazer parte de uma mesma egrégora, isto é, de uma mesma Loja.

A iniciação deve ser o processo mais transformador de uma vida simbólica. De tal forma deve ser alquímico, que se pretende que, nesse ato, se renasça; isto é, que após o ritual se seja outro. Portanto, o peso e a carga dada aos símbolos usados são da máxima importância na transformação da profanidade em sacralidade. Este poder transformador apenas ocorre em quem viver essa simbologia de forma a dar-lhe significados: sendo um ritual um ato de comunicação, quem emite e quem recebe têm de estar em sintonia para que haja comunicação; resumindo: o sentido do rito, o valor dos símbolos tem de ser igual em quem o apresenta e em quem o acolhe, senão, não há comunicação, muito menos se efetua alguma alquimia. E este é o ponto primeiro de uma reflexão sobre a iniciação de mulheres: é válida a argumentação que diz que iniciar mulheres com rituais feitos para homens é válido?

É claro eu se poderá dizer, e com certa razão, que a vivência dos símbolos é diferente e que, mais, a própria simbologia que permite a alquimia da iniciação é diversa; a maternidade, as questões de uma natureza feminina deveriam ser o centro da iniciação feminina, não se repetindo, de forma simples, apenas o que foi construído simbólica e ritualmente para homens.

Ora, sendo válido que as iniciações maçónicas foram desenhadas para homens, a partir do momento em que culturalmente esses elementos simbólicos são também reconhecidos pelas mulheres, então a comunicação e a alquimia pode ter lugar, tanto quanto com homens. A passagens dos símbolos para fora do elemento apenas masculino, invalida qualquer posição que coloque as iniciações apenas num dos géneros.

Mas podemos ainda recolher outro argumento: se houve iniciações femininas, as simbolicamente mais “femininas”, o facto de se terem perdido, revela que a própria evolução da simbólica feminina evoluiu sem elas, tendo de ir buscar significados a outros horizontes. Não só as mulheres não podem ser castigadas por se terem perdido os rituais iniciáticos femininos, como uma eventual reconstrução poderá ser mais artificial que qualquer artificialidade que se possa imputar ao uso de rituais e simbólicas masculinas com mulheres.

Comunhão e Egrégora

Obviamente, a questão da iniciação apenas se coloca para as Obediências maçónicas ditas de regulares, uma vez que as restantes, as adogmáticas ou liberais, aceitam a iniciação de mulheres, reconhecendo-as como Irmãs, acolhendo-as como visitantes. A estas, a questão coloca-se na possibilidade da comunhão: mais que serem reconhecidas, serem tidas como um elo da mesma entidade agremiadora.

Obviamente, não se trata de uma mera questão burocrática, mas da forma como se entende a prática ritual. A iniciação é reconhecida, mas a prática comum é reduzida a momentos de alguma solenidade, especiais, não ao normal e corrente trabalho em sessões comuns de Loja.

Aqui, as questões colocadas no ponto anterior até poderiam ser repetidas, especialmente a que coloca homens e mulheres em diferentes universos simbólicos, mas, se ela está resolvida para a Iniciação, sendo ou não aceites, então já não se aplica aqui: não se pode dizer que se aceita a Iniciação, mas que a vivência desses mesmos símbolos é de tal forma diferente que invalida uma corrente ligação em sessões mistas.

De facto, é a na prática ritual que tudo se joga, mas não é no ritual e na ritualidade em si. É na opção em estar em conjunto, na visão do espaço ritualístico e na ideia de egrégora. Será, realmente, diferente ou é uma percepção, uma representação construída culturalmente?

Merece a pena dar mais atenção a esta equação: se a Iniciação é reconhecida; se a presença em algumas sessões é permitida; porque razão a pertença pode ser vedada? Inevitavelmente, a aceitação da Iniciação choca com qualquer questão que justifique a “ex-comunhão” das mulheres nas Lojas masculinas. É tentador equacionar simplesmente o “à-vontade” em ter mulheres e no que isso implica de profano, não de ritual. A presença de mulheres é, simplesmente, inibidor? E essa inibição tem consequências simbólicas e rituais?

Mergulhados num campo de questões plenamente profanas, regressamos às narrativas e aos símbolos, não por aquilo que eles têm de capacidade de serem diferentemente abarcados por homens e mulheres, para ter de equacionar as implicações da presença do feminino na criação do espaço e tempos sagrados no tempo do rito. Sim, deixar os “metais à porta do Templo” também é deixar as paixões, os desejos, os instintos fora do Templo.

Estamos capazes de aceitar a presença das mulheres, lado a lado, sem que isso tenha implicações diretas na masculinidade? Porque é aí que a questão reside: não na possibilidade de homens e mulheres vivenciarem o mesmo, mas na dificuldade em superar as representações sociais e os instintos em estar “apenas” com seres humanos.

Paulo Mendes Pinto

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