A Maçonaria na Resistência francesa na II Guerra Mundial
Tudo começa pela lei de 13 de Agosto de 1940, que trazia a proibição das “sociedades secretas”. Ninguém se engane: por trás destas palavras é a Maçonaria que é o alvo. E ela somente. No fundo, os funcionários viram-se na obrigação de assinar uma declaração por sua honra de jamais ter pertencido a uma associação secreta ou de ter rompido toda conexão com ela. Depois de 19 de Agosto, um decreto constatava a “nulidade” do Grande Oriente de França e da Grande loja de França. Somente no início de 1941 que são, à sua vez, visadas a Grande Loja Nacional Independente, a Federação Francesa Droit Humain, a Sociedade Teosófica… obediências que tinham sido esquecidas em 1940!
Em Agosto de 1941, foi promulgada uma lei ordenando a publicação no Diário Oficial dos nomes dos antigos dignitários. Neste mesmo texto, aplicava-se a eles a interdição “de exercer funções públicas e mandatos enumerados no artigo 2 da lei de 2 de Junho de 1941, passando a ter o status de judeus.” Avaliza-se assim oficialmente a noção do “complô judaico-maçónico”; perto de 3.000 funcionários perdem os seus empregos, a noção de “dignitários” se estende aos maçons que ocupavam cargos no seio das suas lojas, ou seja, no seio da estrutura maçónica de base: 18.000 nomes são publicados. Os franceses descobrem que são irmãos fustigados desde décadas, com fama de dirigirem a França: poucos dos poderosos, cidadãos como tantos outros, carteiros, comerciantes, nenhum deles judeus, muito longe disso. Enfim, um reflexo da sociedade.
Muitos franceses se interrogam, ao ponto de que os anti-maçons se devem justificar quando eles escrevem em 1941 numa das suas publicações:
“Não se trata do valor dos homens, mas da superioridade da sua organização que devemos pesquisar os principais motivos para a força maçónica”.
Este quadro legislativo e realçado por um trabalho em profundidade dentro da sociedade. A acção engajada é multiforme. Os serviços de Vichy e das forças de ocupação colocaram a mão, a partir do Verão de 1940, sobre um tesouro extraordinário: os arquivos das obediências francesas e os seus documentos mais recentes. Diversos serviços dotados de pessoal e meios financeiros consequentes administram o património, os classificam e os utilizam. Com muitos objectivos: alguns atacam a história da Maçonaria para demonstrar a sua influência perniciosa sobre a sociedade; outros estabelecem as fichas de maçons, mortos ou vivos; outros publicam livros ou lançam filmes em cinema como, por exemplo, Forças Ocultas em 1943.
Outros ainda conduzem operações policiais com a finalidade de ajudar o governo de Vichy na sua caça aos funcionários maçons; de verificar as suas declarações; de confrontá-las com os arquivos. Eles realmente deixaram a Maçonaria e quando? Esta tarefa é conduzida em todo o território pelo Serviço Especial das associações dissolvidas dirigido por Georges Moerschel. Um serviço que em Dezembro de 1943 agrupa 23 pessoas. Inquéritos, audiências, interrogatórios, perseguições: nada lhe falta. Os arquivos do Grande Oriente conservaram os dossiês montados durante quatro anos. Eles são edificantes, ao mesmo tempo ricos e pobres, mas reveladores do trabalho efectuado. Para cada pessoa interrogada (forem antigos parlamentares ou cidadãos comuns) encontra-se uma acta da audiência, uma declaração complementar do interessado e, frequentemente, uma lista de documentos ou de material maçónico apreendido no seu domicílio e enviado “às autoridades de Ocupação”.
Alguns deles – examinando as actas – fingiam ter esquecido tudo e quando perguntados sobre os nomes dos maçons que eles conheciam, citavam apenas os mortos. Outros se recusavam a responder. E numa maioria absoluta, estes documentos mostram uma grande dignidade da parte das pessoas interrogadas. Mas percebe-se que eles sabem que as suas declarações serão confrontadas às de outros.
Encontram-se também nestes cartões os relatórios redigidos depois de vigilâncias a pé ou de domicílios. Eles são muito numerosos e se referem, sobretudo aos dignitários conhecidos: o objectivo é saber se eles estão numa acção de resistência. O dossiê do industrial Louis Villard, antigo secretário do Conselho da Ordem do Grande Oriente é, neste particular, edificante: ele é seguido quase permanentemente até o Verão de 1942 pelo menos, e o seu domicílio foi invadido pelo menos seis vezes. A cada dia, um relato manuscrito era redigido. Cada pessoa que ele encontrava era, ela mesma, objecto de vigilância e anotação. Outros, além dele, se “beneficiarão” das mesmas medidas.
O objectivo desses inquéritos era certamente vigiar e verificar as declarações de uns e de outros sobre o seu investimento real na Maçonaria, medir as suas redes no seio da “família maçónica”. Mas, também criar pressões sobre os maçons… para os impedir de entrar na Resistência.
Sim, porque resistência havia. Resistência maçónica? A pergunta merece ser feita. É, realmente, difícil estabelecer as razões da entrada de maçons, homens e mulheres, na acção clandestina. Será que eles fizeram esta escolha aplicando os princípios fundamentais da Maçonaria: liberdade e justiça, em particular? Muitos deles (e sem dúvida a totalidade) estão também animados por uma rejeição da ditadura, do fascismo, do racismo, das ideologias totalitárias, da colaboração de Vichy. Eles são patriotas e republicanos. Com frequência também, eles são militantes engajados na vida da cidade, num sindicato ou partido. Eles podem ser contratados por um Maçom, uma camarada, um membro da sua família, um amigo, um vizinho.
Alguns exemplos permitem medir a complexidade do problema. Por que na Martinica, o irmão Maurice des Êtages, um notável local, conselheiro geral socialista, em dissidência dos jovens martinenses? Por que, a partir de 1940, o governador do Chad, Félix Éboue, socialista e Maçom, se junta à France Libre? Em Pas-de-Calais, como analisar a decisão de um Guy Mollet, que entra para a OCM, organização civil e militar? Ele é, ao mesmo tempo, socialista, sindicalistas, professor e Maçom. O engajamento maçónico é um elemento de explicação das suas escolhas, mas não exclusivamente.
Por que recrutar os maçons? Eles cultivam a discrição (o “segredo”, diriam alguns), sabem se calar. Este é um dos ensinamentos do trabalho em loja. A priori, eles podem ser confiáveis. Outro elemento é determinante: a composição sociológica das lojas faz com que eles sejam capazes de colectar informações em todos os níveis da sociedade.
Alguns dos “pluralistas” da militância entram, assim, para a Resistência. A escolha da rede não tem a mínima importância: o essencial é agir, de combater na COM, de liberação no Franc-Tireur. Nos movimentos nacionais ou locais, que eles criam ou animam: no Norte, com a Voz do Norte, na zona costeira do Languedoc-Rousillon com o Cotre. Eles estão presentes nas ferrovias (o grupo Maximilien-Fer é uma criação dos irmãos) na polícia (uma presença muito forte no seio da Honneur de la Police), nos Correios e Telégrafos. Em Paris, e também na província: em Limoges, os chefes de três movimentos que estruturam o Exército secreto são irmãos.
Certamente, existe também uma acção resistente especificamente maçónica. A partir de Setembro de 1940, os irmãos de uma loja de Saint-Germain-em-Laye se encarregam das actividades de colecta de informações em ligação, num primeiro momento, com o Serviço de Inteligência britânico, e depois com um movimento francês, o da Liberation. É preciso citar Patriam Recuperare, ao mesmo tempo loja e rede de Resistência, estrutura original criada no Outono de 1940 que reunia irmãos e posteriormente profanos por espaços em diferentes níveis. Tudo se interpenetra aqui: manter o espírito maçónico e unir as lojas clandestinas através da França; constituir um comité de acção maçónica para preparar a resistência oficial ao final da guerra: resistir ajudando os judeus, escondendo paraquedistas, organizando os esquemas de evasão.
Por vezes, também, se eles criam um movimento, os maçons se abrem para o exterior, reunindo à sua acção os não maçons, e não hesitam em se voltar para outras estruturas para que a acção seja ainda mais eficiente. NO final de 1940, cinco irmãos de Saint-Etienne e um profano criam um pequeno grupo que se junta ao movimento Coq Enchainé, antes de migrar para o Liberation, com múltiplas actividades: divulgação de jornais, fabricação de carteiras de identidade falsas, ocultação de resistentes e de judeus, etc. Este Coq Enchainé também recruta entre os maçons de Lyon e no meio da esquerda política e sindical. Nas suas publicações, ele defende a República e o secularismo.
Tudo isso tem um preço e os maçons vão pagar um pesado tributo. Depois da guerra, as listas serão estabelecidas, para cada obediência, mas elas rapidamente se revelam incompletas e os próprios maçons listados pelos jornais nãos estão preocupados em voltar ao passado. Admite-se comumente que 700 irmãos e irmãs morreram durante este período, sejam mortos em combate, seja directamente em consequência das suas actividades de resistência, seja nos campos de concentração.
Ah, os campos. aqui ou lá, fala-se de lojas maçónicas nos campos de prisioneiros e de concentração. O que pensar disso? Na sua obra A Maçonaria sob a Ocupação, André Combes consagrou um capítulo a esta questão onde ele constata: “nos campos de prisioneiros ou de concentração, maçons reconheciam-se por vezes como tal, mas dispomos apenas de informações imprecisas sobre os contactos que eles puderam nutrir e sobre as lojas clandestinas.”.
Ele cita, entretanto, alguns exemplos: uma loja em Berlim em 1943, outra em oflag em Westphalien, outra – iniciativa do tenente-coronel Machet, “instalada” em Nienburg am Weser, e depois transferida para Colditz e em Lubeck. Admite-se que um grupo maçónico funcionou em Auschwitz e que os irmãos se reuniam em Orianemburg, mas esta história nunca foi escrita.
Em Buchenwald, na falta da constituição de uma loja, os maços deportados estiveram presentes, e mesmo aceitos nesta condição pelo Comité de Defesa de interesses franceses, enquanto um comité maçónico foi constituído. É igualmente um Maçom, Constantin Buron, que compões no campo O Canto dos Deportados Franceses. Os maçons se reuniam algumas vezes. Não existindo templo, eles desenhavam um rectângulo no solo, no interior do qual eles se sentavam.
O que se segue é conhecido. A Maçonaria retoma uma actividade legal na metrópole em 1944…, mas o essencial foi feito em Dezembro de 1943 por Charles de Gaulle em Alger, depois de um pedido dos irmãos. Interrogado, o chefe do France Libre declara: “Nós nunca reconhecemos a lei de Vichy, em consequência, a Maçonaria nunca cessou de existir na França.” Segue-se uma portaria contendo a anulação da dissolução das associações ditas secretas.
A Maçonaria sai bem enfraquecida destes quatro anos de guerra. Falta-lhe recuperar os seus bens dispersos por toda a França. Sobretudo, falta-lhe reinstalar-se numa vida normal, fazer retornar a ela os seus membros dispersos. Com relação a isso, a situação dos seus membros parecia trágica. Para se limitar ao Grande Oriente, segundo os números disponíveis, a obediência da Rue Cadet não reagrupou mais que entre 5.000 e 7.000 irmãos – contra 28.000 em 1938 – dos quais a maioria tinha mais de 60 anos de idade. Soma-se a isso uma crise moral, que se precisava assimilar, pois ela percebeu que a sua existência podia ser ameaçada: Pétain e o regime de Vichy tinham falhado em consegui-lo, mas foi por bem pouco. Ela também pode medir quanto era odiada por uma parte da população, ela que entendia estar trabalhando pelo bem da Humanidade. Integrando todos estes elementos, profundamente traumatizada, ela se volta para si mesma, por longos anos a fim de se reconstruir.
Denis Lefebvre
Baseado na tradução feita por José Filardo
Fonte
Fonte Original
- Revista História – Abril 2012
