A Maçonaria e os seus qualificativos
“Um Maçom é obrigado pelo seu mandato a obedecer à lei moral. Se ele compreender bem a Arte, nunca será um ateu estúpido ou um libertino irreligioso. Se, nos tempos antigos, os maçons eram obrigados, em todos os países, a seguir a religião desse país ou nação, actualmente considera-se mais conveniente obrigá-los apenas à religião sobre a qual todos os homens concordam, deixando cada um livre para as suas opiniões pessoais. Esta religião consiste em serem homens bons e sinceros, homens de honra e probidade, quaisquer que sejam as denominações ou crenças que os distingam. Desta forma, a Maçonaria torna-se o centro de união e o meio de reunir, através da verdadeira amizade, pessoas que de outra forma teriam permanecido estranhas”.
Esta Prancha procura reflectir sobre a oposição entre a Maçonaria dita “adogmática” (e liberal) e a Maçonaria dita “regular”. O tema proposto causa de imediato alguma consternação ao editor; dele decorre uma questão, tida aqui como certa e aceite, e que me atrevo a dissecar:
- O que é a Maçonaria adogmática?
- O que é a Maçonaria regular?
O que leva imediatamente a uma outra questão que também é considerada relevante:
- A Maçonaria adogmática e a Maçonaria regular são secções da Maçonaria Universal?
Como os meus Irmãos e Irmãs certamente compreendem, as questões indicadas não são de modo algum provocatórias, mas merecem alguma reflexão: “A intelectualidade moderna não pode continuar a debater-se entre dois ensinamentos que excluem o pensamento: entre as igrejas baseadas na fé cega e as escolas que decretam os dogmas das nossas novas crenças científicas. (…) O pensador faz-se a si próprio: é filho das suas obras. – A Maçonaria sabe-o, por isso evita inculcar dogmas. – Ao contrário de todas as igrejas, ela não pretende estar na posse da Verdade. – Na Maçonaria, limitamo-nos a advertir contra o erro, e depois exortamos todos a procurar o Verdadeiro, o Justo e o Belo: O Verdadeiro, o Justo e o Belo, Meus Irmãos, Sabedoria, Força e Beleza ou Liberdade, Igualdade e Fraternidade, estas trilogias surgem assim como atributos imutáveis e seguros da nossa Augusta Ordem. Creio que nenhum Maçom contemporâneo ousará pô-las em causa, pois constituem, juntamente com o Esquadro, o Compasso e o Livro da Lei Sagrada, as Luzes do nosso Ritual Iniciático, do nosso Juramento, para a Glória do Grande Arquitecto do Universo, seja Ele quem for.
Constituirão estes valores antigos e aceites um dogma durante o processo contínuo do nosso treino iniciático? A denominação “adogmática” aplicada à Ordem Maçónica a que dizemos pertencer constituirá, porventura, prova de um espírito sectário? E a denominação regular? Creio ter aprendido, aquando da minha iniciação, há quase quinze anos, que a Maçonaria é uma Ordem Universal que une, no Presente, com um elo infinito, os maçons do Passado aos maçons do Futuro. É este o sentido que sempre atribuí à Cadeia de União, corolário simbólico e condição sine qua non do traje da Loja. Crenças, raças, sistemas culturais, até mesmo origens, diluem-se no imenso magma depositado na Maçonaria Universal, na Luz e valores Humanos e, para os que assim acreditam, Divinos, já enunciados nas trilogias referenciadas. Tais valores são, seguramente, para todos os maçons, valores Universais, valores Sagrados. Convém, pois, levantar mais algumas dúvidas, que serão naturalmente levantadas por quem, de boa-fé, se queira sentir inserido no espectro da Maçonaria Universal. Se esta universalidade é plausível e intrinsecamente assumida, porquê adjectivá-la? Regular, em que sentido e como? Liberal, opondo-se a quê? Adogmática, rejeitando que dogmas? Porque não apenas Maçonaria, Maçonaria Livre ou Maçonaria Universal? Fiz algumas investigações não exaustivas, consultando alguns dicionários e enciclopédias. Retive, para Dogma:
- Do grego: “o que parece ser justo, verdadeiro; Opinião (Platão), o que parece ser bom”.
- Do latim: “princípio, preceito, máxima”.
- Em religião: “verdade da fé”.
- Em filosofia: “ponto fundamental da doutrina”.
- No sentido comum: “uma opinião imposta pela autoridade e aceite sem crítica ou exame; uma proposição apresentada como irrefutável”.
A partir desta apresentação, que não pretende esgotar a massa de interpretações disponíveis, não foi encontrado um significado definitivo irrefutável para o termo Dogma. Da mesma forma, cânones como Liberdade, Igualdade, Fraternidade ou Sabedoria, Força, Beleza, parecem integráveis, sem dúvida ou ofensa, em alguns dos significados expostos, à luz dos valores da nossa Ordem Augusta. Questioná-los, pode, eventualmente, retirar-lhes o sentido. Poderíamos, neste sentido, falar de uma Maçonaria adogmática? Indo um pouco mais longe nesta reflexão, provavelmente inconclusiva, procurei também encontrar o significado da palavra Seita. Assim, derivando-a do latim, temos, de uma forma não exaustiva:
- Seita – seita, parcialidade, facção, modo de viver ou de pensar, comum a muitos.
- Sectaculum – descendência, raça, parentesco.
- Sequor, (…) Sequi – seguir; seguir alguém para trás; acompanhar, seguir para trás; imitar; tomar como modelo; procurar; concordar; dar assentimento; ter a mesma opinião; continuar; procurar a amizade e a protecção de alguém; interpretar literalmente; aproveitar a oportunidade; fazer como de costume; tomar para si o não de alguém; acomodar-se aos costumes; etc…
Do mesmo modo, e de acordo com alguns dicionários e enciclopédias consultados, temos:
- doutrina ou sistema que se afasta da crença geral; facção.
- reunião de pessoas que professam uma religião diferente da que é geralmente seguida.
- um grupo religioso que se separou de uma comunidade maior e mais antiga.
- em teologia: a Igreja Católica considera uma seita qualquer comunidade cristã, grande ou pequena, que se tenha separado dela por divergência dogmática (heresia) ou por recusa de obediência (cisma).
- em psicologia religiosa: uma consequência religiosa nascida de uma atitude de reacção crítica a um sistema dogmático ou disciplinar bem estruturado.
Perante esta apresentação, surge a questão: será a chamada “Maçonaria adogmática” uma seita da Maçonaria (Universal)? Meus Irmãos e Irmãs, não me compete tirar conclusões nem, muito menos, fazer afirmações definitivas. Lembro-me, no entanto, das expressões de sectarismo político que me ficaram bem gravadas na memória por altura da Revolução de Abril em Portugal e que eram propagadas por sectores de opinião ligados aos partidos Comunista e Socialista e a muitos outros; lembro-me bem das noções de sectarismo político e partidário dos meus primeiros passos na consciência de cidadania no início dos anos sessenta, e os conceitos de Seita e de Sectarismo assentam num conjunto de valores emocionalmente negativos para os quais não tenho justificação racional. Antes de mais, não quero sentir-me cúmplice de uma visão sectária de algo tão nobre para mim como a Maçonaria. Conheço alguns dos seus Ritos e um pouco da sua História. Do que posso apreender, posso dizer que todo o sectarismo que por vezes se sente nela é, sobretudo, na sua dimensão profana, uma vez que, como humano, acredito que os valores sublimes que a impõem são Universais e tendem a abarcar, como limite, o Universo da Humanidade. Volto às palavras de Wirth, que gostaria de fazer minhas:
“Não há nada de humilhante em confessar a nossa impotência perante o mistério. Tendo sido admitido na Câmara do Meio há nove lustres, não posso afirmar que sei alguma coisa sobre a Acácia. Tal como tu, sou ainda um Companheiro. As minhas viagens não terminaram e estou a trabalhar incansavelmente para conquistar a mestria, que estou muito longe de possuir. (…)
“…Quando houver Mestres iluminados na Maçonaria capazes de ler e escrever a linguagem sagrada, então a nossa instituição passará de Símbolo a Realidade. Ela encarnará a verdadeira Iniciação e construirá efectivamente o Templo da Suprema Sabedoria Humana…”.
Após este aparente preâmbulo ao tema em discussão, gostaria de tecer mais algumas considerações. Julgo ter ficado clara a minha opinião de que não existe Maçonaria adogmática nem Maçonaria regular. De igual modo, poderia sublinhar a minha opinião de que tal adjectivação resulta em puro sectarismo no seio da nossa Augusta Ordem. Na mesma linha, não sou competente, neste mesmo sentido, para apressar, instando possíveis juízos de valor, a discussão sobre Seitas, domínio profano cujo conteúdo me é totalmente externo, uma vez que estas, religiosas ou políticas, ou se enquadram na erecção de Templos à Virtude, à Justiça e à Razão, valores que perseguimos, ou pertencem àqueles vícios, preconceitos e erros para os quais procuramos cavar as respectivas masmorras.
Para mim é claro que os conceitos de seita ou sectarismo se aplicam, sensu latu, a qualquer coisa que vá contra uma ordem estabelecida, uma ortodoxia, seja ela qual for. No entanto, o sistema de valores que nos orienta deve exprimir-se positivamente e não contra nada, caso contrário, envolver-nos-emos em batalhas desprovidas da proposição inerente de territórios a conquistar. Há uma tarefa que por vezes esquecemos, nesta ânsia de provocar realidades imediatas, e que nos advém essencialmente da nossa condição (sempre) profana, que se centra no trabalho árduo da pedra bruta que é cada um de nós. Frequentemente participamos no método mais eficaz – o trabalho em Loja – sem nos apercebermos. Talvez seja daí que venha o potencial de heroísmo que afecta muitos de nós: uma urgência incontida de intervir no espaço profano que nos rodeia.
Meus Irmãos, o Grande Oriente Lusitano é uma Obediência cujas Lojas trabalham sob a invocação do Grande Arquitecto do Universo, e principalmente no R.EAA, está integrada na Ordem Maçónica Universal, cujos valores adopta e prossegue, reconhecendo como Maçons todos os Irmãos iniciados em Lojas justas e perfeitas e como amigos todas as Potências legitimamente instaladas, de acordo com as grandes tradições maçónicas, recusando todo o sectarismo e todas as adjectivações que levem à criação de divisões e intolerância no seio da Maçonaria Universal. O Grande Oriente Lusitano é, por princípio e tradição, uma Potência Maçónica masculina, o que não a impediu de reconhecer e manter ligações fraternas e inter-assistenciais com obediências mistas e femininas. Na sua política externa, soube manter os laços com as Potências com as quais tradicionalmente mantinha relações estreitas, e abrir novas relações, encorajando os Irmãos que viajam a levar uma mensagem de fraternidade aos Irmãos, Lojas e Obediências que visitam, uma vez que as relações entre Irmãos e entre Lojas são geralmente mais fortes e produtivas do que as relações de carácter institucional.
É nesta perspectiva de universalismo maçónico que nos encontramos hoje. Volto ao tema do vestibular com a sensação de ter dito pouco em tão longa Prancha que me ajudou, sobretudo, a reflectir. Seitas, meus Irmãos, e adjectivos, ainda me apertam o coração. Que as religiões se desmaterializem em torno dos seus líderes. Que os movimentos de ideias e os partidos se construam e se destruam de acordo com as circunstâncias que os motivam. Tudo isto é calmamente descrito no mais elementar história. Mas reafirmo, até ao âmago da minha convicção, que a Maçonaria não é, nunca será, nunca foi regular, liberal, adogmática, operativa, especulativa, republicana, laica, monárquica, anarquista, socialista, mista, feminina, ecológica, verde ou libertária. Sempre foi, e sempre será, universal, atenta às mutações culturais, motor dos ideais e valores que persegue, em cada momento histórico, de acordo com os fins que está a atingir e a transpor, livre de qualquer vedação ou encapsulamento que o mundo secular determine. Se o dogma de hoje é ainda, e porque ainda não ultrapassado, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, Sabedoria, Força, Beleza; amanhã será o que perseguem os iniciados, desde que sejamos, no entanto, capazes de os tornar redundantes, caminhando na direcção da Perfeição do Homem e da Sociedade que o acolhe e obriga.
Meu Irmãos e minhas Irmãs, estamos bem cientes do conservadorismo exclusivista da Grande Loja de Inglaterra, bem como do seu autoproclamado poder para julgar e decidir o que é ou não Maçonaria Regular. Não confundimos regularidade maçónica com a chamada Maçonaria Regular. Não cometamos o mesmo erro! Não confundamos as instituições maçónicas e o sistema de interesses que elas são capazes de defender com a Maçonaria! A regularidade é comummente entendida em termos de uma espécie de tripla legitimidade: há uma regularidade de origem – ter sido fundada por três Lojas ou por uma Obediência já regular -, uma regularidade doutrinária – trabalhar para as Três Grandes Iluminações, numa Loja Justa e Perfeita, formada por sete Mestres Maçons -, e o reconhecimento da regularidade – de facto, este problema é um problema inter-obediencial. Onde está a autoridade para conceder ou negar esta legitimidade?
Para ser regular, a Maçonaria deve seguir a Regra “que traça linhas rectas ad infinitum, emblemáticas do direito inflexível da lei moral em toda a sua imutabilidade e rigor”. Se, de facto, acreditamos que perseguimos a essência dos valores iniciáticos da Nobre e Augusta Ordem Maçónica, que se fundam, entre outros, em conceitos como Fraternidade e Tolerância, deixemos para trás epítetos e adjectivações sectárias, e fixemo-nos nos valores que nos unem, aprofundando as razões do amontoado simbólico iniciático que nos dá forma, para não permitirmos que a ansiedade, cega à modernidade, contribua para o esvaziamento dos valores estruturantes da Tradição. Da mesma forma que a Monarquia e a República coexistiram na Europa da Antiguidade, sem conflitos e apoiadas em sistemas de democracia representativa (que, segundo a informação da História, são sistemas pouco transitórios), as várias instituições e obediências maçónicas virão a coexistir, com respeito mútuo pelas suas diferenças, num futuro próximo, porque o que as liga é mais forte do que as circunstâncias que as separam, e porque os ventos contrários aos valores humanos e culturais que nos unem são cada vez mais evidentes, no boom da informação universal e da transparência.
Liberdade, Igualdade, Fraternidade; Paz, Amor, Humanismo, etc., para além de soarem agradáveis ao ouvido, são valores insofismáveis que não podem ser questionados por um Maçom; tornar-se-ão, por acaso, dogmas irrefutáveis. Tenho tendência para pensar que ainda é cedo para falar de uma Maçonaria Quântica ou mesmo Cosmo-genética, que aceita como premissas a dinâmica não linear, a teoria dos fractais ou a auto-similaridade. É no equilíbrio entre a exacerbação da ordem e a exacerbação do caos que se encontra, creio eu, a Maçonaria Universal, ou, por outras palavras, neste equilíbrio sempre humano entre a arritmia do cérebro e o ritmo seguro do coração, nesta fecundação sempre necessária da emoção pela razão, e vice-versa, que se estimulam reciprocamente na espiritualidade e na acção criadora. No que diz respeito à Maçonaria, as verdadeiras seitas são as chamadas lojas que, sob o feitiço do poder político ou da exacerbação dos negócios, se tornam verdadeiras associações de criminosos, das quais a Loja P2 italiana se tornou um paradigma há alguns anos. As diferenças de rito, a maior ou menor abertura às idiossincrasias do mundo profano, a adaptação mais rápida ou mais lenta à mudança no que diz respeito à superestrutura, não devem ser um obstáculo, mas sobretudo um incentivo para reforçar os laços entre todos os homens livres e de bons costumes que, através da iniciação ritual e simbólica, se tornaram maçons. E termino a minha intervenção seguindo as sábias palavras de Bayard:
“Esta corrente tradicional que chegou até nós, esta filiação regular, foi transmitida sem que o pensamento original fosse desvirtuado. A essência de qualquer doutrina tradicional é imutável, uma vez que é de origem divina e está ligada a um centro que é, por definição, imutável; pode, no entanto, ser formulada de diferentes maneiras, mudando o seu estilo de acordo com o tempo, o lugar e as circunstâncias humanas. Só os arquétipos podem evoluir numa sociedade que estabeleceu a sua ética; o papel da iniciação é permitir ao homem desabrochar através da tomada de consciência do seu valor interior”.
Luís Conceição, M. M. – R. L. Convergência, nº 501, a Oriente de Lisboa – G. O. L. – Portugal
