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A Igreja e a Maçonaria

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✍️ Desconhecido 📅 04/11/2025 👁️ 0 Leituras

Igreja

O parto da Maçonaria

Muito antes do histórico ano de 1717, quando alguns cavalheiros da sociedade londrina reuniram-se na Taberna do Ganso Grelhado para fundar a primeira Grande Loja de Londres, e assim, dar à prática da Maçonaria uma feição institucional, a Arte Real já era a filosofia reinante entre as melhores cabeças da intelectualidade europeia. O pastor James Anderson, reconhecidamente o pai da Maçonaria moderna, por causa das Constituições que ele escreveu, historiou assim o nascimento da Maçonaria institucional: “ O rei Jorge chegou a Londres no dia 20 de Setembro de 1714. Algumas Lojas de Londres, desejosas de um activo protector, em face da incapacidade de Sir Christopher Wren, acharam por bem cimentar, sob um novo e grande mestre, o centro de união e harmonia. Com este objectivo as Lojas nº 1 (Goose and Gridiron), nº 2 (Crown Alehouse), nº 3 (Apple Tree), e nº 4 (Rummer and Grapes ), reuniram-se com alguns outros antigos irmãos no dito Macieira, e tendo dado a presidência ao mais velho mestre Maçom, mestre de uma Loja, constituíram uma Grande Loja, , par ínterim, na devida forma. Resolveram restaurar a comunicação trimestral dos oficiais das Lojas, reunir-se em assembleia nas festas anuais e escolher entre eles um Grão-Mestre, na expectativa de ter a honra de ter à sua frente um irmão nobre [1].

Estas informações dadas por Anderson levam-nos a deduzir que muito antes de 1717, data oficial do nascimento da Maçonaria, dita moderna, já havia Lojas maçónicas em Londres, praticando alguma coisa semelhante ao hoje se chama Maçonaria especulativa. Anderson lista quatro Lojas, citadas pelos seus números e pelos lugares onde estes irmãos se reuniam, ou seja, algumas tabernas londrinas [2].

Uma informação importante nesse texto de Anderson dá-nos conta que Christopher Wren, o famoso arquitecto, responsável pela reforma arquitectónica de Londres, era Maçom e gozava de grande prestígio, na altura em que se propunha a unificação da Maçonaria londrina. Isto colocava-o na posição de um Grão-Mestre de facto, ainda que não fosse de direito, já que tal cargo não existia. Este pode ser um interessante elo entre os maçons operativos, arquitectos e pedreiros, com os maçons especulativos, cavalheiros da Royal Society, que nessa época constituíam as Lojas maçónicas de Londres.

O que eram etsas Lojas especulativas antes de 1717 é um assunto muito obscuro. Não há entre os autores, concordância de informação porquanto nenhum documento escrito, que relate de primeira mão a actividade de uma dessas Lojas foi até agora recenseado.

Tudo leva a crer que as Lojas maçónicas referidas pelo Dr. Anderson eram uma espécie de clubes de cavalheiros, cujas origens parece ser a Royal Society de Londres, organização que congregava as nata científica e intelectual da Ilhas Britânicas da época. Faziam parte deste grupo Isaac Newton, Alexander Pope, Robert Boylee, John Evelynn, Robert Hookee, William Petty, John Wallis, Thomas Willis, o dito Chistopher Wren e outras importantes figuras da ciência e da arte na Inglaterra.

Uma pista que nos leva a fazer esta ilação é a própria divisa adoptada pela Royal  Society, que muito se assemelha à que foi adoptada pela Maçonaria no seu perfil filosófico. O lema Nullius in verba,  por exemplo, que afirma a intenção de só buscar a verdade no domínio dos factos, baseando-se somente na experiência científica, e jamais na palavra de alguma autoridade, é um postulado iluminista que também  instrui a prática da Maçonaria. É um pressuposto que não podia ser desprezado pelos membros da Royal Society, na altura ecm que todo conhecimento baseado unicamente em lógica dedutiva estava sendo contestado pela postura estritamente racional e cientifica dos iluministas. Todavia, na prática, a Royal Society, pelo menos no seu início, jamais afastou dos seus interesses os temas de conteúdo espiritualista, até por conta do próprio currículo de alguns dos seus membros mais notáveis, como Sir Isaac Newton e Robert Boyle, por exemplo, cujas ligações com a alquimia eram notórias e jamais foram negadas. E é esta postura, ao mesmo tempo científica e religiosa, que nos leva a pensar que a Maçonaria inglesa tem pé bastante firme na famosa academia inglesa que congregava o escol do pensamento naqueles cruciais anos do início do século XVII, quando a sociedade moderna começava a construir de facto o seu espírito.

O berço Católico

Entre os historiadores é comum a ideia de que a Maçonaria, dita especulativa, tanto quanto a Rosa-Cruz, são subprodutos da reforma religiosa, as quais foram desenvolvidas como lugar de refúgio para um pensamento que não encontrava abrigo em nenhuma das duas facções em luta naquele momento da História. Tanto os conservadores da Igreja de Roma quanto os reformistas que adoptaram as ideias de Lutero, Calvino, Zwinglio e outros, condenavam o iluminismo que eles julgavam ateu e anti-cristão. Mas é óbvio também, pelas referências encontradas em documentos antigos, que as antigas Lojas, anteriores a 1717, seguiam a orientação católica, pois em vários desses antigos manuscritos encontramos expressões como “Todo Maçom deve amar a Deus e à Santa Igreja e também ao seu Mestre e Companheiros”,  “ O primeiro e principal dever de um Maçom é amar a Deus, a Santa Igreja e a todos os Santos”, etc. [3].

Assim, parece-nos bastante claro que a Maçonaria, de origem, seguia uma orientação estritamente católica, até porque, estando as suas raízes históricas situadas nas antigas corporações de ofício dos pedreiros medievais, construtores das grandes catedrais, essa orientação não poderia ser diferente.

Mas parece-nos bastante óbvio também que esta orientação, a partir do momento em que as antigas Lojas operativas começaram a aceitar entre os seus membros os “cavalheiros”, ou seja, pessoas não pertencentes à profissão de construtor, dando nascimento, com essa prática, às chamadas Lojas especulativas, a Maçonaria começou a se afastar da Igreja católica e essa ruptura assumiu contornos definitivos a partir de 1717.

Mas isto não significa que os “maçons cavalheiros”, como foram chamados esta nova forma de Maçonaria fossem ateus ou desprezassem a religião. O próprio Anderson, nas suas Constituições, chama a atenção para o facto de que “um Maçom não pode ser um ateu estúpido nem um libertino religioso”. Com isto, ele queria alertar contra a tendência que grassava nos meios intelectuais da época, de puro ateísmo, ou então de buscar no panteísmo religioso um substituto para uma crença que parecia não servir a uma época em que o pensamento não mais se contentava com dogmas e pressupostos construídos por argumentos de autoridade e suportados por uma fé induzida por castigos e recompensas e mantida pela opressão e pela ignorância.

Por isso é que na expressão ecuménica de Anderson, o Maçom dever-se-ia sujeitar “a uma religião, na qual todos os homens estivessem de acordo, deixando a cada um a liberdade de opinião a respeito”. Descontando a incoerência da proposta, já que se houvesse uma religião assim, a própria liberdade de culto estaria prejudicada, o que se nota é a inspiração francamente iluminista nela contida, já que ela reflecte, num sentido religioso, o pensamento expresso por Voltaire, de que a verdadeira e única religião que um homem deveria professar é a tolerância [4].

A ruptura com a Igreja

Com esta confissão de fé, feita por Anderson e encampada por todos os maçons, no estabelecimento de uma religião sobre a qual todos estivessem de acordo (universalmente aceita, portanto), a Maçonaria colocava-se em clara oposição à Igreja Católica, que se pretendia universal, como o próprio termo “católico”, sugere. Era lógico que esta mesma Igreja, que já lutava com todas as suas armas contra o cisma protestante, não iria receber bem um novo canal de contestação à sua pretensa hegemonia. Daí que, em 1738, o Papa Clemente XII expede a sua famosa bula “In Eminenti”, excomungando todos os franco-maçons, condenando os seus ritos e práticas, como heréticos e perigosos para sociedade e para o espírito humano [5].

É evidente que não podemos isolar a Maçonaria do debate religioso. Embora seja praticamente unanime entre os maçons a ideia de que a prática maçónica não se insere no rol das religiões, existe uma dificuldade em vê-la como uma organização laica porquanto ela desenvolve práticas que se assemelham a ritos religiosos.

Mas a Maçonaria não é uma religião. Ela é uma sociedade iniciática. A distinção é subtil e não é todo mundo que consegue fazê-la. Uma religião é uma prática que visa ligar a mente do praticante a uma ideia de espiritualidade, desenvolvida segundo a crença de um grupo, fundamentada em pressupostos de que a sua doutrina é a que mais nos aproxima da divindade. A sociedade iniciática visa a implantação, a manutenção e divulgação de uma cultura que o grupo entende ser o mais apropriado para atingir, ou conservar um determinado estado de equilíbrio social, como objectivo colectivo, e um equilíbrio espiritual, como meta individual [6].

Por isso a ideia de uma Maçonaria especulativa nasceu exactamente numa época em que a busca pelos valores que pudessem sustentar o estabelecimento de uma sociedade justa e perfeita – a utopia sonhada, o paraíso perdido – que estava na mente de todos os idealistas.

Os mistérios da Maçonaria, as suas lendas e os seus ritos, que tanto preocupou Clemente XII e ainda incomoda alguns sectores da Igreja Católica são apenas elementos de uma linguagem cifrada que reflecte a cultura maçónica e serve de elementos de comunicação entre os maçons. É um código e como todo código suscita desconfianças. Todo grupo que comunga de um interesse comum tem a sua própria linguagem. Médicos, advogados, cientistas, e é claro, organizações criminosas e grupos marginais também desenvolvem linguagem própria e ritos inerentes às suas práticas. Ele retrata a idiossincrasia inerente a todo grupo que desenvolve uma cultura própria. Mas não é a razão nem o reflexo do bem ou mal que eventualmente esats organizações possam praticar.

A reconciliação

Todavia, conhecer a Maçonaria é admirá-la. Como fez o Cardeal Dom Ivo Lorscheiter, que não obstante reconhecer a dificuldade de conciliar a Maçonaria e o catolicismo – mais em razão de dificuldades históricas do que doutrinárias-  admite a possibilidade de uma convivência pacífica entre as duas instituições “. O estudo da Maçonaria é, sem dúvida, difícil e complexo”, escreve este eminente prelado da Igreja. “A sua história, as suas concepções profundas, as suas atitudes concretas, as sucessivas severas manifestações do Magistério da Igreja Católica, o espírito de diálogo hoje reinante – tudo parece conduzir a esta pergunta fundamental e de largas consequências: Afinal, a Maçonaria e a Doutrina Católica são conciliáveis entre si?”

A resposta do Cardeal é meio ambígua, e do seu ponto de vista é compreensível que o seja. Ele, embora pareça admitir que sim, parece não aceitar muito esat possibilidade. Todavia, pela sua argumentação, se ele quisesse ser um pouco mais ousado teria chegado à mesma conclusão que chegamos: a Igreja Católica e a Maçonaria concordam no fundamental, que hoje é a única e definitiva verdade que deve ser buscada pelo espírito humano: como encontrar o equilíbrio perfeito entre a matéria e o espírito, de forma que a humanidade encontre o caminho para Deus sem precisar negar a si próprio?

Pois foi esta, na nossa opinião, a ideia mais infeliz que alguém jamais teve: a de que, para se entrar no céu era preciso desprezar a si mesmo. Assim , separou-se matéria e espírito em duas substâncias diferentes, como se uma fosse antagónica à outra. E para salvar uma teria que matar a outra. Dai, buscar a felicidade na terra passou a ser um pecado,  e a salvação dá alma e o bem estar material tornaram-se matérias mutuamente exclusivas, onde a conquista de uma implicava, obrigatoriamente na perda da outra. Esta ideia contribuiu para que a humanidade amargasse mais de um milénio de pobreza social e económica, mergulhada na ignorância e na miséria.

Ainda bem mentes luminares, na própria Igreja, corrigiram a tempo este equivoco. Pensadores como Teilhard de Chardin, por exemplo, para quem matéria e espírito são resultado de um processo desenvolvido pelo Grande Arquitecto do Universo na construção da sua obra mais perfeita, que é o universo, são os elos que poderiam servir de argamassa para essa conciliação [7].

Conclusão

A Maçonaria moderna pode ser vista hoje como uma sociedade de pensamento onde se pratica uma filosofia humanista e progressista que visa a construção de um modelo ideal de sociedade onde a fraternidade e a tolerância são a base da sua constituição. Ela tem as suas raízes históricas plantadas nas antigas corporações de pedreiros livres da Idade Média, mas os seus fundamentos filosóficos estão centrados no Iluminismo, sistema filosófico desenvolvido pelos pensadores racionalistas do século XVIII. A sua organização institucional liga-se à  Royal Society londrina, organização fundada no início do século XVII, na Inglaterra, para fins de fomento da cultura e da ciência. O sigilo, os ritos, os símbolos e as lendas que constituem o acervo da cultura maçónica são uma espécie de linguagem codificada, própria do método usado pelas sociedades iniciáticas para transmitir a sua cultura.

A orientação religiosa da Maçonaria, foi em princípio, católica. Com o advento do cisma protestante, a Maçonaria adoptou uma orientação ecuménica, própria de uma sociedade que tinha por princípio a prática da tolerância e o respeito pela liberdade de pensamento.

João Anatalino Rodrigues

Resumo da palestra proferida na Academia Maçônica de Letras.

Notas

[1] Cf Jean Palou – Maçonaria Simbólica e Iniciática, Ed. Pensamento, pg. 49.

[2] Era costume das primeiras Lojas especulativas fazer as suas reuniões em tabernas. Daí Anderson se referir às quatro Lojas pelos locais das suas reuniões, que eram tabernas famosas na Londres do século XVIII.

[3] O Manuscrito Cooke, +- 1410

[4] O famoso dito de Voltaire “ não concordo com o que dizes, mas defenderei até a  morte o vosso direito de dizer”, é o mais eloquente discurso a favor da tolerância e do direito à livre expressão do pensamento. Num momento em que duas facções do cristianismo se esfacelavam numa guerra sangrenta pelo controle do espírito humano, esse anelo pela tolerância e pelo direito da livre expressão do pensamento era uma atitude bastante ousada. Isso custou a Voltaire a sua expulsão da França e o exílio na Inglaterra, onde também teve importância no estabelecimento da Real Society e no movimento que resultou na Maçonaria moderna.

[5] A Diatribe de Clemente XII voltou-se principalmente contra o segredo que ele diz existir na prática da Maçonaria. Ele faz presumir que a Maçonaria é uma reunião de almas perversas que se reúnem para praticar o mal e instigar conspirações. Trata-se, evidentemente de uma resposta política da Igreja, nessa altura, já bastante fustigada pela Reforma protestante.

[6] Como os Antigos Mistérios Egípcios e Gregos, por exemplo, que eram instituições religiosas e culturais que visava a preservação e a transmissão de elementos culturais próprios desses povos.

[7] Teilhard de Chardin – O Fenómeno Humano e outras obras. Ed. Cultrix. Embora este grande pensador jesuíta não fosse Maçom ele pensa exactamente como um. O universo teilhardiano é um edifício que está sendo construído ao longo do tempo e do espaço, segundo um processo onde Deus pode ser visto como o Grande Arquitecto e os homens os seus pedreiros. Neste sentido, a obra humana adquire um sentido de progressão espiritual que “sacraliza” o ofício de viver e conduz a humanidade para um ponto único “justo e perfeito”, que ele chama de Ponto Ómega. Todo Maçom deveria conhecer a obra de Teilhard de Chardin. Para maiores referências recomendamos o nosso livro “Conhecendo a Arte Real “ publicado pela Editora Madras, onde desenvolvemos com mais profundidade este tema. Recomendamos também o nosso estudo “Maçonaria e Estruturalismo”.

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