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A Igreja Católica e a Maçonaria

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✍️ Desconhecido 📅 23/08/2025 👁️ 0 Leituras

igreja católica

Introdução

As relações entre a Igreja Católica e a Maçonaria sempre foram turbulentas. O primeiro registro das “hostilidades” datam de 1736, apenas 19 anos após o “nascimento” da Maçonaria Especulativa, quando a Inquisição investigou e condenou uma loja maçónica de Florença. Três anos mais tarde a mesma Inquisição interroga e prende o Maçom Tommaso Crudeli devido às suas crenças e filiação maçónicas.

Já em 1738 a Igreja lança a primeira de uma série de Encíclicas e documentos que condenam a Maçonaria, sempre tratada de “seita”. Foi emitida pelo Papa Clemente XII e chamou-se “In Eminenti”.

Nela existem as seguintes passagens: “…por isso decretamos que essas mesmas sociedades, companhias, assembleias, encontros, congregações ou reuniões secretas de Liberi Muratori ou Francs Massons, ou outro nome qual seja que possam se guiar, são para ser condenadas e proibidas e, pela Nossa presente Constituição, válida para sempre, Nós a condenamos e proibimos”. Ou: “Nós, portanto, mandamos mais estritamente e em virtude de obediência santa, todos os fiéis…. que ninguém, sob qualquer pretexto ou por qualquer razão, venha a ousar ou presumir entrar, propagar ou apoiar essas supramencionadas sociedades de Liberi Muratori ou Francs Massons, ou de outro modo que eles sejam chamados, ou recebê-los nas suas casas ou residir ou escondê-los, estar registrado entre eles, se ligar a eles, estar presente com eles, dar poder ou permissão a eles para encontro em outro lugar, ajudá-los de qualquer forma, dar-lhes conselho qual seja…”. Fechando a Encíclica: “Além disso, Nós desejamos e mandamos que tanto Bispos e prelados, e outros padres locais, assim como os inquisidores por heresia, que venham a investigar e proceder contra transgressores de quais sejam estado, grau, condição, outra dignidade ou preeminência, eles podem ser; e eles são para ser perseguidos e punidos com penalidades condignas como sendo mais suspeitos de heresia. Para cada um e todos aqueles, Nós damos e concedemos a faculdade de pedir a ajuda do braço secular, quando surgir a necessidade, para investigar e proceder contra esses mesmos transgressores e para persegui-los e puni-los com penalidades condignas” [1].

As principais que a seguiram foram: “Providas” de Benedito XIV em 1751, “Ecclesiam a Jesus Christ” de Pio VII em 1821, “Que Graviora” de Leão XII em 1825, “Traditi” de Pio VIII em 1829, “Mirari vos” de Gregório XVI em 1832, “Qui Pluribos” de Pio IX em 1846 e “Humanun Genus” de Leão XIII em 1884.

Em 26 de Novembro de 1983 o Cardeal Joseph Ratzinger, actual Papa Bento XVI, na condição de Prefeito da Sagrada Congregação (nome pelo qual o Tribunal da Santa Inquisição passa a ser chamado a partir de 1908), assina uma declaração onde em determinado trecho lê-se: “permanece portanto imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçónicas, pois os seus princípios foram sempre considerados irreconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas. Os fiéis que pertencem às associações maçónicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão” [2].

Razões

As razões do combate da Igreja à Maçonaria concentram-se nos seguintes aspectos: deísmo, afastamento entre Estado e Igreja e o papel desta na sociedade, alegação de que a Maçonaria pretende ser uma “nova religião” e ligações com esoterismo.

Deísmo

É a doutrina que considera a razão como a única via capaz de assegurar a existência de Deus, rejeitando, para tal fim, o ensinamento ou a prática religiosa. Rejeita a revelação.

A Igreja afirma que a passagem da Maçonaria Operativa para Especulativa implicou numa descristianização da Ordem. Enquanto que as constituições de antigas Lojas operativas estabeleciam que a “primeira obrigação é e crença em Deus e na Santa Igreja…” [3] a Constituição da Maçonaria Especulativa de Andersen de 1723 afirma que “apesar de, nos tempos antigos, estarem os maçons obrigados a praticar a religião que se observava nos países em que habitavam, hoje crê-se mais conveniente não lhes impor outra religião senão aquela que todos os homens aceitam, dando-lhes completa liberdade com referência às suas opiniões particulares. Esta religião consiste em ser homens bons e leais. Quer dizer, homens honrados e probos, seja qual for a diferença de nomes ou convicções” [4].

Neste mesmo aspecto, outra crítica concentra-se num determinado momento da iniciação em que a Maçonaria, admitindo que o profano se encontra nas trevas, concede a “Luz”. A Igreja não admite esta passagem afirmando, através de várias citações, que só se está nas trevas antes de conhecer-se Jesus.

Na Encíclica “Humanun Genus”, reconhecido como o mais completo documento anti-maçónico já publicado pela Igreja, o Papa Leão XIII escreve sobre o considerado deísmo da Maçonaria: “Agora, a doutrina fundamental dos naturalistas, que eles tornam suficientemente conhecida no seu próprio nome, é que a natureza humana e a razão humana deveriam em todas as coisas ser senhora e guia. Eles ligam muito pouco para os deveres para com Deus, ou os pervertem por opiniões erróneas e vagas. Pois eles negam que qualquer coisa tenha sido ensinada por Deus; eles não permitem qualquer dogma de religião ou verdade que não possa ser entendida pela inteligência humana, nem qualquer mestre que deva ser acreditado por causa da sua autoridade. E desde que é o dever especial e exclusivo da Igreja Católica estabelecer completamente em palavras as verdades divinamente recebidas, ensinar, além de outros auxílios divinos à salvação, a autoridade do seu ofício, e defender a mesma com perfeita pureza, é contra a Igreja que o ódio e o ataque dos inimigos é principalmente dirigido” [5].

Continua a Encíclica com relação ao deísmo: “Mas os naturalistas vão muito mais longe; pois, tendo, nas mais altas coisas, entrado num curso completamente erróneo, eles são levados impetuosamente a extremos, ou por causa da fraqueza da natureza humana, ou porque Deus inflige sobre eles a justa punição do seu orgulho. Assim acontece que eles não mais consideram como certas e permanentes aquelas coisas que são totalmente pela luz natural da razão, tais como certamente são –a existência de Deus, a natureza imaterial da alma humana e a sua imortalidade. A seita dos maçons, por uma similar trilha de erro, é exposta a estes mesmos perigos; pois embora de um modo geral eles possam professar a existência de Deus, eles mesmo são testemunhas que eles não mantém toda esta verdade com total concordância da mente e com uma firme convicção…. Como os panteístas, eles tenham falsas noções acerca d’Ele: tudo que não é nada mais do que retirar a realidade, retendo algumas absurdas representações da natureza divina” [6].

Afastamento entre Estado e Igreja e o papel na sociedade civil

As críticas à Maçonaria concentram-se no apoio dado pela Ordem à instituição do casamento civil, no papel dado ao Estado, em detrimento da Igreja, na educação dos jovens e em relegar a segundo plano o papel da Igreja na sociedade.

Neste aspecto, as críticas da Igreja foram intensificadas após a traumática separação oficial entre Estado e Igreja ocorrida na França em 1905 já que esta separação foi idealizada por Émile Combes, um activo Maçom e integrante do ministério francês.

No aspecto da separação Estado-Igreja a Encíclica “Dall’ Alto Dell’Apostolico Seggio” [7] escrita em 1890 pelo Papa Leão XIII e que trata especificamente da Maçonaria na Itália é a que trata do assunto com maior veemência.

Alguns trechos: “Agora é desnecessário colocar as seitas maçónicas em julgamento. Elas já estão julgadas; os seus fins, os seus meios, as suas doutrinas e a sua acção são todos conhecidos com indisputável certeza. Possuídas pelo espírito de Satanás, cujos instrumentos eles são, eles ardem como ele com um ódio mortal e implacável a Jesus Cristo e Sua Obra. É bom traçar desde o início as diferentes fases deste combate. A guerra começou pela derrubada do poder civil dos Papas…. seguiu-se rapidamente a supressão das Ordens Religiosas…Mais tarde a obrigação do serviço militar foi estendida aos clérigos…. Lançaram mão das propriedades eclesiásticas, em parte por absoluto confisco e em parte taxando-as com enormes cargas…. Da família são tiradas a sua fundação e constituição religiosa pela proclamação do casamento civil e também pela educação inteiramente leiga que agora é exigida, dos primeiros elementos até o mais alto ensino das universidades, de modo que as gerações em crescimento devem crescer sem qualquer ideia de religião… Demolir o Clericalismo até os seus fundamentos e nas suas próprias fontes de vida, especificamente, na escola e na família: esta é a autêntica declaração dos escritores maçons…. Será dito que isto não acontece somente na Itália, mas é um sistema de governo que os Estados seguem de modo geral. Nós respondemos, que isto não refuta, mas confirma o que Nós estamos dizendo sobre os desígnios e acção da Maçonaria na Itália. Sim, este sistema é adoptado e levado adiante aonde quer que a Maçonaria use a sua acção ímpia e pervertida… A aplicação rigorosa de todas as leis agora vigorando, que visam assegurar a absoluta independência da sociedade civil da influência clerical… Estas são as autênticas declarações, aspirações e resoluções dos maçons ou das suas assembleias”.

Numa Encíclica anterior, a “Humanum Genus” [8] de 1884, o mesmo Papa escreve sobre o papel da Maçonaria no mesmo assunto: “Por um longo e perseverante labor, eles esforçam-se para alcançar este resultado – especificamente, que o ofício de ensinar e a autoridade da Igreja tornem-se sem valor no Estado civil; e por esta mesma razão eles declaram ao povo e argumentam que a Igreja e o Estado devem ser completamente desunidos. Por este meio eles rejeitam das leis e da nação a saudável influência da religião católica; e eles consequentemente imaginam que os Estados devem ser constituídos sem qualquer consideração pelas leis e preceitos da Igreja… Quanto ao que se refere à vida doméstica nos ensinamentos dos naturalistas é quase tudo contido nas seguintes declarações: que o casamento pertence aos géneros dos contractos humanos, que pode ser legalmente revogado pelo desejo daqueles que o fizeram, que os governadores civis do Estado tem poder sobre o laço matrimonial… Os maçons concordam completamente com essas coisas; e não somente concordam, mas tem longamente esforçando-se para transformá-los em leis e constituições… Com a maior unanimidade a seita dos maçons também se esforça para tomar a si mesma a educação da juventude. Eles pensam que eles podem facilmente moldar às suas opiniões aquela idade macia e maleável, e torcê-la no que quer que eles desejem; e que nada pode ser mais adequado do que isto para permitir a eles levar a juventude do Estado a seguir o seu próprio plano ”.

Nova Religião

As alegações da Igreja de que a Maçonaria pretende ser uma “nova religião” é baseada no facto de que boa parte do ritual e simbologia maçónica apresenta similaridades com os da Igreja e, assim, interpreta-se que a Maçonaria pretende substituí-la como “religião”.

As similaridades seriam:

  • Possui um Altar e um Livro da Lei
  • Regular ritualística
  • Simbolismo
  • Uso da palavra “Templos”
  • Datas próprias grafadas através do ano maçónico e não pelo “anno domini”
  • GADU em substituição a Deus
  • O “assim seja” em substituição ao “ámen”

André Mosimann Silveira

Notas

[1] Disponível em www.exsurgedomini.hpg.ig.com.br

[2] Disponível no site oficial do Vaticano, secção documentos, em www.vatican.va/phome_po.htm

[3] http://en.wikipedia.org/wiki/catholicism_and_freemasonry

[4] Ritual do Grau de Aprendiz-Maçom – REAA. Grande Loja de Santa Catarina, s/ ed. Santa Catarina: 1998, pág. 12

[5] [6] [7] [8] Disponível no site oficial do Vaticano, secção documentos, em www.vatican.va/phome_po.htm

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