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A entrada das mulheres na Maçonaria portuguesa desencadeia uma crise

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✍️ Desconhecido 📅 27/09/2025 👁️ 1 Leituras

mulheres

A Maçonaria portuguesa, pilar discreto da sociedade civil há séculos, atravessa uma tempestade interna que poderá redefinir os seus contornos nas próximas décadas. No centro desta turbulência: a admissão de mulheres no Grande Oriente Lusitano (GOL), a obediência maçónica mais influente do país, com cerca de 2400 membros distribuídos por 103 lojas. O que parecia ser uma evolução moderna para uma maior inclusão transformou-se numa crise profunda, com cerca de quarenta saídas e lojas inteiras à beira da cisão.

De acordo com um artigo recente da CNN Portugal (em parceria com a TVI e a SOL), publicado a 26 de Setembro de 2025, esta controvérsia não é apenas uma disputa interna: questiona os fundamentos tradicionais da Maçonaria, o seu papel sociopolítico e a sua capacidade de se adaptar a uma sociedade em mudança. Neste artigo exaustivo, exploraremos as raízes históricas deste debate, o desenrolar da crise, as vozes que se confrontam e as implicações futuras para a Maçonaria lusitana. Uma saga que, para além dos aventais e dos compassos, revela as fracturas de uma instituição milenar face ao progresso.

Contexto histórico: uma tradição masculina enraizada na história portuguesa

Para compreender a dimensão desta crise, é necessário recuar às origens da Maçonaria em Portugal. Introduzida no século XVIII sob influência britânica, rapidamente se impôs como um espaço de reflexão liberal, progressista e anticlerical, muitas vezes em oposição ao poder absolutista e à Igreja Católica. O Grande Oriente Lusitano, fundado em 1802, tornou-se a ponta de lança desta tradição, desempenhando um papel fundamental nas revoluções liberais de 1820 e 1910, bem como na instauração da República em 1910. Durante décadas, encarnou uma rede de intelectuais, políticos e empresários — todos homens — que trabalhavam em prol da laicidade, da educação e das reformas sociais.

GOL - Grande Oriente Lusitano
GOL – Grande Oriente Lusitano

As mulheres, por outro lado, foram durante muito tempo excluídas, confinadas a obediências mistas ou femininas marginais, como o Droit Humain ou lojas independentes. Esta segregação não era casual: reflectia as normas sociais patriarcais de Portugal, marcadas pelo salazarismo (1933-1974), que reprimia qualquer dissidência, incluindo a maçónica. Após a Revolução dos Cravos em 1974, a Maçonaria renasceu das suas cinzas, mas a integração feminina continuava a ser um tabu. Só no século XXI, com a evolução dos costumes – igualdade de género inscrita na Constituição de 1976 e uma sociedade portuguesa cada vez mais secularizada – é que vozes internas começaram a militar pela abertura. O GOL, sob sucessivos Grão-Mestres, hesita: relatórios internos já em 2010 salientam a urgência de uma modernização para evitar a obsolescência. No entanto, é durante o mandato de Fernando Cabecinha, eleito em 2022, que se dá o passo decisivo, transformando um debate latente numa crise aberta.

Desencadeamento da crise: do relatório consultivo ao decreto de Agosto

Fernando José Correia Cabecinha – Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano (GOL)

A génese do caso remonta ao início de 2025, quando Fernando Cabecinha, Grão-Mestre do GOL, encarrega um grupo de trabalho de sondar a opinião dos membros sobre a iniciação das mulheres. À frente dessa comissão estava o juiz Eurico Reis, figura respeitada da justiça portuguesa, assistido por outros maçons progressistas. O relatório, divulgado em Maio, concluiu que a maioria era favorável (cerca de 60% dos inquiridos, segundo fontes internas), argumentando que a exclusão das mulheres contradiz os princípios maçónicos de igualdade e fraternidade universal. Este documento torna-se o catalisador: em 31 de Maio de 2025, o parlamento maçónico do GOL – a Dieta – aprova uma revisão constitucional que autoriza a iniciação feminina. A promulgação segue-se em 21 de Junho, marcando um momento histórico.

Mas a crise realmente explodiu em Agosto, quando Cabecinha, pressionado a agir antes do fim do ano maçónico, emitiu um decreto provisório estabelecendo regras de aplicação imediata. Este texto, contornando a aprovação de um regulamento geral (que poderia levar meses), estipula que uma loja pode iniciar mulheres mediante proposta escrita assinada por pelo menos sete membros activos e aprovada por maioria simples. Imediatamente, pelo menos duas lojas – incluindo a Loja Delta em Lisboa – apresentam candidaturas para iniciações femininas a partir do Outono. Esta aceleração provoca um alvoroço: as lojas tradicionalistas acusam Cabecinha de um “golpe de Estado” interno, argumentando que o decreto viola os procedimentos democráticos do GOL. A gota de água? O anúncio de uma primeira iniciação prevista para Outubro, coincidindo com as eleições municipais portuguesas de 12 de Outubro, onde a Maçonaria exerce uma influência discreta nas redes políticas.

Os acontecimentos-chave: saídas em massa e lojas à beira do abismo

A crise ganha contornos concretos em Julho, com as primeiras deserções. A mais espectacular é a da Loja União Portucalense, em Vila Nova de Gaia, perto do Porto. A 24 de Julho, 40 membros – de um total de 50 – decidem colectivamente abandonar o GOL, liderados por Eurico Castro Alves, médico e antigo coordenador do Plano de Emergência para a Saúde. Nas actas da reunião, enviadas à direcção do GOL, eles invocam explicitamente a sua “oposição irreconciliável à admissão de mulheres”, que consideram incompatível com a “essência tradicional da Maçonaria especulativa”. A sua saída, formalizada por um pedido de dissolução da Loja, cria um precedente: é a maior cisão numa década.

Outras lojas seguem o movimento. Em Cascais, a Loja Estado da Arte – anteriormente dirigida por Salvato Teles de Menezes, fundador da Fundação D. Luís I e pilar cultural do GOL – realiza uma assembleia extraordinária no final de Agosto. A maioria vota uma moção de censura e parte dos membros considera aderir a uma obediência rival.

No Algarve, das seis lojas afiliadas ao GOL, uma delas (não mencionada no artigo) organiza uma votação semelhante, com rumores de 20 a 30 potenciais saídas. No total, fontes anónimas estimam que 100 a 150 maçons podem ter saído ou estar prestes a sair até ao final de Setembro. Estes movimentos não são insignificantes: privam o GOL de quotas (cerca de 200 euros por ano por membro) e da sua influente rede nos meios profissionais e políticos do norte e do sul do país.

Paralelamente, os defensores da abertura avançam: surgem perfis de candidatas – intelectuais, juristas e empresárias – e são organizados workshops preparatórios mistos em Setembro. Mas a tensão atinge o auge numa reunião do conselho do GOL a 15 de Setembro, onde representantes tradicionalistas ameaçam recorrer à justiça interna por “ilegalidade” do decreto de Cabecinha.

Vozes e figuras centrais: um coro de discórdias

No centro da tempestade está Fernando Cabecinha, Grão-Mestre carismático e reformador, eleito com um programa de “modernização urgente”. Em entrevistas privadas divulgadas pela CNN Portugal, ele defende a sua escolha:

“A Maçonaria deve evoluir ou perecer. Excluir metade da humanidade contradiz o nosso ideal de luz universal. “

Eurico Reis
Eurico Reis

Apoiado por Eurico Reis, que argumenta no seu relatório que “a igualdade é um pilar maçónico desde o Iluminismo”, Cabecinha aposta numa geração mais jovem (menos de 40 anos) e mais aberta, que representa 20% dos membros.

Por outro lado, os dissidentes expressam-se com veemência. Eurico Castro Alves, líder da União Portucalense, declara: “Respeitamos as mulheres, mas a Maçonaria masculina é um rito ancestral que perderia o seu sentido com essa intrusão.” Salvato Teles de Menezes, intelectual e historiador, acrescenta uma dimensão cultural:

“É um ataque à nossa herança portuguesa, forjada na discrição e na exclusividade. “

Figuras anónimas, como um Venerável Mestre de uma loja algarvia, confidenciam: “Muitos partem para a Grande Loja Legal de Portugal (GLLP), que permanece fiel à tradição. ” A GLLP, obediência rival com 3.884 membros em 180 lojas e historicamente mais conservadora (ligada ao PSD, centro-direita), nega qualquer “absorção” organizada, mas fontes indicam contactos informais.

As mulheres pioneiras, ainda discretas, emergem timidamente. Uma candidata anónima, jurista de 45 anos, testemunha:

“Não se trata de uma vingança, mas de uma busca pelo conhecimento partilhado.”

No entanto, a sua integração coloca desafios: os estatutos prevêem pelo menos cinco anos antes que uma mulher possa aspirar ao cargo de Grão-Mestre e dois anos para presidir a Dieta.

Debates e divisões: tradição contra modernidade

O cerne do debate opõe duas visões irreconciliáveis. Os tradicionalistas invocam a “pureza ritual”: os símbolos maçónicos (esquadro, compasso, Hiram Abiff) são, segundo eles, genderizados e adaptados a uma iniciação masculina, inspirada nas guildas operativas medievais. Admitir mulheres, dizem eles, diluiria a energia viril necessária para “lapidar a pedra bruta”. Eles citam precedentes: em França ou na Inglaterra, as obediências mistas têm dificuldade em rivalizar em influência com as “puramente masculinas”.

Maria Deraismes
Maria Deraismes

Os progressistas, por sua vez, baseiam-se no universalismo maçónico: “Fraternidade” implica todos os géneros, e a exclusão é um vestígio colonial. Cabecinha remete para modelos como o Droit Humain (fundado em 1893 por Maria Deraismes), que floresce em Portugal com milhares de membros mistos. Estatisticamente, o GOL estagna desde 2010 (perda de 10% dos membros), enquanto as obediências abertas crescem 15%. A crise também revela divisões geracionais e regionais: o Norte (Porto, Braga) é mais conservador, influenciado pelo catolicismo residual, enquanto Lisboa e o Algarve tendem para a mudança.

Além disso, este caso questiona o papel social da Maçonaria: com as eleições municipais de Outubro, o GOL teme uma perda de influência sobre os candidatos liberais (PS, Livre), enquanto a GLLP poderia aproveitar para se impor como “guardiã da tradição”.

Implicações e perspectivas: rumo a uma Maçonaria fragmentada?

Os desafios desta crise vão além das lojas. Financeiramente, as saídas podem custar ao GOL entre 20 000 e 30 000 euros anuais em quotas perdidas, agravando um orçamento já tensionado pela pandemia. Politicamente, enfraquece a rede maçónica num Portugal pós-pandemia, onde a corrupção e a polarização (com as eleições de 2026 à vista) exigem uma voz unida. Socialmente, simboliza o Portugal moderno: um país classificado em 7.º lugar no mundo em matéria de igualdade de género (Índice 2024), mas ainda marcado por conservadorismos culturais.

A curto prazo, o novo ano maçónico (inaugurado a 1 de Outubro no Hotel Corinthia) será decisivo: uma primeira iniciação poderá selar a unidade ou acelerar as cisões. A longo prazo, especialistas como o historiador maçónico António Ventura prevêem uma “bifurcação”: uma GOL modernizada, mais pequena mas dinâmica, frente a uma nebulosa tradicionalista absorvida pela GLLP. Reformas internas – como uma moratória sobre as iniciações – são evocadas, mas Cabecinha parece inflexível.

Um renascimento necessário ou um suicídio tradicional?

A entrada das mulheres na Maçonaria portuguesa não é apenas uma crise: é um espelho estendido a uma instituição que sobreviveu a ditaduras e proibições, mas que hoje luta contra o seu próprio conservadorismo. Como resume Eurico Reis:

“A luz maçónica deve iluminar a todos, ou apaga-se.”

Para os tradicionalistas, é uma traição; para os reformadores, um renascimento. Num Portugal em plena mutação – com debates sobre o aborto, o casamento para todos e a igualdade salarial -, este caso poderá catalisar um renascimento ou uma implosão. Uma coisa é certa: a Maçonaria lusitana nunca mais será a mesma. Resta saber se esta crise a tornará mais forte ou a dividirá para sempre.

Charles-Albert Delatour

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

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Fonte Original

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