Wolfgang Amadeus Mozart, o amigo de Deus
Wolfgang Amadeus Mozart foi um dos maiores génios da humanidade ao lado Leonardo da Vinci, Shakespeare, Galileu, Newton e Pascal. Menino prodígio, compositor, pianista, organista, violinista e regente, nasceu em 27 de Janeiro de 1756 na cidade de Salzburg, Áustria. Viveu apenas 35 anos e produziu obras musicais perfeitas – quase oitocentas – sendo que conhecemos hoje pouco mais de seiscentas. Esta obra abrange todos os géneros musicais da sua época.
O seu nome de baptismo, JOHANNES CHRYSOSTOMUS WOLFANGUS THEOPHILUS MOZART, é tão grande quanto a sua importância. Theophilus, em grego – “o amigo de Deus” – foi latinizado para Amadeus. Ele nunca assinou Chrysostomus (“o que tem a boca de ouro”).
Wolfgang compôs a sua primeira sinfonia aos oito anos e as primeiras óperas aos doze. O primeiro quarteto de cordas, aos quatorze. Nós músicos sabemos da complexidade deste tipo de actividade, tanto no aspecto formal quanto no de execução musical, o que faz de Mozart um fenómeno quase inexplicável.
Uma história contada por Andreas Schachtner, trompetista e amigo da família Mozart, testemunha o extraordinário talento da criancinha, com apenas quatro anos:
“Certo dia o pai, Leopold, surpreendeu Mozart a criancinha escrevendo algo.
– O que você está fazendo, Wolferl?
– Estou compondo um concerto, disse o menino.
– Deixa-me ver, disse o pai.
– Ainda não acabei.
– Não faz mal, quero ver assim mesmo.
Leopold pegou o papel e mostrou-me umas notas rabiscadas. O pequeno Wolferl mergulhara a pena até o fundo do tinteiro, fazendo borrões e tentara apagá-los com a palma da mão. Rimos, a princípio, do que nos pareceu uma tontice. Mas, de repente, ficamos imóveis com os olhos fixos no papel. Leopold deixou cair lágrimas de emoção observando a composição.
– Veja, Schachtner, disse ele, tudo está concebido com clareza! Pena que seja inexecutável, de tão difícil que é.
– Mas, replicou a criança, não é um concerto? Sendo um concerto é preciso estudar até conseguir executá-lo bem.
E começou a tocar no cravo, mostrando-nos que tinha a noção exacta do que estava criando.”
Mozart tinha uma espantosa facilidade para a matemática. Enquanto aprendia ler, já sabia as tabuadas de cor. Fazia cálculos complexos de memória e aprendia com rapidez os princípios mais adiantados de álgebra e geometria. Ainda menino, já falava francês, inglês, italiano e conhecia as regras da língua latina.
Quando completou seis anos, o pai imaginou a possibilidade de ganhar dinheiro exibindo-o numa árdua tournée pela Europa. Os resultados financeiros dessa aventura foram pequenos se comparados com os danos causados à frágil saúde do menino.
Aos dez anos, Mozart era um dos mais respeitado virtuoses no piano e no violino. Improvisava como um mestre e regia as orquestras e corais das cortes. O Papa Clemente XIV ficou tão admirado com ele que concedeu, pela primeira vez a uma criança, a condecoração da “Ordem dos Cavaleiros da Espora de Ouro” (Speron d’Oro) com que foram agraciados renomados artistas como Rafael Sanzio e Ticiano.
Goethe também ouviu o menino em 1763 e declarou: “além do que ouvi, lá estava um homenzinho de peruca e espada na cintura…” (na idade adulta Mozart adquiriu um aspecto muito curioso: baixo, magro e pálido, ostentando uma cabeleira quase ruiva e um modo de vestir apuradíssimo e vaidoso).
Outro facto revela aquela genialidade precoce: durante dois séculos, uma das atracções musicais de Roma era o famoso “Miserere” do compositor italiano Gregorio Allegri (1584-1652), cantado na Capela Sistina apenas na quarta-feira da Semana Santa. Desde que o “Miserere” fora composto, a Igreja proibira copiar os originais da obra. Em 1770, aos quatorze anos, Mozart esteve em Roma e, depois de ouvir uma só vez esta obra, escreveu-a toda de memória. Depois conferiram o seu trabalho com o original constatando-se que não havia uma falha sequer.
Na enumeração que usamos das composições de Wolfgang Amadeus Mozart aparece uma letra “k.” numerada. Trata-se do catálogo organizado em 1862 por Ludwig Ritter von Koechel. Por exemplo: “Sinfonia n°.13, em Fá Maior, k.112” ou “Quinteto de Cordas em Ré Maior, k.593” (esta lista regista uma provável primeira composição datada de 1761, “Menuett und Trio”, composta quando ele tinha apenas cinco anos).
A inspiração desabrochava dele com naturalidade e com ligeireza. Alguns dos seus concertos para piano foram produzidos com tanta rapidez que ele teve apenas o tempo de escrever as partes da orquestra, tocando de memória a parte de solista. Compunha em qualquer lugar e sob as circunstâncias mais inusitadas. As Danças Alemãs (k. 509) foram compostas em menos de uma hora, imediatamente antes da apresentação. Noutras ocasiões, pressionado pelos compromissos, ele compunha uma música ao mesmo tempo que escrevia outra.
Mozart era um mestre no jogo de bilhar. Depois dos instrumentos musicais, o objecto de que ele mais se orgulhava de possuir era uma grande e bem conservada mesa de bilhar. Convidava parceiros para noitadas desse jogo no qual sempre saia vitorioso. Às vezes espalhava os papéis de música sobre a mesa, e enquanto empurrava as bolas do jogo de um lado para outro, ia anotando as notas na partitura. Orgulhava-se de dizer que compusera o segundo movimento do Concerto para Fagote (k. 191) “durante algumas tacadas e uma simples cachimbada”.
Para ele, o acto de compor era diferente da maioria dos compositores. A obra era concebida inteira na imaginação onde ele ouvia mentalmente os ritmos, a melodia, cada detalhe da harmonia e o instrumental antes de passar a música para o papel. Esta é a razão dos seus manuscritos não apresentarem rasuras ou correcções significativas.
Mozart era um espírito livre, muitas vezes irreverente diante dos princípios morais da época. Debochava dos nobres com trocadilhos e jogos de palavras. Era especialista num tipo de humor picante, malicioso e mordaz, que chegou a registar em peças musicais cantadas (mais tarde os puritanos trocaram as letras dessas músicas por palavras recatadas). Esta rebeldia valeu-lhe muita perseguição e críticas que se repercutiram sobre a aceitação de alguns dos seus trabalhos. Para provocar os seus rivais, redigia cartas que podiam ser entendidas com duplo sentido, lendo algumas palavras e frases de trás para frente.
Certa vez, um jovem iniciante procurou Mozart dizendo:
– Maestro, eu gostaria de compor uma sinfonia. O que o senhor me aconselha?
– Ora, disse Mozart – por que você não tenta começar com algo mais fácil? Componha um minueto…
O jovem não se conformou:
– Mas o senhor já compunha sinfonias desde o começo e com pouca idade!
Ao que Mozart respondeu:
– Mas eu não ficava perguntando aos outros o que fazer!
Wolfgang ingressou na Maçonaria aos vinte e oito anos. O curioso é que aos dezasseis ele já tinha composto a canção “O heiliges Band der Freundschaft” (“Oh laços sagrado da amizade”) dedicada a uma cerimónia maçónica na Loja de Tobias Geller. Mantinha também contactos com Teobaldo Marchand, fundador da Loja de Mannheim. Ninguém sabe de onde provinha esta influência, pois o seu pai, Leopold, só fora iniciado após o filho o apresentar aos maçons de Viena.
Talvez as raízes desse interesse viessem de 1764 quando Mozart, com oito anos de idade, tornara-se amigo de Johann Christian Bach (filho mais novo do grande Johann Sebastian Bach). Johann Christian, que vivia em Londres, era Maçon e teria inspirado Mozart, não só na arte da composição como nos ideais iniciáticos (ainda assim um prodígio diante de uma criança de apenas oito anos). Outra influência viera de grupos iluministas liderados por Franz Anton Mesmer, médico vienense e Maçon. Mesmer formulou a teoria do magnetismo animal e praticava curas através do “fluido universal” (mesmerismo). Mozart aprendeu com ele a existência de um sentido interior além das sensações e da razão. O médico e o compositor foram amigos íntimos. Desenvolveram juntos um instrumento musical, a “glass harmónica” (harmónica de taças) a partir de um projecto do também Maçon Benjamim Franklin. Mas alguns ocultistas da época alegaram que a “glass harmónica” sequestrava a alma dos ouvintes e com isto o instrumento foi proibido, caindo em desuso. Mesmo assim, Mozart compôs para ele o “Adagio para Harmonika, k. 356” e o “Adagio e Rondo para Harmonika, Flauta, Oboé, Viola e Violoncelo k. 617”.
A iniciação de Mozart na Loja “Zur Wohlthatigkeit (Beneficência) aconteceu em 14 de Dezembro de 1784. Foi ao Grau de Companheiro em 7 de Janeiro de 1785 e tornou-se Mestre uma semana depois.
As quatro últimas obras de Mozart, todas do ano de 1791, foram o “Concerto para Clarineta” (k.622), a “Pequena Cantata Maçónica (k.623), “A Flauta Mágica” (k.626) e o famoso “Requiem” (k.626).
“A Flauta Mágica” é uma ópera repleta de temas maçónicos. O aspecto geral é de um conto de fadas com elementos de comédia. Tudo se passa num templo egípcio. Osíris e Isis são invocados pelo Mestre do Templo, Sarastro – uma alusão ao princípio solar (sar+astro). Tamino, o herói, representa na iniciação o princípio “animus” (masculino); o amor feminino sublimado é Pamina representando “anima”. Papageno, personagem meio homem, meio pássaro, é o “bom selvagem” rousseauniano: ele não consegue guardar silêncio durante as provas da iniciação mas, mediante a combinação de sons e repetição de vogais, alcança os seus modestos desejos – obter boa comida, bebida farta e uma linda mulher que lhe dê muitos filhos.
“A Flauta Mágica” teve a sua primeira apresentação em 30 de Setembro de 1791, dois meses e cinco dias antes da morte do compositor.
A morte de Mozart está intimamente ligada à composição do “Requiem”. No final de 1791 ele estava envolvido com o sucesso de “A Flauta Mágica”. Mas a sua saúde vinha a decair rapidamente. Ele queixava-se de traição e afirmava que o tinham envenenado. Era frequentemente visto pelos cantos, calado e entristecido.
Nesse meio tempo, recebeu a visita de um estranho, vestido de negro e encapuçado, com um pedido para compor uma missa fúnebre – o “Requiem”.
Fragilizado pela doença que o consumia, encarou o facto como premonição da sua própria morte. O estranho adiantou-lhe parte do pagamento e, mesmo assim, Mozart continuava convicto de que aquele homem era um emissário da morte.
Nas semanas seguintes, ele mal conseguia andar. Delirava de febre a maior parte do tempo com as pernas e braços muito inchados.
O texto da liturgia católica do “Requiem” martelava na sua cabeça:
“Requiem aeternam dona eis, Domine et lux perpetua luceat eis (dá-lhes, Senhor o repouso eterno e que a luz perpétua os ilumine); Tuba mirum spargens sonum per sepulchra regionum (uma trombeta poderosa espalhará o seu som pela região dos sepulcros)… Liber scriptus proferetur in quo totum continetur (e um livro será trazido no qual tudo está escrito); Confutatis maledictis flammis acribus addictis (os malditos serão condenados e lançados às chama devoradoras). Lacrymosa dies illa qua resurget ex favilla judicandus homo reus (naquele dia de lágrimas quando os ressurgidos das cinzas serão julgados).”
Em 18 de Novembro de 1791, quando só lhe restavam dezassete dias de vida, ainda teve forças para reger a “Pequena Cantata Maçónica” (Eine Kleine Freimaurer Kantate) durante a sagração do novo Templo da Loja “Zur neugekrönten Hoffnung” (“Para o Coroado, a Esperança”).
As circunstâncias do momento e um provável envenenamento por mercúrio e insuficiência renal, fizeram-no sucumbir (sabe-se que dentre os sintomas da intoxicação por mercúrio estão as alucinações, confusão mental, depressão, pesadelos e lesões renais). O “Requiem” ficou inacabado e foi terminado pelo seu aluno Franz Xaver Süssmayr segundo anotações deixadas pelo Mestre.
Mozart morreu cercado de poucos amigos, na madrugada do dia 5 de Dezembro de 1791. O seu sepultamento foi simples e acompanhado por poucas pessoas. O local do seu sepulcro permanece ignorado até hoje.
Um facto intrigante é que, nove anos após a sua morte, a viúva de Mozart, Constanze, entregou ao editor Härtel um plano redigido pelo marido visando a criação de uma sociedade secreta com o nome de “A Gruta”. Este manuscrito, também de inspiração rousseauniana, encontra-se desaparecido.
O efeito Mozart: Os estudos do “Efeito Mozart” surgiram em 1991 com o trabalho do Dr. Alfred Tomasi que usou a música de Mozart em diversas experiências, concluindo que elas têm um poder de cura. Pesquisas posteriores confirmaram o efeito no tratamento de doenças e transtornos propiciando melhor equilíbrio para os pacientes. Em 1993 a revista “Nature” publicou o trabalho de três pesquisadores do Centro de Neurobiologia do Aprendizagem e da Memória da Universidade de Califórnia. As pessoas que ouviam música de Mozart obtinham maiores pontuações nas prova de inteligência espacial. Um artigo de J. S. Jenkins, MD FRCP, publicado no “Journal of The Royal Society Medicine”, em Abril de 2001, sobre “The Mozart Effect”, relata que ouvir música que envolva certos ritmos, melodia e timbre variados, activa amplas distribuições de áreas no cérebro. O estudo foi comprovado mediante tomografia por emissão de positrões (PET) e varredura funcional por ressonância magnética.
José Maurício Guimarães
O que ouvir
- Concertos para piano no.20 k.466 e no.21 k.467(Elvira Madigan);
- Concertos para violino no.3 k.216 e no.5 k.219;
- Concerto para Clarinete, k 622;
- Sinfonias no.35(Haffner) k.385, no.40 k.550 e no.41 k.551(Júpiter);
- Divertimentos k.131, k.136, k.137, k.138 e k.287;
- Serenatas k.185 e k.203;
- Óperas: “A Flauta Mágica” k 620; “Don Giovanni” k 527; “Bodas de Fígaro” k 492.
Bibliografia
- CAPBELL, Don – O EFEITO MOZART, em português pela Editora Rocco;
- BAKER, Richard – MOZART, Jorge Zahar Editor;
- DE CURZON, Henri – VIDA DE MOZART, Atena Editora;
- HILDESHEIMER, Wolfgang – MOZART, Jorge Zahar Editor;
- PETERNELL, Pert – Mozart (romanceado), Editorial Aster-Lisboa;
- WOODFORD, Peggy – MOZART, Midas Books / Book Sales Limited.
- (*)O Irmão José Maurício Guimarães é Venerável Mestre e fundador da Loja Maçónica de Pesquisas “Quatuor Coronati, Pedro Campos de Miranda”, jurisdicionada à Grande Loja Maçónica de Minas Gerais
