Visão da Iniciação: Sentimentos e primeiros ensinamentos
A escuridão
No meio da ansiedade natural do momento, vendado, a andar de costas, desorientado, em silêncio, por um caminho até então desconhecido, obedecendo àquele que me guiava. O que iria acontecer? No diálogo interno eu argumentava, confie, avance, aguarde com paciência, acredite no processo, ouça com atenção as orientações e aproveite desde já a caminhada pois esste é apenas o primeiro passo...seria ali a primeira lição? de confiar nos irmãos?
Em seguida, a vestimenta, tão cuidada e preparada para este dia, nova, passada, cheirosa, impecável… foi totalmente desconfigurada… chinelos num dos pés, calças arregaçadas e camisas vestidas pela metade… Seria o ensinamento que a vaidade é uma inimiga do processo e precisava ser abandonada ali para seguir em frente?
A morte do profano
Após breve caminhada, subidas rápidas em escadas, fui desvendado, num pequeno recinto, sob a penumbra de vela, com frases desafiadoras, defronte a um crânio, no local um testamento pra assinar…e no questionário apresentado ali, ficava claro que, para prosseguir seria necessário coragem e certeza absoluta da decisão.
Após… veio o frio, o silêncio, a volta da escuridão, a perda de noção do tempo,, sons e toques, como se estivesse numa prisão fria e húmida, o diálogo interno se aprofundou, passa um filme da vida… por vezes interrompido por toques, objectos eram deixados nas minhas mãos…espadas…objectos de madeira que até hoje não consegui identificar… Seria a lição da paciência? De respeitar o processo de aprendizagem e início da lapidação interna?
Em seguida, partimos para caminhadas mais rápidas e bruscas, ainda em total escuridão, escadas, muito movimento… veio o medo de cair ou bater em algo, que era amenizado pela confiança que adquiri naquele que me guiava, havia uma percepção de ambientes diferentes, de estar sendo observado, provei o doce da promessa e o amargo da traição, e naquela confusão mental e física, fui mais uma vez questionado, dessa vez verbalmente, das minhas verdadeiras intenções e da importância da minha decisão, não só para a minha vida, mas para a instituição e pela sua inestimável história. Naquele momento, percebi claramente que fechei um compromisso juramentado de morte, de responsabilidade eterna, de ética e de guarda absoluta e inegociável dos searedos. ritos e assuntos internos da Ordem.
A luz!
Sem noção do tempo que havia passado, após ter me recomposto com as vestimentas, novamente guiado, percebi mais pessoas ao meu lado…com a percepção que muitos me observavam, aquele ruído abafado…
Após ser desvendado, mesmo com a visão ainda turva, o que vi jamais será esquecido…a belíssima imagem do interior do templo, com a luz do oriente a frente, o céu no tecto, todos aqueles símbolos, com os irmãos perfilados em perfeita harmonia com as espadas voltadas pra nós, como se fossem raios de luz… eu parecia um tolo hipnotizado admirando todos os detalhes, cheguei a ter medo de estar sendo inconveniente…uma mistura de sensações tomou conta, admiração, acolhimento, uma profunda paz interior…e conforme a visão ia se restaurando, reconhecendo alguns irmãos, e tendo muitas surpresas, daqueles que não imaginava que encontraria…
Este momento foi tão marcante, que a minha mente criou uma âncora, que toda vez que eu adentro o templo, essa sensação maravilhosa volta, torço que perdure por muito tempo.
E o meu avental…recebê-lo foi um privilégio e motivo de muito orgulho, que ele seja meu parceiro de muito trabalho, e que um dia, num futuro longínquo quando eu o encontrar no fundo de alguma gaveta, eu perceba o quanto eu evoluí, e principalmente, o quanto ainda tenho ainda que aprender…
Gratidão a todos que directa ou indirectamente me proporcionaram essa oportunidade, mas especialmente ao meu padrinho Irmão Fábio Reis e ao Irmão Rodrigo Kamke.
Wellington Ferrari, CIM 353300 – Loja Maçónica Nilo Peçanha nº1039 – Colatina – ES – GOB –
Nota
- Algumas expressões acima usadas são de ensinamentos posteriores, pois eu tive a felicidade de não procurar saber como seria, de fazer questão de viver a surpresa e aproveitar cada momento. Nunca tinha visto a foto de um templo maçónico, não sabia de absolutamente nada do que ocorreu, e se eu pudesse dar uma dica algum dia para algum iniciante, seria essa, não procura nada, apenas viva a experiência única e aproveite…
