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Uma visão filosófica sobre a iniciação maçónica

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✍️ Desconhecido 📅 02/02/2026 👁️ 0 Leituras

iniciação

1 – Introdução: o silêncio que abre portas

O círculo se fecha. Os Irmãos se acomodam em posição de respeito e silêncio. Cada um enfrenta a sua própria escuridão, e esta espera. Espera o que não se ouve, não se vê, mas está presente. É o instante que precede a pergunta lançada ao vento: “Qual é o significado da minha vida?” O silêncio concentra a respiração. Assim como um artista no meio da criação, a mente se aquieta, mas está atenta. O círculo se abre. O inquietante silêncio das pedras do templo transforma-se no pulsar do Coração do Mundo. A porta se abre. Dela emana uma Luz ofuscante que ao mesmo tempo ilumina e oculta. A Luz não é enigma; não é mistério. É resposta. A verdade é a Luz que cega e revela. Mas a verdade não é sempre um ser que se sabe — a verdade é um ser que se faz. Sempre. E o sábio não é quem tudo sabe, mas quem transforma a vida em Código. O Código da Vida. A Luz que emana da Porta é a Luz que emerge da Alma. E as nuvens que a escondem não estão lá fora. Elas estão aqui, dentro do eu. É a Luz que brilha em cada Irmão, esperando o momento em que o Silêncio do Tempo será rompido pelo Silêncio do Eu.

A escuridão é a mestra que nunca engana. Ela fala, e fala sempre. Mas, como os grandes mestres, a escuridão fala apenas àqueles que estão prontos para ouvir. Primeiro, é preciso buscar a Luz na primeira palavra. Somente então se pode olhar para a emanação da Luz, que é a escuridão. É isso que o Silêncio ensina. A escuridão revela os limites e as potencialidades do eu, tal como a nuvem que oculta e revela o Sol. O aprendiz enfrenta a pergunta que o acompanha desde o nascimento: “E se eu não voltar?” A pergunta não encontra resposta; ela é uma pergunta. E o Silêncio responde. Responde ao eu que busca. Responde ao aprendiz que sabe que o Sol está ali. Que a Luz está ali. Que a vida é Luz. A resposta não é a resposta, mas é tudo: é um Sinto. É a percepção de que o Silêncio não diz que a Luz está escondida na escuridão, mas que a Luz é a escuridão.

1.1 – O encontro com a pergunta interior

A vida é feita de perguntas e uma delas é a razão da minha presença aqui e agora. O silêncio interior é a porta que abre a escuta dessa pergunta latente. Um silêncio que não é apenas a ausência de palavras, mas o espaço onde o eu escuta a voz do eu. Por isso, a palavra que se escuta não é exterior, é interior; às vezes não há palavras, apenas um desejo vaporoso; e há momentos, muitas vezes, em que o silêncio é o único ruído possível.

A verdade é que o silêncio é a porta que se abre para o que o eu, por medo ou covardia, não quer ouvir ou ver; e é nesse espaço que a escuridão, radiosa na sua ausência de luz, se torna professora. A escuridão que doravante não é mais só ausência de luz, mas a professora que ensina a mostrar os limites, as imperfeições e as potencialidades. A escuridão que das profundezas mais tenebrosas traz a luz que queima. Esta queima que depois de revelada se transforma em responsabilidade. A responsabilidade que surge, não por conta da promessa feita, mas pela iluminação que despedaçou a escuridão. Uma iluminação que, tal como a mágica de um sapateiro, surge repentina e em fracção de segundos transforma todo um ciclo, uma cosmovisão, uma vida.

1.2 – As pedras que compõem o próprio eu

No silêncio brota a pergunta que dá sentido à iniciação maçónica. Ouvindo a voz oculta, responde-se o chamado e faz-se o histórico e solene pacto. Os símbolos falam, mas ocultam. Não há leitura certa, mas um sentido que, do conhecimento ao ser, prepara o tornai-maçom. O compasso e a régua são a chave da aprendizagem contínua. A Loja, um espaço em que todos são profetas e todos ouvem. O ritual é um rito de passagem da escuridão à luz e deste novo estado à escuridão. A dor abre os olhos, responde à pergunta e traz a responsabilidade pelo outro. A iniciação é assim a porta que se fecha com a entrada e abre-se a cada dia.

O sapiente e o neófito partem do mesmo ponto. Um breve instante e se está no escuro. Ouvem-se as batidas do coração, a respiração profunda, um eco distante. O corpo deixa de ser um obstáculo à palavra e entra em comunhão com a alma. No silêncio em que tudo se sente mas não se diz, o eu revela o que está oculto. A verdade aparece na sua nudez e o cessar da busca exterior escancara a essência. As pedras não são as que se erguem no templo, mas as que compõem o próprio eu. Ao adormecer as imagens e a mente, à escuridão da vida se sucede a luz da morte.

2 – O Juramento da Luz: promessa e responsabilidade

A iniciação maçónica é um rito de passagem, destituído de carácter religioso, em que são simbolizados o sofrimento, a dor e a transição entre a vida e a morte. Lembro-me da primeira vez em que a imersão na escuridão teve um sentido pleno. À medida que o corpo se debatia na noite, a incomunicabilidade gerava um profundo sentimento de solidão. O espaço, antes acolhedor e festivo, se tornara hostil. E o silêncio… o silêncio ressoava tão alto que a consciência ouvia a própria respiração. Contudo, naquele momento de intensa solidão, a escuridão se configurava como professora. Por meio da dor, revelava os limites e as potencialidades do eu. Quando, finalmente, a claridade se impôs, o que antes era solidão transformou-se em comunidade. E o que antes era desejo de união se transformou em responsabilidade em relação ao outro.

Fraternidade e solidão: é o paradoxo que sempre cercou a convivência humana. Um desejo intenso de união e, ao mesmo tempo, a consciência de que os limites são intransponíveis. A Maçonaria – por meio da sua filosofia e da sua prática do silêncio – fornece uma resposta. O silêncio que sustenta cada corpo, que alimenta cada espírito e que faz com que o círculo se mantenha unido é o mesmo silêncio que permite a comunhão e que nos faz ir além da dualidade da vida e da morte. O silêncio é a força da vida. É ele que permite ouvir o que o outro não diz. É ele que dá força ao olhar. É ele que traduz o cuidado que cada um deve ter consigo mesmo. O cuidado para com o outro é, antes de tudo, um cuidado com o nosso ser. Quando a respiração se transforma em vazio, o outro deixa de existir – e a vida não passa de um corpo abandonado, almejando o último desejo: a união, o amor.

2.1 – A ética como caminho de transformação

A ética não é uma simples lista de regras nem um conjunto de normas para a convivência entre os homens. Não se reduz a um conhecimento que pode ser adquirido e conquistado por força de estudos e leituras. A ética não se resume a um discurso repetido, uma oração recitada ou um juramento feito. A ética é, antes, a prática que transforma a vida. Etimologicamente a palavra grega éthos era utilizada para designar qualquer tipo de costume numa sociedade. Com o passar do tempo o termo foi se restringindo, e, para Aristóteles, o éthos dos homens era aquilo que produzia a diferença nas acções, aquilo que tornava a vida de cada um única, ainda que os homens fizessem as mesmas coisas, quisessem as mesmas coisas ou, até mesmo, fossem adjectivamente iguais. Compreender a ética dessa forma é perceber que a ética não é uma coisa, mas um caminho.

É esta a ideia que está por trás do juramento da Luz. O iniciado torna-se um porta-voz da Luz e promete ser um agente de transformação. Ser iniciado não é ter recebido a primeira iniciação, mas ser capaz de, em cada novo momento da vida, pronunciar as palavras do seu juramento e, de facto, cumpri-lo. A frase a ética é a prática que transforma a vida é uma afirmação que se aplica a todos. Ela não se refere apenas ao Maçom que, por força de um compromisso assumido, deve vivê-la. Assim como o simbolismo do GADU é universal, por que a Luz é uma Luz para todos os homens? Portanto, toda e qualquer palavra dada, em todas as circunstâncias da vida, deve ser cumprida, pois cada palavra dada é um compromisso que se assume. É preciso saber o peso da palavra.

2.2 – O peso da palavra dada

Um instante de silêncio interior: ao adentrar a Loja, as portas que se abrem são, antes de tudo, as do próprio eu. Pode parecer um lugar-comum, mas o vazio a que se chega nesse silêncio é reverberado de formas e condições. Um eco distante, uma pergunta à qual a mente não sabe, não pode, não deve responder, mas que é absorvida pela alma, tal qual um bastidor esperançoso ao relâmpago que lhe dará sentido. Não se trata de uma pergunta entre tantas; é a pergunta-anfitriã, que respira e alimenta os ecos do som que se faz noite. O silêncio é o caminho para a escuridão.

E a escuridão faz o silêncio. Uma calma que, ao se fazer dor, destapa o eu, descobre a sua carne. E a dor, de tão pura e verdadeira, torna-se a Mãe, que dá a conhecer, no espaço secreto da alma, a dor e a alegria, o amor e o ódio, o saber e a ignorância, os limites e as potencialidades. É o momento em que a mente não pensa, e a alma ilumina, a alma que, por iluminar, se sabe infinita. E das entranhas do silêncio e da escuridão surge a luz, uma estrondosa claridade que cega, mas que, apesar de cegar, faz ver. Vê não o que está à frente, mas o que a própria luz fez nascer: o outro, e o outro como sendo um a mais e um a menos do que o eu. O outro como eu, e eu como o outro. O outro como espelho, e eu como reflexo.

Pode parecer um jogo de palavras, mas a troca de lugar entre as singularidades é a única força que alimenta a vida comum. O Ruah que dá vida ao ser humano é assim um sopro: um sopro dentro, que se derrama e abraça. E a união faz o mesmo movimento: o amor que brota do cuidado com o outro é sempre também o cuidado com o eu, e a incapacidade de cuidar do outro revela a incapacidade que sustenta a vida. É o momento em que o eu morre pela ausência do amor, e quando, pela ausência do amor, renasce.

3 – Simbolismo e Caminho: os símbolos como mapas da alma

Desvendar os símbolos da Maçonaria é mais do que decifrar um enigma ou descobrir o significado oculto de uma imagem. É explorar o que esses símbolos revelam sobre a alma. Cada símbolo é uma espécie de mapa que indica uma direcção, um caminho. É um sinal que aponta um lugar, mas que não deve ser confundido com o destino. O destino é infinitamente mais do que a soma de todas as direcções, é o surgimento do que nunca foi antes.

Os dois símbolos fundamentais da iniciação, o compasso e a régua, são o convite à sabedoria, à arte da vida, que faz do nascimento uma condição, mas não um destino. Muitas vezes, somos levados a acreditar que a virtude é o contrário do desejo e que o apelo à virtude exige apenas o sacrifício do que o desejo deseja. O compasso é um símbolo da arte da vida que nos ensina que a verdadeira virtude está no equilíbrio, na responsabilidade, na prática da sabedoria que faz do desejo o seu único destino. Desejo e virtude são propósitos que se contradizem e se complementam no mesmo caminho, e a sabedoria é o acto de viver a vida como a arte de produzir o equilíbrio.

3.1 – O compasso e a régua como instrumentos de equilíbrio

O compasso e a régua, símbolos da Maçonaria, são frequentemente interpretados de maneira dualista: o compasso, relacionado ao prazer e aos desejos, e a régua, associado à virtude. Estes instrumentos, no entanto, podem ser compreendidos de forma diferente, reflectindo a busca pela transformação do homem em Ser humano. Na vida quotidiana, o equilíbrio entre os desejos e a virtude é frequentemente negligenciado ou desconsiderado. O compasso representa os desejos e o prazer, enquanto a régua simboliza o seu contrário. O prazer, atrelado aos desejos, é muitas vezes visto como um obstáculo à evolução espiritual, enquanto a virtude se opõe a essa construção.

Esta perspectiva é redutiva, pois os desejos, quando respeitados, são fontes de alegria e amor. A vida torna-se verdadeiramente livre quando é possível ser feliz. Assim, os símbolos da Maçonaria proporcionam um entendimento mais amplo, considerando o ciclo da vida. Os desejos são incontroláveis e sempre se renovam, e os actos sempre têm um preço. Destruir para ter prazer gera solidão, enquanto amar e repartir traz felicidade e dá sentido à vida. Seguir esses princípios não é fácil, mas é um caminho que conduz à verdadeira liberdade. Em cada instante, a escolha está presente: seguir os desejos que geram solidão ou os que criam união.

3.2 – A Loja como espaço de aprendizagem mútua

Os símbolos são mapas das intimidades que o ser humano busca, para encontrar o oásis que a alma deseja. O grande templo da Maçonaria é dedicado à aprendizagem por meio da troca de experiências e do diálogo. A loja não é um lugar onde está certo ou errado, nem de adoração a dogmas ou regras. É um espaço onde cada Maçom tem a liberdade de dizer o que sente e pensa, de se expor sem medo. Uma base de ajuda mútua onde as palavras têm peso. Um lugar acolhedor e leve, onde a lembrança do juramento de ajudar e dar aos outros é uma fonte de verdadeira fortuna.

A escuridão da Loja não é um simples preto; é a profundidade que reduz a sensibilidade e dá a sensação de fragilidade. É a ausência da luz que ensina a não ter medo dela. O escuro traz o medo, que não servem apenas para prestar atenção aos monstros que os rodeiam e às direcções da vida. A dor é a professora. Cada ser humano tem um entendimento do que é a dor. Todos a conhecem. Porém, nem sempre a escutam. Na Maçonaria, a dor é notada e ouvida. Quando o Maçom se afasta dela, a aprendizagem não precisa ser esquecida; trata-se de um saber que se guarda na consciência e que é revivido quando necessário.

4 – Iniciação como rito de passagem: dor, revelação, renascimento

A escuridão é um dos símbolos mais intrigantes, e inevitavelmente alguém um dia a propõe como tema de reflexão. De facto, ela é uma constante nas vidas de todos. Se a vida é um caminho de evolução, a escuridão é sua professora. Aceitá-la é aceitar a dor como condição de ampliação da consciência, a dor como nascimento. O ritual tenta mostrar isso ao neófito.

A primeira fase da iniciação se desenrola num espaço escuro, envolvente, que propõe ao neófito abrir mão do sentido da visão. Esta escuridão é mais ampla que a mera ausência de luz; é também a ausência de som ou cheiro. É uma escuridão que não se presa a imagem. Esta falta de sentido faz com que o silêncio, em vez de ser apenas a ausência de som, seja uma força que se impõe: o silêncio da noite ou o silêncio de uma cerimónia capaz de aquecer a alma. Neste espaço, a palavra assumiu um novo significado, agora com poder além do da simples comunicação.

À medida que a escuridão abraça ainda mais, a Comunidade pede que o neófito, já sem os olhos, toque a escuridão, como quem toca a mãe, e então uma voz lhe diz que ela é sua professora. Começa, então, um momento de dor. A perda da visão dá lugar a um novo sentido: a percepção dos limites, da Faixa de Opções, do Potencial e da Necessidade. A cada movimento, uma pergunta surge em meio ao silêncio, e o dito é claro: “é preciso que a negação do desejo faça parte da vida”. O tempo passa sem relógio, sem som, dando espaço à dor, e o neófito começa a ver a morte não como o fim, mas como a forma de libertar e dar a todos a oportunidade de evoluir. Esta dor, verdadeira dor, não é sufocante, mas libertadora.

Uma súbita clareza aparece, e a palavra “luz” explode no seu interior. Quanta luz! E junto com a luz, a responsabilidade. O neófito vê a si mesmo, vê a Comunidade e percebe que na vida não há botões de pausa. A Luz não foi dada como um presente, mas como uma nova responsabilidade.

4.1 – A escuridão como professora

A escuridão é a professora que, em silêncio, dá a conhecer ao discípulo as suas limitações, os seus medos e as suas potencialidades. A penumbra que envolve o iniciado na cerimónia da iniciação representa a viagem para o interior de si mesmo, um mergulho na solidão e no silêncio. O escuro é a escola onde se ensina e se aprende a ser responsável pela própria vida, a não colocar a culpa nos outros, a não se deixar dominar pelos medos e a não desistir dos seus sonhos. Quando se sente verdadeiramente sozinho, o iniciado descobre que a felicidade não está num destino, mas no caminho. O escuro ensina que a paz não é uma conquista, mas um estado de espírito que se transforma numa forma de estar na vida e que a luz é uma questão de olhar.

É então que a clareza surge, como um flash que ilumina o ambiente e que o iniciado se habitua a identificar como um novo saber. Na vida temos sempre a escolha entre ver e não ver. Quando a luz irrompe no nosso ser, é tempo de assumir a responsabilidade que a nova visão nos coloca nas mãos. Cada vez que a luz entra, é como se o altar interior se iluminasse e ficássemos face a face com a nossa verdade. É aqui que morre mais um pouco da criança que existia e renasce a vontade de voltar a aprender. O iniciado percebe que a Luz não é um destino, mas algo que se deve procurar diariamente. A responsabilidade consiste em não deixar apagar o que foi recebido e em estimular os outros a acender a sua luz.

4.2 – A súbita clareza e a responsabilidade que se segue

Na ausência de toda e qualquer luz, o brilho inconfundível no fundo dos olhos do ser – a Fonte da Sabedoria Suprema – não é percebido. Abrir os olhos é apenas um gesto involuntário, repetido milhares de vezes ao longo da vida humana, até que, sem ser comandado pela intenção, é feito de maneira diferente, como com um espelho. A escuridão se torna mãe, pois cria espaço para que a própria vida ensine as suas limitações e potencialidades. O que é e o que não é possível, onde se está e para onde se vai. E a palavra “mãe” não é apenas um termo afectivo, é também o símbolo da própria vida, receptáculo que, no seu interior e sem emitir um ruído, gera a Si mesma.

Da mesma forma que a ligação entre um homem e uma mulher proporciona a vinda de um novo ser a este mundo, também a passagem da vida profana para a vida maçónica é um parto, um renascimento, porque o iniciado não sai mais igual de uma Loja. A vida é a mesma, os amigos, o trabalho e tudo mais continuam ali, mas a visão da realidade foi ampliada pela Luz que subitamente se fez, que não muda nada, mas que, ao mesmo tempo, muda tudo. Depois dessa experiência, e em consequência dela, a vida deixa de ser a mesma; é uma continuidade da iniciação. É permitida a entrada na Loja, a oferta de um Juramento de Iniciador. Tem-se o direito de fazer o pedido, mas, em troca, tem-se a responsabilidade de não só prometer, mas de cumprir.

5 – Fraternidade e Solidão: o paradoxo da convivência humana

O silêncio sustentando a comunidade humana e o paradoxo da convivência. Os inícios se desdobram em meio a um solene silêncio. Ao entrarmos numa loja maçónica, a nossa primeira percepção é o silêncio. Um silêncio em que palavras, gestos e acções foram suspensos; em que os sentidos foram recolhidos; em que o tempo e o espaço perderam a sua corporeidade. Por sua vez, a comunidade que se reúne no desempenho desse acto ritualístico é igualmente sustentada pelo silêncio que ressoa a partir da profundidade de cada um dos irmãos.

Cada um em si – portanto, também só, na sua solidão – e, ao mesmo tempo, todos juntos, em harmonia fraterna. Uma fraternidade que, em última instância, não é mero sentimento; não brota da simpatia que se estabelece entre os homens; não se dá na troca e na troca recíproca que assinala o comércio das relações humanas; mas que é um cuidado com o outro. Um cuidado com o outro que, paradoxalmente, é o mesmo cuidado que se tem consigo mesmo. Porque, desde que a luz da consciência se acendeu no oculto do eu, todo irmão é um reflexo do outro. Por isso, e à medida que o silêncio vai se desvelando, o “cuidado” de que se trata afirma a essência do dever maçónico em toda a sua radicalidade: “Um Maçom cuida do seu irmão”.

5.1 – O silêncio que sustenta a comunidade

Enquanto o silêncio interno abre a porta para a pergunta essencial e o silêncio do coração revela, aos poucos, o que está oculto no mais profundo do eu, o silêncio que sustenta a comunidade precisa ser alimentado. Assim como o que é individual e pessoal é transgredido no início da iniciação, o que é colectivo, cidadania que se concretiza na Igreja e no Estado, só pode ser preservado e alimentado pela vivência da ética.

A vivência do compromisso assumido, do juramento feito, do eu que se transforma no outro e do outro que se transforma no eu, vela e ausculta a vida da comunidade humana. O cuidado com o outro, no fundo, é o espelho do cuidado consigo mesmo. Quando o colectivo é respeitado, o que é mais profundo e autêntico em cada um é respeitado. E a vida, que por trás das aparências concretas e limitadas de cada um é uma só vida, revela, no silêncio, a beleza, a força e o esplendor da sua verdadeira natureza.

5.2 – O cuidado com o outro como espelho do cuidado consigo

A vida em comunidade é um desafio constante, e a iniciação revela o paradoxo que a acompanha: o convívio humano é solidão. O rito aborda a solidão do outro, e o silêncio que o rodeia é similar ao silêncio interior que abre o espaço para a pergunta essencial e para o compromisso de buscar a luz. Um silêncio pessoal e íntimo, porém, não é o que une a comunidade. O que une a comunidade é um cuidado com o outro que resulta na força do silêncio colectivo que sustenta a vida entre os homens. O cuidado com o outro é um espelho do cuidado consigo mesmo.

Se cuidar é, antes de tudo, estar atento ao que parece oculto à percepção ordinária, cuidar do outro é estar atento ao que parece oculto no outro. É um escutar que procura e busca a essência que permanece oculta e resguardada por trás do modo de falar, das feições, dos gestos, das reacções, das falas e dos silêncios. É um cuidador que percebe não só o que é trabalhado na máquina humana, mas também as relações entre o que é vivido, que gera a forma que se vê e ouve, e o que vive. É a capacidade de ver as feridas da alma, as feridas que ainda não cicatrizaram, que continuam a sangrar, que virão à superfície e que ferem a vida presente.

6 – Epílogo: a vida quotidiana como continuação da iniciação

Todo o significado associado a cada fase da iniciação é agora um enigma insolúvel. Assim, a experiência quotidiana, com o seu mar de aparências fugazes, torna-se uma eterna continuação da iniciação: a dor, o ódio, a alegria, o amor, a vida, a morte, todas essas coisas de que é feita a vida retornam, cada uma de novo nua e nas suas profundezas. Esta experiência não se torna mais leve por ser tão familiar. O silêncio que deu origem ao juramento, que faz da palavra o ser da vida, recorre à mente e não a deixa descansar. As moléculas da vida desafiam o sentido do sagrado, o sentido do cuidado.

As coisas precisam primeiro ser destruídas; depois, uma luz plena revela o que simboliza o ouro no fundo de cada ser. À primeira vista, a luz é apenas um belo objecto para contemplação. Quando o reflexo é centrado na alma do outro, a vida adquire sentido: a vivência do outro torna-se uma vivência própria. Esta vivência só pode se dar na experiência do silêncio. O silêncio que une os seres humanos é um acto de cuidar e um pedido de protecção. O primeiro pedido, feito em voz alta, é o de cuidar da vida. O segundo é o de não deixar o outro cair. A queda do outro, que é a queda do próprio ser, é a maior tragédia da vida.

Considerações finais

A iniciação maçónica visa proporcionar ao iniciado condições para que, ao longo da sua vida, a sua consciência se ilumine com o significado último da sua promessa de irmão. Para isso, cada elemento do rito é um símbolo que pode servir de guia para a compreensão de si mesmo e do mundo. O silêncio que precede a palavra, a promessa que vincula, os símbolos que revelam o que se ignora e o caminho de luz que conduz à solidão e à fraterna convivência são alguns dos aspectos que mais se destacam na iniciação maçónica. A grande mudança, no entanto, não se origina no rito, mas na vida quotidiana. Dentro do templo, o homem adquire uma nova visão sobre a sua vida: a primeira iniciação que é capaz de enxergar.

Na vida quotidiana, o iniciado se depara com o caldeirão da dor da vida. A tradição não erra ao chamar a dor de professora. Ela revela, por um lado, as limitações e imperfeições do homem, e, por outro, as potencialidades que o habitam. A vida é como uma escuridão de onde a dor ilumina o caminho. E, num desses momentos de dor, a luz interior se acende repentinamente: o iniciado consegue enunciar a sua luz, o seu propósito, o seu sentido. Mas a luz traz consigo a responsabilidade. O iniciado torna-se responsável pelo outro que não enxerga e pela sociedade cuja ignorância o leva a impelir a humanidade para a barbárie.

“A iniciação não é apenas um ritual formal, mas o compromisso com uma metamorfose interior contínua que visa o aperfeiçoamento da humanidade através do aperfeiçoamento individual.”

Ideraldo Pires da Costa – Sinop – MT
30 de Janeiro de 2026.

Graduado em Ciências Contábeis, Auditor, Perito extrajudicial e judicial, especialista em Gestão, Logística e Auditoria Hospitalar. E-mail: ideraldopires@hotmail.com. Director Executivo do Hospital da Visão de Sinop. Associado ao Lions Clube Pontes e Lacerda / Distrito LB-4. Governador Distrital 2013-2014. Membro da Loja Maçónica Estudo e Fraternidade nº 31, Sinop-MT. Autor de diversos artigos e livros.

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