Um livro escrito a quatro mãos com a Inteligência Artificial
Decidi escrever um livro em conjunto com a Inteligência Artificial, nossa nova companheira de viagem, num diálogo aberto com ela, o que há apenas alguns anos era impensável.
Não o faço como um gesto de moda, nem para chamar a atenção com a novidade tecnológica, mas como uma experiência histórica e cultural que questiona a minha maneira de produzir conhecimento, de narrar experiências e de dialogar com o leitor.
A humanidade sempre escreveu com as ferramentas do seu tempo. Houve um momento em que a caneta substituiu o cinzel, em que a imprensa multiplicou as vozes para além dos manuscritos monásticos, em que a máquina de escrever mecanizou a prosa e em que os processadores de texto digitalizaram a página. Em cada uma dessas transições, houve resistência, medo e desconfiança sobre se a autenticidade do pensamento seria perdida. A história demonstrou que, pelo contrário, a ferramenta ampliou as possibilidades sem substituir a essência do humano.
Hoje vivemos uma nova fronteira, em que a inteligência artificial não é um oráculo nem um autor autónomo; é um instrumento poderoso de organização, contraste e sugestão. No meu caso, não substituirá a reflexão maçónica nem o julgamento crítico que me cabe como escritor, mas me acompanhará como suporte metodológico. Ajudar-me-á a sistematizar referências, a organizar as minhas ideias, a ensaiar e corrigir alternativas de estilo. Mas as convicções, as teses, a orientação filosófica, histórica e humanista continuarão a ser inteiramente minhas.
Entendo que este projecto pode, além disso, contribuir para o debate sociológico de fundo. O que pode significar que a escrita, esse acto tão íntimo e humano, possa agora ser realizada em colaboração com um ente não humano? Até que ponto a tecnologia transforma as nossas formas de socialização, de transmissão cultural e de construção da autoria intelectual? Eu próprio não sei exactamente, mas lembro-me que a Maçonaria, que no século XVIII foi pioneira na experimentação de novas formas de sociabilidade ilustrada, tem muito a dizer nesta conversa e sobre o receio de que as ferramentas do nosso tempo nem sempre sejam colocadas ao serviço da liberdade de consciência, da igualdade e da fraternidade.
Uma coisa quero deixar clara: a ética do livro não reside em ocultar a ferramenta, mas em declarar com transparência o seu papel. O pensamento, o olhar crítico, a responsabilidade de cada afirmação são meus, e a inteligência artificial será apenas um eco, um espelho, um caderno ampliado no qual ensaio e ordeno as minhas ideias.
Começo este projecto consciente de que escrevo num momento de transição cultural, convencido de que os símbolos antigos ainda iluminam novos desafios e com a certeza de que usar as ferramentas do presente com lucidez e responsabilidade não contradiz a tradição, mas a prolonga no seu espírito mais vivo, que é o de explorar caminhos inusitados para o futuro, porque a verdade nunca esteve na ferramenta que se usa, mas na consciência de quem se atreve a usá-la.
Iván Herrera Michel
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Fonte
- Blog Pido la Palabra
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