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Tubalcain

✍️ Desconhecido 📅 14/10/2021 👁️ 13 Leituras

tubalcain

A Palavra de Passe atribuída aos Aprendizes no Rito Francês, Tubalcain, é o nome de uma personagem que foi, de acordo com a narrativa Bíblica, o filho de Lamech e neto de Cain, que descobriu a Arte de forjar os Metais. Símbolo de uma Humanidade dessacralizada pela transgressão primordial de Adão e Eva, proveniente da “Carne”, da matéria corrompida, e de uma geração maldita pelo assassinato de Abel, imerso nas Trevas que ensombravam o seu mundo, Tubalcain torna-se naquele que procura o poder do conhecimento do Universo e da matéria, enquanto forma de domínio da Natureza. Neste percurso da Transcendência, perdida pelos seus antepassados, para a Imanência, sendo o primeiro de uma linhagem de fundidores na qual se irá inscrever mais tarde Hiram (personagem esta que já é conhecida de alguns dos Irmãos), e trabalhando bem no interior da Terra, adquire os conhecimentos necessários à transformação dos minerais e dos Metais, e ao domínio do Fogo, que traz de volta ao mundo a Luz. Tubalcain torna-se assim naquele que sabe o que os outros não sabem, naquele que tem o poder da ação, e da transformação da matéria numa forma mais diferenciada, e superiormente organizada, convertendo-se, em última análise, no primeiro dos engenheiros e, porque não, no primeiro dos cientistas.

Qual é o sentido de continuarmos, em pleno século XXI, a utilizar esta palavra estranha, retirado de um dos muitos mitos pueris, que integram o Livro da Génesis, como “Abracadabra” para poder entrar no Primeiro Grau ? Que mensagem nos pretende transmitir, no Aqui e Agora, esta história do fundidor, que pela sua ação, e pelas suas descobertas, mudou o seu Mundo ?

Rito racionalista por excelência, o Rito Francês apresenta-se como uma ferramenta de animação do pensamento, pela via da confrontação de ideias num debate livre, organizado de acordo com um método próprio. Transporta uma clara herança ideológica dos conceitos filosóficos do século das Luzes, que colocam o Homem no centro do Universo, enquanto ser livre e emancipado, capaz de trabalhar para o seu progresso intelectual, ético, e social, pela via da Razão. Neste sentido, a Ciência, cuja origem mítica nos é apresentada nesta história de Tubalcain, que através da sua Arte conquistou a possessão do Mundo, é sublimada no Rito Francês, enquanto ferramenta essencial, que possibilita ao Homem a procura das verdades sustentada por um pensamento livre, que entende a admissão da possibilidade de erro, e a rejeição de dogmas e de preconceitos, como bases essenciais a toda a via de Modernidade. No Rito Francês, essencialmente terreno e de estruturação horizontal, contrariamente aos Ritos Deístas, nada é etimologicamente acessível, que não seja por meio da Razão, simbolizando o Delta Radiante, que brilha no Oriente dos nossos Templos, não um qualquer princípio criador, por mais abstrato e “Ad Libitum” que seja, mas sim a Ciência, enquanto alavanca dos conhecimentos Humanos, e fonte de toda a Luz. Se a todo o Recipiendário, na sua Cerimónia de Iniciação, é dito que “É na direção da verdade que nós vos exortamos a orientar-vos, preservando-vos de toda a intolerância e de todo o dogmatismo”, este percurso, que simbolicamente começa com o pé direito, pé do lado da Razão e da Ação, e se desenvolve entre o Ocidente e o Oriente, entre o binário das Colunas, tese e antítese que se confrontam, e o Delta Radiante que simboliza a Ciência, Luz que possibilita a síntese, assenta nos conhecimentos humanos, em permanente evolução, e num pensamento livre. Pensamento este que rejeita todo o tipo de condicionamento mental, imposto por supostas verdades transcendentes ao Homem, que só podem ter lugar na esfera intima de cada um, e nunca numa reflexão conjunta, que se quer federadora, assente na comprovação das ideias, na abertura ao outro, e na confrontação com o que dizem os nossos Rituais, no que concerne ao modo de Ser e de Fazer. No Rito Francês não existe uma Verdade absoluta, todas as verdades são sempre relativas e momentâneas, pois, no domínio das ideias, a Construção do Templo não tem fim e, cada Pedra, que se acrescenta, põe em causa o equilíbrio das que já lá estão, impondo uma eterna lógica de Desconstrução e de Reconstrução como fator de Progresso.

A Palavra “Tubalcain”, no nosso Rito, dá acesso a um universo imaginário, o Grau de Aprendiz, no qual se entra deixando morrer o Antigo Homem, na Câmara de Reflexões. Aí somos convidados, num espaço e num tempo claramente definidos, o espaço deste Mundo e tempo das nossas vidas, a partir para uma viagem iniciática, que também começa bem no interior da Terra, onde nos procuramos a nós próprios. Nesta demanda, é suposto usarmos as nossas Ferramentas, sobre o nosso “Eu” e sobre o mundo, analisando o facto social, e tornando-nos, pelas nossas reflexões e pelas nossas ações, fatores de Humanização da pólis na qual nos inserimos.

Se a Maçonaria não tem dogmas, assenta todavia no pressuposto de que os Seres Humanos são aperfeiçoáveis. Pressuposto este ao qual se acrescenta, no Rito Francês, a ideia de que o Homem, qual Tubalcain, pela via da Razão, e suportado na Ciência, não só pode mudar para melhor o mundo que o rodeia, como tem inclusivamente o dever de contribuir para tal. Mas, face ao desenvolvimento dos conceitos filosóficos, que se verificam desde o século das Luzes, e à evolução da própria Ciência, esta visão tão objetiva da Razão, enquanto alavanca única do Progresso Humano, permanece atual ? Será que o próprio método maçónico, que recorre a todo um imaginário simbólico, assente na imaginação criativa, e a uma forma de comunicação singular, com dimensões gestuais, visuais, auditivas, e emotivas, não vem contradizer estas ideias, evidenciando que o Ser Humano não é exclusivamente racional ? E, será que a procura de tecnologias inovadoras, como a que realizou Tubalcain, perfeitamente dissociada dos conceitos de Bem e de Mal, ainda é, garantidamente, um fator do Progresso da Humanidade no mundo actual ?

Hoje, as Ciências são múltiplas, e se algumas são facilmente reconhecidas como racionais (Ciências Físicas, ou Matemáticas, por exemplo), outras são-no em menor grau, como é o caso das Ciências Humanas (Psicologia, Psicanálise, Sociologia), submetidas a diversas influências, e por vezes até a leituras ideologizadas. Mesmo as Ciências exatas parecem, às vezes, escapar à racionalidade, quando as dinâmicas atuais fazem que o seu objeto tenha, em numerosas situações, deixado de ser simplesmente a melhoria da vida humana, para buscarem a modificação da natureza, que suporta essa mesma vida (trans-humanismo, homem aumentado). Daí que se esteja a assistir a um duplo falhanço da Razão e da Ciência, que se repercute no seu corolário, o Progresso. A Razão, que governava o pensamento desde o século das Luzes, parece hoje por vezes ultrapassada. Com o evoluir do tempo, afigura-se em muitas situações, que ela deixou de estar ao serviço do Homem para, pelo contrário, colocar o Homem ao seu serviço. Ela não tem conseguido encontrar argumentos, face ao processo de mecanização, e de robotização de um mundo, que se está a construir sem diretivas precisas, segundo lógicas anónimas, e autónomas. A Razão tem-se mostrado incapaz de resistir à complexização das nossas Sociedades, impulsionada pelo vertiginoso desenvolvimento das Ciências, que progridem por si próprias, sem controle, frequentemente sem ética, e sobretudo sem que seja colocada, face a cada novo avanço, a questão essencial formulada por George Orwell:

“quando me apresentam qualquer coisa como um progresso, questiono-me antes de tudo se isto nos torna mais humanos ou menos humanos”.

Associado ao excessivo materialismo, o racionalismo foi instrumentalizado, nas nossas Sociedades Industriais e Post-Industriais, em detrimento das ideias de verdade, de autonomia, e de responsabilidade, situando-se assim na origem do desaparecimento de valores, e de significações, que davam sentido à aventura Humana, tornando-se esta não uma aventura mas um longo e penoso caminho, sem verdadeira Luz. Esta rotura entre o humano e a base simbólica que o religa aos fatos, retira toda a coerência ao nosso substrato cultural. A Humanidade esqueceu, em grande parte, o ensinamento de Aristóteles, de se interrogar sobre a finalidade das coisas, mais do que sobre o seu “Como”, tendo nós hoje de conviver com uma Ciência muito mais focalizada para as causas do que para o fim último das investigações, e para os eventuais efeitos negativos dos seus resultados. O facto de a Humanidade ter embarcado numa locomotiva sem maquinistas, altera completamente a noção do tempo, na qual o vazio da imaginação do futuro foi preenchido pela preocupação do instante, vivida num mundo no qual ao crescimento vertiginoso do saber, e à sua complexização imparável, se acrescentam transformações radicais do nosso espaço, tais como as que são introduzidas pela globalização, pelas alterações climáticas, pelo crescimento demográfico, pelas migrações, pelo desaparecimento dos equilíbrios geoestratégicos. Dinâmicas estas que reduzem substancialmente a capacidade do humano em compreender o espirito do presente, e em imaginar o futuro.

Este é o verdadeiro desafio dos Tubalcains de hoje, forjar novas ideias, que conciliem Razão com Humanismo, e que permitam subverter esta lógica subordinada à globalização e aos mercados financeiros, hoje triunfante, onde tudo parece estar a ser engolido por um presente esmagador e liquefeito, pleno para alguns, vazio para a maior parte, que destrói História e Futuro. Este é igualmente o grande desafio da Maçonaria do século XXI: através do Pensar e do Agir, projetar um futuro assente nos valores Humanistas de Liberdade, Igualdade, e Fraternidade, que nos vêm do passado, no qual o Homem seja capaz de intervir no seu destino, com responsabilidade, assegurando a repartição, de uma forma Justa, dos recursos da Natureza, e dos benefícios da Ciência. Nada disto pode ser alcançado sem ser equacionado numa nova perspetiva de Construção Social, na qual as Pedras bem trabalhadas, se justaponham a Esquadro e a Fio de Prumo, e se liguem pelo cimento da Fraternidade. E é precisamente para participarmos neste desafio, a que a Palavra de Passe, e a nossa Fé de Maçons nos deu acesso, que ouvimos repetidamente, em cada Sessão, “Tomai Lugar, meus Irmãos”.

Joaquim Grave dos Santos – R∴ L∴ Liberdade e Justiça, GOL

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