Tributo ao Maçom Luiz Gama (1830 – 1882)
Fonte: Arquivo Nacional. Retrato do jornalista, escritor e abolicionista Luiz Gonzaga Pinto da Gama (1830-1882). Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Luiz_Gama_perfil.jpg
Não tolero magistrado
Que do brio descuidado
Vende a lei, trai a justiça
– Faz a todos injustiça –
Com rigor deprime o pobre
Presta abrigo ao rico, ao nobre
E só acha horrendo crime
No mendigo que deprime
Luiz Gama
Introdução
Entre os protagonistas dos movimentos pelo fim da escravatura no Brasil, encontram-se ilustres personagens participantes nas várias frentes de lutas abolicionistas. Entre estas destacadas figuras, pode-se avultar Américo de Campos, André Rebouças, Aristides Lobo, Castro Alves, Francisco José do Nascimento, João Fernando Clapp, Joaquim Nabuco, José do Patrocínio, Maria Firmina dos Reis, Maria Tomásia Figueira Lima, Rui Barbosa, entre vários outros.
No entanto, desta plêiade de abolicionistas, sobressai-se ainda mais a figura de Luiz Gama, um negro nascido liberto e, posteriormente, escravizado aos 10 anos de idade, ao ser comercializado pelo próprio pai. Com uma incrível história de superação da condição de escravizado, da pobreza e do analfabetismo, tornou-se um dos maiores – se não o maior -símbolos do movimento pela libertação dos negros cativos.
Abolicionista, republicano, poeta, jornalista, Maçom e advogado são os atributos desse extraordinário personagem que dedicou a sua vida àquele nobre propósito. Gama tinha como norte uma sociedade sem reis e sem servidão. Para as causas por ele elegidas, utilizou-se da imprensa e da poesia como instrumentos de luta. Como advogado, defendeu os mais necessitados e os escravizados, obtendo várias centenas de alforrias.
Conhecido como “advogado dos escravos”, Luiz Gama tem o seu nome imortalizado em museus, em várias ruas e praças brasileiras, bem como recebeu – post mortem – inúmeras homenagens de consagradas entidades em reconhecimento pela sua contribuição à causa da emancipação dos escravizados, entre as quais a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Universidade de São Paulo (USP).
(Discutíveis) Dados biográficos
São poucas as informações passíveis de verificação sobre os anos iniciais da vida de Luiz Gama. O que se conhece, podendo ser considerado a sua autobiografia, foi extraído de uma carta, de 25 de Julho de 1880, que ele dirigiu ao seu grande amigo, o jornalista, advogado, magistrado, escritor e abolicionista republicano Lúcio de Mendonça, idealizador da Academia Brasileira de Letras (Dorville et al, 2018; Oliveira, 2004). No entanto, há que se ressaltar que alguns pesquisadores sobre a vida de Gama consideram que parte dessas informações registadas no documento são ficcionais e de criação do próprio missivista.
Luiz Gonzaga Pinto da Gama nasceu aos 21 dias do mês de Junho de 1830, num sobrado localizado na Rua Bângala, Freguesia de Sant`Ana, na cidade de Salvador, capital da Bahia (Souza, 2024).
Gama é fruto de uma mistura luso-africana. Segundo ele, a sua mãe, Luiza Mahin, teria sido uma negra africana liberta. Era originária da Costa da Mina, região do golfo da Guiné, que actualmente corresponde à faixa litorânea dos actuais estados: Gana, Togo, Benim e Nigéria, locais de onde vieram grande parte das pessoas escravizadas e embarcadas para as Américas.
Lembrando os que consideram que parte da biografia de Gama é ficção, tal como Lima (2009), destaca-se que a existência de Luiza Mahin não é unanimidade entre os estudiosos (Costa, 2018). De qualquer modo, segundo as palavras do próprio Luiz Gama:
A minha mãe era de baixa estatura, magra, bonita, de um preto retinto e sem lustro; tinha os dentes alvíssimos; era imperiosa, de génio violento, insofrida e vingativa; de olhos negros, altivos, no gesto grave e sombria. Era quitandeira, muito laboriosa (Gama, 1880, apud Mennucci, 1938, p. 20).
Da mesma maneira, ele também considerou que a sua mãe, pagã e recusante do baptismo e do cristianismo, por diversas vezes foi acusada de participar de revoltas de negros escravizados, entre elas a Revolta dos Malês, em 1835, um dos principais e talvez o maior levante antiescravagista da Bahia (Dorville et al, 2018). Outra rebelião na qual a sua mãe teria actuado foi a Sabinada, revolta liderada pelo médico Francisco Sabino Álvares da Rocha Vieira, em 1837 (Costa, 2018). Assim, teriam sido essas denúncias de participações em revoltas que a levaram a refugiar-se no Rio de Janeiro, deixando o garoto Luiz Gama, então com oito anos de idade, aos cuidados do pai (Costa, 2018; Souza, 2024). O que se sabe dos seus registos é que ele nunca mais voltou a vê-la.
O genitor de Luiz Gama – também segundo o filho – teria sido um fidalgo português, de identidade até hoje desconhecida, poupado pelo próprio Gama, que preferiu não o identificar para que ele não passasse à história com nome e sobrenome como o sujeito que vendeu o seu próprio filho (Molina, 2018).
Contando com uma herança que o seu pai recebera de uma tia, em 1836, de início Luiz Gama teria sido criado com muito carinho. No entanto, poucos anos depois, após ter perdido todos os seus bens, particularmente em jogos de cartas, o pai teria vendido o garoto de dez anos como escravizado para então quitar as dívidas contraídas (Souza, 2024). Este crime cometido por seu progenitor era bastante comum à época: venda de negros livres ou libertos para serem escravizados. A escravização e reescravização de negros livres eram os principais problemas para essa parcela da população. A reescravização, particularmente, era um dos principais problemas de segurança pública, tendo em vista que pessoas negras livres, tal como Gama, eram sequestradas e comercializadas num sistema de tráfico humano (Alves, 2020).
Vendido como cativo, em 10 de Novembro de 1840, o menino foi enviado – a bordo do patacho [1] Saraiva – ao Rio de Janeiro. Da então capital do Império, ele foi posteriormente enviado a Santos/SP e, logo depois, à cidade de Lorena, também na província de São Paulo. Depois disso, permaneceu como escravizado doméstico de Antônio Pereira Cardoso, na sua residência na cidade de São Paulo. O trajecto entre as cidades teria sido feito a pé, com passagens por Campinas e Jundiaí, onde também fora oferecido à venda e então recusado. A recusa era porque os escravizados vindos da Bahia, tal como ele, eram indesejados no comércio escravagista, uma vez que as revoltas ocorridas naquele estado deram aos negros baianos a imagem de rebeldes e insubmissos (Vellozo e Almeida, 2020).
Assim, uma vez tido como “refugo”, Luiz Gama passou a viver na casa do seu “proprietário”, onde aprendeu alguns ofícios manuais: consertar sapatos, lavar, engomar, passar e costurar roupas, ocupações essas aprendidas de outro negro escravizado, que também teria sido recusado por ser baiano.
Em 1847, um jovem estudante de nome Antônio Rodrigues do Prado Júnior teria vindo de Campinas para hospedar-se em São Paulo na casa do alferes Antônio Pereira Cardoso. Desse encontro foi então gestada uma amizade entre os dois jovens, um livre e outro escravizado, que possibilitou ao primeiro o ensinamento das primeiras letras e dos números ao segundo. E é este facto que, de certa maneira, daria outro rumo à incrível história de Luiz Gama.
Pode-se dizer que, paradoxalmente, aquela dificuldade do comerciante em revendê-lo foi o divisor de águas na vida no jovem negro encarcerado. Depois disso, aprender a ler, a escrever e o letramento em aritmética foi o limiar de uma existência dedicada à luta contra a escravidão.
Um ano depois, aos 18 anos, Luiz Gama foge da casa de Antônio Pereira Cardoso e a sua vida muda radicalmente de direcção.
De escravizado a rábula
Tendo aprendido a ler e a contar, Gama reúne provas incontestáveis da sua liberdade legal. Não se sabe muito sobre essas provas que ele teria obtido, mas o facto é que a partir daí ele não mais foi incomodado sobre a sua condição de homem livre (Câmara, 2021).
Uma vez conquistada a sua alforria, em 1948, Luiz Gama alistou-se na Força Pública da Província de São Paulo (actual Polícia Militar), na qual alcançou o grau de “cabo de esquadra graduado”. Permaneceu na instituição por cerca de oito anos, sendo demitido após 39 dias de prisão, por desacato a um oficial que o teria insultado. Nesse período de carreira militar, actuou transcrevendo textos para o major Benedito Antônio Coelho Neto. Da mesma época, também trabalhou por 12 anos como escrivão na Secretaria de Polícia do Estado de São Paulo e ainda como amanuense no escritório do delegado de polícia Francisco Maria de Sousa Furtado de Mendonça, que também era catedrático da Faculdade de Direito do Largo São Francisco.
No ano de 1850, Luiz Gama tentou ingressar naquela faculdade, hoje pertencente à Universidade de São Paulo (USP). Por ser negro e pobre, não conseguiu ser admitido formalmente como aluno da instituição. Não obstante a recusa, permaneceu nas instalações da academia, frequentando diuturnamente a biblioteca e assistindo a inúmeras aulas como ouvinte. Segundo Menucci (1938, p. 55, apud Ferreira, 2019, p. 112), “Furtado de Mendonça deve ter-lhe facilitado o acesso à Biblioteca da Faculdade de Direito, da qual era bibliotecário-chefe e, provavelmente, a sua biblioteca pessoal”.
Em várias ocasiões, Luiz Gama mencionou com certa amargura essa rejeição que sofreu ao tentar ingresso na faculdade, utilizando a frase “a inteligência repele pergaminhos”, explicitando-a também nos seus poemas e artigos de jornais (Francisco, 2015).
A despeito daquela rejeição, Gama adquiriu amplos conhecimentos jurídicos que lhe possibilitaram actuar, a partir de 1869, como advogado provisionado, ou rábula, na defesa legal de escravizados. À época, uma licença especial era concedida para exercer a profissão às pessoas que comprovassem competências na matéria jurídica (Ferreira, 2007).
Na Arte Real
Luiz Gama também foi activo na Maçonaria, como membro da Loja América, da capital paulista (Francisco, 2020). A Loja foi regularizada em 17 de Julho de 1869, pertencendo então à Ordem denominada Grande Oriente dos Beneditinos, tendo um papel importante nas articulações com as demais Lojas maçónicas da província para a formação de uma base política republicana (Ribeiro, 2011).
Gama foi iniciado na Loja América, em 1º de Agosto de 1870, juntamente com Américo de Campos e Américo Brasiliense. Apesar da sua iniciação ter ocorrido um ano após a fundação da Oficina maçónica, ao lado daqueles dois irmãos de Ordem e ainda de Rui Barbosa, é considerado membro fundador da Loja América, na qual também ocorreu a iniciação do então estudante de Direito Joaquim Nabuco (Ferreira, 2007). Na mesma Loja ainda foram iniciados diversos jornalistas e juristas consagrados, os quais lhe abriram as portas de grandes periódicos de comunicação.
Bem mais tarde, agora no século XX, também foi membro da Loja América o advogado, diplomata e político brasileiro, Pedro Manuel de Toledo, governador de São Paulo que esteve à frente dos paulistas na Revolução Constitucionalista de 1932.
Na Loja América, Luiz Gama ocupou vários cargos, dentre os quais o de 2º Vigilante, no ano de 1872; no ano seguinte, passou a 1º Vigilante; e, em 1874 alcançou o posto mais alto de uma Loja Maçónica, tornando-se o Venerável Mestre entre os anos de 1874 e 1881. Nela também galgou o grau 18 – Soberano Príncipe Rosa Cruz.
Na mesma instituição maçónica, Luiz Gama apresentou um anteprojecto para a emancipação das crianças escravizadas. Segundo Alves (2020, p. 30): “A Loja América, a partir das políticas propostas e aplicadas por Gama, passou a promover a libertação e educação dos escravizados, em especial crianças, coincidindo com o período da Lei do Ventre Livre […]”.
Ainda sobre esse engajamento dos maçons daquela Loja no movimento abolicionista, Silva (2007, p. 105) destaca a contribuição de Rui Barbosa, assinalando que:
[…] Rui Barbosa na Loja América oito meses depois, apresentou ao Grande Oriente Brasileiro um projecto de Abolição com o intuito de torná-lo um projecto de lei geral e obrigatória para toda a Maçonaria brasileira. O projecto composto de 12 artigos propunha entre outras coisas a educação popular destinada aos filhos de escravos.
O abolicionista
Uma vez advogado provisionado, Gama tornou-se então, naquele período, o maior especialista jurídico no tema da libertação de escravizados, fazendo do direito o seu instrumento para defender os negros cativos. Nos tribunais, com oratória distinta e largo domínio das letras jurídicas, lutou arduamente contra a escravidão, o racismo e a desigualdade.
Na sua militância abolicionista, Gama trouxe à tona uma lei sancionada em 1831 e que não estava sendo colocada em prática. A denominada Lei Feijó proibia a importação de escravizados no Brasil, bem como declarava livres todos aqueles trazidos para esse fim às terras brasileiras a partir daquela data. Além disso, previa também multa aos traficantes e prémio em dinheiro aos que denunciassem o seu descumprimento (Souza, 2020). Apesar de a lei ter sido inócua no combate à actividade dos traficantes, essa legislação foi a base para muitas das acções de liberdade impetradas por escravizados, por intermédio dos seus defensores.
Um caso particular e merecedor de registo ocorreu em 1868, quando Gama trabalhava como amanuense da polícia de São Paulo e já tinha conseguido na justiça a liberdade de mais de três dezenas de cativos. Procurado então por um negro escravizado, de nome Jacinto, vindo do interior da província, Luiz Gama assumiu o trabalho de defesa, reivindicando a liberdade do encarcerado, tendo em vista ter sido ele trazido depois da promulgação da Lei Feijó de 1831. No entanto, o juiz Antônio Pinto do Rego Freitas, suplente em São Paulo e pessoa de destaque na elite paulista, negou o pedido de Gama, sob a alegação de que o solicitante deveria tê-lo feito na cidade onde ele vivia (Stumpf; Vellozo, 2018).
À negativa do juiz o rábula respondeu duramente: atacou a decisão do magistrado nas páginas de um jornal para o qual escrevia, caracterizando-a como “ofensiva da lei”. Além de exigir que o juiz cumprisse com o seu “rigoroso dever”, ainda afirmava que tinha a coragem suficiente e a moralidade para enfrentar a autoridade e fazer com que o seu “fútil despacho” fosse revisto (Azevedo, 1999, p. 118).
O juiz Rego Freitas então abre um processo contra Luiz Gama e, graças às relações que o mesmo mantinha com o presidente da província, provoca a demissão de Gama do cargo de amanuense da polícia de São Paulo, no qual estava actuando há 12 anos, conforme já registado anteriormente. Entretanto, o revés ficou para o juiz, pois o acusado saiu vitorioso do episódio, após defender-se brilhantemente no tribunal.
O episódio foi amplamente noticiado pela imprensa e comemorado por seus sequazes. Para comemorar a conquista, os seus amigos encomendaram a Militão Augusto de Azevedo, um dos maiores nomes da fotografia brasileira na segunda metade do século XIX, o retrato de Luiz Gama, que é um dos únicos reproduzidos até hoje e que ressalta as suas características físicas de homem negro (Stumpf; Vellozo, 2018).
Gama, utilizando os seus conhecimentos sobre as leis, usou todos os meios legais na sua luta contra a escravidão. Nos tribunais da província de São Paulo, ele posicionava-se em favor da liberdade dos cativos. Também no espaço da imprensa ele utilizou todos os seus recursos na luta contra o sistema escravagista (Câmara, 2021).
Além de ter conseguido a libertação de mais de 500 escravizados, também actuou em defesa de pessoas pobres, inclusive imigrantes europeus. Desde o ano de 1869, Luiz Gama oferecia gratuitamente os seus serviços de advogado provisionado aos negros ilegalmente em cativeiros. Nos jornais para os quais escrevia, Correio Paulistano e Radical Paulistano, o abolicionista também divulgava o seu trabalho em favor da liberdade dos encarcerados (Francisco, 2018). Além disso, guardava na sua casa algum dinheiro destinado à compra de alforria de negros que vinham à sua porta clamando por liberdade (Dorville et al, 2018).
Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo. Facebook. Postagem de 25 de Junho de 2024. Disponível em: https://www.facebook.com/100064661803104/photos/888420413323344/?_rdr
Jornalista, poeta e republicano
Luiz Gama ingressou no campo das letras, à época um mundo quase exclusivo de brancos. Sob o pseudónimo de Getulino, em 1859 publicou a sua única obra “Primeiras Trovas Burlescas de Getulino”, uma colectânea de poemas líricos e de sátira social e política da sociedade oitocentista brasileira (Costa, 2018).
Neste universo essencialmente branco, ouvia-se, então, pela primeira vez, uma potente voz negra (Ferreira, 2007). E o pseudónimo por ele utilizado não era casual: “Getulino” é uma palavra que deriva de “Getúlia”, antigo nome dado pelos romanos a uma região da África do Norte, que corresponde hoje a áreas litorâneas da Tunísia e Argélia, habitada pelos “getulos” na Antiguidade. Assim, o autor, logo de cara, explicitava a sua origem africana (Ferreira, 2019).
Sobre esta obra, Santos (2014, p. 24) assinala que:
Trovas Burlescas de Getulino, mais que um reflexo da sociedade paulista, auxiliava na construção de novas reflexões a respeito das relações sócio raciais. A sua fonte de inspiração era a experiência social paulistana, sobre a qual Luiz Gama lançava as suas enunciações projectivas e de denúncias aos costumes e valores vigentes. Esta antologia não se circunscrevia apenas a poemas de ordem racial, compunha-se com os mais variados temas, da borboleta aos valores sociais do século XIX.
Considera-se que a publicação do seu livro foi um marco na sua vida, pois inseriu-o no mundo das letras, criando a oportunidade para ele expressar publicamente os seus ideais e sentimentos. Foi por seus versos que as suas lutas, propostas e projectos políticos tornaram-se evidentes (Câmara, 2021).
Satirizando factos corriqueiros e de ordem política, ele utilizou esse recurso de escrita como instrumento de crítica política, de costumes ou de crítica social, emprestando grande valor para a campanha abolicionista. Nos seus versos, ele denunciava uma sociedade inflexível, que assentava obstáculos aparentemente impossíveis de serem vencidos pelos negros, que não tinham a sua cidadania e liberdade reconhecidos (Câmara, 2021).
Como jornalista, Gama também teve uma actuação intensa. Junto com o caricaturista Ângelo Agostini lançou Diabo Coxo, um semanário informativo, crítico e humorístico. No ano de 1869, fundou e tornou-se o redactor do Radical Paulistano, órgão do Partido Liberal Radical paulista, redigido por ele e também por Américo de Campos, Rui Barbosa, Américo Brasiliense, dentre outros. O jornal circulou entre Abril e Novembro daquele ano, um dos períodos mais efervescente da política liberal (Santos, 2023).
Ainda sobre o jornalista Luiz Gama, regista-se que ele colaborou com os meios de comunicação o Cabrião, A Província de São Paulo, Correio Paulistano, Gazeta Paulistana, entre outros. Os seus textos eram também replicados em veículos de comunicação de outros estados (Gomes, 2018). Em 1876, tornou-se proprietário e redactor de O Polichinello, um semanário humorístico (Domingues, 2016).
Os seus artigos em jornais de fins da década de 1880 revelam que as suas acções em prol da liberdade dos negros não se restringiam apenas à utilização da lei, tendo em vista que a publicidade e o sentido conferidos por ele às lutas abolicionistas atingiam os grandes centros urbanos e também os lugarejos mais distantes, aguçando assim os conflitos nas áreas de maior concentração de escravizados (Brito, 2014).
Além de abolicionista, Luiz Gama era também republicano convicto. Assim, defendia que a instauração de uma República deveria vir, necessariamente, acompanhada da abolição dos negros. A sua convicção sobre isso era tamanha que ele teria abandonado a Convenção de Itu, de 1873, ao encontrar cafeicultores contrários à emancipação dos escravizados na fundação do Partido Republicano Paulista (Nonomura, 2014).
A morte
Luiz Gama, com a saúde bastante prejudicada pelo diabetes, faleceu em 24 de Agosto de 1882, aos 52 anos de idade, no auge da sua popularidade, que ultrapassava as fronteiras de São Paulo. A comoção foi geral, dado ao grande respeito que gozava na sociedade (Francisco, 2020). No seu sepultamento, o caixão que o transportava foi carregado por populares, desde a sua residência, no bairro do Brás, até o cemitério da Consolação, com o comparecimento de, aproximadamente, 4 mil pessoas, o que à época correspondia a 10% da população de São Paulo.
Uma multidão composta de negros e brancos, escravizados e intelectuais, ricos e pobres acompanhou-o nesse trajecto. Juízes, advogados, jornalistas e o vice-presidente da província também participaram do funeral. A sua morte foi amplamente divulgada pela imprensa de todo o país. Posteriormente, em 1883, um ano após a sua morte, ocorreu uma primeira marcha cívica ao seu túmulo, evento esse que se repetiria por trinta anos.
E o seu amigo Raul Pompéia (1982), na época ainda estudante de Direito, foi quem escreveu-lhe em homenagem uma belíssima crónica que bem o definiu:
Luiz Gama fazia tudo: libertava, consolava, dava conselhos, demandava, sacrificava-se, lutava, exauria-se no próprio ardor, como uma candeia iluminando à custa da própria vida as trevas do desespero daquele povo de infelizes, sem auferir uma sombra de lucro, entendendo que advogado não significa o indivíduo que vive dos jantares que lhe paga Têmis; entendendo que deve-se fazer um pouco de justiça grátis. E, com esta filosofia, empenhava-se de corpo e alma, fazia-se matar pelo bem. O herói…
Pobre, muito pobre, deixava para os outros tudo o que lhe vinha das mãos de algum cliente mais abastado; doente, moribundo, encontrava no âmago da sua natureza uma reserva instintiva de energia, e ia gastá-la em proveito da justiça e da beneficência oculta, avessa à fanfarra das reclames, sublime. Tudo isto conglobava-se-me no espírito, como uma grande esfera de luz, sobre a qual levantava-se a figura nobre, irresistível do bom Luiz Gama. Havia para ele como que um trono na minha alma.
Homenagens póstumas
Após o seu falecimento, ocorrido em 1882, Luiz Gama foi homenageado postumamente pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que lhe concedeu, em Novembro de 2015, o título de advogado, reconhecendo então a sua significativa contribuição na luta por direitos e cidadania, bem como para a História do Direito brasileiro (Mota, 2022). O seu tataraneto Benemar França, de 68 anos, teria recebido a homenagem em nome do seu antepassado (Souza, 2020).
A USP também homenageou Luiz Gama, concedendo-lhe o título póstumo de Doutor Honoris Causa, em 29 de Junho de 2021. A cerimónia de entrega da condecoração aconteceu no dia 19 de Novembro do mesmo ano, quando a comenda foi entregue a Walter França, filho do tetraneto de Gama, Benemar França, naquela data já falecido. Segundo a universidade, a distinção está ancorada na importância do agraciado para a história recente do Brasil e na sua excelência enquanto personalidade intelectual.
Em 16 de Janeiro de 2018, também foi promulgada pelo então Presidente da República Michel Temer a Lei nº 13.629, que declarou Luiz Gama como Patrono da Abolição da Escravidão do Brasil. Além disso, na mesma data, também foi publicada a Lei nº 13.628, que o inscreveu no Livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília.
Ainda em sua homenagem, erigiu-se uma herma no Largo do Arouche, uma praça tradicional da região central e considerada património cultural da cidade de São Paulo. A obra de 1931 é de autoria de Yolando Mallozzi, pintor e escultor brasileiro de origem italiana. Trata-se do primeiro monumento público na capital paulista a prestar homenagem a uma liderança negra.
Assim, no domingo, dia 22 de Novembro de 1931, foi perpetuada naquela praça a memória do grande advogado Luiz Gama. As homenagens contaram com ampla cobertura da imprensa, tendo início às 8h da manhã, na igreja dos Remédios, com a celebração de uma missa em intenção das almas de todos os abolicionistas. Após esse acto religioso, um cortejo acompanhado pela corporação musical da Guarda Civil dirigiu-se ao Largo do Arouche, onde reuniram-se autoridades estaduais e municipais, bem como grande número de pessoas, especialmente negras, vindas do interior do estado (Domingues, 2016).
Figura 3 – Herma a Luiz Gama.
Fonte: Mike Peel, 2017. Yolando Mallozzi, 1931. Monumento a Luiz Gonzaga Pinto da Gama. Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Caminhada_Noturna_30_November_2017_26.jpg
Considerações finais
Gama foi um ex-escravizado que se tornou letrado, um dos raros intelectuais negros brasileiros do século XIX, bem como o único negro autodidacta e com passado cativo. Segundo Ferreira (2019, p. 111): “Luiz Gama, lembravam os seus contemporâneos, tinha sempre um livro nas mãos. Desenvolveu não só o hábito como a paixão irrefreável pela leitura mesmo em situações adversas.” Além disso, foi um homem de princípios e de opiniões muito raras, tanto na sua época como também em tempos actuais.
Tendo falecido antes da assinatura da Lei Áurea (1888), Luiz Gama não presenciou o resultado final do seu combate às desigualdades sociais e a concretização do seu sonho de emancipação dos cativos. A sua morte aconteceu seis anos antes da Abolição e sete anos antes da Proclamação da República.
No entanto, as ideias de Luiz Gama e o seu comprometimento como jornalista e rábula na defesa da liberdade dos escravizados transformaram-no num paradigma dos movimentos pela igualdade racial; ele tornou-se um ícone de resistência, de sacrifício e de luta pela causa abolicionista. Assim, a sua história de superação e a sua envergadura nas lutas antiescravagistas constituem-se em referência ímpar para todos aqueles que se dedicam à edificação de uma sociedade mais justa, mais humana e igualitária.
Rubens Pantano Filho
| Mestre Maçom da ARLS Cedros do Líbano II (GOB-SP). Oriente de Valinhos/SP – Brasil. Presidente da Academia Campinense Maçónica de Letras. E-mail: pantanof@uol.com.br. |
Notas
[1] Barco à vela de dois mastros, tendo na proa uma vela redonda e na popa uma do tipo latina. Começou a ser utilizado no final do século XVI, sendo utilizado para o transporte de cargas e reconhecimento.
Referências
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- FERREIRA, Lígia Fonseca. Luiz Gama autor, leitor, editor: revisitando as Primeiras Trovas Burlescas de 1859 e 1861. Estudos Avançados, São Paulo, nº 33 (96), p. 109-135, 2019.
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