Sobre as lojas (maçónicas) de estudos e pesquisas (III)
Introdução
Pinheiro (2025) conclui afirmando que “[…] o P, da pesquisa, em LEP, será abordado na próxima edição” e, à guisa de esclarecimento, a partir de uma das ferramentas mais simples, a decomposição dos termos, o que ora se propõe é introduzir no universo das Lojas (maçónicas) de Estudos e Pesquisas o leitor menos familiarizado [1] com o tema; daí porque tudo tem sido abordado ainda em carácter preliminar, a ser complementado nas próximas edições desta Série. Assim, após os esclarecimentos preliminares sobre o E, de Estudo, sucede, agora, o acerca do P, de Pesquisa; na oportunidade o objectivo principal foi acentuar que a acepção ordinária, habitualmente utilizada no âmbito das Lojas Simbólicas (p. ex., para a produção de Peças de Arquitectura) é insuficiente para atender as necessidades de estudo no contexto e à luz dos propósitos e desafios de uma LEP. Ademais, importa também esclarecer que se esta abordagem trata os termos como se compartimentos estanques, o faz antes como um recurso didáctico, pois na prática o Estudo e a Pesquisa são concomitantes, se confundem e se retroalimentam a cada instante, são como irmãos siameses, o que então justifica, doravante, a referência simultânea ao E&P.
Assim, por exemplo, é o estudo mediante a leitura de variados textos – recorro a este argumento porque é o caso mais frequente na Maçonaria – que oportuniza a descoberta de divergências e mesmo contradições entre os autores, o que de pronto suscitaria (ao leitor perspicaz e curioso) a realização de uma pesquisa para esclarecer: afinal, quem está correcto e o que poderia dar sustentação a esta afirmação?
- Se ambos (pelo menos aparentemente), o que os teria levado a conclusões distintas?
- O facto de a mesma questão ter sido abordada a partir de perspectivas diferentes ainda que ambas correctas, como seria o caso de terem referido à Maçonaria (genericamente), porém a partir de quadros de referência distintos – um a partir do REAA [2], enquanto o outro pelo olhar do RER [3]?
- Ou o motivo da divergência pode ser atribuído às diferenças metodológicas? Ambos entrevistaram maçons, porém de Graus e experiências distintas, enquanto um colheu informações junto aos Aprendizes e Companheiros, o outro o fez junto aos Mestres Instalados e já detentores dos Altos Graus); ou ainda, mas sem exaurir o espectro de possibilidades;
estariam ambos os autores correctos, assim como os respectivos resultados de pesquisa, porém cada qual à luz do conhecimento disponível na ocasião em que firmaram posição. Tal se verificaria, por exemplo, num estudo sobre a aurora do cristianismo, enquanto o primeiro teria se baseado em informações colhidas na Bíblia católica e nos textos produzidos no período conhecido como patrística, o segundo já teria se valido, além das primeiras, também das mais recentes descobertas, como as ocorridas em Qumran – mais referidos como Manuscritos do Mar Morto – e no Alto Egipto (Biblioteca Copta de Nag Hammadi).
A busca pelas respostas a quaisquer dessas perguntas, o que em outros termos corresponde a realizar uma pesquisa, requer, inexoravelmente, estudos complementares que, então, se retroalimentam – E&P, E&P e assim sucessivamente. Finalizada a primeira etapa – tomando como exemplo uma das questões acima -, ao constatar que os Ritos são como lentes que a depender do grau e do formato mostram diferentes aspectos da realidade (efectiva ou percebida), o leitor de espírito ainda mais inquieto será tomado por novos questionamentos: o que então será dado a perceber se as lentes forem trocadas por outras, a exemplo do Rito de York, do Moderno, do Adonhiramita, etc.? Bem como: afinal, existe, e se existe, qual é a essência da Maçonaria, o elemento invariável que, independentemente do Rito, sempre se revelará por igual, permanente, constante? E assim o ciclo de E&P pode se estender indefinidamente, pois cada resposta pode suscitar questionamentos que até então não poderiam ter sido feitos porque à espera dos esclarecimentos recém trazidos à lume.
Feitas estas observações, ainda antes de tecer as primeiras considerações acerca do “P”, importa desfazer um mal entendido e esclarecer [4] o que não é “a Pesquisa”: definitivamente não é meramente colher informações, seja na forma de entrevistas (espontâneas ou dirigidas) ou mediante algum instrumento de colecta, a exemplo de um questionário, filmagens ou outros. Estas correspondem tão somente a uma das etapas da pesquisa e são antecedidas de outras que, aos poucos, serão então esclarecidas neste e nos demais textos da Série. Chama-se ainda à atenção para o facto de que as características que identificam a pesquisa e sobre o pesquisar informam muito sobre o perfil do pesquisador, o que ora significa dizer: características que devem ser considerados por ocasião da selecção dos integrantes das LEP, mesmo que mediante convite. Sem dúvida que a amizade e o espírito fraterno são importantes para assegurar a qualidade (controle das paixões, paciência, harmonia, fidalguia, etc.) num ambiente de trabalho que, se de um lado requer estreita colaboração, de outro, em razão da natureza do ofício predominam debates que podem levar à fronteira das emoções, à beira de acaloradas discussões; todavia, se aquelas (amizade e fraternidade) de um lado podem ser consideradas condições necessárias, de outro, são insuficientes.
LEP – elementos conceituais & estruturais (preliminares)
E então, aonde e quando tudo começa? Começa pelo reconhecimento da existência de dúvidas, de perguntas que por ainda não terem sido respondidas geram um certo desconforto, um mal-estar, ainda que essencialmente intelectual. De regra, só os olhos naturalmente mais atentos, dos curiosos e de espírito céptico, conseguem captar as evidências, por vezes ténues sinais, da incompletude; o que não significa, em absoluto, que os olhares não podem ser treinados. Questionar e duvidar são comportamentos não só inerentes como desejáveis ao pesquisador, o que por vezes traz dissabores provocados por aqueles acostumados à aceitação inconteste das “verdades” contidas nos trabalhos, como se fossem evidentes por si mesmo e igualmente para todos. A propósito, a própria noção de “verdade” deve ser posta em perspectiva pois serão absolutamente distintas conforme vista por um Maçom praticante do RER ou do Rito Moderno (Pinheiro e Piva, 2025) – o tema merece um texto exclusivo para abordar, no contexto da Maçonaria, a conciliação (na hipótese de que haja distanciamento) entre a “verdade revelada” e a “verdade da razão”.
Eventualmente a resposta a uma dúvida pode ser a primeira etapa para a solução de um problema real, que efectivamente tem acometido a Loja ou mesmo a Potência, a exemplo da evasão, da baixa frequência dos Quadros da Loja, da inadimplência, de persistência de conflitos internos, da “baixa qualidade dos trabalhos” [5], etc. Assim, por exemplo, responder à pergunta “Por que a frequência tem sido tão baixa?”, mediante uma pesquisa, pode levar à identificação das medidas necessárias à solução do problema.
Conforme já prenunciado, são 2 (dois) os principais caminhos para identificar as oportunidades de pesquisas, isto é: as dúvidas ainda à espera de respostas, cujas buscas configuram, então, os projectos de pesquisas:
1 – seguir a trilha da literatura:
1.1 – ler com razoável atenção variadas obras sobre o mesmo tema não só consolida (eventualmente até confirma) determinadas ideias, como também leva à identificação das lacunas (questões ainda não estudadas) [6] e também das divergências entre os estudiosos – tópicos ainda em disputa – as 2 (duas) últimas efectivos convites à pesquisa. Por exemplo, quanto às origens da Maçonaria, conforme seja lido Cooper (2009), Stevenson (2009), Preston [7] (2017), Haywood (2023) [8], Gould [9] (2023) ou Scott [10] (2023), a resposta encontrada será diferente. A questão, por ora, não é responder se este ou aquele autor está ou não correcto e com a razão, até porque se por vezes divergem sobre alguns, concordam em outros tantos pontos, mas antes deixar claro que só aquele que estuda e pesquisa (sim, a leitura-estudo é uma forma de pesquisa – bibliográfica), lê para além de um livro, identifica os aspectos mencionados – vide, entre tantos, Pinheiro (2021). Por oportuno, cabe lembrar o que disse Borges (apud Carvalho, 2015, p. 51): “Para compreender um único livro, é preciso ter lido muitos livros” [11], afirmativa que no caso da Maçonaria, dada a sua constituição histórica-filosófica-simbólica, adquire importância singular;
1.2 – muitas vezes os próprios autores ao promoverem a autocrítica do trabalho realizado já apontam para as novas oportunidades de pesquisa, inclusive com expectativa de continuidade complementar ao E&P realizado. A propósito, esse é um dos elementos que em geral permite distinguir os textos académicos-científicos (um dos eventuais produtos de uma LEP) [12] dos demais: entre os primeiros, por exemplo, é habitual encontrar (1) em meio ao debate estabelecido com os autores consultados, também a crítica à bibliografia (embora sabidamente existente nem sempre é possível acessar os textos mais actualizados; o mesmo pode ocorrer com as fontes directas, o que obriga recorrer às indirectas; assim como com o texto no idioma original, o que leva ao uso da sua tradução, etc.), (2) do mesmo modo às condições de trabalho (factores intervenientes – greves, acidentes ou incidentes, cortes nos recursos, etc.) que tenham impedido seguir à risca o planeamento, sobretudo o metodológico, da pesquisa; etc. Por exemplo: foram encaminhados 500 questionários, mas apenas 100 retornaram, e destes 20 não puderam ser aproveitados em razão de equívocos cometidos no preenchimento; ou ainda: embora quando do envio tivessem sido observadas as proporções entre os 3 (três) Graus, maioritariamente apenas os Mestres responderam. Contingências a exemplo dessas, sem dúvida que nos textos académicos-científicos serão reportadas pelo autor e, mais importante ainda: não podem ficar à margem das considerações do pesquisador que toma essas pesquisa como fontes para o seu próprio E&P. Um caso notório diz respeito a um dos E&P mais citadas no Brasil, a “Maçonaria no Século XXI”, conduzida por K. Ismail e que, apesar das ressalvas metodológicas destacadas pelo próprio autor, são inúmeros os casos daqueles que a citam e, por não observarem as ressalvas, promovem generalizações indevidas (Pinheiro, Dutra e Mendes; 2023) na apresentação da Maçonaria e do comportamento dos maçons. Por fim, a oportunidade de pesquisa reside, então, na superação das limitações e dificuldades apontadas pelos pesquisadores antecedentes, eventualmente citados e referidos;
1.3 – os E&P bibliográficas também podem levar à descoberta de oportunidades no que refere à estratégia metodológica, senão inusitada, não usual, como foi o caso de Pinheiro, Dutra e Mendes (2023) que observaram a Maçonaria a partir do contraste entre duas perspectivas: o olhar das pesquisadoras não-Iniciadas vs. os dos maçons; bem como de Pinheiro e Piva (2025) que promoveram um estudo de Ritos comparados (Regime/Rito Escocês Rectificado vs. Rito Moderno) através de uma inovadora abordagem quanti-qualitativa; por fim, mas sem exaurir a matéria,
1.4 – ao ampliar o E&P bibliográfica para além do tema específico é possível que, por analogia e transposição de domínios de conhecimentos, sejam desveladas oportunidades até então impensadas. Entre tantos, 2 (dois) exemplos:
1.4.1 – Nicolelis, brasileiro e um dos mais proeminentes neurocientistas da actualidade revela a fonte de um dos seus principais insights:
[…] peguei-me folheando um livro de astronomia […] de repente deparei com uma ilustração que imediatamente capturou a minha imaginação: a imagem tridimensional de fontes de rádio de um sector do universo […] quanto mais eu inspeccionava aquele gráfico, mais sentia que idêntica abordagem gráfica poderia ser aplicada ao estudo da actividade eléctrica cerebral (2011, p. 155-6);
1.4.2 – Taiichi Ohno, japonês, foi o engenheiro responsável técnico pela criação do exitoso Sistema Toyota de Produção [13] (STP) automotiva. Em razão da sua excelência o STP foi exportado para todo o mundo e hoje encontra-se difundido nas mais diversas indústrias; todavia, chega a surpreender que, de acordo com testemunho de Ohno, ele tenha encontrado a sua inspiração-chave ao visitar um supermercado nos Estados Unidos. Por oportuno, enquanto a produção automotiva, na classificação económica, integra o Sector Industrial, os supermercados se alinham aos demais ramos do Sector de Serviços;
1.5 – finalmente, para aonde apontam 1.1, 1.2, 1.3 e 1.4?
1.5.1 – Em primeiro lugar, sem dúvida para o facto de que não se faz pesquisa sem muita leitura prévia, atenta e sistematizada. Implicações naturais, efectivas conditio sine qua non: muita dedicação, disponibilidade de tempo, recursos (biblioteca física ou virtual), domínio de ferramentas de pesquisa, entre outras. Muitas vezes livros e mais livros são lidos até que se encontre o que efectivamente se está à procura; já em outras tantas, apenas algumas páginas de um livro volumoso atendem ao interesse mais imediato – o dito popular de que “é só no dicionário que o sucesso antecede o trabalho” bem sintetiza o quotidiano do pesquisador. Paciência, perseverança e tolerância com o fracasso andam de mãos dadas junto aos pesquisadores, mas se de cada fracasso for extraída uma lição, a cada etapa o estudioso se sentirá mais fortalecido, melhor preparado para atingir os objectivos;
1.5.2 – frente a esta realidade, uma prática usual entre os Irmãos recém chegados à Ordem, a de solicitar trabalhos [14] para orientar, como fonte, os seus próprios trabalhos, é impensável no quotidiano de uma LEP. Também aqui vem a propósito um antigo provérbio, cuja autoria e origem são controversas: “Dê ao homem um peixe e ele se alimentará por um dia. Ensine um homem a pescar e ele se alimentará por toda a vida”, o qual, infelizmente, na prática pode ser complementado por outro: “o hábito do cachimbo deixa a boca torta”. As boas intenções de alguns Irmãos favorecem aqueles que não têm outros objectivos que não seja o de escalar, no menor tempo possível, os Graus do Rito. Para aprender a separar o joio do trigo (as obras e os autores) não há outro modo que não o de o próprio interessado realizar as pesquisas bibliográficas, mesmo que ainda em carácter preliminar – mais do que os conteúdos objectos precípuos do E&P, o que mais importa neste momento da curva de aprendizagem é a experiência de passar pelo processo: aprender a procurar, encontrar, apreciar, avaliar, descartar ou não, refinar a procura, fazer autocrítica, pesquisar, ler, pesquisar, etc. Ao final, todos os que se submetem a esse processo saem mais amadurecidos, enriquecidos;
1.5.3 – separado o joio do trigo, para evitar anacronismos e apreender o verdadeiro significado (porque o originalmente) atribuído a determinados conteúdos, sobretudo porque a maioria dos acontecimentos e personagens referentes à Ordem guardam algum vínculo com a História e/ou a interpretação simbólica, não raro se faz necessário proceder a uma efectiva exegese: voltar ao tempo-espaço do autor num esforço para a melhor compreensão das suas motivações, o público-alvo das suas mensagens, eventualmente cogitar sobre os seus interesses ocultos e, não menos importante, o significado das expressões e palavras utilizadas em razão do dinamismo intrínseco à semiótica. Ora, quem já é versado, por exemplo, em História ou Filosofia, pela compreensão que já detém provavelmente não terá a mesma necessidade que os demais no sentido à expansão da sua pesquisa bibliográfica, mas se os últimos não a promoverem (em razão dos trabalhos-sínteses generosamente recebidos) [15] é bastante provável que tenham o entendimento comprometido; o que então esclarece não só a alusão a Borges (item 1.1) como a declaração de com ele concordar; por fim,
1.5.4 – espera-se que tenha ficado claro que a Pesquisa efectivamente se confunde com o Estudo, porque na fase inicial nem sempre admite o foco, até mesmo o contrário, pode adquirir um ímpeto mais amplo, de carácter exploratório, do que pode resultar na completa reconfiguração das ideias preliminares; mas superados os primeiros esclarecimentos o foco adquire proeminência. Creio que também já tenha sido dado a perceber o quanto a pesquisa bibliográfica (que atende a vários objectivos) comporta nuances, razão pela qual o tema será retomado e expandido nos próximos números desta Série;
2 – observar os fenómenos. Para que não se perca no objectivo deste segundo tópico: trata-se da continuidade, vista a consulta à bibliografia, das formas de identificação de oportunidades merecedoras de E&P, por vezes também referidas como problemas de pesquisa. O leitor mais cioso da precisão dos significados, talvez incomodado já tenha percebido que, no contexto, a expressão “problema” tem acepção distinta, mas nem tanto, do senso vulgar; afinal, a ignorância (das causas, das motivações, acerca do modus operandi, da razão de ser, etc.) é, em quase todos os Rituais, apontada como o problema número um a ser atacado pelos Irmãos de Ordem; portanto, para eliminar o problema (ignorância), nada mais oportuno do que o E&P. Dito isto:
2.1 – toda Loja Simbólica (LS) é um vasto espaço à observação continuada que da informalidade pode ascender, à medida do interesse, à formalização, isto é, os registros desde então devem ser metódicos, obedecer a um protocolo, se já não, a ser estabelecido. Exemplos:2.1
2.1.1 – o primeiro de todos os fenómenos é constituído pela própria história da LS. As actas e os documentos fundadores por certo que constituem as fontes primárias, têm o selo oficial, mas não são os únicos e quiçá nem mesmo os mais importantes a depender das circunstâncias: a colecta dos depoimentos dos Irmãos fundadores pode ser organizada na forma de uma narrativa enriquecedora ao estabelecer o que pode ser chamado de “o espírito da Loja”, ocasionalmente um poderoso elemento aglutinador, núcleo de um sentimento de pertencimento, de orgulho positivo, dos princípios e valores a serem preservados, daí programaticamente transmitidos e, por que não (?), celebrados. Penso que um dos primeiros e mais importantes projectos das LEP deveria ser motivar e colaborar activamente na elaboração dos memoriais de cada LS da Potência à qual estão jurisdicionadas; e na sequência reunir, acompanhar e, periodicamente, analisar o inventário – é provável que o agrupamento por cidade, região, Rito ou qualquer outra variável revele traços inesperados, efectivos achados de pesquisa com valor inestimável porque exclusivos. Suponha que um pesquisador hipotético necessite de informações históricas sobre a Maçonaria brasileira, inclusive acerca das suas idiossincrasias regionais já que frente a um país continental. Dado o nosso desenho institucional [16], a quem ele provavelmente recorreria? Suponho que às LEP. Pergunta-se: elas estão preparadas para atender e colaborar com esse pesquisador imaginário que, inclusive, poderia demandar desde o exterior? Se, não, está aí uma oportunidade, tanto de pesquisa quanto para os primeiros passos no sentido à criação de uma LEP. Ser o centro de referência histórica e cultural da maçonaria (nacional, regional, por Rito, etc.), a meu juízo, deveria constar como Missão institucional nos Estatutos das LEP. As Lojas já mais amadurecidas e estruturadas deveriam, então, almejar ser os centros de excelência, polos aglutinadores, motivadores e irradiadores de conhecimento. Estabelecida esta Visão, quiçá um ponto de partida, do qual se ressalta senão a necessidade a conveniência do trabalho articulado entre as LS e as LEP (que, lembre-se, são elementos de um conjunto maior – o ecossistema da maçonaria), segue-se, então a identificação de outras possibilidades de E&P a partir da célula fundamental, a LS;
2.1.2 – perfil biográfico do Quadro: idade, formação escolar, estado civil, experiência profissional, dados familiares, participação em outras Associações, etc. são registros pessoais que individualmente pouco informam, mas quando processados em conjunto (nos termos da legislação vigente, sem ferir a privacidade) podem oferecer à Administração das LS valiosas informações para aprimorar a condução dos trabalhos;
2.1.3 – trajectória do Quadro: datas de ingresso, progressão de Grau, exercício de cargos, frequência, trabalhos apresentados (tema, data), etc.;
2.1.4 – selecção e sindicâncias: quem, indicado por quem, sindicado por quem, quando, aonde, circunstâncias, eventos singulares, apreciações, reunião de aprovação, etc. Quais podem ser consideradas bem sucedidas, haveria alguma explicação subjacente?
2.1.5 – Também aos registros referentes ao dia-a-dia das LS, mas sobretudo o detalhamento das sessões magnas, em especial as dedicadas à progressão de Graus: quem fez o quê, quais os acertos e os erros cometidos – em que momento, por quem, alguma intercorrência motivadora, etc.? É importante (mais uma vez) ressaltar: o objectivo não é identificar “culpados”, constranger, mas antes aperfeiçoar os trabalhos, chegar à excelência.
2.2 – Para aonde apontam as sugestões detalhadas de 2.1?
2.2.1 – na instância da LS, constituídas as memórias, no primeiro momento e se devidamente resgatadas, isto é, com ânimo de E&P, elas mostrarão uma realidade que na maioria das vezes é desapercebida no quotidiano, mas que também é um efectivo diagnóstico para orientar Planos de Acção no sentido à superação dos equívocos cometidos e das dificuldades eventualmente constatadas, seja no que refere aos trabalhos [17] individuais apresentados (2.1.2 e 2.1.3 – que, senão na totalidade, na grande maioria das vezes são tratados de forma isolada, quando deveriam ser apreciados em perspectiva evolutiva e complementar) seja no que tange à liturgia e à ritualística (2.1.5); sobre estas vide, por exemplo, Pinheiro (2025a). O E&P sobre os seus próprios hábitos, em exercício de autocrítica, se seguido de iniciativas para as correcções e aprimoramentos poderia levar as LS ao nível de excelência, de modelo às mais novas: e então, a partir do “zero erro” e do encantamento dos Irmãos, os efectivos objectivos da Ordem poderiam ser perseguidos;
2.2.2 – na escalada, um degrau acima, mediante o cruzamento dos registros acumulados (isto é, de 2.1.1 a 2.1.5) um novo horizonte de possibilidades seria descortinado; por fim,
2.2.3 – um passo mais acima, com o processamento dos registros mantidos exclusivamente pelas Potências possibilitaria uma visão panorâmica, elevando ainda mais o conhecimento da realidade e, por consequência, a identificação de oportunidades de E&P de toda natureza, da Gestão em geral (Planeamento Estratégico, etc.) à capacitação e ao aperfeiçoamento focados nas necessidades mais específicas, pontuais, ao invés da promoção de eventos genéricos e universais (cujos resultados são difusos) a exemplo dos direccionados à Formação de Lideranças para o Séc. XXI.
Em sequência à análise iniciada a partir da decomposição dos termos que constituem a espécie Estudo e Pesquisa do género Loja Maçónica (Pinheiro, 2025), neste texto foram tecidas as considerações preliminares no que refere ao P – pesquisa. Em síntese: primeiro procurou-se deixar clara a simbiose existente entre o Estudo e a Pesquisa, o que justifica, porque mais adequado, o uso da expressão E&P; na sequência foram apresentados os caminhos mais conhecidos que levam à identificação de oportunidades, questões ou problemas, seja na literatura ou a partir do quotidiano das Lojas, que podem orientar os projectos de pesquisa – desta última importa destacar que as LS, embora aparentemente ainda que não tenham se dado conta, não só são efectivos celeiros de motivações ao E&P, como seriam, elas mesmas, as primeiras e maiores beneficiárias dos resultados obtidos; reflexão análoga se estende às próprias LEP e às Potências.
Por fim, salvo melhor juízo, a julgar pelo meu horizonte de observação, que se de um lado é fisicamente restrito, de outro é sobremodo ampliado a partir do E&P na literatura específica, as LEP têm actuado não só de modo independente, mas também apartado das LS, razão pela qual para muitos ainda têm a sua existência e finalidade desconhecidas. Como produto desse distanciamento formam-se zonas de conforto protegidas pelo “desconhecimento” [18] da realidade das LS, aonde, não pairam dúvidas, predomina a falta da cultura de E&P – praticamente inexistente [19], quase como se desnecessária. Quando o contrário deveria ocorrer, pois o que se passa nas LS e mesmo nas Potências são retratos de uma realidade que poderiam fomentar inúmeros projectos de E&P que poderiam ou não ter as LEP à frente. No vácuo de uma regência, espontânea ou induzida, cada qual toca o instrumento e ao ritmo da sua preferência, em verdadeiro diletantismo voluntarista e encastelado, aonde, entre outros, o E&P sobre Maçonaria & Religião sempre tem lugar assegurado independentemente da sua efectiva necessidade e contribuição à realidade fática das LS; e considerando que desde há tempos não há facto novo que suscite reconsiderar posicionamentos já bem estabelecidos, consolidados entre os estudiosos, neste caso não há muito a relatar que não possa ser considerado “mais do mesmo”, ainda que eventualmente algum resíduo possa ser “descoberto”, com maior probabilidade se o E&P se afastar da amplitude e focar em determinadas realidades – estudos de caso. Destarte, este texto não apenas procurou acentuar o vínculo entre E&P, mas também o imperativo de as LEP actuarem igualmente em simbiose com as LS, bem como junto (o que não implica subordinação intelectual) à Administração das Potências. Conforme já declarado, surpreende que as Administrações das Lojas e das Potências ainda não tenham acordado para a relevância e os benefícios que poderiam lograr se trabalhassem junto às LEP.
Ivan A. Pinheiro
| M. M., Pesquisador Independente, e-mail: ivan.pinheiro@ufrgs.br. Porto Alegre-RS, 24.04.25. O autor não só agradece a leitura e as considerações do Irmão Lucas V. Dutra, Mestre Maçom do Quadro da ARLS Presidente Roosevelt, 75, Or. de São João da Boa Vista, jurisdicionada à GLESP – Psicólogo, Professor Doutor em Psicologia, Especializado em Maçonologia (UNINTER), e-mail: dutralucas@aol.com, como também reafirma a sua responsabilidade pelo conteúdo, erros e omissões remanescentes. |
Notas
[1] Se justificam estas iniciativas porque, em levantamento preliminar, ainda que involuntário, ficou claro que mesmo entre os Iniciados há desconhecimento sobre o que são e o propósito das LEP.
[2] Rito Escocês Antigo e Aceito.
[3] Regime (Rito) Escocês Rectificado.
[4] Porque já fruto de alguns desapontamentos.
[5] Posteriormente este construto será melhor esclarecido.
[6] Esta série (LEP) teve início a partir da percepção do autor da praticamente inexistência de trabalhos (públicos) sobre o assunto, aliada à sua constatação de que entre os Irmãos reinava alguma confusão sobre o mesmo – o que são as LEP, quais os objectivos, como operam, etc.
[7] 1742 – 1818.
[8] Livro originalmente publicado em 1923.
[9] 1836 – 1905.
[10] Pseudónimo de Lucy E. Baxter (1837 – 1902).
[11] Isto é particularmente verdadeiro no caso da Bíblia, ou melhor, das Bíblias, assim como do Alcorão, textos que exigem, pelo menos, o conhecimento de História.
[12] É sobremodo recomendável que o leitor que deseje ampliar o domínio sobre o assunto, leia e contraste textos a partir de diferentes veículos de divulgação maçónica. À guisa de sugestão, tomem como base de textos académicos-científicos os veiculados pela Revista Ciência & Maçonaria (C&M), disponível em https://www.cienciaemaconaria.com.br/index.php/cem, e também pela Revista de Estudos Históricos da Maçonaria Latino-Americana e Caribenha mais (REHMLAC+), disponível em https://revistas.ucr.ac.cr/index.php/rehmlac. Outra fonte, no Brasil, é a Revista Científica Maçónica Ad Lucem, disponível em https://www.adlucem.com.br/, mas esta, infelizmente, desde Jan./24 não é editada. Outros temas (História, Filosofia, etc.) e veículos também podem ser consultados, pois o que importa é identificar o modelo no seu aspecto mais amplo: a estrutura geral, a motivação e a problematização que ordenam o trabalho, a organização do conteúdo, a descrição da estratégia metodológica, o estilo, a linguagem, os aspectos normativos, etc.
[13] Entre outras denominações, também conhecido como Modelo Japonês de Produção ou Sistema Just-in-Time.
[14] A maioria, além de não apontar as fontes consultadas (referências bibliográficas), também sem o indispensável alerta de que se trata de um texto opinativo. Ressalte-se que o compartilhamento não é desestimulado, mas desde que, por omissão (por desconhecimento ou intencional) não seja apresentado como “conhecimento científico” nos termos considerados no âmbito de uma LEP.
[15] Algo também absolutamente ingénuo e que mais adiante, por ocasião do relato da pesquisa, ficará evidente quando for necessário citar e referir os trabalhos consultados.
[16] Governo não centralizado, arranjo nacional federado e actuação de mais de 50 Potências Maçónicas regulares – algumas das quais sequer “falam entre si”. Embora por vezes referidas como tais, a Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil (CMSB) e a Confederação Maçónica do Brasil (COMAB) não se equiparam às Potências, pois são entidades associativas cuja representação dos filiados limita-se aos termos estatutários.
[17] Sobretudo os pertinentes às Instruções e ao exame para a progressão de Graus.
[18] Não sei, não vi, não ouvi.
[19] A propósito, é dos exemplos mais bem acabados de que o discurso não tem eco na prática.
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