Sobre a caridade
Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos,
se não tiver caridade,
sou como bronze que ressoa
ou como címbalo que retine.
Ainda que eu tenha o dom da profecia
e conheça todos os mistérios e toda a ciência,
ainda que eu possua a plenitude da fé,
a ponto de transportar montanhas,
se não tiver caridade, nada sou.
Ainda que distribua todos os meus bens aos famintos
e entregue o meu corpo para ser queimado,
se não tiver caridade, de nada me aproveita.
A caridade é paciente, a caridade é benigna;
não é invejosa, não é altiva nem orgulhosa;
não é inconveniente, não procura o próprio interesse;
não se irrita, não guarda ressentimento;
não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade;
tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
1Cor 13, 1-7
Desejo ardentemente, que o meu pensamento e o seu reflexo, não ofusquem nem diminuam, este belíssimo trecho, (para mim, dos mais significativos), que o Livro da Lei Sagrada nos oferece. Por si só, ilustra-nos magistralmente o que é Caridade.
O termo Caridade, está desgastado, tendo-se perdido o seu sentido real, e essa é a razão principal desta minha partilha para convosco, Meus Queridos Irmãos, Aqui me encontro, no silêncio do Norte, a fim de procurar a origem e sentido daquilo que deveria significar ou traduzir caridade, demonstrando assim, que na maior parte das vezes, a palavra caridade é usada de forma errada e errónea.
A consequência do uso errado de uma palavra tão empregue e tão importante para todos os crentes, é o seu desgaste de sentido, bem como da acção desencontrada de uma raiz original e real. Assim, todos pensam saber o que é caridade, enquanto apenas repetem o uso e o sentido da palavra, tanto quanto a sua acção de caridade. Quero com isto dizer, que todos falam de caridade, todos dizem fazer caridade, todas as associações profanas querem caridade, mas ninguém sabe o que é caridade.
Quão arrogantes e prepotentes em relação a esse e a outros conceitos, podemos ser, não admitindo “não sei”, que é fundamental para novas aprendizagens e aprofundamentos, assim como, tantas vezes, não sabemos “esvaziar o canhão” para que o possamos carregar de “nova pólvora”. Esta reflexão é fundamental, para que possamos, pois, pensar a caridade!
Etimologicamente, a palavra caridade, advém-nos do termo latino “cáritas” que significa amor, “carus” de alto valor, digno de apreço. A palavra caridade aparece-nos no Livro da Lei Sagrada como tradução e sinónimo de Ágape (αγάπη), que surge como tradução e sinónimo de Ahavá (אהבה).
Ahavá é uma palavra composta de três letras hebraicas básicas: aleph (א), hei (ה), e vet (ב). Estas três letras são a raiz etimológica de hav, e nela podemos descobrir duas palavras de raiz. O primeiro é o verbo hav de duas letras: hei (ה) e vet (ב), no seu tempo infinitivo: dar. A letra aleph (א) modifica esta palavra tornando-se אהב, que significa: eu dou, no presente do indicativo. Vemos, pois, Meus Queridos Irmãos que esta palavra hebraica, portanto, contém a tremenda verdade: amar é dar-se. Dar-se é fundamental para exercer a caridade. Uma vez que não temos controlo sobre o outro, o amor não começa com a outra pessoa; começa antes em nós mesmos: dar-se!
Ágape, significa o amor divino e sublime, puro em virtude e o único que nunca espera recompensa. Apareceu esta palavra, como solução para a tradução de Ahavá, como já demonstrámos.
Perdoai-me, Meus Queridos Irmãos, pela já extensa explanação de “caritas”, mas creio, que é neste aprofundar, neste regresso ao VITRIOL dos tempos, que decerto encontraremos as respostas que tantas vezes desejamos. As palavras não existem por mera casualidade!
Observa-se que, muitas vezes tanto a utilização, quanto a leitura que se faz sobre o que seja caridade, demonstra um desvio em função do estreitamento da visão espiritual sobre o comportamento humano. Passamos então a considerar que alguém caridoso é aquele que doa os seus bens aos demais, e muitas vezes procuramos tecer imitações desse comportamento sem qualquer consciência do que se está a fazer. Assim, passamos a dar esmolas e doações sem qualquer critério de inteligência, onde acabamos por apoiar a debilidade dos mais fracos, em detrimento de uma falsa ideia de superioridade e de ajuda humanitária.
Sob a acção de falsa caridade, jaz alguém egoísta e manipulador, onde a doação tem por última finalidade, beneficiar o próprio doador, mesmo que num primeiro momento não possa parecer, porém a maioria dos actos de doação, estão sim contaminados com o nosso ego, com os nossos interesses pessoais, ou mesmo com a intenção de querer e parecer ser bom aos olhos dos demais.
A verdadeira caridade é pura e calcada na vontade, no amor e na inteligência. A caridade exige amor verdadeiro e não emoção, desta forma, a caridade consiste num sentimento de compaixão e não de piedade ou dó, a acção advém do dever humano, da missão e não de uma acção astral ou pueril.
Vejamos articuladamente cada uma das três forças que devem permear a verdadeira caridade:
- Vontade – Não existe caridade pela via da expectativa e da contemplação, a caridade exige movimento e acção. Não é caridoso, aquele que alimenta piedade e dó, mas nada faz a favor do seu semelhante.
- Amor – É este sentimento que deve sustentar todas as acções de caridade, não podendo deixá-lo ser substituído, pela emoção. Aliás, Paulo de Tarso, no-lo adverte categoricamente na sua primeira carta aos habitantes de Corinto, como bem podemos observar no texto inicial. A consciência de que aquilo que damos ou doamos, é justo, não invalida a noção de que também tudo é mutável, assim, o exercício da caridade realiza um movimento com poder de alquimizar todos os envolvidos na acção.
- Inteligência – Sem inteligência, normalmente a acção não atinge a sua eficácia e eficiência; a inteligência permite-nos canalizar a nossa energia, para se produzir o melhor resultado, neste sentido, vamos percebendo com o tempo, que normalmente o que devemos doar, não coincide com o que é pedido, pois quem pede, por ignorância não sabe de facto do que efectivamente precisa, e restringe-se a pedir o que lhe é mais imediato e normalmente restritivo a bens materiais ..
Podemos concluir que vontade sem inteligência, ainda que bem-intencionada, não resulta em sucesso, bem como vontade sem amor, certamente se vai restringir a apoiar as debilidades já existentes, senão ampliá-las e perpetuá-las. Isto posto, necessariamente, devemos ter estes três princípios da caridade a agir em conjunto, para somente neste caso podermos afirmar que estamos a doar o que temos de maior valor e apreço, isto é, a verdadeira caridade não mede esforços, e por conta disso doamo-nos a nós mesmos, caso contrário, trata-se somente de mais uma das nossas fantasias egocêntricas ás quais chamamos de caridade.
Meus Queridos Irmãos, a caridade, nunca desaparece, como muito bem nos diz Paulo de Tarso, ele bem sabia, que o GADU é a própria Caridade, bem como alguém que nos é bem-querido, João de Patmos. A nós, cabe-nos, com o que tivermos ao nosso alcance e sabedoria, transmitir ao nosso semelhante, a caridade que recebemos do Ser Supremo, isto é, darmo-nos a nós mesmos. Saibamos assim, com todos os mecanismos que a Arte Real coloca à nossa disposição, caminhar sempre com os olhos postos naquela perfeição que almejamos alcançar um dia, no Oriente Eterno.
Damos aquilo que temos, doamos aquilo que somos!
Sérgio C., M. M. – R. L. Miramar, nº 36 (GLLP / GLRP)
10.10.6019 (A. L.)
