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Sete Irmãos: 1943, traição entre os maçons resistentes

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✍️ Desconhecido 📅 30/10/2025 👁️ 0 Leituras
Livro Sete Irmãos
Sete Irmãos – Capa

Quem é o traidor? Quem entregou à Gestapo, em 1943, em Paris, os resistentes da rede maçónica da Rosa Silenciosa? Em 1951, os sobreviventes recebem uma carta que os convida para uma reunião. Que irmão poderia ter aceitado renunciar aos seus votos de solidariedade para com os seus companheiros da Loja, denunciando-os? É Didier Convard, especialista – e por boa razão [1] – em Maçonaria, que assina o argumento de Sept Frères com Jean-Christophe Camus. Durante muito tempo fechada em si mesma e tema apreciado dos semanários, a Maçonaria abriu as suas portas aos não iniciados.

No início de 1951, Henri Demonteil não acredita nos seus olhos. A carta que tem nas mãos convoca-o para uma “sessão”, cerimónia maçónica onde deve reencontrar os seus antigos camaradas da Resistência, detidos, deportados ou que escaparam aos nazis. Mas há um problema. Pierre Constant, o Venerável Mestre da sua Loja, foi morto pelos alemães. Quem os convoca então para esta reunião? E como encontrar quem os traiu? Tudo leva a crer que o traidor faz parte dos sete irmãos presentes. Eles terão, então, que se justificar, um por um, e revisitar as circunstâncias da sua prisão ou fuga em Fevereiro de 1943.

Resumir em poucas linhas a Maçonaria e, acima de tudo, não cair na armadilha dos clichés não é tarefa fácil. As suas origens são britânicas, por volta do século XVI. O seu objectivo é a busca de um progresso que possa trazer benefícios à humanidade. Filosófica, esotérica, baseada na crença num ser supremo, é composta, após selecção e iniciação, por homens livres com a solidariedade como base incontornável. Existem várias obediências. A muito discreta mMçonaria será acusada de todos os males, tornando-se bode expiatório de redes políticas e económicas através de escândalos, muitas vezes financeiros. Um dos alvos preferidos dos nazis na Alemanha desde a sua chegada ao poder, os maçons são deportados ou executados. Considerada burguesa e parasitária do domínio do partido comunista, a Maçonaria é condenada pela URSS. Na França ocupada, é o litígio com os meios de extrema-direita, que começa no final do século XIX, que o regime de Pétain se empenha em resolver a partir de Agosto de 1940.

Para estes maçons, todos unidos na sua vontade de lutar contra o ocupante e que pagaram caro por isso, não é fácil reviver aquele dia de 1943. Os sete irmãos estão ao redor de Guérin, o mais velho deles. Outra carta está na sua mesa. Ela afirma que a verdade deve surgir da reunião e o culpado ser descoberto, pois ele está presente na sala. Aos poucos, falhas começam a aparecer na maioria dos depoimentos. Nenhum dos maçons está a salvo das suspeitas dos outros. A solidariedade vacila, pois o traidor, se confessar, não sairá vivo da Loja.

Convard e Camus conhecem bem o assunto. Ter escolhido a Maçonaria é astuto e permite esclarecer o tema e torná-lo, até ao desfecho final, um fio condutor que permite reviravoltas interessantes no enredo. No entanto, a história, fora da Maçonaria, é muito semelhante à do filme Marie-Octobre, de Julien Duvivier, lançado em 1959. Os resistentes reúnem-se na casa do seu líder traído durante a guerra. O culpado está entre eles. Danielle Darrieux, Bernard Blier, Lino Ventura, Paul Meurisse, Serge Reggiani, Noël Roquevert, o elenco é sublime e o filme, escrito por Henri Jeanson, é de uma força rara. Um enredo também como em Les Sept Frères, cujos desenhos foram feitos por Hervé Boivin com traços precisos, realistas e muito expressivos para caracterizar bem cada personagem.

Este álbum retoma um período terrível para a Maçonaria. Pilar da III República, a Maçonaria influenciou a política que se instaurou em França a partir de 1870. Círculo de notáveis influentes, as suas reuniões são, na maioria dos países da Europa, laboratórios e espaços de intercâmbio que fazem surgir novas ideias, ao mesmo tempo que aceitam a violência da colonização, por exemplo. Em França, muitos ministros, deputados e presidentes são maçons: Jules Ferry, Léon Gambetta, Félix Faure. Embora os irmãos parecessem bem integrados há muito tempo no mundo político, cultural, económico e militar, o final do século XIX foi um momento de mudança. As divisões eram violentas e alguns escândalos envolvendo maçons permitiram o surgimento de uma certa forma de teoria da conspiração maçónica que o caso Dreyfus rapidamente transformaria em conspiração judaico-maçónica. No entanto, nem Alfred Dreyfus nem Émile Zola eram membros de uma Loja. A isto se somam a violência da separação entre a Igreja e o Estado, apoiada pelos irmãos, que os conservadores não perdoam, e o surgimento da ideia falsa de que a Maçonaria organizou a Revolução Francesa. Algo igualmente inaceitável para grande parte da direita francesa, incluindo a L’Action française de Charles Maurras, que ganhou influência na década de 1930.

O anti-maçonismo chegou ao poder ao mesmo tempo que o marechal Pétain, em Junho de 1940. Um homem estava por trás disso: Bernard Fay, professor do Collège de France. Este amigo íntimo do marechal tornou-se especialista na luta contra os maçons. Ele juntou-se a Philippe Pétain. Se o anti-semitismo deste último é difícil de definir antes da guerra, o seu anti-maçonismo, por outro lado, é conhecido. Parece datar do Caso das Fichas. Entre 1900 e 1904, o Ministério da Guerra, em associação com o Grande Oriente de França, empreende a tarefa de fichar grande parte dos oficiais franceses. Nesse arquivo secreto, eram registadas as opiniões políticas e religiosas dos homens vigiados. Rapidamente se suspeitou que esse arquivo permitia promover certos homens em detrimento de outros, sem que as suas qualidades militares fossem comprovadas. Pétain, que estava no ministério, ficou chocado com o processo e a injustiça das consequências. Ele nunca mais deixou de odiar os maçons. Em 1929, o general Weygand relata no seu diário que Philippe Pétain se recusa a reformar-se “para barrar o caminho aos altos dignitários dos três pontos”, ou seja, na sua opinião, impedir que os oficiais pertencentes a lojas maçónicas subam de posto. Em Novembro de 1934, o marechal responsabiliza os maçons pela queda do governo Doumergue, ao qual pertence. Finalmente, em Outubro de 1936, Pétain participa numa reunião do clube “Les affinités françaises” sobre o tema “Os bastidores maçónicos do radicalismo”.

Os nazis combateram os maçons alemães desde 1934, embora várias obediências se tivessem aproximado deles. Foram perseguidos como todas as sociedades ou organizações que pudessem constituir um local de reflexão e, portanto, de crítica ao poder. Além disso, os nazis não podiam aceitar que os alemães prestassem juramento a outra coisa que não fosse o führer. A Maçonaria desapareceu literalmente da Alemanha na sequência das perseguições nazis.

Foi, portanto, um adversário ferrenho da Maçonaria que assumiu o poder em Junho de 1940. A partir de 13 de Agosto de 1940, muito antes da publicação do estatuto dos judeus, a Maçonaria foi proibida e as lojas dissolvidas. Os funcionários maçons foram obrigados a se denunciar, e listas de irmãos com nome completo e endereço foram publicadas na imprensa colaboracionista. Sem que os alemães pedissem nada, Vichy começou a caça aos maçons. Três meses depois, começou a caça aos judeus. Ao mesmo tempo, Pétain confia uma missão a Bernard Fay, que substituiu Julien Cain à frente da Biblioteca Nacional: criar o Serviço de Sociedades Secretas, cujo objectivo é recolher e estudar os arquivos apreendidos nas lojas para descobrir os irmãos que poderiam esconder a sua filiação. Este serviço trabalha em estreita colaboração com o SD alemão (serviço de inteligência da SS) quando a caça aos resistentes se torna uma prioridade. Estas perseguições levarão um certo número de irmãos à resistência e à criação de redes de inspiração maçónica que serão integradas em redes mais importantes.

É importante ter estas informações em mente ao avançar na leitura deste álbum. O clima de perseguições, prisões e violência desses momentos dá uma força cativante à reunião que deve revelar o nome do traidor.

Stéphane Dubreil

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:
Sept Frères. Didier Convard & Jean-Christophe Camus (roteiro). Hervé Boivin (desenhos). Delcourt. 56 páginas. 15,95 €

Notas

[1] Didier Convard, que não esconde ser Maçom e historiador da Maçonaria, publicou vários álbuns sobre esse tema (as séries Le Triangle secret, INRI, Hertz, Les Gardiens du sang, Lacrima Cristi).

[*] Todas as imagens © Editions Delcourt, 2016 – Convard, Camus, Boivin. Clique nas Imagens para ampliar

As 5 primeiras páginas

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