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Seríamos metanoetas maçónicos?

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✍️ Desconhecido 📅 29/12/2025 👁️ 0 Leituras
lâmpada, luz, metanoia

Etimologia e origem

A palavra metanoia deriva do grego antigo μετάνοια (metanoia), composta por:

  • Meta (μετά): Além, depois, mudança.
  • Noia/Nous (νοῦς): Mente, pensamento, intelecto.

Originalmente, no contexto grego clássico, significava “mudar de ideia” ou “arrepender-se” de uma decisão. No entanto, com o advento do Cristianismo e a tradução do Novo Testamento, o termo ganhou uma dimensão espiritual: a conversão do coração e a mudança total de direcção na vida.

O conceito

Diferente de um simples remorso (sentir-se mal pelo passado), a metanoia é prospectiva. Ela envolve:

  • Reorientação: Deixar de ver o mundo sob uma óptica limitada ou egoísta para adoptar uma perspectiva mais ampla ou divina.
  • Transformação Psicológica: Na psicologia analítica (Jung), refere-se a um processo de auto-reforma psíquica, geralmente ocorrendo em momentos de crise, visando a cura e o equilíbrio.

Aprendizagem Organizacional: No mundo corporativo (popularizado por Peter Senge [1]), é a mudança de mentalidade que permite às pessoas aprenderem e evoluírem colectivamente.

“Para os gregos, metanoia significava uma mudança fundamental de mentalidade. […] No contexto das organizações que aprendem, metanoia significa a mudança de mentalidade: de ver as partes para ver o todo, de ver as pessoas como reactores impotentes para vê-las como participantes activos na modelagem da sua realidade.”

De domínio público e de fácil acesso nos mares internéticos, basta apenas singrar um pouco por estes mares e encontraremos também o termo “Metanoia Maçónica”, referindo-se ao conceito de transformação e evolução interior buscado pelos membros da Maçonaria, um processo que envolve uma mudança essencial de mentalidade e carácter.

Embora o termo “metanoia” tenha origem no grego e signifique “mudança de mente, expansão do pensamento ou conversão” (frequentemente traduzido como arrependimento na Bíblia), na Maçonaria ele é usado para descrever a jornada do Maçom em direcção a uma nova forma de pensar e agir.

Na Maçonaria, o objectivo das instruções e/ou prelecções maçónicas é promover essa transformação, ou “metanoia”, no indivíduo, alinhando os seus valores e comportamento aos princípios da Ordem, como a ética e a moral.

Na psicologia analítica (Carl G. Jung [2])

Para Jung, a metanoia não é apenas um “arrependimento”, mas um processo espontâneo da psique para se curar de conflitos insuportáveis, ocorrendo frequentemente na transição para a segunda metade da vida (crise da meia-idade).

  • O Conceito: É o momento em que o indivíduo deixa de focar apenas nas conquistas externas (ego, carreira, persona) e volta-se para o mundo interior (processo de individuação). É uma “morte” simbólica de uma identidade antiga para o nascimento de uma consciência mais integrada ao Self. “A época é crítica, pois marca o início da segunda metade da vida, quando uma metanoia, uma transformação mental, não infrequentemente ocorre.”

Na Maçonaria

Na Maçonaria, embora o termo grego nem sempre apareça explicitamente em todos os rituais, o conceito está intrinsecamente ligado à Iniciação e à passagem da “Pedra Bruta” para a “Pedra Polida”.

  • O Conceito: Representa a reforma íntima e a mudança de paradigma mental exigida do iniciado ao ser admitido à Sublime Ordem e iniciar o seu processo de desbaste da P.B.. É o abandono dos “metais” (vícios, preconceitos e paixões profanas); é o morrer para uma vida profana e o renascer para uma vida maçónica; para a adopção de uma nova forma de ver/entender o Conceito do Grande Arquitecto do Universo e da própria humanidade.
  • O Simbolismo: A metanoia maçónica é o processo de “morrer para o mundo profano” e renascer para a Luz. É uma transmutação da mentalidade egoísta para uma consciência ética e fraternal.

Tabela Comparativa

AspectoPsicologia JunguianaMaçonaria
GatilhoCrise existencial ou meia-idade.O rito de iniciação.
ObjectivoIndividuação (integração do Self).Aperfeiçoamento moral e espiritual.
ProcessoConfronto com a Sombra.Desbastar a Pedra Bruta.

O uso do termo metanoia na Maçonaria é uma aplicação mais moderna e interpretativa, geralmente associada a autores da vertente esotérica e psicológica da Ordem, que buscam explicar o processo de iniciação sob a óptica da transformação da consciência.

Diferente de termos como “Landmarks” ou “Aprendiz”, que existem desde a fundação da Maçonaria Especulativa (1717), a palavra metanoia foi introduzida na literatura maçónica para dar profundidade filosófica ao conceito de “morrer para o mundo profano”, muito embora também se deva dizer que a palavra “profano” esteja caindo, no tracto de alguns ritos, como o Rito de York do GOB e pela própria Grande Loja Unida da Inglaterra, como um termo um tanto quanto pejorativo e sendo mais utilizado o termo de “não iniciado” ou de “não maçom” àquele que ainda não foi aceito ou admitido através de cerimónia maçónica de iniciação como membro na Maçonaria.

Embora vários autores contemporâneos utilizem o termo “metanoia”, a abordagem que consolidou a metanoia como um conceito-chave para entender a iniciação maçónica remete a autores influenciados pela Psicologia Analítica e pelo Hermetismo no século XX.

Um dos principais responsáveis por popularizar esta visão transformadora (ainda que nem sempre use o termo grego literal em todas as páginas, mas descrevendo o processo exactamente como tal) é Oswald Wirth [3]. No entanto, se buscarmos a aplicação directa do termo associada ao simbolismo moderno, destaca-se:

  • Autor: Oswald Wirth (influenciando a visão de transformação mental).
  • Obra de referência para o conceito: O Livro do Aprendiz (originalmente publicado em francês como Le Livre de l’Apprenti, 1894).
  • Contexto: Wirth descreve a iniciação como uma transmutação alquímica e mental — o que estudiosos posteriores classificaram tecnicamente como metanoia.

Outra referência importante de um autor que trata a Maçonaria sob a óptica da transformação da psique (metanoia) é Colin Dyer [4]: DYER, Colin. O Simbolismo na Maçonaria. São Paulo: Madras, 2010.

O termo METANOETA

O termo METANOETA (ou Metanoetae), não deva ser confundido com a palavra comum “Metanoia”, embora compartilhem a mesma raiz grega. O termo Metanoeta refere-se especificamente a uma seita cristã do século VI (também conhecida como Metanoitas).

Origem e Significado

Os Metanoetae eram seguidores de uma seita cristã que surgiu no Egipto. O nome deriva do grego metanoeo (arrepender-se). Eles acreditavam que Deus não possuía presciência (conhecimento prévio) dos eventos futuros e que, portanto, Deus “mudava de ideia” ou “se arrependia” conforme os factos ocorriam.

Quem criou ou documentou o termo

O termo foi documentado por historiadores da Igreja e heresiologistas (estudiosos de heresias) da Antiguidade Tardia. O principal autor que aborda e cataloga esta seita é São João Damasceno [5].

  • Autor: São João Damasceno (considerado um dos maiores sistematizadores da doutrina cristã e heresiologia antiga).
  • Obra: De Haeresibus (Sobre as Heresias), que faz parte da sua obra monumental Pege Gnoseos (A Fonte do Conhecimento).

Uma breve observação sobre Maçonaria e Psicologia e o termo Metanoeta

A palavra Metanoeta num contexto maçónico ou psicológico é considerado recente e ainda muito pouco usual na Maçonaria e entre os maçons, é provável que seja um uso neologista ou uma variação poética derivada de “Metanoia”.

  • Em Jung, o termo correcto e técnico é sempre Metanoia.
  • Na Maçonaria, o termo “Metanoeta” não faz parte da ritualística oficial (Landmarks ou Rituais de Emulação, REAA, e outros), sendo usado apenas em artigos de interpretação esotérica contemporânea para designar “aquele que passou pela metanoia”.
  • Na literatura maçónica e espiritualista recente, o termo “Metanoeta” é usado como um substantivo para designar o Iniciado.
  • Metanoia: O processo de transformação.
  • Metanoeta: O sujeito (Iniciado) que vive a transformação.
  • Origem do termo: Patrologia Cristã (São João Damasceno, séc. VI).
  • Uso Maçónico: Designação esotérica para o Maçom que alcançou a “iluminação” ou reforma íntima.

Todavia, há de se mencionar que o termo exacto “Metanoeta” é raríssimo na literatura maçónica tradicional e não aparece como um verbete oficial nos dicionários clássicos de Nicola Aslan ou Joaquim Gervásio de Figueiredo.

Resumo histórico e significado maçónico para a Metanoia

  • Origem do Termo: Grego bíblico/filosófico.
  • Surgimento na Maçonaria: Final do século XIX e consolidação no século XX, com a ascensão da Maçonaria Ocultista/Esotérica (Escola de Pensamento que inclui autores como Wirth, Wilmshurst e Leadbeater).
  • Significado Maçónico: A mudança radical de perspectiva que ocorre após a permanência na Câmara de Reflexão (para alguns ritos que assim têm tal câmara nos seus rituais), ou o próprio processo iniciático, como um todo, (para outros ritos maçónicos que não possuem Câmara de Reflexão), simbolizando a transição da ignorância (trevas) para o conhecimento (luz).

Alexandre Fortes, 33º – CIM 285969 – ARLS Cícero Veloso n° 4543 – GOB-PI

Referências bibliográficas

[1] SENGE, Peter M. A Quinta Disciplina: arte e prática da organização que aprende. 35. ed. Rio de Janeiro: Best Seller, 2018.

[2] JUNG, Carl Gustav. Símbolos da Transformação (Obras Completas v. 5). Petrópolis: Vozes, 2012.

[3] WIRTH, Oswald. O Livro do Aprendiz. São Paulo: Madras, 2005.

[4] DYER, Colin. O Simbolismo na Maçonaria. São Paulo: Madras, 2010.

[5] DAMASCENO, João. De Haeresibus (Capítulo 93 – Metanoetae). In: Patrologia Graeca, v. 94. Editado por J. P. Migne. Paris: 1864.

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