Relativização de Landmarks: as lições que a Igreja Católica nos ensina?
As últimas cinco décadas foram marcadas por várias transformações sociais, económicas, e intelectuais. O mundo ficou globalizado. O fluxo de informações ganhou um dinamismo tão grande como nunca contemplamos antes. Os factos nem bem acabam de ser realizados e já estão sendo noticiados pelos mais diferentes meios de comunicação. E, para potencializar este fluxo de dados, surgem as redes sociais que pulverizam informações para todos os cantos [1].
Na parte intelectual todas essas transformações serviram de instrumentos de potencialização, de revisão e questionamentos de conceitos e valores, até então, de certa forma, considerados imutáveis. A todo esse quadro, pode ser acrescentado, a própria vocação humana de buscar algo novo e de questionar.
Este quadro de em que valores, conceitos, e paradigmas são reavaliados e/ou relativizados, ocorre em meio uma “febre modernista”; como se o certo fosse a tentativa ou até mesmo a quebra dessas tradições. Dentro desse contexto, instituições seculares têm sido alvo dessa movimento que busca a relativização e a validação de conceitos, valores, dogmas, e tradições já interiorizados por tais instituições.
As vicissitudes da Igreja Católica na última metade de século
Instituição milenar, a Igreja Católica não se manteve fora da mira dessa “febre modernista [2]” ou “globalismo” como alguns preferem denominar.
Desde a realização do Concílio Vaticano II, a Igreja vem passando por uma série de transformações. Muitas delas adoptadas sob o manto da tolerância e baseadas em reinterpretações de dogmas ou tradições [3]. Sobretudo, na última década, sob o papado de Francisco, o que tem provocado um exaustivo debate sobre as medidas tomadas pelo Santo Padre.
A gravidade do assunto tem feito com que alguns analistas da Igreja de Roma, cogitem a existência de sinais da possibilidade de um novo Cisma na Igreja Católica. No texto de Henrique Sebastião, sob o título de “Divisão da Igreja: Um novo Cisma se aproxima?” [4] é citado que:
“vai ficando cada vez mais difícil negar que temos hoje “duas igrejas” dentro da Igreja, em dois grupos que claramente adoptam religiões muito diferentes, não só em práxis religiosas diferentes (nos valores morais, no modo de rezar, na liturgia, na maneira de entender e celebrar a própria Missa) mas até mesmo no modo de crer naquilo que a Igreja ensina desde o seu cerne, a sua essência. Um dos primeiros a falar sobre isso, já na década de 1970, foi o grande Gustavo Corção” [5]. Interessante observar que tais colocações foram realizadas anos antes das últimas medidas e pronunciamentos realizadas pelo Papa, o que demonstra que esse processo já vem sendo realizado há algum tempo.
Desde a publicação do artigo de Henrique Sebastião, diversas medidas tomadas pelo Papa tem desagradado parcela significativa do clero regular. Tais medidas, aliadas a facilidade com que as informações transitam por redes sociais e canais particulares de notícias, resultam numa variedade de críticas ao Sumo Pontífice e ao rumo que este tem dado a Igreja [6].
Dentre as medidas tomas pelo Papa Francisco ou com a sua aquiescência, destacam-se: aproximação com agendas de cunho “modernista” ou “globalista’; relativização de dogmas da Igreja; promoção de bispos que coadunam com ideias políticas e de tolerância a pautas esquerdistas; permissão para que bispos concedam a bênção a casais do mesmo sexo; promulgação do Motu Proprio Traditionis custodes [7].
Em oposição a essa corrente mais tendente a uma agenda globalista e liberal, existe uma camada mais tradicionalista (ortodoxa) da Igreja, da qual um dos expoentes, era o Cardeal Joseph Aloisius Ratzinger [8]. Em certa ocasião, ao realizar a homilia, durante a Santa Missa «Pro Eligendo Romano Pontífice», no dia 18 de Abril de 2005, assim se pronunciou sobre os temas que julgava prejudiciais a fé católica:
“Quantos ventos de doutrina conhecemos nestes últimos decénios, quantas correntes ideológicas, quantas modas do pensamento… A pequena barca do pensamento de muitos cristãos foi muitas vezes agitada por estas ondas lançada de um extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, até à libertinagem, ao colectivismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo e por aí adiante. Cada dia surgem novas seitas e realiza-se quanto diz São Paulo acerca do engano dos homens, da astúcia que tende a levar ao erro (cf. Ef 4, 14). Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, muitas vezes é classificado como fundamentalismo. Enquanto o relativismo, isto é, deixar-se levar “aqui e além por qualquer vento de doutrina”, aparece como a única atitude à altura dos tempos modernos. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades [9].
Interessante observar que o discurso realizado por Ratzinger, há duas décadas, permanece sincronizado com os factos que vivemos actualmente, prova de que o sistema actua disciplinadamente a fim de obter as suas metas.
Tomemos, por exemplo, a publicação da Constituição dogmática “Pastor Aeternus”, que ensina e define como dogma, logo algo que não pode ser questionado, que o Romano Pontífice quando fala ex-cátedra, goza da Infalibilidade. Mesmo à época da sua edição esse dogma suscitava algo em dissonância com o pensamento racional, pois como pode um ser humano estar imune a cometer desvios. Então, nesse sentido, o dogma da infalibilidade merece, sim, uma refutação, visto que a despeito de toda sapiência requerida para aquele que é o titular da cadeira de Pedro, não nos podemos esquecer que por baixo das vestes papais está um homem, que é passível de cometer erros. Foi dentro desse contexto que se pronunciou de forma racional e coerente Dom Antônio de Castro Mayer [10], da seguinte forma:
“… tal é o valor da Tradição, que mesmo as Encíclicas e outros Documentos do Magistério ordinário do Sumo Pontífice, só são infalíveis nos ensinamentos corroborados pela Tradição, ou seja, por uma doutrinação contínua, através de vários Papas e por largo espaço de tempo. De maneira que, o acto do Magistério ordinário de um Papa que colida com o ensinamento caucionado pela Tradição magisterial de vários Papas e por espaço notável de tempo, não deveria ser aceito…” [11]
No seu posicionamento Mayer toca justamente na questão de que uma única pessoa não pode sozinha, por intermédio de um único acto mudar radicalmente o destino de toda uma história secular, sendo portanto necessário que esses actos sejam corroborados pela tradição e por outros ocupantes da cadeira de Pedro.
Percebemos que o movimento de quebra das estruturas tradicionais da Igreja vem sendo identificado e combatidos ao longo de várias décadas. Mas, o sistema é implacável com todos os que procuraram e procuram de uma forma ou de outra se opor a “febre modernista”. Estes, em resposta, são perseguidos ou banidos como ocorreu com Marcel François Marie Joseph Lefebvre e Antônio de Castro Mayer [12].
Concluímos, desta forma, que a conclusão do Concílio Vaticano II trouxe para o cerne da Igreja uma permissividade de interpretações, que afectaram e afectam profundamente as estruturas da Igreja, chegando-se a temer, nos dias actuais, a possibilidade de um novo Cisma.
A Imposição da Relatividade Maçónica
Agora, voltando-nos para a Sublime Ordem e a partir desse quadro analítico da Igreja Católica, convidamos o leitor a reflectir sobre o que parece acontecer em algumas das nossas oficinas.
O estudo, a pesquisa, a liberdade de expressão e pensamento, e o consequente avanço intelectual dos nossos irmãos faz parte dos nossos objectivos e, é motivo de estímulo na nossa Ordem; para que, a partir desse vector possamos atingir um dos nossos objectivos: o progresso da humanidade. Contudo, essa busca não pode ser realizada sem ter em mente os nossos paradigmas, pois se assim não o fizermos podemos correr o risco de cairmos no campo minado da modernidade relativista, que contesta valores e conceitos, às vezes pelo simples facto de querer impor algo novo.
Estar em atenção com o avanço temporal da humanidade não significa dizer que seja imperativo que transportemos para as nossas sessões ritualísticas tais vicissitudes. Ao contrário, toda vez que as nossas oficinas se mostram vulneráveis ao “canto da sereia” devemos lembrar-nos dos ensinamentos que o estudo da quintessência nos ensinou, para que nos tornemos mais sólidos e coesos diante da fragilidade intelectual que nos cerca, qual seja: o modismo do questionamento para está em acordo com o modismo da época. Ou, como diz Maffesoli, pelo simples ‘desejo de estar juntos” (pertencer ao grupo), sem obrigação. Onde os seus pensamentos e decisões são tomadas de acordo com o desejo do grupo.
O desenvolvimento humano só será capaz de ser movido por instituições que sejam sólidas nas suas estruturas e firmes nos seus propósitos.
O processo de enfraquecimento institucional não é realizado da noite para o dia – basta lembrar tomando como exemplo a Igreja, sobretudo na fala de Ratzinger realizada em 2005 e o que esta ocorrendo neste momento com a Igreja, que o processo se arrasta por mais de cinco décadas. É um processo lento e continuo, onde, nem sempre, os seus autores agem voluntariamente, mas sim movidos por um sistema do qual nem mesmo eles tem conhecimento.
“Ungidos” pela liberdade de expressão que impera na Maçonaria e pela “febre modernista” utilizam-se dos Tempos de Estudos para levantar temas de questionamentos e/ou relativização aos paradigmas seculares que norteiam a Sublime Ordem, induzindo a afirmação de que tudo aquilo que é antigo, está ultrapassado; logo, passível de questionamento, da tolerância em demasia, e da relativização.
O processo vai se construindo: primeiro, com a prática de uma tolerância abusiva, para logo em seguida passar a contestar landmarks. No primeiro momento, as normas, regulamentos, códigos são reinterpretados de forma benevolente, desconsiderando o objectivo do legislador, ou simplesmente ignorando a normativa. Caracteriza-se uma “selectividade” na aplicação da normativa, onde esta é aplicada de acordo com o interesse do “grupo dominante” ou simplesmente é ignorada. Desta forma, factos concretos idênticos resultam em pareceres diferentes. Assim, de forma consciente ou inconscientemente importamos, para dentro dos nossos templos, determinados vícios ou “joguetes” que em nada contribuem para a construção do edifício social que tanto almejamos. É mister que tenhamos em mente que a tolerância em excesso sugere impunidade. E, esta, por sua vez, estimula a repetição dos erros.
Impondo a ideologia de que a aplicação da normativa não é uma regra, mas sim um instrumento de uso selectivo ou secundário na actividade de uma oficina maçónica, encontramos duas trilhas a percorrer: uma que é o descumprimento do juramento realizado, que consiste em se submeter as normas da Maçonaria e do país, quais sejam: Constituição, Regulamentos, leis, decretos, etc. A segunda propaga que em prol de uma liberdade de pensamento e expressão, tudo pode ser refutado.
A adopção dessa prática entra em choque ao princípio da “Rectidão” que, dentre outros, norteiam a Maçonaria universal. Bom, que nos lembremos desse conceito: A Maçonaria não é regional, mas sim Universal e as suas oficinas espalham-se por todos os cantos da terra.
Massificada a ideia de que as normativas podem ser relativizadas, o próximo passo e que pode ser visto como ponto crucial, é o questionamento dos próprios Landmarks. Observemos que os rituais nos ensinam que os landmarks:
“Landmarks (do inglês, land = terra e marks = marcas) são, na Maçon∴ as leis imutáveis, não escritas, cujas origens são desconhecidas, mas reconhecidas por todos os MMaç∴ RRegul∴ do Universo, como sendo a base fundamental da Instituição. A figura dos Landmarks e a antiguidade e constituem-se, assim, num conjunto, marcos inalteráveis, os quais servem de “guias” para toda Maçon∴ Universal. Os RRegulam∴ e osEEstat∴podem ser revogados, modificados ou anulados; os Landmarks, porém, nunca podem ser alvo de qualquer modificação, nem ser alterados. O que eram, há séculos, sê-lo-ão até que a Maçon∴ deixe de existir. São, portanto, eternos.” (In Ritual Aprendiz Maçon, GLEAC, Ed 2018, pág. 20)
Ao citar que os landmarks são leis não escritas, sem autoria conhecida, porém reconhecidas por todos os maçons, o que o autor faz, senão recorrer a tradição? A mesma tradição invocada por Mayer para questionar a legitimidade da infalibilidade papal.
É facto que o próprio ritual cita que Regulamento e Estatutos podem ser revogados, e aqui é uma prova cabal de que a Maçonaria pode estar em harmonia com a evolução social, assim como o Direito está, por que o que não faz as ciências jurídicas, a não responder as demandas da sociedade, dotando estas de normativas que harmonizem o convívio social?. Contudo, um facto é buscar por meio legítimo a actualização das normativas de acordo com os anseios da comunidade; facto bem diferente é deliberadamente deixar de cumprir as normas.
Os landmarks, portanto, são os pilares que sustentam a Maçonaria, assim como a hierarquia e disciplina são pilares que sustentam as Forças Armadas de um país. Não sendo concebível, desta forma, o seu questionamento.
Uma vez que os pilares são fragilizados, as estruturas apresentam poucas possibilidade de se manterem de pé (fortes, indissolúveis e perenes) vindo a colapsar.
A partir do exemplo que nos mostra a Igreja Católica com a sua possibilidade de fragmentação, sem saber ao certo qual caminho seguir, e incerta dos seus passos futuros, bem como diante do que observamos em algumas das nossas oficinas é que nos colocamos nesta celeuma, quanto a que rumo devemos dar aos nossos passos.
Não diferentemente de outras instituições, ao ingressarmos na Maçonaria nos é exigido: respeitar os seus estatutos, regulamentos, regimentos, amar à pátria, respeitar aos governos legalmente constituídos, acatar as leis do país, etc.;
Jean Jacques Rousseau, pensador que tem os seus princípios teóricos liberais seguido pela Maçonaria universal, ao elaborar o seu Contrato Social, já ciente de que a vontade da maioria deve ser atendida, e que o instrumento prático para que essa vontade popular fosse respeitada; era o fiel cumprimento da constituição, ou seja, das normas, sendo este o canal para nos opormos ao poder absolutista do homem. Buscando, novamente, sustentação teórica em Rousseau, temos que:
“Quando porém, o liame social começa a afrouxar e o Estado a enfraquecer, quando os interesses particulares passam a se fazer sentir e as pequenas sociedades a influir na grande, o interesse comum se altera e encontra opositores, a unanimidade não mais reinas nos votos, a vontade geral não é mais à vontade de todos, surgem contradições e debates, e o melhor parecer não é aprovado sem disputa” (In: Rousseau, colecção Os Pensadores, Tomo I, Nova Cultural, 1997, pág. 200)
Observe que ele submete a harmonia democrática do convívio social ao acatamento da legislação. Não custa recordar que esta observação foi realizada a quase três séculos, e já naquela época o pensador ressaltava a importância de se cumprir as normas.
O passado recentemente já nos mostrou que quando a interpretação e aplicação da normativa está submetida aos interesses particulares, a desarmonia passa a imperar. E, daí, fragmenta-se a Ordem, surgem novas potências, potências regulares tornam-se espúrias, e tantas outras consequências desagradáveis que vivenciamos ao longo dos tempos. Tudo por conta da vaidade, só vaidade.
Desta forma, cabe-nos observar o que a história nos ensina com exemplos práticos e contemporâneos aos nossos dias, para que não corramos o risco de cometermos os mesmos erros anteriormente cometidos ou praticados por outros sujeitos.
O enfraquecimento das instituições, podem estar, a nosso ver, associados a dois eventos, em particular: “febre modernista” que já mencionamos aqui e a Indisciplina, ou se preferirem a falta de Disciplina. Vejamos cada um desses aspectos.
“Febre Modernista”
O sociólogo francês e professor da Sorbonne, Michel Maffesoli, chama-nos à atenção para o facto de que mais especificamente nos últimos quarenta anos, as mudanças comportamentais influenciadas por esse “avanço social” (o que ele classifica de pós-modernidade) sofreram uma abrupta escalada. O avanço desse não tão novo “modus vivendi” [13] social foi em muito facilitado pelo advento e utilização das redes sociais, que possibilitaram uma massificação da imposição da forma de pensar e agir, sobretudo a partir de temas considerados como politicamente correctos, tais como meio ambiente, aquecimento global, queimadas, tolerância nos seus diversos espectros. Consequentemente, a partir desses temas criam-se grupos, associações, colectivos, que monopolizam o discurso de acordo com os seus interesses.
Dentre desse contexto para os adeptos da “Febre Modernista”, o que importa é fazer parte do grupo, para que não fique à margem da “tchurma”, pois pouco importa a profundidade do discurso, mas sim de quanto ele é capaz de agregar. Nesse momento, ainda recorrendo a Schultz o que temos “é uma realidade confusa, baseada em atracção e participação, imitação e contágio afectivo”.
A individualidade já não mais importa, a sua opinião coesa, coerente, racional de nada adianta se não for do agrado dos manipuladores da vontade alheia. Via de regra, colocações com tais características não os interessa. A profundidade da razão já não tem mais valor, o que impera é a superficialidade. Contando, apenas que esteja ao interesse da massa. O SER perde espaço para o ESTAR. Assim, a sua opinião pessoal não tem valor, se não se insere no gosto do grupo que a esta altura já é dominante. Sobretudo, pela inserção de muitos jovens que estão unicamente preocupados em não ficar de fora do grupo, da onda do momento. Aqueles que ousam se opor a superficialidade da massa são perseguidos e/ou excluídos, ou mesmo tachados de arcaicos, ortodoxos, chatos, tumultuadores, e por aí se segue um elenco de adjectivos pejorativos.
Assim, trocamos a qualidade pela quantidade, deixando de lado a Razão e a Ética, em prol de uma suposta sociabilidade.
A face mais cruel desse novo “modus vivendi social” é que ele está ultrapassando a linha limítrofe das nossas colunas e adentrando nos nossos templos, contrariando o que cita Bastos [14], quando nos diz que “a racionalidade ética, livre de contaminações nefastas ideológicas, muitas deformadoras e dominadoras, garantiu à Sublime Ordem cumprir o seu fim ao longo dos Séculos”.
Imersa nesse contexto, a sociedade é estimulada e/ou forçada a prática da Indisciplina, que é o segundo aspecto que acreditamos ser um dos vectores responsáveis pela fragilização das instituições. E, que passaremos a analisar a seguir.
Disciplina
Um antigo professor de electrónica que tive lá pelos idos de 1986, no Colégio Técnico Estadual Visconde de Mauá, no Rio de Janeiro, costumava dizer aos seus alunos que o indivíduo pode ser tudo na vida, menos indisciplinado. Pois, qualquer actividade para que tenha sucesso depende da disciplina. Até mesmo, dizia ele, para ser bandido, necessita de disciplina, pois se falha com as normas internas do bando a que pertence, a cobrança quase sempre é capital. Daí a importância de ser disciplinado até mesmo quando inserido em grupo de bandidos.
Se até mesmo organizações marginais exigem dos seus integrantes a disciplina, por que instituições seculares que buscam uma sociedade mais justa e ética, não o farão?
Toda instituição seja ela qual for, possui um conjunto de normas escritas ou não que necessitam serem cumpridas para que a harmonia institucional não ceda espaço para a desordem e o caos interno, causando desta forma, a sua dissensão. As instituições serão tão mais fortes e coesas à medida que os seus integrantes se submetam ao cumprimento “religioso” das suas normas e regras. E, isso requer Disciplina.
Para que tal objectivo seja atingido é necessário que o seu corpo constitutivo seja disciplinado. Disciplina para cumprir sem vacilar o que deve ser cumprido, acreditando que deste acatamento sem transigência, depende a continuidade harmónica da instituição.
Disciplinados para cumprir e fazer cumprir tudo aquilo que a ordem nos exige, sobretudo as suas normas, regulamentos e leis, para que sejamos capazes de desbastar a Pedra Bruta que carregamos no nosso Ser. Não existe um plano “B”; ou seja, deixar de cumprir ou fazer cumprir a normativa não é facultativo, é impositivo. Da mesma forma que não existe a possibilidade de cumprir ou fazer cumprir de acordo com a conveniência pessoal de cada um.
Agir com rectidão sem desvios de conduta não é tarefa fácil, é uma batalha diária a qual o candidato a entrar para a Maçonaria opta por aceitar, voluntariamente e após passar por um minucioso processo investigativo. Fazer o certo não é, para um verdadeiro Maçom, um favor ou uma virtude. É, pois, condição “sine qua non” para todos aqueles que colocam a sua mão sobre a bíblia e juram diante do Delta Sagrado cumprir o que o ingresso na Ordem lhes exige.
Se fracassamos no exercício diário da prática da Disciplina, deixamos de lado, em consequência, o malho e o cinzel, deixando, desta maneira, de desbastar a nossa Pedra Bruta, o que impede a construção interna do nosso edifício social.
Caminhos para fazer frente a fragilização das Instituições
Para fazer frente a esta tendência de acções que enfraquecem as instituições, necessário se faz que se percorra um caminho de vias paralelas. A primeira, diz respeito a se manter uma disciplina fiel as normas e agir de forma inflexível diante de situações que são colocadas à mesa; a segunda, que não deixa de estar vinculada a primeira via, trata-se de se perceber que esses movimentos intelectuais de pensamento e condução da vida social, que aqui chamamos de “febre do modernismo”, são sazonais, e que, portanto, a disciplina deve ser mantida, no sentido de permanecer fiel a Razão. Pois, ideologias surgem a todo momento, dentro do movimento cíclico da História.
Disciplina deve ser entendida como: o acto de submeter-se ao elenco de normas e regras estipulados por um organismo qualquer do qual se faça parte (Ex. Igreja, clubes, ordens, associações, etc.), logo é disciplinado aquele que prática tal acto.
Ésquilo [15] definia a “disciplina como a mãe do êxito” [16], e o que todas as instituições almejam senão serem bem sucedidas. A partir daí podemos afirmar ser a disciplina elemento fundamental na amálgama de sustentação das instituições, sobretudo aquelas bem sucedidas.
Na actualidade vários palestrantes que dão “receita de sucesso”, passam pela questão da disciplina, como um dos factores determinantes para se alcançar o sucesso.
Para que não transpareça uma ideia vaga de que disciplina se refere; a que invocamos para ser um dos pilares das instituições, sobretudo a Igreja e a Maçonaria, é aquela que deve ser praticada no meio militar, ou seja, a fiel observância irrestrita das normas, leis, e regulamentos que regem a Instituição. Pois, só assim é que não haverá espaço para desentendimentos de opiniões (visto que todos rejam pela mesma cartilha) que só levam a desarmonia.
O segundo aspecto que gostaríamos de ressaltar diz respeito a ser vacinado contra a “febre modernista”. Nesse sentido, primeiro ponto a ser levado em consideração é que assim como as ondas do mar a história vai e volta nos seus movimentos cíclicos, sem, porém, serem os mesmos. Com isso queremos dizer que pouco importa esses movimentos de tentativa de abalo das estruturas perdurarem 30, 40, 50 anos que não serão capazes de abalarem as estruturas de Instituições sólidas, coesas, e perenes. Contanto que se tenha a disciplina intelectual para cumprir as normas sem hesitação.
Por exemplo, o que são 50 (cinquenta) anos diante da história da Igreja Católica. Contudo, é necessário ter na consciência que quando existe a tentativa de imposição de uma ideologia sobre pessoas ou instituições, trilha-se o sério risco de que ocorra o desvio da ética, o que, por sua vez, resultaria na transformação do ambiente social, que também pode levar a desagregação e, por conseguinte, a fragilização. Muito embora, para estes, como nos lembra Bastos: “as virtudes são esquecidas, a razão não importa, a moral e os costumes flutuam em inverdades e os críticos são cancelados”. Notamos claramente uma inversão de valores, onde a “racionalidade e a ética chegam a ser vaiadas e vistas como defeito individual e colectivo”. Dentro desse contexto é que a Razão deve ser empregada como elemento dissuasor dos desvios de pessoas ou de grupos.
A inflexibilidade contra a tentativa do estabelecimento de novas ideologias que se chocam com os preceitos institucionais já enraizados, como dogmas, normas, leis, e landmarks, destas mesmas instituições deve ser repelidos com firmeza e racionalidade.
O facto de se tentar repelir tais movimentos não implica dizer que a igreja, assim como a Maçonaria sejam tão rígidas e imutáveis que não possam interagir com a evolução social da humanidade, já ficou claro anteriormente, que pode haver essa interacção. Agora, interagir não é o mesmo que se sujeitar.
Por fim, rogamos ao GADU que este texto não permita que sejam esquecidas as palavras de Ratzinger, Rousseau e Ésquilo. No que se refere ao primeiro, quando nos alertou quanto as correntes ideológicas, a construção da ditadura do relativismo, e ao facto da última medida ser os seus desejos (daqueles que tentam manipular as massas). Da mesma forma, que se mantenham vigilantes ao fiel cumprimento da legislação, elemento fundamental, na concepção de Roussaeu, para a harmonia do Estado; não permitindo que “interesses particulares e pequenas sociedades” ou grupos possam modificar a harmonia e a perenidade das instituições; muito das vezes por conta da omissão de alguns, que preferem calarem-se para que não sejam “cancelados” pelo sistema. Porém, tais posicionamentos só serão factíveis se empregados sob o manto da Disciplina, a qual Ésquilo definiu como a mãe do êxito e sucesso.
Valério Macena de Sousa Lima – MM – CIM 332905 – GOB/GOBMINAS
Notas
[1] Não vamos aqui entrar no mérito da qualidade da informação divulgada por tais meios.
[2] Ao que classificamos de “Febre Modernista” vai, de certa forma, ao encontro do que Michel Maffesoli chama de pós- modernidade.
[3] Lembrar que as instituições seculares vivem de tradições que são, na prática, leis não escritas, os ditos usos e costumes, desde que estes não contrariem as normativas.
[4] Publicado em 2019, no site “O Fiel Católico” (https://www.ofielcatolico.com.br),
[5] Idem 4
[6] Alguns articulistas já se refere ao papado de Francisco como sendo um Pontificado da Ruptura.
[7] Visa estabelecer restrições para a celebração do rito latino na forma tradicional
[8] Foi Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, da Igreja Católica no período de 1981 a 2005, quando foi eleito papa no conclave de 2005, e assumiu o nome de Bento XVI. Ao longo da sua vida religiosa foi terminantemente contra a teologia da libertação, e a temas
[9] Disponível em https://www.vatican.va/gpII/documents/homily-pro-eligendo-pontifice 20050418_po.html, acessado em 23 de Janeiro de 2024.
[10] Foi Arcebispo da cidade de Campos, no Estado do Rio de Janeiro, no período de 1949 a 1981. fez este pronunciamento na “Carta Pastoral “Aggiornamento” e Tradição”, de 11 de Abril de 1971.
[11] Disponível em https://www.fsspx.com.br/carta-pastoral-aggiornamento-e-tradicao/, acessado em 24 de Janeiro de 2024.
[12] Foram excomungados, por intermédio da Carta Ecclesia Dei, em forma de Motu Próprio, expedida pelo Papa João Paulo II, em Julho de 1988. Posicionaram-se contra as resoluções do Concilio Vaticano II, convencidos de que o Concílio e as reformas que dele seriam produzidas conduziriam os fiéis ao erro. Dom Lefebvre acredita que as consequências produzidas poderiam ser vistas como a “protestantização da Igreja”.
[13] Segundo Adílson Schultz no seu artigo “A Socialidade Pós-Moderna em Gestação: Segundo O Pensador Michel Maffesoli”, “Está em curso, portanto, um novo modo de viver as relações sociais. Saem de cena as relações contratuais, baseadas em identidades claras, e surge uma realidade confusa, baseada em atracção e participação, imitação e contágio afectivo…”
[14] Carlos Roberto Sousa das Silva Bastos, membro da Loja Maçónica Renascimento e Justiça N° 179, da cidade Manhuaçu-MG ; defende tal ideia no seu estudo sobre Maçonaria, Racionalismo e Ideologias. O Racionalismo Ético Maçónico e a sua Oposição às Funções de Deformação e Dominação das Ideologias, realizado no ano de 2022. Cita o autor, ainda, na sua pesquisa: “A contaminação da razão pela ideologia, ou pelas ideologias, é perigoso no mundo profano e trágico para a Ordem. Compreender as funções das ferramentas ideológicas deformadoras com objectivo de dominação humana é fundamental para impedir o colapso de dentro para fora dos pilares que sustentam as organizações sociais e políticas, como também, para evitar a contaminação nas nossas Lojas por ideologias pouco justas e perfeitas”.
[15] Dramaturgo da Grécia Antiga, que viveu entre os anos de 524aC a 569 a.C. É reconhecido, por muitos, como pai da tragédia grega.
[16] Disponível em https://www.valongueiro.com/disciplina/, acessado em 20/02/2024.
Referências e bibliografia
- URGENTE: Pronunciamento de Dom Huonder sobre a Crise na Igreja”. Disponível em: (https://www.youtube.com/watch? v=V4OW9em 9-Y, acessado em 22/01/2024)
- No meio da tempestade, Arcebispo pede ao Papa que cancele Sínodo dos bispos e promova outro, para a reflexão dos próprios bispos. https://www.ofielcatolico.com.br/2008/09/no-meio-da-tempestade-arcebispo-pede-ao.html
- O que diz o Motu Proprio do Papa Francisco. In. https://www.youtube.com/watch?v=JxAlcujE7KE , acessado em 19/01/2024
- Divisão na Igreja: Um novo cisma? https://www.ofielcatolico.com.br/2019/09/divisao-na-igreja-um-novo- cisma-se.html, acessado em 26 Jan 24
- A Igreja Católica e a Outra, Dom Lourenço Fleichman OSB, in https://permanencia.org.br/drupal/node/3300
- Bastos, Carlos Roberto Sousa das Silva. Maçonaria, Racionalismo e Ideologias O Racionalismo Ético Maçónico e a sua Oposição às Funções de Deformação e Dominação das Ideologias, 2022.
- Lima, José Amâncio de. “Disciplina”. membro da ARLS Estrela de Davi II N° 242, do oriente de Belo Horizonte-MG, filiada a GLMMG.
- Ritual do Aprendiz Maçom. GLOMEAL. 2016
- Mérida, Vinicius Gouzzi. O pensamento de Dom Antônio de Castro Mayer diante das questões políticas, económicas e sociais do século XX. Disponível em
- https://www.snh2017.anpuh.org/resources/anais/54/1502772859 ARQUIVO OpensamentodeDomAntoniodeCastroMayer(1).pdf; acesso em 24/02/2024
